Marcadores tumorais

Da Sonia Racy, ontem, no Estadão:

Nas cadeias femininas de São Paulo, o medo do diagnóstico é maior que a vontade de cuidar da saúde. Das 5.200 mulheres que “vivem” nas dez maiores penitenciárias do estado, apenas 1.732 aceitaram fazer um papanicolaou. Nos exames de mamografia, o temor é menor: 2.252 detentas aceitaram fazê-lo. Na viagem pelos presídios, a Secretaria da Saúde usou caminhões adaptados, cedidos pelo Hospital do Câncer de Barretos. Um deles doado por Ivete Sangalo. E com uma imagem gigante das cantoras nas laterais.

Ao ler isso, e em meio ao mutirão de mamografia que acontece em São Paulo, lembro de um monte de gente que conheço e conheci e como lidaram com diagnósticos de câncer em si mesmos ou na família. Muita, mas muita gente se vê diante de um diagnóstico e hoje, em 2008, com todos os avanços da medicina, cede ao fatalismo, deixando tudo como está e muitas vezes nem contando à família quando dores características lhe acomentem. Tenho uma amiga que perdeu a mãe assim – ela não contou de suas dores aos filhos, porque já sabia o que era e enfiou na cabeça  desde o início que não tinha mais jeito. Isso é cultural. E só. Mas tira vidas assim, à toa.

Falo aqui como leiga, que leu e viu coisas aqui e ali (mas, é óbvio, só um médico pode administrar isso): a cura do câncer ainda não existe, e quando mais a doença evolui, mais difícil se torna revertê-la. É claro que há casos em que a quimio ou a rádio resolveram, mas sei que existe uma certeza nisso tudo: quando mais cedo se faz o diagnóstico, mais chances há de cura.

Agora eu conto: minha mãe se submeteu, mês retrasado, a um exame de sangue direcionado a marcadores tumorais. Foi seu médico que pediu, numa consulta de rotina, sem suspeita alguma, apenas por prevenção. Foram pedidos rastreamentos baseados em quatro marcadores, para o caso dela (mulher, idosa, etc.). Mas há inúmeros outros, dependendo do perfil. Digo isso porque não conhecia esse exame de sangue, e o estou recomendando a todo mundo.

Pois bem: nos resultados, alguns marcadores atingiram índices limítrofes, ou um pouco acima dos limites de referência. Entre saber isso, se pendurar na net ou no telefone para marcar os exames decorrentes, o mais rápido possível, às vezes até em horários ingratos (mas os únicos disponíveis) e aguardar a data, foram dias complicados (endoscopia e similares às 5 e meia da tarde não é bolinho.) Não somos assombrados e acreditamos na medicina, mas somos humanos. Expliquei à minha mãe que os exames não eram muito confortáveis, mas necessários e urgentes, e que era melhor ela passar alguns dias de desconforto em seu bem-estar e em sua rotina do que prolongar dúvidas terríveis. Ela disse:

– Tudo bem, mas mamografia eu não faço.

– Não é mamografia, mãe, é um ultrassom. Mas se for necessária mamografia depois, você vai fazer sim, senhora. Todo mundo faz, por que você, logo você, teria alguma prerrogativa pra não fazer?

– Tá bom! Mas isso é medieval! (contrariada).

Minha mãe sempre se lembra de seu pai, que, ainda nos anos 1960, se descobriu com um câncer de garganta e não quis sequer tratar, e assim morreu (eu nem sequer o conheci). Baseada nisso, ela enfrentou, com sua habitual valentia, exames completos no aparelho digestivo, mamas, ginecológicos, tórax e pulmão (sem a mamografia…).

Uma semana e meia depois: o único caso em que havia manifestação maligna foi retirado ainda na biópsia. Quando seu médico finalmente confirmou isso comemoramos com… sorvete.

Compartilho com vocês essa experiência, em primeiro lugar, por causa desse exame, que todos devem pedir a seu médico: marcadores tumorais. Segundo, pra tentar passar essa mensagem: o câncer deve fazer parte das suspeitas e da prevenção corriqueira, nas consultas semestrais e nos exames de rotina. E nada deve ficar em suspenso: deve ser tratado o quanto antes. Sem medo, sem assombro e com espírito prático.

Hoje olho minha mãe e tenho a certeza de que seu corpinho está jóia. Apesar de ter tido um preço pra todos nós, e principalmente pra ela, a sensação é impagável. E gostaria de recomendar isso a todos, principalmente os filhos. No caso de pais teimosinhos, me arrisco a dar um conselho: toca um terror. Mas toca meeeesmo. Obriga a fazer, seja pelo método Piaget ou pelo método Pinochet. Mas faz. Sem culpa. Porque pode ter a certeza de que, na maioria dos casos, os pais rebeldes, cheios de verdades e donos de si serão os mais aliviados e agradecidos nessa história toda.

Cantadinha

Nelson Motta, hoje no Estadão:

Ironia das minorias

Como homem, branco, heterossexual, com mais de 60 anos, solteiro, e ainda por cima fumante, sinto-me como minoria das minorias e sem as proteções que a maioria das minorias hoje desfruta no Brasil.

Pena que meus afro-ascendentes não tenham me legado melanina suficiente para ter cotas na universidade e na administração pública, e talvez até reivindicar uma bolsa-quilombola. Pena que os meus ascendentes portugueses, espanhóis e austríacos não sejam tão próximos para me proporcionar um passaporte europeu. Sou um autêntico vira-lata, como o das filhas do Obama. Para piorar, não faço parte de partidos políticos, sindicatos, igrejas, seitas, clubes ou torcidas organizadas. É dura a vida de minoria.

A simples opção pela independência já pode ser malvista, como individualista, alienada, egoísta, não-solidária, neoliberal e até mesmo de direita. O ato banal de fumar um cigarro, mesmo em ambiente aberto, está virando uma falha de caráter. Alguém tão fraco, tão burro e sem força de vontade, que não consegue abandonar um veneno que o mata.

O coitado é condenado unanimemente por sedentários, hipertensos, cardíacos, coléricos, devoradores de junk food, que bebem, trabalham em condições estressantes, tomam remédios para dormir ou para acordar, mas não fumam.

Tenho um amigo que faz caminhadas e natação todos os dias, alimenta-se saudavelmente e está em excelente forma. Quando o elogiam, responde com um risinho cínico: é só para poder fumar.

Meus pais estão com 88 anos cada um. E continuam fumando e bebendo. Pouquinho, é verdade, mas todo dia, e gozam de boa saúde, graças a Deus e aos mistérios da vida. Espero que esta herança maldita — já nasci com vontade de fumar — também contribua para maior resistência do meu organismo aos danos da nicotina. Pelo menos não bebo, o que me coloca em mais uma minoria brasileira.

Uma rara alegria em minha vida minoritária tem sido a fila preferencial de idosos nos caóticos aeroportos brasileiros. Que tranqüilidade, que rapidez, que delícia, imagino como devem se sentir os políticos e as minorias que desfrutam tantos outros privilégios.

Vem cá, Nelsinho, quando é que você vem a Sumpa, hein? Conheço uns lugares maneiros pra gente sentar e conversar umas coisinhas. Todos ao ar livre, públicos, mas onde não passa ninguém pra reclamar de nossa suja presença. Me liga, me add, me tc, me manda um e-mail…

Santa Catarina

Hoje ouvi no rádio um comentário muito interessante na CBN (Sérgio Abranches X Heródoto Barbeiro). Ele disse que não há tragédia natural – o que me fez lembrar imediatamente da terminologia governamental para Santa Catarina: “tragédia ambiental”. Tragédia ambiental é a Petrobrás deixar vazar óleo no mar. Ou o despejo no Tietê. O ambiente não é trágico, ele é o que é.

Trocando em miúdos, se Pompéia sucumbiu ao Vesúvio, não foi por falta de mensagens claras. O que existe é ocupação desordenada do solo, e quando a chuva vem mais forte, talvez até por esse motivo, culpa-se o tempo. Esse é um subterfúgio muito sem-vergonha do governo (e digo governo como uma só maçaroca – pode ser Governo Federal, estadual ou o de qualquer cidade – escolha à vontade).

O problema é que nos pautamos – eu, você, São Paulo inteira, Santa Catarina ou Amapá – pela média. “Enquanto está assim, a gente vai levando”. Com essa mentalidade, a pessoa pode resolver que está bom morar tanto numa barranqueira pelada de vegetação quanto no meio de um vale ou, o preferido dos paulistanos, se aboletar em uma várzea.

***

Esses racionínios não fazem a mínima diferença diante da necessidade premente, e essa é uma das coisas que o brasileiro sabe fazer bem: se comover e se solidarizar imediatamente em casos como esse.

Tenho deliberadamente esperado pra postar algo sobre essa tragédia social (não ambiental). Recebi tantos e-mails, li tantos textos com apelos de doações, e vejo tantos CNPJs relativos às contas bancárias abertas para tanto que isso me dá certa tonteira.

É óbvio que está faltando tudo lá, é óbvio que todos divulgam com o coração abertíssimo. Mas preferi postar as contas divulgadas no site da própria CBN, e são elas:

Banco do Brasil
Agência: 3582-3
Conta corrente: 80.000-7

Besc
Agência: 068-0
Conta Corrente: 80.000-0

Caixa Econômica Federal
Agência: 1877
operação 006
conta 80.000-8

Bradesco
Agência: 0348-4
Conta Corrente: 160.000-1

O nome da pessoa jurídica é Fundo Estadual da Defesa Civil, e o CNPJ é 04.426.883/0001-57.

Reuni algumas dicas aqui e acolá dirigida aos doadores:

1) Mandar alimentos não perecíveis, mas prontos pra consumo. No caso de leite, enviar os de embalagem longa vida (tetrapack). Biscoitos são bem-vindos, mas sempre é possível imaginar outros alimentos de pronto consumo, como cereais (não só em barras), torradas, sucrilhos, sucos e achocolatados tetrapack, enlatados e água potável.

2) Roupas, lençóis, travesseiros, fronhas, toalhas, cobertores e colchões devem estar em bom estado (bom senso). Pensar especialmente nos bebês e crianças.

3) Produtos de limpeza, o que inclui panos, escovas, vassouras e esponjas.

4) Produtos de higiene pessoal, incluindo absorventes femininos, sabonete, pasta de dente, xampu, papel higiênico.

5) Nada deve estar com a validade vencida.

Enfim, os desabrigados de Santa Catarina não são as Casas André Luiz. Eles são pessoas como nós. E existe uma diferença grande entre o que eles precisam e o que nós não precisamos mais.

Postos de arrecadação em São Paulo:

Sede da Defesa Civil (24 horas): R. Afonso Pena, 130, Bom Retiro, Tel: 199.

Cruz Vermelha (24 horas): Av. Moreira Guimarães, 699, Saúde, Tels: 5056-8665/5056-8664/5056-8667.

Qualquer posto da Polícia Militar ou do Corpo de Bombeiros (24 horas).

Todas as 31 subprefeituras (horário comercial): (endereços, tels. aqui)

Fundo Social de Solidariedade (9 às 16 horas): Av. Mal. Mário Guedes, 301, Jaguaré, Tel:  (11) 3763-2700.

Caso as doações sejam em grande volume, a Coordenadoria de Ação Assistencial da Defesa Civil pode retirá-las. Ligar para 3313-5726 (ramal 204) e 9608-8641. Contato: Cecília.

Lerê, lerê…

“Não posso ir, estou no lerê.”

Esta frase ficou consagrada nacional, quiçá interplanetariamente, quando a gente está trabalhando. Quando se pega a vida pelos cabelos, então, ela é mais enfática ainda: para quem resolveu mandar tudo para os ares a fazer o que gosta, sem patrão, sem vale-lanchinho, FGTS ou auxílio-funeral, por vezes o lerê assume dimensões dramáticas.

Já passei por isso, estou nessa até hoje e não me arrependi em nenhum momento. Juro. Por mais que trabalhe além da conta, consuma muitas noites e finais de semana, tenha trocado um patrão por vários, é sempre mais vantajoso, porque você faz seu horário, acaba ganhando mais, tem condições de mandar qualquer um deles pro inferno (não todos ao mesmo, por favor! Olha as contas no final do mês!) e pode tirar uma semana de férias a cada três meses, sem ter de dar muita satisfação por aí. Ou então, se preferir, sumir por sessenta dias (basta dar uma avisadinha pros criente antes). É um problema de arejamento mental.

Tentei xavecar muitos amigos a seguir esse caminho de perdição. Mas tive o cuidado de só recomendá-lo a quem, como se diz aqui em SP, é capaz de pegar no breu.  E se sua área de conhecimento tiver lugar para uma iniciativa individual, é claro. Se a pessoa trabalhou a vida inteira como secretária, por exemplo, ou vive em outra dinâmica, ou não pode no momento, ou tem medo de viver sem uma carteira assinada ou simplesmente prefere sentir o bafo diário do chefe, aí não dá. Ainda não dá. Quem sabe um dia a criatura dá um piti e manda o emprego praquele lugar? Eu sempre aguardo, sempre tenho esperança, quando sei que a pessoa pode.

Escrevo isso porque hoje estou particularmente contente. XXX acaba de me escrever dizendo que seus pés doem de tanto trabalhar em pé, numa atividade sem visibilidade alguma no nosso mundo de advogados, jornalistas, médicos e manicures. Em menos de um ano ele largou um ótimo emprego que não lhe dizia nada, fez algumas escolhas, investiu dinheiro e talento e trabalho e hoje reclama do excesso de encomendas de algo que adora fazer, e faz bem feito.

YYYY também, está pagando um dobrado pra dar conta dos pedidos, mas se vira muito bem, como sempre se virou, especialmente quando de outra empreitada individual na área editorial.

Hoje comprei bombons para dar de presente, numa famosa rede especializada em chocolates bacanas, que começou com a vocação e o talento de um menino de 17 anos, nos anos 1980.

O legal de trabalhar por conta é que, à medida que o tempo passa – a cada encomenda, a cada abacaxi que lhe passam, a cada semana, a cada telefonema -, você renova a certeza de que é bom no que faz. Além de lhe poupar os miolos tipo “o que será que o chefe acha de mim?”, ou ficar “se pegando” com colegas pra se fazer notar num ambiente hostil,  trabalhar por conta própria só exige dedicação e cérebro, que fica mil vezes ativado quando a gente faz o que gosta. E quando o trabalho é bem feito os clientes vêm no mole. Ou alguém acha que a rádio-peão não funciona fora da firrrrrma?

Portanto, nesse caso, cantarolar o lerê-lerê, dando uma de escravo, é só disfarçar pros outros seu contentamento de ter um ofício que lhe dá inúmeros retornos, inclusive a incomparável satisfação de fazer bem-feito.

É illllso…..

Soninha em Tiradentes City

Sabe a impressão que dá? Soninha parece essas mocinhas de faroeste, que se debatem em nome da moral e dos bons costumes reloaded mas que acaba indo ao sabor dos xerifões que realmente apitam na coisa. E olha que estou sendo muito legal, hein?

Durante a campanha do primeiro turno, a vereadora, impávida, se referia a Kassab como o demo em pessoa. No segundo, esperneou um pouco mas acabou apoiando muito de má-vontade o candidato do DEM, “porque essa era a vontade de seu partido”. E agora, passado o beiço e Kassab eleito, está feliz da vida por ter sido convidada por ele a  chefiar a subprefeitura de Cidade Tiradentes.

Cidade Tiradentes, pra quem não sabe, fica no extremo leste da cidade. É um lugar pobre e concentra o recorde sul-americano de unidades habitacionais: 40 mil prédios da CDHU, BNH e Cohab. Fora os lotes ilegais e favelas, de gente que se ajuntou lá por esporte, na espera de conseguir um apê. Hoje, Cidade Tiradentes conta com um grande hospital, um CEU, um telecentro, uma escola técnica de saúde publica e com o Expresso Tiradentes, o antigo Fura-Fila, que finalmente foi construído e conseguiu chegar até lá.* Tudo feito pela gestão Serra/Kassab que, como se sabe, é mancomunada com a zelite.

Realmente torço para que Soninha consiga, com seus dotes inegáveis (refiro-me à inteligência, não a um bom-mocismo por vezes autista), colocar Cidade Tiradentes num caminho pra lá de bacana para o futuro. Que ela faça distinção entre a verba de zeladoria (que é baixa) e a verba para projetos maiores (que certamente continuará). E que seja uma experiência positiva. Só o fato de ela morar na Pompéia e ter de se deslocar todo dia para lá já ensinará muitas coisas. A primeira é não espernear a qualquer contrariedade.

Na boa, estou torcendo mesmo.

* PS: Tenho trocado e-mails com o subprefeito de Cidade Tiradentes, o Renato Barreiros. Muito simpático, me informou que Cidade Tiradentes tem hoje exatos 7 Telecentros e 2 CEUs. E ele cita também o Primeiro Festival de Funk, uma febre entre a juventude da Zona Leste, que antes só tinha respaldo do tráfico de drogas. Quanto ao Expresso Tiradentes, a cargo exclusivo da Secretaria de Transportes, cometi não uma inverdade, mas uma meia-verdade: os dois últimos trechos ainda estão em fase de licitação, é que, como sabemos, a mais espinhosa. As obras estão previstas para 2009. Trocando em miúdos, não é promessa de campanha, como aconteceu nos governos Pitta e Marta.

O sumiço do jegue

No Cláudio Humberto de hoje:

Conselho idiota
Apreciador do festival de chope Oktoberfest, em Blumenau (SC), Lula nem se mexeu para visitar as vítimas das cheias na cidade. Um aspone idiota o convenceu a “não associar” sua imagem a “fatos negativos”. Por isso ele também não foi ao local da tragédia da TAM, em Congonhas.

O engraçado é que, aqui em SP, a presença da autoridade maior é um dos “detalhes” notados positivamente pela população quando ocorrem tragédias. Por mil ligações no subconsciente não tão sub assim, mostra que temos um norte, um líder pra fazer e acontecer quando é realmente necessário.

Foi assim na cratera do Metrô, foi assim no acidente da TAM e é assim em fatos não tão bombásticos. Foi esse, aliás, um dos fatores que ajudaram a eleger Gilberto Kassab, sempre o primeiro a aparecer no local da coisa.

Mas anta é anta. Não há didática possível para tentar unir dois neurônios e explicar pra esse beócio por que ele nunca mais ganhou em São Paulo.

E o pouco que lhe restou nos estados do Sul, agora, babau!