Luxo!

Conforme o Flanela anunciou em setembro de 2009 (e esperou, porque livro não é pastel de feira), eis o primeiro volume do selo firmado entre a Companhia das Letras e a inglesa Penguin: O príncipe, de Maquiavel, com prefácio de quem? De quem?

Bem, o meu Príncipe é mais velhinho: a 15a. ed. da Bertrand Brasil, lá de 1991, com notas de Napô Bonaparte, tradução de Roberto Grassi e sublinhados a lápis do meu irmão. Amareladinho do tempo e depois encadernado (corretissimamente!) com pergaminho, o que foi um milagre, porque nunca tive muita paciência de encadernar com qualquer tipo de couro.

Portanto, é isso: quem quer obras clássicas feitas honestamente (e com qualidade), é uma bela oportunidade pra usar o argumento do preço módico (e largar de vez os livrinhos tão mal-falados  da Martin Claret).

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Canibalismo tubário

Semana cheia de travail, não compartilhei com vocês o excelente programa de debates “Em Questão”, capitaneado pela jornalista Maria Lydia, do último domingo à noite. Dessa vez, o tema foi “A descriminalização do aborto no Brasil”. Na mesa, a filósofa Marcia Tiburi, a adê Regina Beatriz Tavares da Silva e a assistente social Irotilde Gonçalves Pereira. Pra quem se interessa pelo assunto, o nível foi muito bom. Se quiser ver, não demora muito: Parte 1, Parte 2, Parte 3, Parte 4 e Parte 5.

Em tempos de Jabuleine Aparecida desaparecida, depois de passar em revista os campeonatos de futebol no mundo inteiro, é de se pensar (começar a pensar, melhor dizendo), antes de qualquer coisa, no papel instrumentalizado da mulher. Pois, se a mulher tem o poder poderosíssimo de gerar a vida, por que o faz muitas vezes como moeda de troca das mais desvalorizadas? Por que se comporta de maneira subalterna mesmo em condições de não  ter de fazê-lo? Por que mulher corre tanto, e tão humilhantente, atrás de (qualquer) homem que pretensamente lhe garanta um prato de comida? Esse deve ser um comportamento natural, aceito como normal? Quando é que a mulherada vai tomar vergonha e cuidar de si, com estudo, emprego e, consequentemente, dinheiro, pra fazer o que bem entender de sua vida, sem precisar de homem pra almoçar e jantar?

Homem é bom, mas só praquilo mesmo que você está pensando. Mas pra ficar dando mesadinha entre uma ordem e outra, entre uma ofensa e outra, entre uma bifa e outra não dá, né?

Considerei interessantes as considerações de Marcia Tiburi. Pode-se achar o que quiser, mas ela mandou ver em verdades verdadeiras. Provocou, absolutamente embasada. Tanto é que despertou instintos canibais na adê, com suas leis, com seu lap-top e com a opinião bizarra de que a mulher é obrigada a oferecer o feto em sacrifício à sociedade e ao Estado.

Se lascar, minha senhora! Sai pra lá com esse olhão em cima do  meu útero!

Já começou…

Odeio ter de usar essa expressão, mas… eu não disse, eu não avisei? Começou – e irá se estender por quatro anos, servindo a todo e qualquer interesse político – o rosário de reclamações em relação à cidade de São Paulo, tudo pelo próximo Mundial, naturalmente.

Materinha de hoje no Estadão dizendo que, oh!, “São Paulo tem o sexto trajeto mais difícil até o trabalho”.

Não diga! Não é por nada, mas São Paulo é a sexta maior cidade do mundo. Até baixou, porque chegou a ser a terceira ou quarta. Queria o quê? Que São Paulo tivesse o trânsito de Altamira?

A “pesquisa”, feita em maio pela IBM Commuter Pain,  ouviu 8.192 motoristas de 18 a 65 anos, em todo o mundo. Em São Paulo, foram ouvidos 466 motoristas: 35% disseram que o trânsito piorou nos últimos três anos, e 26% acham que piorou muito”. Ou seja,  conclui-se, pelos mesmos métodos, que 28 motoristas paulistanos acham que o trânsito piorou muito. É óbvio que não escolheriam essa manchete, não?

Mesmo assim, gostaria muito de saber em que ponto, ou pontos da cidade foi feita a pesquisa. Primeiro que há uma cultura arraigada entre os motoristas da cidade em pichar qq. coisa que o governo ou a Prefeitura façam. Se faz Metrô, é insuficiente. Se incrementa os ônibus, todo mundo vai reclamar, porque são enormes, atravancam a vida e tomam faixas exclusivas para si. Se não põe pedágio, reclamam do excesso de veículos. Se põem pedágio, ah, é muitcho caro! A criatura trabalha em Osasco e fixa residânce em Arthur Alvim, e acha superadequado reclamar do tempo que leva em seu trajeto diário. Se mata, pô!

Outro ponto da pesquisa é que todo mundo reclama do ichtréssi ao volantche. Talvez a pesquisa da IBM Commuter Pain não tenha levado em conta que boa parte dos motoristas paulistanos dirige como a própria cara: não sabe esperar, faz conversão proibida como se sua produtividade/hora valesse uma fortuna, manda ver no amarelo, não dá seta pra mudar de faixa, estaciona em qualquer lugar e bate. Bate por hábito. Bate todo santo dia. O triste nisso tudo é que esse tipo de motorista raramente morre esmagado nas ferragens. Uma lástima para uma cidade que precisa urgentemente dedetizar suas ruas. Já pensou como seria a marginal se não fosse atravancada pelos seus vários acidentes diários? Ô, que beleza….!

O dirigir em São Paulo é uma coisa tão horrorosa, tão desgastante que o povo não para de comprar carro. Tanto é que imóveis com apenas uma vaga na garagem, ninguém quer por aqui. Tanto é que feira de automóveis em fim de semana é uma instituição na cidade.

Outra coisinha: reclamação de pedágio. O cara vai morar sponte propria entre os passarinhos, mas continua trabalhando onde? Na urbe. Então ele passa todo santo dia por uma estrada, que precisa de manutenção pra continuar sendo chamada de estrada., pro cara não se estabacar num buraco. E acha ruim ter de pagar…

Ontem Reinaldo Azevedo analisou muito bem analisada uma reportagem de anteontem no Estadão, também com título apocalíptico. Coisas da campanha de Mercadante.

O paulistano só vai conseguir provar que os pedágios lhes arrancam os olhos da cara no dia em que deixarem seu carros na garagem e tomarem um fretadão. Pra ir ao trabalho ou, como fazem todo findi, pra praia. Fora disso, é papo furado e manipulação eleitoreira.

E é bonitinho!

Anfân, esse é o vice de Serra, anunciado hoje: o deputado Antonio Pedro de Siqueira Indio da Costa, 39 anos, do DEM do Rio de Janeiro, relator do vitorioso projeto Ficha Limpa, uma das poucas conquistas realmente democráticas que tivemos ao longo de um governo de minorias inventadas.

Ótimo que é do Rio, uma população das mais informadas. E ótimo que é “Índio da Costa”, porque “Silva” já saturou. E mais ótimo ainda porque é bonitinho, olha só…

O melhor nisso tudo é que, seja quem seja o vice de Serra, ele não terá definitivamente papel decorativo.

O último, o que me lembro do último? Como apareceu mais na imprensa? Bem, uma ou outra reclamação contra os juros altos e, depois, só no saguão hiperiluminado do Sirio-Libanês…

Reformulêichon

O blog está com uma cara diferente, como vocês viram. Coisas de Raquel, devidamente referendadas por mim. Mas haverá alguns ajustes.

De qualquer modo, façam suas observações e críticas. Estou afogada em laudas, mas arrumarei tempo de me dedicar à questão.

Os brios de Jabuleine Aparecida

“Polêmica”, palavra multiuso para formar discursos…

A imprensa bate na tecla do “episódio” (outra palavrinha…) ocorrido na CTPM no último sábado, em que vigilantes/passageiros entraram em conflito.

Depende de que lado se vê a questão. É fato (e isso eu canso de ver, e isso um amigo usuário diário de trens me confirmou ontem) que bandos de adolescentes (e nem tanto) sem um pingo de educação infestam metrô e trens. No Metrô, eles se contêm um pouco. No trem, por uma percepção bem anacrônica do aqui pode/aqui não pode, eles se sentem à vontade pra tratar o vagão como sua própria casa.

Falam alto, põe os pés nos bancos, se espalham em algazarra e sempre, sempre portam um sonzinho com ou sem fones de ouvido.  No caso de som particular, às vezes a musiqueta está tão alta que atrapalha os demais passageiros.

Enfim, não têm urbanidade alguma.

No caso da CTPM, não contentes em marcar bem marcada sua presença para os demais passageiros, começaram a provocar o vigilante, imitando o imaginário amparo a um cego. Os vigilantes se aproximaram e pediram para que não incomodassem os demais passageiros. O grupo não só não atendeu ao pedido, como começou a provocar o vigilante.

Depois de armada a confusão, a velha tática de sempre: filmar tudo, destacando bem a vitimização de quem foi tirado à força do vagão.

É claro que é desejável que funcionários mantenham a boa linha. Só não sei até que ponto eles devem aguentar qualquer comportamento e qualquer provocação vinda de passageiros – que, parece, estão cada vez mais protegidos por um dogma de intocabilidade.

Recorrendo ao popular, maloqueiro tem mais é que ser enquadrado. E aprender a ter bons modos. Qualquer passageiro normal concorda com isso. Segundo a reportagem do G1, um passageiro que não tinha nada que ver com a goiabada disse: “Ninguém está tirando ninguém até agora, vocês vão ter que provar”.

Pelo que se pode concluir, a coisa começou a bom termo. O grupelho, então, ficou ofendidinho em seus brios toscos, recebeu a reprimenda como a recebem os ignorantes, armou a confusão e criou uma situação para emitir um discurso de opressão. Resultado: quatro vigilantes foram afastados das funções.

Funcionários que lidam com o público devem ter urbanidade, sim, mas também devem contar com mecanismos que os protejam da turba ignara.  Se uma criatura não sabe se comportar em um transporte público, que se recolha a seu buraco.

Pronto, falei.

É mesmo?

Artigo-lobby hoje na Folha. Orlando Silva, o Ministro das Multidões, forçando a barras e se desdobrando em elogios pra ver se consegue ganhar a opinião pública paulista e se livrar, ao mesmo tempo, de um abacaxi.

Em outra cidade do país (com honrosas e relativamente urbanas exceções), ele teria de inventar a roda. Conseguindo que a sede do próximo mundial seja aqui, ele usa digrátis toda a estrutura da capital, pronta e embalada pra presente, e o governo petista ao qual pertence pode usar e abusar de todos os pontos da cidade que o PT tanto gosta de avacalhar. Um trecho:

Mais que estádios, o evento estimula os países a preparar suas cidades para receber os visitantes durante a competição.
São muitos os desafios brasileiros. Pensando em São Paulo, é preciso melhorar os aeroportos. A mobilidade urbana também pode ser aprimorada. (íntegra)

Entendeu, Bartolomeu? Construir estádio é fácil. Difícil mesmo é botar metrô, infraestrutura em qualquer nível e serviços de qualidade elevada. Como é, por exemplo, que você transforma uma cidade péssima em serviços – falo de estrutura física, padrões aceitáveis e, principalmente, de material humano – em quatro anos?

Isso tem de ser pensado. A gente repara quando viaja pra algumas cidades.   O atendimento por vezes é abaixo do ruim, isso quando não cismam porque você não é de lá. Chegam a ser ríspidos mesmo. Ainda há alguns lugares em que, se você quiser pagar aquele PF horroroso com cartão, capaz de chamarem o delegado.

Daí treina. Tá bom, mas existe um patamar acima do treinamento, que é a urbanidade natural das pessoas mesmo. É o saber lidar além do “por favor” e do “obrigado”.  Tratar bem as pessoas,  se adiantar em suas necessidades, ser atencioso, amigável e simpático.

O Ministro sabe disso tudo, e sabe que São Paulo é a única cidade brasileira no ponto ótimo de recepção de turistas.  Por isso,  quer nos fazer crer malandramente que a sede da Copa é interessante para nós, encobrindo, com isso, uma necessidade desesperada do governo federal.

“É preciso melhorar os aeroportos? O governo Serra cansou de implorar, notadamente depois daquele acidente horroroso, mas o governo federal nem tchuns! Falou e andou sobre os corpos de duzentas vítimas, fez uma reforma meia-boquíssima e só vem falar vagamente de Viracopos agora, com motivação futebol-eleitoreira.

Quanto à “mobilidade urbana”, o Ministro pode ficar sossegado na contionuidade dos “aprimoramentos”. Talvez ele não saiba, mas nos últimos anos o Metrô de Sao Paulo se expandiu como em nenhum outro momento, com recursos praticamente estaduais e da Prefeitura. Recursos federais, quase nenhum. No tempo de Marta, o metrô não avançou, porque ela simplesmente não quis dividir os créditos das obras com o governo estadual, por ser do PSDB.

Os trens também, estão cada vez mais caprichados, e completamente ligados à malha metroviária. Outro dia fui a Santo Amaro de trem, e aquilo parece até melhor que um metrô: ar-cond., limpeza total e musiquinha bem baixinha. E a paisagem maravilhosa da Marginal Pinheiros tendo os prédios da Berrini ao fundo.

E é exatamente por isso que minha torcida é para que a sede da Copa de 2014 seja em Cacuí das Antas. Porque a imprensa poderá, assim, derramar todo o seu pietismo ao apontar as exóticas pobrezas locais.

Se a sede da Copa for aqui, aguardemos  uma enxurrada de  críticas ao menor defeito que a cidade apresente. Será o inferno, e o PT sabe que isso lhe renderá vantagens eleitorais para a outra gestão presidencial. Sem gastar praticamente nada, como sempre.