Arquivo da categoria: Comércio

Então viva a China!

Adorei!!! artigo de Helio Schwartsman na Folha de hoje. Trecho:

[…] Se os chineses conseguem produzir uma série de badulaques com mais qualidade e a menor preço do que nossos compatriotas, é razoável privar o consumidor local de usufruir dos ganhos de produtividade obtidos pela indústria chinesa? Milhares de brasileiros já disseram o que pensam, ao viajar para Miami e voltar com as malas abarrotadas com tudo o que carregue uma etiqueta de preço. (íntegra p/ assinantes)

Ele prossegue citando outros setores de protecionismo. O cinema nacional; e a informática nos anos 80/90, por exemplo.

Ontem foi dia de 25 de Março com minha mãe. Ela cansou, tadinha… Mas é que há muito tempo não íamos pra andar tanto. Fomos atrás justamente de um desses badulaques.

Olha, fiquei comovida, no seguinte sentido: comércio simplesmente ABARROTADO de objetos evocativos de Paris, Londres, New York…

Você me dirá: “e daí?”

Acontece que os tais objetos – caixinhas, porta-maquiagem, cachepôs, álbuns de retratos, porta-retratos, relógios,  vasos, porta-chaves, TUDO benfeitinho, de bom gosto, a maioria made in China – aproveitam, com muita propriedade, o rastro sentimental das viagens que METADE da população brasileira fez a esses lugares.

Nesse sendo maravolhosos de oportunidade, pouca, mas pouquíssima coisa nacional.

Não quero nem saber do mimimi dos impostos, disso e daquilo. Vá a uma “feirinha de artesãos brasileiros” e verifique se não continuamos a produzir as mesmas coisas de dez, vinte anos atrás.

Também não quero nem saber de falar de “valorizar o  artesanato nacional”. Essas feirinhas não o fazem – pelo contrário, metade da banquinha é de chinesaria. Me digam então um motivo só pra valorizar qq. coisa daqui?

Olha, mais um exemplo: ontem na 25 vi um porta-retrato com moldura imitando madeira escura, trabalhada (tudo plástico, claro). Acontece que era muito caprichadinho, era bonito. Nível de detalhe: na proximidade dos relevos de flores, arabescos e tal, uma camada de tinta imitando pó. Poeira, poeira doméstica…

Ah, mas é prástico…

Então, filha, faz uma coisa: procure um produto nacional de madeira de lei trabalhada assim que eu te dou um doce, viu?

Chineses fizeram um esforço tremendo pra melhorar seus produtos, e conseguiram. Coisa que a gente nunca fez, não faz e nunca fará. A gente vive numa oca. Nossos produtos têm a rusticidade de uma vassoura de piaçaba. E quando surge algo mais bonitinho, o design perdura por décadas. Indústrias ficam sentadas, na lei do menor esforço, apostando naquilo até depois de carcomer, de esgotar, apostando na necessidade da população.

Outro exemplo? No último feriado eu comia bombons. Bombons desses comuns, de caixa amarela. Eles sempre circulam aqui em casa, e eu tenho mania de alisar o papel-alumínio e bolar anéis (@%$*&!). Acho que muita gente faz isso.

E olho a embalagem exterior, os invólucros propriamente ditos de cada bombom. São bonitos, não? Fico pensando na delícia que foi para o designer ter bolado os ditos-cujos.

Acontece que ele fez isso há uns cinquenta anos! Muito de vez em quando surge algo novo dentro daquela caixa…

Sabe? Estou esperando bombons chineses. Hão de fazer embalagens mais modernas, mais bonitas, bolar coleções, colocar algo informativo-cultural nos “papeizinhos”, mudar sempre, transformar aquilo em mania e… vender horrores.

Daí adivinha, né? Toca aguentar reuniãozinha do setor com a dita-cuja…

Relíquias para todas as crenças

Falávamos sobre a santificação das coisas, e eu acabei lendo sobre algo que já sabia: a canonização do moleskine e a consequente tungagem mercadológica (de Carol Bensimon, no Blog da Companhia). Se grandes nomes das artes e da literatura anotavam e desenhavam suas coisas num caderninho supostamente chamado moleskine – segundo meu Bertrand velhinho, um “tecido envernizado imitando couro” -, talvez isso fosse tão democrático, trivial e genérico quanto um cromo alemão ou uma luva de pelica, fabricado ou manufaturado por qualquer um e comprado em qualquer lugar a qualquer preço.

Dando sopa por aí, né?…, o espertinho registrou a marca, padronizou a coisa – sem o verniz, naturalmente -, e vende os bichinhos a preço de ouro em qualquer papelaria mais ambiciosa.

Tá certo ele! Já que a humanidade se ilude achando que suas anotações ficarão muito mais importantes num caderno assim…

Sei lá, estou pensando em pegar qq. coisa do gênero e registrar para mim: o ponto ajour, o salto anabela, a colorida tessitura boliviana ou as (minhas) alpargatas de corda.

Já pensou? Vendidos em modelos variados, com motivos paulistanos para agradar as mentes mais dispostas a esfregar sua psurbanidade e psofisticação na cara de todo mundo. Foi exatamente o que o nouveau-moleskine fez.

Também pensei nisso ao ver um osso da perna e o surrão de Anchieta numa nave lateral da capela do Pátio do Colégio.  Relíquias do jesuíta. Restaurado, o surrão me parece ser de couro. Duvido muito que alguém usaria isso hoje em dia, mas uma miniaturazinha, com ênfase nos detalhes, será que vendia?…

Foi inevitável para mim a correlação entre as relíquias de Anchieta e os molesquines. Porque a santificação massificada escolhe justamente aquilo que a celeb histórica tinha de mais ordinário: uma roupa, um pedaço de papel…

Não acredito em bênçãos, pelo menos aquelas emanadas de objetos. Rezar em frente a um osso não traz saúde, assim como comprar um moleskine no cartão em 3 X sem juros não traz talento ou especificidade a ninguém.

ACSP – Movimento Hora de Agir

Do Estadão:

Na próxima terça-feira, 13, por volta das 11 horas, o painel do Impostômetro da Associação Comercial de São Paulo (ACSP) vai mostrar o número 1 seguido de 12 zeros. A marca de R$ 1 trilhão de tributos pagos pelos brasileiros neste ano será atingida 35 dias antes se comparada com 2010, quando a quantia foi alcançada no dia 18 de outubro.

No mesmo dia que o Impostômetro chegar a R$ 1 trilhão, a ACSP irá elaborar um documento oficial em nome dos empresários paulistas pela aprovação do Projeto de Lei 1472/2007, que ordena a discriminação do valor dos tributos pagos nas notas fiscais. O texto já foi aprovado pelo Senado e agora aguarda votação na Câmara dos Deputados. Como uma amostra dessa medida, será realizado no Pátio do Colégio, no centro da capital paulista, o “Feirão do Imposto”, onde o público poderá conferir o quanto de tributo está embutido no preço de produtos do dia a dia, como arroz, feijão e xampu.

A ACSP também vai aproveitar a terça-feira para lançar o Movimento Hora de Agir, contra a atual carga tributária do País. No hotsite da campanha, o contribuinte poderá dar sua opinião ou relatar, em vídeo, suas experiências com os impostos. Além disso, as associações comerciais de todo o Estado irão apresentar o novo Portal do Impostômetro.

Opa! Será que estou vendo mais uma adesão ao movimento que se forma no país?

Aproveita e troca aquele painel, né? Tá lá desde 2005 (foi colocado, se não me engano, pelo Guilherme Afif Domingos), é feio de doer e merecia estar num lugar bem mais visível, tipo, sei lá, girando em cima da torre da Globo na Paulista.

Parabéééééééns!

De O Globo, via site do PPS (grifos meus):

[…] Passados mais de seis meses desde que o governo começou a adotar medidas para restringir a oferta de crédito, os consumidores das classes C, D e E, que se tornaram o motor das vendas do comércio em todo o país, começam a perder o ímpeto de ir às compras. E o sinal mais visível é a inadimplência. Mais endividados e com os ganhos corroídos pela inflação, começam a atrasar as prestações. Em maio, a inadimplência medida pela Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL) cresceu pelo quarto mês seguido, avançando 8,21% em relação ao mesmo mês de 2010. O maior volume de atrasos está nos financiamentos com prestações baixas: 75,74% dos inadimplentes no mês passado tinham prestações atrasadas de até R$ 250, sendo que aqueles com parcelas de até R$ 50 representavam 32,67% do total, um salto em relação aos 24,97% de calote nesses contratos em janeiro. No Rio, 15,7% dos entrevistados da classe C disseram ter alguma prestação atrasada (contra 12,1% um ano antes) e 21,6% afirmaram que o orçamento familiar será deficitário após o pagamento das despesas, de acordo com Perfil Econômico do Consumidor Brasileiro (PEC) da Fecomércio-RJ:

– Nesses casos, a gordurinha do orçamento não foi suficiente para lidar com a alta da inflação e um forte acúmulo de consumo nos últimos anos – diz Christian Travassos, economista da instituição.

Para Roque Pellizzaro Júnior, presidente da CNDL, os novos dados de inadimplência “acenderam a luz amarela” entre os lojistas.

– Isso indica que a população que está ascendendo, que foi às compras porque o crédito era farto, assumiu compromissos além de sua capacidade de pagamento. Não é que ele seja mau pagador. […] (íntegra)

Ah, não sabe lidar com o que tem. Ah, no fundo o brasileiro é bonzinho e se deixou levar. Ah, isso, Ah, aquilo!…

Não vou ponderar coisíssima alguma. Já disse aqui que não teria pena. Aviso não faltou de meio mundo.

Agora, meus mais sinceros parabéns! Desejo do fundo do coração que o Brasil rosa-choque com tevê de prasma se funheque. 

Preço da passagem: um clássico da idiotice nacional

O preço da passagem de ônibus aumentou em São Paulo. Foi de R$ 2,70 para R$ 3,00.

Isso depois de alguns anos sem reajuste, enquanto a inflação comia solta em outros setores, sob as graças do governo Lula.

Na panela, a reclamação de sempre: o preço não corresponde ao serviço prestado.

Esse tipo de argumento – sempre o mesmo – é estúpido em si. Significa que, se os ônibus fossem um primor de limpeza, frequência e rapidez, o paulistano acharia justo pagar, sei lá, R$ 6,00 por viagem, certo?

Claro que não.

Concordo que os ônibus, não só em SP como no resto do Brasil, pertencem a um tipo de empresário suadinho e muquirana.  Não me perguntem por quê. Talvez por ser um serviço essencial, daqueles que não exigem a qualidade que só a competição daria.  

Mas, vamos às contas. Suponhamos que um ser faça quatro viagens por dia, ida e vinda do trabalho. Trinta centavos a mais por viagem, dá R$ 1,20 por dia. Vinte dias por mês (vamos fingir que o trabalhador brasileiro tem vida espartana), dá 24 reais.

Isso é umas parcelinha de uma tevê de 245 polegadas nas Casas Bahia. Ou de duas peças de roupa do tipo lavou-joga-fora no Lojão do Brás. Sob preços que, aliás, ninguém acha ruim, porque se diluem num crédito a perder de vista.

Então, o problema das passagens não está no valor. Está na impossibilidade de pagá-las a crédito.

Que se faça, então, um sistema de parcelamento para o bilhete único. Daí todo mundo paga em suaves prestações e ninguém reclama.

Otabol Incorporated

Como a maioria dos brasileiros, achei o phim dona Bete Gouveia precisar de um espelhinho pra lhe cair a ficha sobre a Otabol Incorporated. Pior ainda, Fred, um suburbano assumido, ter lançado mão de expediente tão pré-prosperidade da patulée.

Nomes ao contrário, junção de nomes dos sócios, coisinhas para descaracterizar o nome mas mantê-lo ali. Quem já não fez isso com suas firmas, hein?

Daí então que não resisti e fotografei (tremidinho) dentro do supermercado:

Teria o chefe da facção criminosa mudado de vida e entrado no ramo dos produtos em conserva? E por que daria essa bandeira toda?