Apitaço na Paulista

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Bem diz o Reinaldo Azevedo hoje:

“A turma da Grande Vaia reuniu 400 na Avenida Paulista, segundo a PM. Está excelente! Meu pai era um grande jogador de truco – e eu também (juro!!!). Quando moleque, fazíamos parceria. Às vezes, a coisa ficava feia; sei lá: 9 a 4 pra eles. Ele notava meu ar de desânimo e lá vinha com seu humor: “Quatro, sim, mas a gente não troca os nossos 4 pelos 9 deles”. O que entendi daquilo, com o tempo, é o seguinte: danem-se eles; fazemos o nosso jogo. Tudo está apenas no começo. Sempre que o grupo disser que vai vaiar Lula, noticio. Mesmo que sejam 10 pessoas. Convenham: às vezes, este blog é vaia de um só. Mas com milhares de leitores. Por enquanto, é mais importante estar certo do que ser maioria.”

 

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E assim foi. Um fato é certo: havia muito mais gente na concentração do que no final, na Assembléia Legislativa. Na Paulista, surpreendeu não a quantidade menor de gente em relação a 4 de agosto, mas a quantidade incrivelmente maior de gente buzinando, dando apoio.

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Não vou ficar inventado motivos aqui: estava frio, estamos próximos do Natal e as compras urgem, tinha um evento não sei o quê, aconteceu isso ou aquilo. Nada. Acato com racionalidade as estimativas da PM e da CET.

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O importante mesmo é que estamos certos, como disse o RA. Todas as pessoas que estavam lá sabiam exatamente o porquê de estarem lá. São pessoas cujos pais muitas vezes se ralaram pra manter na escola, que aprenderam a ter discernimento, que sabem escrever “palpável”. Ninguém, ninguem foi à passeata em troca de um marmitex, isso eu posso garantir.

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A organização estava infinitamente maior do que na última grande concentração. Todos que por um motivo ou por outro naõ puderam se organizar receberam seu apito, seu nariz de palhaço, panfletos, adesivos. O único cerumano que destoava foi esse aí, sentado na calçada, que, segundo informações seguríssimas de Raquel, veio representar o governo no quesito biocombustível.

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Estou cansada, mas aguardando ansiosa uma próxima vez. Já disse que vou a qualquer evento contra a atual gestão federal. Qualquer um.

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Mãozinhas

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Ontem São Paulo teve inaugurada a TV Record News. Ando atulhada de serviço, mas ainda consegui ver, no final do dia, a imagem das duas alegres maõzinhas apertando o botão de arranque da nova emissora. Acho bom ter mais um canal de notícias. O jornalismo da Record é, é muitos aspectos, melhor que o da Globo. Foi lá que pela primeira vez vi coberturas pop de catchiguria, levadas pela mão cordata de Celso Zucatelli, sem malabarismos, exclamações ou discursos idiotas. Foi assim no acidente do Metrô e na tragédia da TAM. Não estou por dentro, nãi vi nada ainda, mas espero que na nova emissora Zucatelli tenha seu espaço. Ele consegue falar sem parar durante horas para o povão, ao vivo, sem dizer sequer uma besteira.

Achei interessante que, durante a cerimônia de inauguração, o nome do bispo não foi pronunciado. Será que ele finalmente foi alçado à categoria de Deus? Será que, de fato, não devemos pronunciar seu nome? Em via das dúvidas, de agora em diante escrevo M’cedo, para não incorrer em heresia.

Como minha mãe sempre diz, não tenho culpa de ter memória. Minha primeira atividade jornalística e meu primeiro emprego foram na Rádio Copacabana, a primeira aquisição broadcasting de M’cedo. Eu era muito novinha e via o trabalho como um divertimento pessoal, ou seja, não pensava muito em firmar imagem, mostrar serviço além do que me era pedido, ficar de blablablá. Trabalhava como uma calvinista e queria fazer meu trabalho direitinho, e só. Eu comandava o “Departamento de Jornalismo” da rádio, composto por meia-dúzia de rapazes tão novos quanto eu, e de duas estagiárias, tão alegres na vida quanto eu. Tudo na base do gilete press, coisa que, convenhamos, não mudou muito de lá pra cá, já que a maioria dos jornalistas continua chupando notícias. Só mudou o mecanismo recorta-e-cola. Antes era na tesoura. Hoje é no teclado.

Fiquei lá até 1989, e a demissão veio logo antes do meu pretendido pedido de afastamento. A coisa já estava pesada quando apareceu o fato Lurian, que divulgamos normalmente. Quando chegou a hora da contrapartida de Lula, o que ele tinha a dizer sobre o assunto, redigi eu mesma a matéria, sabendo que aquilo iria me enforcar de vez. Nesse meio-tempo, lembro bem do “bispo” Gonçalves (aquele do zíper) entrando na sala e dizendo: “Pode colocar aí que o Collor está disparado na frente”. Olhei pra ele e ele bateu a porta na minha cara. Não dava, né? Collor estava “ali” com Lula nas pesquisas, e eu não ia divulgar mentira, não. Os meninos, como fradinhos ciosos, chegaram até mim preocupados, e eu disse pra eles continuarem trabalhando normalmente que eu cuidaria dos assuntos mais espinhosos. Cuidei nada! Continuei redigindo matérias sobre a eleição com a mais deslavada fidelidade aos fatos, dentro do que estava ao meu alcance e discernimento – O Globo, o JB, O Estado e a Folha.

Não deu outra. Fui mandada embora, e a pessoa que me comunicou disse – olha só! – que o bispo Gonçalves não gostou do olhar que mandei pra ele dias antes. Talvez eu não devesse encará-lo, e talvez também deva pronunciar G’nçalves.

O que escrevo aqui não é um desabafo. É só memória. Acho horrível a pessoa chorar pitangas de ex-empregos. Se eu estivesse lá até hoje, como alguns colegas estão, não seria bom, não! Não teria voltado pra São Paulo e não teria feito inúmeras coisas bacanas aqui, entre elas esse bloguinho.

  • Mas que esta foto (gilete press de O Globo) é engraçada pra mim, ah, isso é!
  • Complementos luxuosos lá no Reinaldo Azevedo, aqui e aqui. Com uma ressalvinha: aquele famoso vídeo foi feito muito tempo depois dessa história que contei. Não foi assim que começou, não. Começou foi na base de muito arroz-e-feijão nos subúrbios do Rio, na companhia indescritível do mensaleiro bispo Rodrigues – o Beatle de Benfica.

Título injusto

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A Associação Paulista Viva já tachou o Edifício Baronesa de Arary – injustamente, a meu ver – de Cortição da Paulista. Na esquina com a Peixoto Gomide, parte dele conta com a vista privilegiada do Parque Trianon. São 25 andares, com cerca de 3.500 moradores distribuídos entre 556 unidades, entre quitinetes e apartamentos de 2 e 3 quartos.

O Baronesa de Arary começou a ser construído em 1954, e foi o primeiro prédio residencial erguido na Paulista. Ele recebeu o nome da proprietária do palacete que havia lá antes, projetado por Victor Dubugras. Segundo o Ricardo, Maria Dalmácia foi a única moradora da avenida Paulista que tinha algum título de nobreza nos tempos do Império. O restante dos primeiros moradores da Paulista eram imigrantes já bem postos na vida, para quem tais títulos não tinham tanta importância quanto o dinheiro que possuíam.

Walmor Chagas e Cacilda Becker moraram um tempo na cobertura, e promoviam encontros artísticos e, mais tarde, reuniões de cunho político, em meio à ditadura militar. Sérgio Cardoso também morou lá, e Elke Maravilha e o pianista Pedrinho Mattar persistiram mesmo quando o prédio caiu na degradação. No térreo, durante muito tempo, a chiquérrima Casa Vogue promovia desfiles de causar furor.

O arquiteto responsável pelo projeto do Baronesa de Arary, Simeon Fichel, explica que a construtora não fez tudo o que estava previsto no projeto, como escada de incêndio e uma laje na cobertura. Dessa economia porca resultaram anos sem interfone ou antenas coletivas, fora o perigo do emaranhado elétrico que lá se formou: era capaz de causar um apagão em toda a Região Sudeste. A degradação ao longo dos anos foi tamanha que em 1993 o Contru interditou o edifício. O responsável pela interdição, o engenheiro Carlos Alberto Venturelli, então diretor do Contru (gestões Jânio e Maluf), apareceu por lá com uma autorização judicial pra todos abandonarem prédio imediatamente. Elke Maravilha resistiu durante 45 dias até ser obrigada a deixar seu apartamento. De outra feita, no início dos anos 1980, Venturelli fez com que Pedrinho Mattar descesse, por cordas, seu piano de cauda (o que acabou rendendo a Mattar o posto de menino-propaganda da transportadora Granero).

Depois da interdição em 1993, o Baronesa de Arary botou ordem na fiação e tomou uma série de medidas de segurança. Uma fábrica de tintas bancou uma repintura, que a meu ver ficou pavorosa: um azul-escuro, e as janelas cor de laranja – parece que levaram uma mão de zarcão e assim ficaram.

Depois disso, ainda na década de 1990, houve uma bafafá no prédio: duas moçoilas musculosas resolveram tomar banho de sol junto à caixa d’água, e se refrescaram na própria, o que provocou o fechamento dos registros para limpeza.

Quanto ao título de “Cortição da Paulista”, acho injusto. Primeiro porque cortições e corticinhos há vários por lá. Segundo, quem o faz ser um cortiço são alguns (ou muitos) moradores, e não o prédio em si. Demolir é jogar a água fora com o bebê. Não é por aí. Várias gestões estão trabalhando como podem para melhorá-lo.

O Baronesa de Arary é assim: em um bloco, a máxima “cada janela um lar”. No outro, de apartamentos maiores, proprietários que lutam para mantê-lo, combatendo a idéia ridícula de demolição que o ronda. Para quem quiser viver a experiência, o aluguel varia entre 500 e 2 mil reais, incluindo o condomínio. Os visitantes, porém, exibem identidade e tiram foto na portaria. Já é um começo…

  • Mais detalhes em José Venâncio de Resende, Baronesa de Arary: nobres, pobres, artistas e oportunistas (São Paulo: Scortecci, 2003).

Só serve pelos empregos que gera. Só.

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O Brasil foi, é e continua sendo a churrascaria do mundo. Tá certo que a conjuntura mundial mudou, e hoje os artistas torcem menos o nariz quando a apresentação lhe é imposta para as bancas de Latinoamerica.

Mas os jovens, esses continuam os mesmos, e não há ser com mais de 20 anos que os convença de certas babaquices do cosmo.

O sr. Marilyn Manson (de quem eu não saberia cantarolar sequer um hit) pousou aqui em SP, para uma apresentação pífia no Via Funchal. Foi só um dia, quarta-feira passada, pra não pagar mico de Cauby Peixoto. Tem só mais uma gravação na MTV e pronto. Mas teria público passando mal para um mês. O povo não gostou muito não. Entrar na base do gelo seco com uma faca na mão, se limpar na bandeira americana e incensar a brasileira é coisa pra criança, vamos combinar!

Eu lembro bem nos anos 70 quando o Alice Cooper esteve aqui. Foi a glória de alguns meninos da minha rua, que voltaram para casa sem sapato. Lembro também do Ozzy Osbourne no Rock in Rio, fingindo devorar um morcego. Naquele tempo da ingenuidade, qualquer performance desse tipo causava sensação, mas hoje?! Eu só tiraria do baú meus chiliques adolescentes e viraria fã de um cara se ele se matasse pra valer no palco, e de cara limpa! Porque morrer de overdose, engasgado no próprio vômito, é coisa do tempo da vovó.

O festival do usado

No último sábado foi o dia mundial sem carro. Você notou? Nem eu. São Paulo continuou congestionada em seu caminho franco e favorito rumo ao caos completo. Nesse dia eu voltava de viagem e era mais uma em meio a uma cidade em que o automóvel supre não só dificuldades no transporte público, percalços topográficos, ausência de ciclovias e desrespeito ao pedestre.

Sempre achei que a Prefeitura deveria ter um serviço de logística do trabalho para racionalizar o uso do transporte público, por exemplo: Fulanilda, telemarketing, mora em Cidade Ademar e trabalha na Luz. E Cicraneide, telemarketing, mora na Armênia e trabalha em Santo Amaro. Se os salários são equiparados, pra quer fazer esse emaranhado de gente na hora do rush? Troca, uai! Cicraneide passa a trabalhar na Luz e Fulanilda pega a vaga de Cicraneide em Santo Amaro.

Voltando: o automóvel, notadamente para o brasileiro, preenche uma lacuna não só prática, mas existencial. Convencido de que, enquanto cerumano, ele só será alguém melhor se conseguir comprar a prestação alguns penduricalhos que darão um up no seu jeito de ser, o brasileiro almeja milicoisas, mas a mais desejada de todas é, sem dúvida, um carro. O carro é, para os homens, uma extensão do seu bilau. E para as mulheres, a prova definitiva de que ela venceu, não só no gênero, mas familiar e socialmente. Nem que para isso leve anos repondo o crédito que lhe deram para tal compra, tempo que muitas vezes ultrapassa a vida útil do carro.

Resultado: vai-se de carro até para a padaria. Prefere-se o carro ao Metrô, ao ônibus vazio (sim, aqui em SP existem linhas decentes). Quem anda de ônibus cheio não o faz por uma consciência ecológica – embarca porque não tem outro jeito.

Durante a semana, o paulistano circula o dia inteiro pela cidade. Muitas vezes com carros desregulados, queimando óleo, caindo aos pedaços. Chega no weekend, o lazer familiar é percorrer grandeis feiras de automóveis à procura de um usado que seja menos pior do que o seu.

Quem pretende comprar um usadão, é bom prestar atenção a alguns itens, que aprendi a ver com meu irmão.

Primeiro, procure comprar direto do primeiro proprietário. Além de passar por cima da comissão de alguém, há mais chances de a pessoa ter cuidado melhor do bichinho. Se você não tiver outro jeito e for comprar em concessionária ou numa loja qualquer, ponha uma coisa na cabeça: nunca vai achar aquela pechincha, aquilo que ninguém pensou antes. Se está barato, é porque está assumidamente detonado. Se está caro, está veladamente detonado.

Abra o porta-malas e levante o carpete. Se a carroceria escondidinha estiver amassada, desista na hora.

Na frente do carro, abaixe-se e veja se o chão não está com óleo pingado.

Dê uma geral no painel, nos estofados, nos perfis entre as janelas. Aí você poderá tirar uma linha do uso que deram ao automóvel antes de ele aparecer diante dos seus olhos.

Verifique se não há indícios de que o carro ficou boiando em uma enchente. Estofado ou carpete mofados, com manchas, ferrugens escondidas, isso tudo é importante.

Se tudo estiver aparentemente tranqüilo, não deixe de dar aquela voltinha e experimentar todos os comandos. Freios, embreagem, câmbio, luzes, parte elétrica, faça um check-up completo. Prestar atenção a barulhos estranhos e ter a companhia de alguém experiente são muito úteis para o ok final.

Por fim, só deixe a grana lá se a documentação estiver toda certinha.

 

Cansativo, não é? Muito mais fácil andar a pé. É mais saudável, não precisa de emplacamento, endurece o bumbum e pára em qualquer lugar, na hora que bem entender.

Um cantinho de nada

Jardim do Centro Cultural Vergueiro

Extensão do jardim do Centro Cultural Vergueiro. Avançando pelo fundo, em um desnível considerável, está a avenida 23 de Maio. Na frente, a rua Vergueiro. Entre os prédios encobertos pelas árvores está o complexo da Beneficência Portuguesa, para onde vai o viaduto de gradinhas azuis que corta a foto.

Bom pra andar, pra dar uma paradinha…