Estratégia equivocada e nota infeliz

Informações editadas da Folha:

O Palácio dos Bandeirantes passou a monitorar manifestações organizadas nas redes sociais para evitar que o governador Geraldo Alckmin (PSDB) seja alvo de protestos em agendas públicas.

Nos últimos seis dias, Alckmin não foi a dois eventos em que sua participação estava prevista: a missa na catedral da Sé pelo aniversário de São Paulo, no dia 25 de janeiro; e no dia 28, quando o governador deixou de ir à inauguração da nova sede do Museu de Arte Contemporânea (MAC).

Em nota, a assessoria de imprensa do governo negou que Alckmin tenha faltado à inauguração do MAC. […]

“A hipótese [de que Alckmin está evitando protestos] é um desrespeito à história do governador e uma tentativa de travestir grupelhos truculentos de movimentos democráticos”, finaliza a nota da assessoria do governo.

Erro na estratégia, já que o governador está de fato fugindo, demonstrando recuo. Se não é dado a confrontos físicos, que se cerque de seguranças fofos no trato maloqueiro, o que não tem nada demais.

E erro na redação da resposta: o que são “grupelhos truculentos de movimentos democráticos”? Os movimentos são democráticos?

E por que usar o termo “grupelhos”? Falasse de grupos, que se travestem de movimentos sociais mas que não passam de oportunistas de partidos adversários.

Bobagem dupla.

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Oba! Só?

Quando manchete de jornal sobre São Paulo começa a ver o reverso dos números, é sinal de que o panorama daquele assunto está bom.

Hoje na Folha, “Ar da Grande São Paulo é o pior em 8 anos” (versão para não assinantes).

Na versão para assinantes, trechos:

Comparações com os anos anteriores não podem ser feitas porque a rede da Cetesb era menor na década de 1990.

[…] “O aumento das emissões das substâncias precursoras está relacionado com o crescimento tanto da frota quanto do trânsito na Grande São Paulo”, explica [Paulo Saldiva].

Com muita frota e muito trânsito, completa Paulo Artaxo, professor do Instituto de Física da USP, fica difícil controlar a poluição por ozônio.

Outra questão para o aumento do ozônio é técnica. A Cetesb, desde 2007, instalou uma estação para medi-lo na Cidade Universitária (zona oeste). “Este equipamento passou a captar de forma mais adequada a formação de ozônio”, afirma Saldiva.

Se, entre 1995 e 2005, a qualidade do ar melhorou bastante na Grande São Paulo, concordam os especialistas, a piora do ozônio em 2011 pode indicar uma mudança de cenário. Para Saldiva, os índices não devem melhorar mais na mesma velocidade.

TENDÊNCIA

Acostumada a lidar com os dados de poluição do ar no Estado, Maria Helena Martins, gerente de qualidade do ar da Cetesb, discorda que exista uma tendência de alta na poluição por ozônio.

“As condições meteorológicas são fundamentais para explicar o comportamento do ozônio”, diz. “No ano passado, no inverno, tivemos muitos dias com sol e sem chuva. Não há tendência clara para este poluente. Nem para um lado e muito menos para outro.”

Em compensação, a técnica do governo faz coro com aqueles que estão preocupados com os níveis de ozônio medidos na atmosfera.

Para ela, a quantidade do poluente está estabilizada em níveis inadequados. “O ideal seria que eles baixassem. São Paulo vive o mesmo problema de muitas grandes regiões do mundo.”

A receita de todos é conhecida. Além de diminuir a dependência do carro, é preciso um controle rígido das fontes de poluição. “Como estamos fazendo bastante”, diz Maria Helena, da Cetesb.

Quer dizer, ninguém fala mais em poluição das fábricas. Só dos veículos. É bom lembrar que, por mais que se exija inspeção veicular, existe a frota, principalmente vinda de cidades que não exercem esse controle, notadamente os caminhões.

Não é possível nem adequado extirpar caminhões da cidade. Eu sugeriria exigir inspeção nas fronteiras (minha opinião). Ou ainda (não tenho opinião) cobrar pedágio urbano, solução esta defendida até por renomados urbanistas.

Só que Kassab é contra pedágio urbano. Sempre foi. É por convicção, não por eleição.

Barbárie do B

Diante do uso político do acontecido no Pinheirinho, a ironia de ver agora pessoinhas indefesas defenestradas sem-mais de um pedaço de terra no Distrito Federal que só queriam para cultivar. Nem falo about. A tarefa está bem posta por Reinaldo Azevedo hoje.

Quero falar de reforma agrária e êxodo rural (sim, o termo, aparentemente antiguinho, me parece mais real do que nunca).

Começo com uma reportagem que achei esses dias. Fui parar, veja você, em matéria de CartaCapital de julho de 2011:

Levantamento inédito produzido a pedido de CartaCapital pelo Instituto Socioeconômico (Inesc), especializado no tema, revela que os gastos efetivos com distribuição de terra declinaram no segundo mandato do governo Lula – e continuam a cair nos primeiros meses de Dilma Rousseff.  Ao mesmo tempo, apesar do fla-flu que também nesse quesito divide os partidários de Fernando Henrique Cardoso e Lula, a concentração de propriedades no meio rural continua praticamente a mesma do alvorecer da ditadura. Na realidade, aumentou. O Índice de Gini, em 1967, era de 0,836 (quanto mais perto de 1,0, mais concentrado é o modelo). Em 2006, data do último Censo Agrário do IBGE, era de 0,854. (continua)

Bem, se nem o governo eleito por pregar esse tipo de perfumaria ligou para o flagelo no campo, o que será deste país?

Não que eu ache viável botar gente para plantar mandioca num pedacinho isolado de terra e todo mundo ser automaticamente feliz. Não acredito que o trato com a terra nasça com o ser humano, muito menos a competitividade. Pra sobreviver com qq. coisa, você precisa de um mínimo de aprendizado – formal ou não. Está aí o sucesso dos japas do agrião nas redondezas de São Paulo que não me deixa mentir.

Faz um tempão mostrei aqui uma pesquisa sobre a queda de entrada de migrantes em São Paulo (e toda vez que falo nisso não vá achar – pelamordedeus! -, que compactuo com preconceitos regionais ou ache que isso deva mudar por puro princípio bairrista).

É ler o que tem de ser lido na pesquisa: a migração para São Paulo não parou; apenas não é tão intensa quanto a décadas atrás.  Mas continua firme e forte.

Exigência de mão de obra qualificada e uma certa demanda em centros e regiões menos desenvolvidas. Tá. Mas isso se refere a iniciativas individuais e mais difusas.

E os movimentos (ainda) bem estruturados dos sem-terra, dos sem-teto? Eles se misturam e se movem. Veja você o povo do Pinheirinho. A moça que o Reinaldo entrevistou outro dia (dada com “morta” pelos petistas) veio da Bahia. Eu mesma vi em reportagem duas senhoras que pareciam ser do sul (RS), estado em que o MST é forte. Como eles todos se encontraram? Como decidiram ir para um mesmo lugar?

A resposta é: MST. MST que é defenestrado de outros lugares pelo PT e vem se alojar em São Paulo, onde pode fazer e desfazer, se aliar a partidos de extrema esquerda e se unir… ao PT na frente aos governos de oposição. E a massa de manobra dos miseráveis lá, fazendo tudo o que mandam, sem saber muito bem a que se prestam (no caso de SJC, foram induzidos pelos líderes alienígenas a acreditar que a situação seria regularizada), mas com uma única certeza: aqui, malgrado algum tempo de penúria, terão casa e alguma forma de trabalho. Era isso que estavam fazendo e é isso que vão conseguir.

Quando digo que a maior parte do Brasil é um fiofó, não me baseio em qualquer julgamento de gosto. É fato. O que há para um miserável, hoje, em Brasília? NADA. Não há emprego, não há casa popular, não há saúde, não há educação. Nem invasão de terra tem glamour por lá. Quer saber? Não tem nem mochila de programa do governo, coisa que a gente cansa de ver aqui em ombro de pedreiro.

Eu, no lugar deles, viria pra São Paulo. Sozinha, de preferência. A pé. E depois de uns anos de perrengue, tomaria banho direto no cano do box, passando prazerosamente a mão pelos azulejos, e sairia toda feliz e fresquinha para instalar o sifão da pia da cozinha, as torneiras e o chuveiro.

São Paulo, a mais moída e remoída do Brasil

Ou do mundo. Sei lá. Deve ser assim com Nova York, Capetown ou Uberlândia, cada uma em seu escaninho geográfico.

Só sei que, a cada aniversário da cidade, pululam depoimentos do tipo “as impressões que tive ao chegar aqui e tudo o que sofri”.

Alguns lugares-comuns nesse tipo de depoimento são a firme disposição de deixar Porto Alegre (ops, brincando!), um recém-aflorado incômodo  com condições climáticas, a rejeição suicida aos congestionamentos e a certeza-certezíssima de que é a primeira – PRIMEIRA – pessoa que aporta na cidade (claro, formada  única e exclusivamente de nativos – o paulistano é apressado, lembra?).

Ah, e por último, e não menos importante: todas essas pessoas escrevem.

A pessoa está sem amigos. Sente um vazio. Estranha as pessoas. Se ofende com a pressa. As aglomerações. Se choca com crianças abandonadas. A pessoa tenta se enturmar com o povo do Facebook e não sai exatamente carregada nos braços. Acha tudo hostil. Se enfia numa kitinete para economizar não sei o quê e começa a se revoltar pela falta do conforto que  deixou lá em (__a escolher__).

Até entendo. Chegar numa cidade onde não se tem laços de espécie alguma é difícil mesmo. Particularmente, porém, acho que isso aconteceria a qualquer um até em Honolulu, Ipanema ou Havana Velha.

Mas estamos falando de São Paulo, né?…  Aliás, estamos SEMPRE falando de São Paulo. Nunca vi alguém descascando o psico por chegar em Brasília, por exemplo.

Não sei, sinceramente, o que a pessoa esperava encontrar por aqui. As CNTP da cidade que largou? Aquela mesma cidade que era uma monotonia só, que lhe provocava ÂNSIA de largar tudo aquilo e vir se integrar ao jeito de… São Paulo? Que jeito, cara-pálida?

Pois o que se encontra aqui não são milhares e milhares de iguais?: a pessoa que saiu de sua cidade, pra batalhar aqui, que ficou amarga sei lá por que, etc.?

São Paulo tem muita gente (nativa ou não) feliz, apachorrada na cidade e vivendo uma vida “das antigas” (o ideal de tranquilidade), com tempo até de bordar, colecionar selos ou passar uma tarde primaveril procurando um cristal para a amiga de infância.

Curiosamente, ninguém olha para isso. Só olha para pessoas apressadas, chuva, carro, blá-blá-blá. Aquilo que ELA viu na tevê, que ELA imaginou na cabeça, que ELA, enfim, desejou para sua vida e buscou com suas perninhas.

Não sei, não sei. Tudo vai da cabeça, do psi naquela hora. No momento, até é compreensível. Mas ficar de depoimentinhos estereotipados décadas depois da acomodação?

São Paulo me deu tudo de bom e tudo de ruim que tenho, buááá!

Ah, vai se emendar! É você quem faz o lugar onde está, para de se fazer de vítima a vida toda!

Alvíssaras alvissareiras!

Prefeito de São José dos Campos às moscas, Comandante da PM às moscas, juiz que decretou a reintegração de posse às moscas, oficial de justiça às moscas, o governador às moscas.

Os “defensores” dos despejados do Pinheirinho (aposto que nem sabem o que foi feito deles) pousam seus olhos injetados é em cima do candidato do PSDB mais ameaçador às pretensões de Fernando Haddad na capital paulista: o secretário de cultura Angelo Andrea Matarazzo, que, aguerrido como ele só, não negou fogo. Isso aconteceu na inauguração de parte do novo MAC, e Andrea compareceu na qualidade de Secretário de Cultura.

Tendeu, né? Os manifestantes foram atrás DELE, que não tem nada que ver com o assunto.

PS.: Em seu Twitter, Andrea Matarazzo afirma que a criatura CUSPIU nele.

Assim, sendo, pode-se inferir que os militantes petistas já definiram que Andrea Matarazzo é uma AMEAÇA a Fernando Haddad em São Paulo.

Ótimo sinal!

  • Foto (Estadão, Paulo Liebert, AE): É nova pra mim essa coisa de esquerda com excesso de quota-alimentação. No socialismo que me disseram, o certo era dividir a gororoba igualmente. E Andrea tem de se cuidar, porque o próximo passo pode ser um sarrafo, como bem sabia o saudoso Mario Covas.

PS2>: Aqui o vídeo, onde se nota claramente que o grupo esteve lá apenas para poder cercar Andrea Matarazzo.:

Nossa inutilidade em Londres

Vocês lembram do rapazola que botou o dedo na cara de Andrea Matarazzo no Twitter tomando satisfação sobre “seu trabalho em Londres”?

Na época (semana passada), expricamos aqui que o phopho ouviu o galo cantar e só, como todo bom cidadão que espinafra uma gestão em busca de uns caraminguás na outra.

Na verdade, quem passou seis meses em Londres foi o Walter Feldman, deputado e, na ocasião, Secretário Especial de Organização de Grandes Eventos (Prefeitura de SP), estudando a preparação da cidade para a Olimpíada de 2012. Entregou seu relatório a Kassab em dezembro, e há cópia para Alckmin e Dilma. É um estudo abrangente, coisa de gente adulta, e não só segredinhos para São Paulo aproveitar a ocasião.

Pois bem. Enquanto cuspia em Andrea Matarazzo e falava mentiras sobre a desocupação do Pinheirinho, o adiposo rapaz deixou passar essa verdadeira pérola, saída da cabeça dos assessores do governo Dilma. Do Claudio Humberto de hoje:

Detalhe detalhudo: olha a pinta urbana do contorno de Primrose Hills, que catei quase aleatoriamente no GSV:

Pousé. A gloriosa Embratur quer transformar este bairro londrino numa espécie de Taubaté, enfiando no parque (à esquerda da foto) um Cristo Redentor calango, de 9 metros de altura, pra todo mundo tropeçar e não esquecer nunca que a ideia, ó, foi nossa!

Agora, eu gostei mesmo foi do nome do escritório contratado: See Me, Hear Me, Feel Me Ltd. Corporation Inc. Alude a uma música da ópera-rock Tommy, estou certa?

Nem página na internê o troço tem. A Embratur também não diz quanto vai custar a brejeirice.

Será que o dono desse escritório de design é inglês mesmo?

O gosto amargo da crítica

Ontem à noite Globonews (“Jornal das Dez”) chateadinha com as palavras duras usadas na imprensa internacional sobre a tragédia no Rio.

Aqui, no texto de O Globo, um resumo dos vários jornais internacionais sentando a lenha na vecchiaia e na falta de manutenção das edificações do Rio.

Antes, uma reportagem sobre as maravilhas do recém-implantado Centro de Operações (apesar de os bombeiros terem chegado 15 minutos depois). E depois, pra compensar, uma estocadinha nos defeitos no controle urbanístico em Nova York.

Então, é algo assim: vejam como estamos nos esforçando, e vocês vendo tudo de fora, nos julgando cruelmente.

Acepipes para o Rio sentir na pele o que é se dispor a trabalhar por uma cidade melhor e ninguém reconhecer.

Imagine agora se o problema da imagem do Rio não fosse a Olimpíada ou a Copa: fosse apenas uma questão política, uma sanha furreca do partido do governo federal em arrombar na marra a cidade e o estado: eis aí a jaca em São Paulo. Tendeu?

Vamos combinar uma coisinha: Rio de Janeiro é uma cidade linda e cosmopolita; e São Paulo, também linda e cosmopolita, tem serviços públicos e particulares muito avançados em relação ao resto do país (inclusive diante do Rio).

No entanto, as duas únicas metrópoles – na acepção ampla da palavra – do Brasil estão no Brasil, ou seja, pertencem a um país ATRASADO, feito de pessoas atrasadas e ignorantes. Não é culpar A, B ou C. É um conjunto da obra malfeita, que atinge desde o desabrigado da chuva até o empreendedor inescrupuloso.

Prédios fortes, prédios mais ou menos (estruturas que vão rareando à medida que os andares se tornam mais altos – isso existe!), até os molambos sem fundação e os gloriosos prédios de areia da praia do Sérgio Naia, eis aí o resumo de nossa habitação.

Essas grandes reformas urbanas, os avanços que tentamos fazer aqui, abertura de grandes avenidas, retrofit, reformas educacionais, uso de sacolas compostáveis, revitalização de áreas centrais, pensar e executar o urbano e o social, e tal, isso a Europa já fazia nos séculos XVII e XVIII, seguida com discreto atraso pelos EUA.

Enquanto São Paulo, no século XIX, ainda se via às voltas com tropeiros e poeira, Paris e Londres, por exemplo, dedicavam os miolos a superar em luxo e beleza suas arcadas (centros de compras envidraçados, os avós dos shopping centers).

E imagina quantas vezes as cidades europeias pensaram e agiram em relação a suas condições de esgoto, limpeza de rios, fiação, edificações?

Sentiu o drama? A gente está sempre atrasado.

Com a agravante de que ninguém no Brasil precisou inventar a roda. Sempre tivemos à mão os exemplos bem-sucedidos de soluções em países mais desenvolvidos/antigos. Não temos nem o trabalho de pensar a partir do nada.

Os problemas são os mesmos onde há grandes aglomerações não cuidadas. Isso não é vergonha, acontece com todo mundo. Para consertar, é só adaptar para a realidade brasileira o que deu certo.

Lembram do Joelma e do Andraus? Pois é, a gente é movido a cadáveres. Foi a partir dessas duas tragédias que implantamos, não só em São Paulo mas no Brasil todo, normas bem boinhas de segurança contra incêndios.

Tomara Deus que o Edifício Liberdade vire uma legenda e igualmente alavanque um movimento: que cada prefeitura e que cada proprietário/inquilino tome a peito e para si a tarefa de fiscalizar/zelar não só pelo seu espaço particular, mas pelo entorno, pelo comum, pelo coletivo.

Com Copa ou sem Copa, com Olimpíada ou não, com eleição ou não: pela gente mesmo.