Inútil! A gente somos inútil!

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Acho muito engraçado manchetes gigantescas dizendo que as águas-vivas estão atacando banhistas. Esta é a prova cabal de que o cerumano acha que o mar está ali para servir aos seus desvarios de entertainment e pronto. Água-viva não ataca ninguém. Ela só reage quando alguém encosta nela. E o mar, idem com batatas. Palavra de quem já foi levada pela correnteza e a partir de então nunca mais achou que mar é piscina.

E, cá pra nós, alguém com um mínimo de malícia praieira deve ligar seu radar e desviar das bichinhas, pô! O que os farofeiros estão achando? Que aquilo na areia é um cuspe? Um silicone de peito que caiu e a dona não viu? Um resto de mocotó? Se o mar está cheio delas, é sinal de que elas resolveram, de pleno direito, se empanar na praia também. E daí? Não entre na água, oras! Cozinhe sob o sol escaldante. Pra quem agüentou horas de congestionamento no asfalto isso aí é pinto!

Em homenagem aos dois bilhões de desavisados que resolveram rolar serra abaixo pra invadir o litoral, eu ofereço essa singela musiquinha, que me vem à mente toda vez que hordas de visigodos acham que estão podendo:

A gente não sabemos escolher presidente
A gente não sabemos tomar conta da gente
A gente não sabemos nem escovar os dente
Tem gringo pensando que nóis é indigente…

Inútil! A gente somos inútil!
Inútil! A gente somos inútil!

A gente faz carro e não sabe guiar
A gente faz trilho e não tem trem prá botar
A gente faz filho e não consegue criar
A gente pede grana e não consegue pagar…

Inútil! A gente somos inútil!
Inútil! A gente somos inútil!

Inútil! A gente somos inútil!
Inútil! A gente somos inútil!
Inútil! A gente somos inútil!
Inútil! A gente somos inútil!

A gente faz música e não consegue gravar
A gente escreve livro e não consegue publicar
A gente escreve peça e não consegue encenar
A gente joga bola e não consegue ganhar…

Inútil! A gente somos inútil!
Inútil! A gente somos inútil!

  • Foto (JB Duarte, O Globo Online): Praia Grande: o paraíso dos alienígenas.
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O brasileiro não desiste nunca

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Este ano foi uma cornucópia, uma luxúria, uma mousse, uma feijoada, uma espalhação de erros na elaboração das questões do vestibular. Deixando de lado as universidades fora de São Paulo (é melhor nem comentar que a UFPE achou que Grande sertão: veredas era de Graciliano Ramos, não é mesmo?), repassamos aqui as questões mal-elaboradas, com erros de digitação e erradas mesmo que pipocaram em terras bandeirantes:

1) A Fuvest jurou de pés juntos em um dos enunciados que “as minhocas e lulas apresentam metameria, que não é encontrada nas tênias e nas lombrigas”. Mentira. A lula não apresenta o corpo segmentado, por isso não se pode compará-la, neste quesito, com tênias e lombrigas. Em outras classificações, as semelhanças são impressionantes, mas aí o papo já é outro.

2) A Vunesp cancelou uma questão que apontava “run, needed, wanted” como passado dos verbos, em vez do correto “ran, needed, wanted”. Algum protozoário recebeu pra elaborar essa questão, mas foram os bravos professores de cursinho que apontaram o mimo.

3) O Mackenzie também teve de retificar o gabarito oficial, mas os erros não passaram de problemas de digitação das letras correspondentes a cada alternativa. Deve ter sido a clássica correria de última hora, método que, após longos anos de experimentação em terras tapuias, evidenciou ser o mais correto.

4) A Cásper Líbero também pisou na bola no vestibular de 2007. Além de colocar questões de trigonometria, que não estavam previstas no edital, disse que o particípio do verbo “to lead” era “leaded”, em vez do correto “led”, e alegou erro de digitação. Não foi não. Vai ver quem elaborou as questões de inglês foi o mesmo invertebrado da Vunesp.

5) Até o ITA de São José dos Campos anulou uma questão de português e outra de inglês, pela possibilidade de dupla interpretação. Nos tempos mudernos, é até desculpável.

6) A OAB de São Paulo teve de engolir questionamentos dos candidatos a duas questões de direito civil e de processo civil da prova de 2007, cujo enunciado induzia a dúvidas.

Como se vê, nossa cabeça já não era lá grandes coisas. Agora, então, com mil entretenimentos comprados a prestação, aí mesmo é que ninguém tem tempo para chateações que só visam a alcançar um bom emprego. Talvez fosse melhor desistirmos, e partir de vez para a agricultura contemplativa.

Mesmo assim, eu desejo a todos um 2008 mais tranqüilo, mais concentrado em questões que realmente valham a pena. Com saúde. Com harmonia. Cheio de beijos. Selinhos, beijos estalados, beijos de língua, beijos siderais, beijos do pai, beijos da avó, beijos dos amigos, beijos de nenéns, beijos de fé-irmão camarada, beijos variados, beijos por telefone, beijos via Web, beijos de longe, de perto. E bem pra longe beijos que você só daria por educação, argh!

Com um abração desta que vos fala

(Que quando não está na posição direita da imagem, tenta a posição esquerda, com relativo sucesso. Mas que faz de tudo para estar no meio, ah, isso faz!)

São Silvestre

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E a corrida, hein? Não sei se assisto in loco desta vez ou vejo pela tevê. Na partida o fuzuê é grande, e a única satisfação que eu poderia ter na largada seria encontrar um ex-chefe, gente fina que só, que mora lá perto e não perde uma. Se o calor, que está um drama mexicano, melhorar sou capaz de ir. Mas se for fico na subida da Brigadeiro, que não é dos locais mais mixurucas e tem a vantagem de ninguém te esmagar contra a barreira de isolamento.
Este ano a Corrida de São Silvestre, em sua 83. edição, pretende se organizar mais: serão oito castas de corredores, desde os top de linha jovens até os que vão por zoeira. Afinal de cuentas, este ano a corrida terá 20 mil participantes, 5 mil a mais que no ano passado.
A elite feminina largará às 16:30, apenas quinze minutos antes da masculina. A mudança de horário é uma antiga reivindicação da mulherada, que cozinhava os miolos correndo no meio da tarde. O tiro de largada será dado em frente ao Masp, e a linha de chegada será em frente ao prédio da TV Gazeta/Fundação Casper Líbero.
Apesar de manter o charme, a Corrida de São Silvestre não anda nos seus melhores momentos. Está meio carente de grandes estrelas. Quem salva a pátria são os brasileiros Frank Caldeira, vencedor de 2006 e da maratona do Pan, e Lucélia Perez, atual campeã da prova. O piauiense José Telles também participará, mas só pra não perder o rebolado. Robert Cheruyot, do Quênia, já garantiu presença, com sua compatriota Alice Timbilili, estreante na São Silvestre mas com ótimo desempenho pelo mundo.
  • Foto (Gazeta Press): Djalma Vassão.
    • Aqui, site do evento.

    Tirando água de pedra

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    Uma das primeiras matérias que fiz, ainda como estagiária em jornalismo, cobria a posse de um administrador regional. Das perguntas clássicas que fiz a ele, obtive respostas como: “vamos nos inteirar da situação financeira para saber que diretrizes tomar” e “é preciso tomar ciência da situação para definir o que fazer”. Na minha santa ingenuidade , achei aquilo um desplante, porque quem é escolhido ou eleito para algum cargo público tem de chegar lá no primeiro dia sabendo, no mínimo, a situação atual, e ter tudo o que vai fazer já planejado com sua equipe. Mesmo assim, consegui extrair daquela porcariada inóspita duas gloriosas colunas, que minha mãe guarda até hoje – escondido, para evitar que eu jogue, à sorrelfa, fora aquele monte de papel velho.

    Lembrei disso quando soube da reunião de ontem no Masp, encabeçada pela promotora Mariza Schiavo Tucunduva. Foram convocados Julio Neves, presidente do museu, e Ronaldo Bianchi, secretário adjunto de Cultura do Estado. Julio Neves simplesmente não apresentou o balanço fiscal de 2007. Disse apenas que o Masp está cheio de dívidas. Bianchi, por sua vez, disse que o governo não vai saldar as dívidas de uma instituição encalacrada. O que pode, isso sim, é fazer investimentos lá.

    Traduzindo, pode ir passando o Masp pra cá. Do jeito que ele é porcamente administrado, tapar buracos simplesmente é jogar dinheiro fora.

    Segundo a promotora Tucunduva, o Ministério Público Estadual quer auxiliar o Museu pra não colocar em risco o patrimônio. O roubo das duas telas está sendo investigado pelo Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado (Gaeco), e o MPE vai iniciar na próxima quarta-feira, dia 2 de janeiro, uma perícia documental no Masp para saber a quantas anda aquela baderna.

    Sobre a segurança do Museu, de concreto até agora apenas uma base da PM no vão livre durante o dia, e à noite um carro da polícia (com policiais dentro, é claro).

    Viu? Deu pra fazer alguns parágrafos sobre esta reunião vergonhosa.

    • São Jerônimo penitente no deserto, têmpera sobre madeira, 48 X 36 cm. Andrea Mantegna (c. 1450). Pertence ao acervo do Masp. Por enquanto.

    O horror, o horror!

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    Desde ontem, imagens como essas vêm me causando preguiça e desconforto só de olhar. Esse é o pissuár que se adiantou na descida para o litoral pra não pegar trânsito. Acho que já disse uma vez por aqui: paulistano não tem mais atalho, não tem mais contrafluxo, não tem mais dia tranqüilo de fazer compras. Hoje, todo mundo tem a mesma idéia ao mesmo tempo que todo mundo. É muita falta de criatividade, é muita gente batendo o ponto ao mesmo tempo!

    O que acontece logo que você sai do pedágio em dia normal? Poderia até, se isso fosse sensato, prosseguir ziguezagueando na pista que não teria um vivente atrás de você. Aqui não: o trânsito emprerra pra chegar no pedágio, e emperra depois, porque as pistas vão se reduzindo novamente.

    Isso é vida?

    • Fotos: (Agência Estado) Patricia Santos.

    Sobre piadas

    Quando você muda de cidade, certos comportamento têm de ser adaptados. Isso não significa que você deva mudar de personalidade; apenas se encaixar no modo de ser daquela sociedade, até para não se isolar ou gerar conflitos.

    O humor, por exemplo. Aqui em São Paulo, de maneira geral (com as aliviantes exceções), não há muito direito a sutilezas, trocadilhos leves, insinuações. A piada tem de ser contada com a maior pantomima possível, com todas as letras. E ria bastante na hora agá, por favor. É assim que funciona.

    Aqui, como em grande parte do Brasil médio, há basicamente três motivos de piada: o órgão sexual masculino, o órgão sexual feminino e os respectivos traseiros. Qualquer coisa acima disso merece uma explicação, entrecortada ou posterior.

    Essa característica não chega a ser um defeito, não. O paulistano passou muito tempo correndo atrás da vida, e seu dia acabou ficando compartimentado como uma agenda de executivo: hora de levantar, hora de trabalhar, hora de almoçar, hora de trabalhar, hora de ir ao banco (ou de acessá-lo pela net), hora de beber com os amigos, hora de se divertir, hora de voltar pra casa, hora de ver tevê, hora do sexo, hora de dormir, hora de se arrumar, hora de ficar com as crianças. Então tudo isso deve ser superlativizado.

    O Brasil anda, e essa mentalidade meio que tomou conta do território. Podemos tirar uma linha dessa evolução a partir dos programas de tevê. Lá se foi o tempo em que os bordões do Jô Soares faziam sucesso em qualquer meio, e que frases como “Querias, não queres mais” já eram em si um motivo de riso, um certo oásis para a classe média de então, que rejeitava coisas como Balança mas não cai, A praça é nossa e algumas coisas de Chico Anísio. Depois veio a moçada do TV Pirata e do Casseta. Este último, que na época de seu lançamento causou certa ruptura, vem se adaptando firme e forte ao humor do Pânico na TV, que avacalhou de vez qualquer limite do tolerável entre seres humanos, mas tem seu valor e sua graça também.

    Apesar de de vez em quando eu gostar de algo avacalhado, hoje sinto certa perda geral de raciocínio na hora de rir. Tudo tem de ter uma careta, uma vinheta de áudio de coisa murchando, um grafismo. Tudo tem de ser bem explícito, bem explicadinho, para que a pessoa bem-entenda que aquilo é uma piada, uma brincadeira, e que é hora de rir.

    Não vou colocar nenhuma imagem que me agrade ou não em matéria de humor. Vai que você discorda?

    Flanela causando…

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    Se vocês se lembram, falei aqui sobre a fantástica criatividade de certos setores da sociedade, em especial dos gays, em criar nomes, o que considero uma arte. Citei o caso de Nick Perón e suas sobrancelhas, e recebi um simpático comentário dele – coisa de gente inteligente.

    O deputado Carlos Gianazzi, o autor do lançamento da Frente Parlamentar em Defesa da Comunidade Gay, na Assembléia Legislativa de São Paulo, em que Nick Perón fez uma performance, acaba de levar uma advertência do presidente da Casa, deputado Vaz de Lima pelo acontecido. Esta foi a punição final, que começou com ameaça de expulsão do deputado por quebra de decoro na época da coisa, em outubro.

    O fato é que a apresentação não teve nada que ver com a casa. Cada coisa em seu lugar. Se Gianazzi quer abraçar a causa GLBT, deve buscar medidas mais efetivas, e não sensacionalismos fátuos e superficiais. O Nick eu entendo, porque ele é muito novinho – tem apenas 20 anos. Mas o Gianazzi é um desperdício de dinheiro público. Espero ver esse senhor fora da Casa no próximo período.

    • Foto (Extra Online): Nick Perón, desta vez com sobrancelhas desenhadas no CAD.