O que faz um prefeito

Hoje na Folha matéria sobre convite do Prefeito Gilberto Kassab a seu sucessor Fernando Haddad para irem juntos a Paris defenderem a candidatura de São Paulo a sediar a World Expo 2020. Dilma deverá acompanhá-los.

Reinaldo Azevedo – articulista de que sempre gosto, e de longe a opinião mais lúcida que conheço – parece não ter gostado da ideia, e, a julgar pela ressaca geral que perdura por conta das eleições, tudo leva a crer que esse será o tema de reclamações do dia.

Bem, viver no mundo da realidade, e não dos nossos desejos, me parece um conselho a ser acatado de vez em quando, para o nosso bem. Não vou me transformar numa velhinha lacerdista aqui, bradando sobre o que não pode existir. Lidamos com o que temos e vamos em frente, assim é a vida pra todo mundo.

Começa que “ir a Paris” pode ser sinônimo de favelização e vexame lá pras bandas de Sérgio Cabral. Hoje, qualquer funcionária doméstica vai a Paris três vezes por ano. Além disso, você nunca viu Kassab (nem Haddad, sejamos justos) dançando em mangas de camisa, nem no L’Espadon nem no Habib’s nem em lugar nenhum.

Terceiro que vão cuidar de um tema sério, que vem sendo trabalhado para acontecer em 2020, quando teoricamente nenhum dos dois estará na Prefeitura para auferir os louros.

Sinceramente, qual é o problema?

Enche um pouco o mimimi geral sobre a tal “virada” de Kassab. “Apoiou Serra e agora se grudou no PT.” Primeiro, isso já estava previsto e devidamente avisado. Kassab só perdurou em sua posição anterior e adiou seus planos porque José Serra resolveu se candidatar à Prefeitura. Foi fidelidade. Agora ele faz o que bem entender.

Os votos que demos a ele? Ora, Kassab não ficou devendo rigorosamente nada a nós. Fez boa gestão, entregará os cofres cheios, as finanças em ordem. O que mais se quer? Uma espécie de fidelidade? A quem? Petistas (e peessedebistas) enfiaram na cabeça do povo que o demônio era melhor que ele. Tá boa, nega?

Em algum momento de sua segunda gestão tornou-se vítima de um discurso bate-pau que não foi gestado entre o povo, e sim na oposição. De um momento para o outro, absolutamente tudo o que Kassab fazia passou a ser errado. O quê, exatamente? Não sei. Nem eu sei, nem você. Foi só discurso que colou.

E, acho eu, foi exatamente isso que o levou a não inaugurar praticamente nada das obras prontas, deixando a tarefa para Haddad. Para que iria se mover pra lá e pra cá nesse calor, inaugurando um monte de coisas com aquele corpanzil, se isso não iria lhe render absolutamente nada? Fez foi bem.

Continuo achando que a gestão Haddad será horrenda. Haddad é um poste que fez um péssimo ministério, e a transição Kassab pode amenizar essa desgraça. Outra: não existe isso do político moço e animado que poderá fazer em liberdade tudo o que achar melhor para a cidade. Haddad pertence ao PT, com tudo o que isso possa significar. Também acho graça de a maioria do povo paulistano ter comprado a perfumaria de que, “agora sim, o governo federal vai injetar dinheiro na cidade”… pois se Lula passou décadas almejando o maior PIB do país? Oi?

Kassab não tem satisfação moral alguma a dar a ninguém. E we, the people, não temos nada a lhe cobrar. Nos comportamos muito mal com ele.

Temos mais é que ajoelhar e agradecer, porque Kassab poderia ser um Cabral – um homem da fuzarca que se vale do tchúqui-tchúqui federal.

Não é.

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Dom Pedro I: é nóis

Domingo de segundo turno em São Paulo, e eu já saí da fase tromba. É a função libertadora/catártica de apertar o botãozinho do foda-se.

Não, não vou fechar este blog, não. Desde sua humilde inauguração, me dei a tarefa de uma postagem por dia – índice alto para a média de blogs amadores -, mas não ando conseguindo conciliar. Afinal, tenho outras coisas a fazer, outros projetos. Posto de vez em quando, quando a ocaião exigir – muito.

Tentei, desde o começo, fazer ver uma realidade da cidade que, moléstia à parte, não aparece muito na grande imprensa.  Isso esteve muito relacionado a dois fatores: 1) um tipo de gestão que me agrada: a técnica, aquela da qual ninguém entende e não faz muito esforço pra entender; 2) o caráter do povo paulista e, especificamente, o paulistano.

Estou, aos trancos e barrancos, tentando ler A carne e o sangue, de Mary del Priore, sobre dom Pedro I, Leopoldina e Domitila. Coincidência ou não, vai um trecho de quando dom Pedro se aproximava de São Paulo para pôr fim à revolta da bernarda. Apesar de bem recebido e das adesões ao longo do caminho, no Vale do Paraíba e tals, receava um atentado em  São Paulo, por conta dos revoltosos de Francisco Inácio. Apeou na Penha e mandou dois assessores na frente para ver como estavam as coisas na capital da província. Um deles era Francisco de Castro Canto e Melo. O outro, Francisco Gomes da Silva, o Chalaça, que testemunhou:

O entusiasmo dos habitantes foi extraordinário; não se podia esperar tanto. Eu consegui informá-lo a tempo de tudo quanto ocorria e pintar à Sua Majestade o estado de espírito público. Em verdade, a provícia o idolatrava porque via nele um príncipe ativo, endurecido nos trabalhos, incansável, generoso, amante da liberdade brasileira e quase filho do Brasil. […] A população de São Paulo, sem querer deprimir nenhuma outra do Império do Brasil, é vivíssima, penetrante e entusiasta; não podia deixar de olhar o Sr. D. Pedro como a mais firme âncora de segurança para a nau do Estado; porém no meio de afetos de amor e admiração transluzia com toda a clareza o sentimento de independência [do país]. (p. 77)

Veja você. Isso foi há quase duzentos anos. De lá pra cá tivemos na cidade governantes das mais variadas correntes políticas. A maioria deles acabou contribuindo, de uma forma ou de outra, bem ou mal, para o que temos hoje.

Não poderia fazer um levantamento de pronto. O que tenho de cabeça são alguns fatos das últimas gestões PSDB-Kassab:

São Paulo é a capital menos violenta do país.

São Paulo é a cidade para onde vêm todos os brasileiros (e até estrangeiros) que precisam tratar de problemas complexos de saúde.

São Paulo (cidade e estado) ganham com folga no ranking das melhores estradas do país.

São Paulo continua recebendo todo mundo. Hoje, se não é para morar, é para ganhar dinheiro.

São Paulo continua enviando a maior porcentagem de impostos para o governo federal, e é um dos que menos recebe de volta.

Costumo dizer que de dez em dez anos os paulistanos sofrem um espasmo e acabam elegendo uma tranqueira que não tem nada que ver com o que se entende por paulistanidade. Depois veem a jaca que fizeram e voltam ganindo para os mesmos de sempre.

Foi assim com William Salem, Jânio Quadros, Luiza Erundina, Celso Pitta, Marta Suplicy – e hoje veremos se a frequência esquizoide se mantém. São entes que, se não metem a mão no dinheiro, tentam mudar tudo conforme suas “novidades” retumbantes, na base do tão russomaniano “agora vai, agora todos serão felizes aqui” – como se não fôssemos. No meio disso tudo, demandas de um povo misto, que se divide entre o alto grau de exigência e a “mão errada” dos sem-noção, aquilo de exigir o descabido.

Como se cada indivíduo que escolheu esta cidade pra viver necessitasse urgentemente de um tapete vermelho – a cidade rycka – pra solver suas vidas. Isso EXISTE. O exemplo mais recente foi a promessa haddadiana de exigir para os hospitais sob as OSs a mesma qualidade de um Einstein, de um Sírio. Isso mesmo que você entendeu: não basta bom atendimento médico. Tem de ter as mordomias dos melhores hospitais do país. Essa cretinice colou. Coloquem esse item para as próximas eleições: o luxo como direito a ser fornecido pelo Estado.

São Paulo é o que é. Tamanha, que simplesmente não dá tempo de alguém detoná-la por completo.

Quatro anos é muito pouco. Sejamos pacientes.

Quanto a mim, estou plantada aqui, levando a vida. Bocejarei muito nos próximos tempos, e só me moverei de verdade se tentarem tirar de nós os restos mortais de dom Pedro.

Sugiro o mesmo a você.

Falando em simplismo…

Editorial da Folha de hoje aborda o fato de os dois candidatos à Prefeitura de São Paulo terem abandonado a batatada do kit gay e se debruçado sobre a saúde. Ok, concordo.

E lamenta que o debate sobre saúde tenha descambado para o maniqueísmo ideológico. Também concordo.

Daí pega pesquisas do Datafolha, como se opinião do povo (desculpe) fosse lá grande coisa. É estatístico que povo, penda para um lado ou para outro, utiliza critérios de povo para avaliar as coisas. Vai saber o que se passa na alma de cada entrevistado?

Tem gente que simplesmente acha de bom tom destacar defeitos em qq coisa. Ao criticar – mesmo algo que vai relativamente bem -, aquele ente se sente importante, passa uma ideia de exigente, de que tem gosto fino, paradigmas, e tals.

Isso sem contar com críticas – no caso ainda da saúde – de quem não usa o serviço público. Em São Paulo, 8 milhões dependem da saúde pública, o que significa que, grosso modo, alguns outros milhões usam planos de saúde. Esses também circulam em ruas onde Datafolha e Ibope pesquisam, vai daí você aborda um indivíduo, e acho muito difícil que ele corte a conversa com um “não uso a saúde pública, não posso responder”.

Ele diz que usa, nem que more em Diadema, pelo único e singelo fato de que lhe apraz responder pesquisa. Vai daí e despeja toda sua insatisfação “de ouvir falar”. Pesquisa Ibope recente aponta que 70% dos usuários de plano de saúde estão insatisfeitos, fato que abordamos aqui, de uma forma ou de outra.

São vários os motivos: falta de médicos para regiões mais distantes (e falta de médicos até nos centros de capitais); safadeza de planos de saúde que não se equipam para procedimentos mais complexos; safadeza de prefeituras outras, e até de ouros estados, que mandam seus pacientes mais complicados para os equipamentos das capitais (notadamente São Paulo).

As soluções das gestões de SP para lidar com o enorme número de pessoas que se tratam aqui (os porteiros aqui do prédio, por exemplo, alguns moram em outras cidades, mas suas consultas são aqui) vêm sendo feitas com planejamento e com o dinheiro que se tem.

As OSs, tão atacadas nessa campanha, é uma solução interessante: você paga a eficiência privada e economiza, evitando lidar com o mostro da máquina pública e todas as suas más características: enfermeiras arrastado chinelo, setores feudalizados em hospitais, altos encargos trabalhistas e a eterna herança de funcionários caros, muitas vezes preguiçosos e capacitados via mero concurso.

Outra coisa com que quase não me conformo (Serra nem tenta explicar, mas entendo seu lado) é a metralha petista à tentativa de tirar um bom partido da distorção de planos de saúde utilizarem o SUS de graça: hospitais públicos teriam uma ala (e não “roubariam leitos”) só para esse tipo de pacientes, devidamente ressarcidos pela saúde privada, corrigindo a distorção.

A grita petista foi tanta que tudo, então, permanece como está: planos de saúde continuam tirando grandes casquinhas do dinheiro público numa boa.

Alguém vai me dizer que um cidadão comum, entrevistado ao léu, sabe de tudo isso?

Por isso pesquisas Datafolha e Ibope não têm superioridade moral pra avaliar coisíssima nenhuma. A régua do povo não é parâmetro pra absolutamente nada. (Só que não)

Inveja do debate alheio

Cê vê, né? Esta semana houve um debate na CNN entre os presidenciáveis americanos Barack Obama e Mitt Romney, mas quem ganhou a parada foi a imprensa.

Debates geralmente são um tiroteio de mentiras. Mentiras, meias-mentiras, um modo de se expressar, de torcer números, de interpretar um episódio a seu bel-prazer e eis: um arremedo de elaborações feitas para o eleitor médio, ignorante, sem memória, que sabe mais ou menos de tudo, mas sempre de ouvir falar, sempre superficialmente.

No debate americano esse paradigma se quebrou: a mediadora Candy Crowley, jornalista da CNN, inaugurou o real papel de um jornalista nesses casos: bater o martelinho da ordem, restabelecer a verdade. (Sim, porque a verdade tem seus direitos. Ou não?)

A certa altura, Romney acusou Obama de só ter se pronunciado corretamente catorze dias após a morte de quatro americanos em um atentado ao consulado os EUA em Benghazi, na Líbia.

Obama se defendeu, dizendo que qualificou o ato como terrorismo logo no dia seguinte, dia 12 de setembro deste ano, desafiando Romney a rever arquivos.

E aí entra a inovação: a mediadora Candy Crowley interveio e confirmou a versão de Obama: Sim, de fato o presidente se pronunciou logo após o atentado.

Pra quê? Crowley sofreu uma chuva de críticas. Foi acusada de ajudar Obama, tal e coisa e coisa e tals. “Candy não tinha nada que fazer isso”, disseram partidários de Romney.

Bem, se a jornalista “não tinha nada que fazer isso”, o que será que resta a um jornalista mediador de debates? Transpondo para nossa imitação macaquística: qual é o papel de um Bóris Casoy, um José Roberto Burnier, uma Maria Lydia e tantos outros pelo Brasil adentro?

Sinceramente, no formato em que está, até meu sobrinho poderia mediar um debate. Tudo o que dizem está num script prévio, imóvel, previsível, meramente vomitando regras, um papel escrito, coisa que qualquer um pode ler. Nem mesmo os pedidos de resposta podem ser avaliados pelo mediador.

Então? Xuxa, Latino, a Beyoncé do Pará, Nicole Bahls, Adauto e a mulher-bunda, qualquer um pode mediar um debate no Brasil. O que se faz normalmente não é uma mediação, mas mera apresentação, desperdiçando o enorme potencial jornalístico de partir da verdade e desmentir uma… mentira.

Até mesmo a saudosa Hebe Camargo tinha mais poder de improvisação do que Bóris Casoy teve na última quinta-feira, no debate da Band entre Serra e Haddad.

Por exemplo: ficaram os dois trocando versões tímidas – superficiais – sobre o problema das creches federais em SP. Um diz que fez, outro diz que não fez. Então, por questão matemática, um dois dois está mentindo.

Bóris Casoy certamente sabe direitinho o que aconteceu com a questão das creches. Casualmente, eu, você e mais uma pequena parcela da população também sabe. O PSDB tem a correspondência pedindo grana para as creches. Haddad não teve respostas documentais a apresentar, mas afirmou que a Prefeitura de SP não pediu nada. Andou-se ainda dizendo que a grana federal imporia umas creches muito jererecas, que a Prefeitura de SP não aceitou. Então, jogue-se a verdade para o alto e fique-se com o blá-blá-blá, e ganha quem gritar mais.

A pergunta é essa:

Por que raios de “ética confortável” Bóris Casoy não explicou o que realmente aconteceu? O que impede um jornalista, do alto de sua independência, do alto de seu compromisso com os fatos, do alto de seu acesso profissional à verdade, de restabelecê-la ali, na hora?

Não se trata de “ajudar” o candidato X ou Y. Trata-se apenas e tão somente de baixar a verdade no palco e, a partir daí – aí sim – dar início ao debate.

Eu não gosto do formato atual dos debates. Me ressinto de um pouco mais de profundidade. “Ah, precisa se dirigir às pessoas que estão menos informadas”. Mas, ora, que se danem as pessoas menos informadas, até porque pessoas desinformadas o são por absoluto arbítrio, e não será esse formato que vai ajuda a informar coisíssima alguma.

A entidade jornalística é a principal responsável por esse sambarilove político. Espero que a atitude de Candy Crowley seja pensada e repensada e que possa inaugurar uma nova fase no debate eleitoral – nos EUA e aqui.

  • Foto: Candy é especialista no tema e cobre eleições presidenciais há vinte anos na CNN. Alguma objeção?

O rancor antipaulista como método

Estou com um tempinho antes de sair e quero compartilhar texto de hoje de Reinado Azevedo sobre a imprensa paulistana e seu rancor com a própria cidade. Volta e meia há flagrantes, e volta e meia surgem paralelismos que ensejam a comparação por excelência: a cobertura do que acontece no RJ. Desta vez com um elemento novo: jornalistas e especialistas “cariocas” deram de pitaquear sobre SP, como se tudo por lá estivesse resolvido. Mesmo que estivesse (o que não é o caso meeeesmo), é bastante estupidez achar que tudo se resolve só com vontade política. Vamos lá:

Violência em SP: os tons de vermelho e o rancor antipaulista até da imprensa paulistana!

Se o Rio é poesia pura, com os bandidos soltos, São Paulo, com um número muitas vezes maior de bandidos presos, é objeto da pior prosa jornalística — da carioca, da paulistana, de todo lugar. Vamos ver, no fim do ano, qual é a taxa de homicídio dos dois estados. Vamos ver o que a má prosa e a má poesia conseguiram esconder dos leitores, dos telespectadores, dos internautas…

Há uma leitura verdadeiramente criminosa de certas áreas da imprensa sobre a violência em São Paulo. Setores engajados do jornalismo (ou petistas ou simplesmente antipaulistas) deram agora para, ATENÇÃO!, censurar tanto os bandidos como a polícia em razão de uma suposta guerra que teria sido deflagrada.

Ainda que ela fosse verdadeira — há muito de mistificação nessa história —, parece que o óbvio recomendaria que, nesse caso, o jornalismo tivesse lado, não é? Se bem que tem: contra a polícia. Logo, objetivamente, há gente escolhendo o lado dos bandidos sem medo de ser feliz.

São Paulo hospeda 40% dos presos do país, embora tenha apenas 22% da população. Não é que concentre mais bandidos, não. É que a Polícia daqui prende muito mais, o que deixa nervosos alguns teóricos do bom-banditismo, que enxergam nos meliantes uma espécie de revolta primitiva contra o… capital, entendem?

Policiais de folga têm sido assassinados em maior número. Ninguém ignora que existe no Estado — como existe no Brasil — o crime organizado. Mas a polícia o enfrenta, o que não se faz, obviamente, sem sofrimento também. Sim, prender bandidos é mais caro e mais difícil do que espantá-los. E rende má prosa contrária, em vez de má poesia favorável. As vidas que a polícia paulista salva — o Estado está em penúltimo no ranking de homicídios, e sua capital, em último — não geram notícia. É evidente que o recrudescimento no combate ao crime gera a reação de criminosos. Há, sim, um outro caminho: não prender. Mas isso São Paulo não fará nem em troca da… má poesia.

Delinquências opostas e combinadas
Até outro dia, vigaristas dos cinquenta tons de vermelho, associados à imprensa antipaulista, sustentavam que os baixos índices de homicídio em São Paulo (na comparação com outros estados) decorria de um suposto acordo da polícia com o PCC. Ou, então, afirmava-se, era a bandidagem que impunha a ordem.

Agora, a acusação mudou: estaria em curso uma guerra — em que “todos perdem”, como afirmou um meliante intelectual e moral — entre policiais e bandidos. Ainda que ela existisse, só uma escolha seria decente, não é? Leiam, no entanto, o que se tem produzido por aí. Muita gente escolheu o lado dos bandidos.

São Paulo não tem áreas a serem ocupadas com tanques para esparramar bandidos. Não pode oferecer esse mote para estimular a imaginação poética.  Quando um moleque empina pipa na periferia de São Paulo, só se vê o casario ao fundo, de tijolos vermelhos e cinza, sem o mar por testemunha, sem o barquinho que vai e a tardinha que cai…

Não tendo o que aprender com Sérgio Cabral em matéria de segurança pública, restaria a Geraldo Alckmin receber algumas dicas de marketing (mas sem a Dança dos Sete Lenços). Afinal, a gente está vendo que, em matéria de segurança pública, o matar muito faz os gênios, e o matar pouco, as Genis…

Praça Roosevelt, o mais recente alvo da cidade

Entonces…., enquanto eu chacoalhava nas esburacadas estradas do árido Norte Fluminense, o prefeito Kassab inaugurava finalmente a nova Praça Roosevelt.

Bem, como São Paulo não é Pirapora das Almas, o projeto foi feito todo dentro das mais modernas práticas de sustentabilidade, proatividade, modernidade, qualidade dos materiais, senso de realidade, acessibilidade, lisura financeira e, principalmente, discussão com moradores do entorno e com o pessoal do teatro (Satyros & cia., a alma do lugar).  A praça em si está englobada na primeira fase, e a segunda fase, com todo o processo de licitação, etc. do estacionamento subterrâneo e do túnel, está em andamento.

Pois bem, a praça foi inaugurada no sábado, dia 29 de setembro, em plena véspera de eleições. Povo da gritaria não perdeu tempo em vociferar. São sempre duas categorias de críticos: 1) aquela que tem interesse político. 2) aquela que critica por criticar, para se dar ares de especialista e pela débil incapacidade de apoiar – dar a cara a tapa – alguma coisa na vida.

A “crítica” mais frequente foi a de que R$ 55 milhões (orçamento da reforma) é dinheiro superfaturado, ponto; que isso daria pra construir não sei quantos não sei o quê.

Esquece-se o contador de obra feita que obra boa custa caro, e que a cidade não é feita só de construção de postos de saúde. Pessoas comuns acham normal botar asfalto em cima de terra e resolver pinga-pinga de torneira com um pedaço de pano, e naturalmente tendem a pensar: “uma pracinha de nada, essa grana toda?”

Acontece que a Roosevelt não é um espaço comum. Ela é uma praça ELEVADA, ou seja, há coisas funcionando embaixo. Há mais de um túnel; há um estacionamento, uma garagem de dois pavimentos sob ela.

Então, como a Prefeitura dispõe de engenheiros gabaritados, e não de construtores de puxadinho, houve a necessidade de fazer não só uma recuperação estrutural, mas uma manta asfáltica dupla para impermeabilizar todos os seus 20 mil metros quadrados. Igualmente, foi necessário um estudo para que a vegetação não acabe pesando demais ou rompa o concreto (não hoje, mas daqui a 20 anos). Isso e inúmeros outros aspectos estruturais são O MAIS IMPORTANTE de qualquer obra. O resto é a “perfumaria” que aparece diante dos olhos do rebotalho.

Pois bem, reclamações de absolutamente tudo: o espaço do cachorródromo “pequeno” (não é). Que o serviço está “porco” (não está). Que “não tem luz” (tem, 130 luminárias de led). Que o posto da polícia não está pronto (estará). Que ao longo dos dois anos de reforma não se viu um operário (!@#!, eu vi todos os dias que passei por lá). Que a praça ficou muito concretada (queria o quê? Lama para os cadeirantes e passantes?). Que o parquinho das crianças é pequeno (?). Que a segurança iria sumir depois da inauguração (? – neguinho não frequenta parque…). Por último, mas não mais importante, a praça “enxotou mendigos, que também deveriam ter áreas de lazer”……….?………..?………..?…….. … .. .

Enfim. Não que não se deva reclamar quando algo está errado (faltaram bebedouros e banheiros, p. ex.) mas o nível de desentendimento do morador médio é de lascar. Demonstra a mais pura falta de conhecimento de como se dá uma obra, e deixa entrever um deslavado individualismo de um povo que simplesmente não pensa no lá fora, no coletivo. “Quero um cachorródromo imenso porque tenho cachorro”, sabe como é?

Como tudo o que é feito na cidade acarreta sempre um problema impossível de prever, a praça foi invadida por skatistas, manifestantes não sei de que e até pichada. Moradores (os mesmos que projetaram com a Prefeitura) sugeriram alguns ajustes que acho bem razoáveis, mas que deveriam ser previstos pelos mesmos moradores e pela Prefeitura antes. Em todo caso, não são nada do outro mundo e parecem eficazes, vejamos:

1) Prioridade à segurança, com instalação de câmeras e mais iluminação em determinados pontos, como o playground.

2) Definição de espaços e horários para a prática de skate e patins (senão já viu…).

3) Instalação de ciclovia em torno da praça.

4) Cercar e colocar um portão no cachorródromo.

5) Sinalização na área de playground, com faixa etária de quem pode usar os brinquedos (aliás, precisa disso em TODAS as praças com parquinhos, é incrível como adultos não têm noção e utilizam balanços na maior cara – e bunda – dura.

Enfim, tirando as minhocas, acho que a Praça Roosevelt agradou. Espero que esses descontroles tenham feito parte da euforia do começo, e que tudo se estabilize.

No mais, peço que Kassab, antes de deixar a Prefeitura, construa uma megarrampa de skate lá na divisa de São Paulo com o Taboão. Porque barulho de skate enche os pacovás mesmo…

Opa, também acho!

Do Estadão:

Vereadores cobraram nessa terça-feira, 9, de José Serra (PSDB) a defesa das realizações do prefeito Gilberto Kassab (PSD) como condição para entrarem “de cabeça” na campanha do candidato no 2.º turno das eleições municipais. A cobrança, uma orientação do próprio Kassab, foi feita pelo líder do PSD, Marco Aurélio Cunha, de Roberto Trípoli (PV), líder de governo e vereador mais votado, e do presidente da Casa, José Police Neto (PSD).

Parte dos 41 vereadores da base kassabista na Câmara Municipal defende que grandes obras do prefeito, que ajudaram a eleger os cinco parlamentares mais votados da capital, foram ignoradas por Serra no 1.° turno. […]

“Trípoli repetiu as palavras de Cunha e falou que Kassab é um “injustiçado” na briga entre PT e PSDB.

“É um prefeito que acorda às 5 horas e vai dormir às 3 horas da madrugada. E que ainda não teve o reconhecimento merecido. É inconcebível ver uma gestão sem nenhum escândalo de corrupção ser atacada sem defesa”, criticou o líder de governo. (segue)

Os vereadores têm razão. Primeiramente, o “desgaste” da gestão Kassab é como a “privataria tucana” usada em 2006. É discurso repetido à exaustão pelo PT até colar na população troncha, mas não tem fundo de verdade. A própria matéria menciona feitos do Kassab, e enumeramos mais alguns (sem ordem de importância), com os os vereadores que os projetaram:

1) O hospital gratuito para cães e gatos (Roberto Trípoli, vereador eleito com maior número de votos).

2) Lei Cidade Limpa (Andrea Matarazzo, vereador segundo colocado)

3) Parques na orla da Represa Guarapiranga (Antonio Goulart, terceiro colocado).

4) Reurbanização de favelas na zona sul (Milton Leite, quarto lugar).

5) Operação Delegada (Coronel Telhada, quinto colocado).

6) 114 AMAs (Assistência Médica Ambulatorial).

7) Manutenção/investimento no Autódromo de Interlagos, para um evento que vem trazendo divisas para a cidade há décadas.

8) Fórmula Indy e inúmeros outros eventos esportivos.

9) Tratativas em andamento para trazer a Expo 2020 para São Paulo (e um sem-número de negociações relacionadas à vocação da cidade: o turismo de negócios). Tratativas em andamento para o Centro de Convenções de Pirituba.

10) Manutenção e ampliação de grandes eventos, como a Parada Gay, a Virada Cultural e a Virada Esportiva.

11) A tão esperada reforma da Praça Roosevelt, além da criação de muitas outras praças e parques/áreas verdes, muitas em parceria com o governo estadual, ampliação de ciclovias, aluguel de bicicletas, etc.

12) Gestão financeira impecável (sem roubo, sem escândalos de corrupção e sem raspar o caixa mensalmente, prática defendida por Haddad).

13) Parceria com governo do estado para grandes obras, como ampliação da Marginal e extensão/melhoria de metrô e trens.

14) E o horror do paulistano catimbento: trânsito, com multas por excesso de velocidade e condições técnicas e físicas para uma inspeção veicular ambiental eficiente (inaugurou recentemente o maior centro de inspeção veicular do mundo, no Tatuapé, totalizando 27 centros em 16 endereços).

Isso e muito mais. Tirei da memória, porque a coisa mais difícil do mundo é achar alguma lista de menções boas a Kassab. O discurso bate-estaca de que Kassab é ruim acabou contaminando a população que pensa através dos “outros”, que berram demais nas redes, seja por ingenuidade, interesse político ou profisional.

O PSDB não pode cometer o mesmo erro de 2006, nas eleições presidenciais, quando se amuou com esse tipo de discurso destrutivo e deixou de mostrar seus feitos. Tem de mostrar que tipo de pensamento é o correto para governar, levantar a cabeça e seguir em frente.