Oremos

Do Jornal da Tarde (trechos, com comentários meus):

Após quase duas décadas de espera, o projeto de duplicação da Rodovia dos Tamoios (SP-99), principal ligação entre o Vale do Paraíba e o litoral norte paulista, deve começar a sair do papel. A obra é a principal reivindicação de prefeitos da região e uma das promessas de campanha do governador Geraldo Alckmin (PSDB) desde sua primeira gestão no governo do Estado.

O novo cronograma para duplicação será divulgado na sexta-feira, em São José dos Campos. Alckmin fará o anúncio em seu programa de governo itinerante. Durante dois dias – sexta e sábado –, a sede do governo do Estado vai funcionar na cidade.

A duplicação da rodovia deve custar R$ 4,5 bilhões, segundo estimativas iniciais. A obra será executada por meio de Parceria Público-privada (PPP) e há expectativa de que seja iniciada em janeiro. A proposta foi aprovada em reunião do Conselho Gestor do Programa Estadual de Parcerias Público-privadas. A ata do encontro foi publicada no fim da semana passada no Diário Oficial do Estado.

Lendo assim, até parece que o governador ainda não fez a duplicação porque é mauzinho. É sempre bom repetir: o governo federal nunca ajuda. A grana, é a gente mesmo que tem de se virar para conseguir. E as licenças ambientais também.

[…] A Tamoios é palco de dezenas de acidentes e a cada ano engrossa as estatísticas da Polícia Rodoviária Estadual. Possui pista simples, mas há alguns anos o Departamento de Estradas de Rodagem (DER) transformou trechos de acostamento em pista auxiliar. O pior trecho fica entre as cidades de Paraibuna e Jambeiro. Enormes crateras são abertas pelas carretas que têm como destino o Porto de São Sebastião.

“A Tamoios é palco de dezenas de acidentes” não só por ser uma estrada ruim, estreita e usada por carretas absurdas, mas porque “é palco” também de um monte de gente que lasca pra chegar rápido à praia. Não sei se todo mundo sabe, mas é comum que o paulistano desça e suba a serra no mesmo dia, uma prainha pá-buf. Daí, com esse programa apertadinho, o cara acha que dá pra andar na Tamoios como nos filmes.

Outra coisa que irrita profundamente: a gente chega lá embaixo e prossegue pelo que ainda chama de “Rio-Santos”,  uma epifania porca do governo federal ainda nos idos dos 70. Pelo que entendi, a Rio-Santos ficou com trechos incompletos e acabou se valendo de antigas estradas estaduais. Resultado: você dirige por rodovias, mas em pistas invadidas pelo encardidinho “urbano”. Excesso de pedestres, excesso de comércio (em Caraguatatuba, então, o inferno em forma de feiúra resolveu se reunir na beira da estrada),  excesso de lombadas, excesso de redutores de velocidade. E excesso de ciclistas. (Se nem ciclistas “urbanos”, daqueles engajados, respeitam o trânsito, que dirá dos “nativos”?)

Espero que o novo traçado da Tamoios e sua extensão até o porto de São Sebastião aconteça de modo diferente, e que a legislação estadual/de meio ambiente se imponha em tais trechos.

Sim, porque até agora o que vale é a fuleirice municipal das cidades envolvidas, liberando a construção de condomínios onde houver possibilidade físico-jeitinhosa, abrindo verdadeiras clareiras na Mata Atlântica.

Casinhas recém-construídas, coloridinhas segundo o gosto vigente, quase despencando no vidro dianteiro do carro, sabe?

A culpa pode não ser do revisor

Rubem Alves, a quem respeito, escreve artigo na Folha de hoje, pintando o revisor como um ser estúpido e autoritário. Trechos:

REVISORES SÃO seres invisíveis que se valem de jornais e editoras para corrigir os deslizes dos escritores. Porque os escritores, frequentemente, desrespeitam as leis fundamentais da gramática. Eu mesmo, por muito tempo, tive como revisor voluntário dos meus textos um erudito da língua que me enviava periodicamente, por puro amor à língua, relatórios detalhados dos meus erros.
Desse revisor voluntário tenho apenas uma queixa: ele nunca disse uma só palavra sobre a substância mesma dos meus artigos. Não lhe importavam as coisas que eu escrevia. Importava-lhe se eu as escrevia com as palavras certas.
Para me consolar, eu repetia as palavras de Patativa do Assaré: “Mais vale escrever a coisa certa com as palavras erradas que escrever a coisa errada com as palavras certas…” Até lhe dediquei uma pequena parábola. Eu, convidando meus amigos para tomar uma sopa que eu mesmo faço. Eles vêm, tomam a sopa e gostam. Mas um intruso, não convidado, toma a minha sopa, nada diz sobre a sopa, mas reclama que a tigela estava lascada…

[…] Outro revisor ficou horrorizado com a fala de um ignorante chamado Riobaldo. Era português errado, horrível. Tratou de corrigi-la, e o Riobaldo ficou falando como se fosse uma professora de português. Ainda bem que, nesse caso, não confiei no revisor e não perdi o livro. (íntegra para assinantes)

É fato que há revisores e revisores. Mas deve-se partir do pressuposto de que há editoras e editoras. Se a editora X acredita que pode ser fácil arrumar mão de obra na esquina, azar o dela e de quem se propõe a editar seus escritos por ela.

Quanto aos bons revisores – aqueles que se aplicam e fazem da atividade sua profissão, e não bico de curioso -, talvez seja de utilidade avisar a Rubem Alves e a todos os escritores e candidatos a escritores que o revisor convive com Riobaldos o tempo inteiro. Não só os Riobaldos literários, de “falar errado” milimetricamente estudado, mas os Riobaldos dos manuais, das teses universitárias, dos livros de autoajuda e, por que não dizer, os Riobaldos que compilam seus artigos sobre os dramas de Latinoamérica em livrecos periódicos que têm saída graças a suas aulinhas em universidades.

Diria mesmo que muitos textos publicados por aí só são inteligíveis graças ao desprendimento do revisor, que é pago para uma “releitura” de algo que – sejamos honestos – nunca foi lido profissionalmente. “Custa nada” fazer um copidesque de algo que já deveria vir copidescado, né?…

Também é bom avisar que o revisor profissional, desde que o trabalho esteja sujeito a publicação via editora, segue os padrões dessa editora. Posso até não concordar com tais padrões, mas sigo.

Quantas vezes, porém, o representante da editora, confrontado com as críticas do autor, rechaça dizendo que a culpa é do revisor, e não do padrão editorial?

Outro dia recebi um livro que EU revisei. Uma trabalheira. Quando folheei, percebi que haviam “voltado” emendas em uma série de coisas que alterei; e outras, similares, foram aceitas. Ninguém leu meu relatório. Quer dizer, o livro ficou despadronizado.

Emendas malfeitas? Pressa? Bagunça? Não sei. Mas meu nomezinho está lá. E a culpa, naturalmente, é minha.

Outra queixa de Rubem Alves é que o revisor não aprecia o conteúdo de seus textos. Muitas vezes aprecia, sim, e transmite isso ao editor. Mas quem disse que o editor repassa sempre essa impressão ao autor? Há os que o fazem, e há livros em que o contato entre revisor e autor é direto e bem bacana. Há, ainda, revisores que entendem não ser esse seu papel, em respeito ao editor. Isso para não falar na barreira que certos editores impõem entre revisor e autor. São milicasos. Portanto, mais uma vez, muita calma nessa hora.

É um exercício de sensibilidade analisar um texto publicado e procurar buscar a história desse texto. Um livro não é feito apenas de escritor e revisor.

Coloque, por favor, a editora no imbróglio.

 

Controle demográfico

Há momentos em que sou pela liberação de tudo. Ou quase tudo (me refiro a música alta sem proteção acústica, obrigatoriade de ver Dança dos Famosos e gente bloqueando avenida movimentada).

Contanto que não atrapalhem meu caminho e não venham encher nem o meu saco, nem o da Prefeitura.

E que cada um arque com suas decisões.

  • Foto: (Marlene Bergamo, Folha): povo na (linda) praça Julio Prestes Mesquita (brigadinha, Ricardo, ato falho!), centro de São Paulo, agora extensão da Crackland.

Manifestações capilares em óvulos

Feliz e orgulhosa do meu pois-é ter passado com louvor na inspeção veicular.

O troço estava marcado para as 13 horas, e chegamos lá às 12:30. A moça da guarita pediu gentilmente que esperássemos no estacionamã e nos reapresentássemos cinco minutos antes. Mais informatizado, organizado, arrumadinho e tal, impossível.

Quando estávamos quase no nosso horário, estacionou do nosso lado um ser. Começou a me fazer um monte de perguntas, como que tentando confirmar o infortúnio que lhe acometeu. Chegou às 12:50 para um horário agendado às 13:30.

Achou RUIM ter de esperar. E já ensaiava falar mal você-sabe-de-quem.

Fechei o vidro, virei pro lado e continuei conversando com meu carona.

Toca aqui, professor!

Não assino Veja, que na edição desta semana traz uma entrevista com Evanildo Bechara a respeito das bagnices ultimamente em pauta. Mas encontrei esta entrevista no Ig, de 13 de maio último. Mais cristalino, impossível (grifos meus):

[…] o aluno não vai para a escola para aprender “nós pega o peixe”. Isso ele já diz de casa, já é aquilo que nós chamamos de língua familiar, a língua do contexto doméstico. O grande problema é uma confusão que se faz, e que o livro também faz, entre a tarefa de um cientista, de um linguista e a tarefa de um professor de português. Um linguista estuda com o mesmo interesse e cuidado todas as manifestações linguísticas de todas as variantes de uma língua. A tarefa do linguista é examinar a língua sem se preocupar com o tipo de variedade, se é variedade regional, se variedade familiar, se é variedade culta. Ele estuda a língua como a língua se apresenta. Já o professor de português, não. O professor de português tem outra tarefa. Se o aluno vem para a escola, é porque ele pretende uma ascensão social. Se ele pretende essa ascensão social, ele precisa levar nessa ascensão um novo tipo de variante. Não é uma variante que seja melhor, nem pior. Mas é a variante que lhe vai ser exigida neste momento de ascensão social.

[…] Ninguém vai para a escola para viver na mesmice. Eu chamaria de mesmice idiomática. O aluno vai para a escola, mas acaba saindo dela com a mesma língua com a qual entrou. Portanto, perdeu seu tempo. Na verdade, sempre se vai para a escola para se ascender numa posição melhor. A própria palavra educar, que é formada pelo prefixo latino edu, quer dizer conduzir. Então, o papel da educação é justamente tirar a pessoa do ambiente estreito em que vive para alcançar uma situação melhor na sociedade. Essa ascensão social não vai exigir só um novo padrão de língua, vai exigir também um novo padrão de comportamento social. Essa mudança não é só na língua. Portanto, não é um problema de preconceito. E, para esses livros, parece que o preconceito é uma atitude de mão única. Mas o preconceito não é só da classe culta para a classe inculta, mas também da classe inculta para a classe culta.

[…] porque o sucesso da sala de aula não depende do livro adotado. Depende da técnica e do preparo do professor. Um bom professor pode trabalhar muito bem com um mau livro, assim como um professor sem preparo não consegue tirar tudo de bom do aluno com um bom livro. Porque ele está mal preparado e não sabe aproveitar o livro. O sucesso da sala de aula não depende do livro adotado. Mesmo porque o bom professor não é aquele que ensina. O bom professor é aquele que desperta no aluno o gosto pelo aprender. A sala de aula, o período de escola do aluno, é um período muito pequeno para o universo de informações que ele deve ter para ter sucesso na vida. Pelo menos teoricamente. No meu tempo de aluno, nós tínhamos apenas dois livros: durante quatro, cinco anos, tínhamos a mesma antologia e a mesma gramática. Mas, embora os professores não tivessem tirado o proveito das universidades, eles levavam para a escola uma cultura geral muito boa. E era essa cultura geral do professor de matemática, de física, de química, de português, era o grande atrativo para o aluno. Mas o professor que se limita ao programa estabelecido pelo livro didático, é um professor que é conduzido, é um professor que não tem conhecimento suficiente para sair dos trilhos oferecidos pelo livro didático. (íntegra)

Adoro isso!

Não sei o que impede o Brasil de ser um potência empreendedorística. Talvez seja um círculo vicioso entre a mentalidade em certos bolsões X nossa ainda estranheza com o mundo dos serviços X a mentalidade governamental, ao sabor das gestões pífias, que grosso modo consideram o empresário um ladrão. 

Talvez seja isso que manteve o Engenho de Dentro, bairro pacato do subúrbio carioca, exatamente como está. O fato de haver ou não Engenhão por lá não alterou a paisagem local.  Não se abriu uma padaria, um restaurante, uma lavanderia… Também pudera: o estádio, ao que parece, é subutilizado (acho eu, dentro daquela velha mania de considerar só uma parte da cidade: a orla); o que não compensa pra nenhum comerciante do entorno. Tentativas até devem ter havido, mas o fato é que a coisa murchou por (falta de) vontade geral.

O mesmo não acontece com Itaquera. Apesar de todo o bololô, o vai-não-vai da construção do Itaquerão (mas que uma hora sai), os comerciantes locais não pensaram duas vezes: pegam empréstimos e estão ampliando os negócios para receber o público para a Copa:

O comerciante Carlos da Silva Ribeiro, de 63 anos, não hesitou em adquirir um empréstimo de R$ 15 mil para investir no seu pequeno comércio de hortifrutigranjeiros, refrigerantes e produtos de limpeza, localizado em um terreno invadido na Avenida Miguel Inácio Curi, onde o estádio deve ser erguido. Ele observou um aumento nas vendas de cerca de 30% nos últimos dois anos depois da construção de um condomínio residencial e acredita que a construção da nova arena impulsione ainda mais suas vendas. “Meu comércio já aumentou bastante e estou trabalhando para aumentar ainda mais. Ontem mesmo funcionários do banco passaram aqui e me ofereceram um empréstimo. Eu aceitei. As vendas devem aumentar e, por isso, eu tenho que acompanhar. Não pode ter medo, não é?”, disse.

O dono de uma padaria local também se lança:

“Já vieram me procurar para saber se eu poderia fornecer o pão para a obra. Imagina todos os funcionários trabalhando para construir o estádio em três turnos? A tendência é aumentar muito o fluxo de pessoas por aqui”, afirmou. Assis pretende reformar a padaria, mas ainda não sabe quando deve colocar os planos em prática. “Eu quero dobrar a minha capacidade de atendimento, mas reforma deve vir aos poucos”, disse. O comerciante busca um meio para melhor atender clientes estrangeiros que não dominem o português. Seus funcionários não falam outras línguas, mas Assis já vislumbra uma alternativa. “Eu pretendo colocar meus filhos no inglês”, disse.

Não, não pode ter medo. Tem de apostar e encarar, com criatividade.

  • Foto (Leticia Macedo, G1).