Dom Pedro I: é nóis

Domingo de segundo turno em São Paulo, e eu já saí da fase tromba. É a função libertadora/catártica de apertar o botãozinho do foda-se.

Não, não vou fechar este blog, não. Desde sua humilde inauguração, me dei a tarefa de uma postagem por dia – índice alto para a média de blogs amadores -, mas não ando conseguindo conciliar. Afinal, tenho outras coisas a fazer, outros projetos. Posto de vez em quando, quando a ocaião exigir – muito.

Tentei, desde o começo, fazer ver uma realidade da cidade que, moléstia à parte, não aparece muito na grande imprensa.  Isso esteve muito relacionado a dois fatores: 1) um tipo de gestão que me agrada: a técnica, aquela da qual ninguém entende e não faz muito esforço pra entender; 2) o caráter do povo paulista e, especificamente, o paulistano.

Estou, aos trancos e barrancos, tentando ler A carne e o sangue, de Mary del Priore, sobre dom Pedro I, Leopoldina e Domitila. Coincidência ou não, vai um trecho de quando dom Pedro se aproximava de São Paulo para pôr fim à revolta da bernarda. Apesar de bem recebido e das adesões ao longo do caminho, no Vale do Paraíba e tals, receava um atentado em  São Paulo, por conta dos revoltosos de Francisco Inácio. Apeou na Penha e mandou dois assessores na frente para ver como estavam as coisas na capital da província. Um deles era Francisco de Castro Canto e Melo. O outro, Francisco Gomes da Silva, o Chalaça, que testemunhou:

O entusiasmo dos habitantes foi extraordinário; não se podia esperar tanto. Eu consegui informá-lo a tempo de tudo quanto ocorria e pintar à Sua Majestade o estado de espírito público. Em verdade, a provícia o idolatrava porque via nele um príncipe ativo, endurecido nos trabalhos, incansável, generoso, amante da liberdade brasileira e quase filho do Brasil. […] A população de São Paulo, sem querer deprimir nenhuma outra do Império do Brasil, é vivíssima, penetrante e entusiasta; não podia deixar de olhar o Sr. D. Pedro como a mais firme âncora de segurança para a nau do Estado; porém no meio de afetos de amor e admiração transluzia com toda a clareza o sentimento de independência [do país]. (p. 77)

Veja você. Isso foi há quase duzentos anos. De lá pra cá tivemos na cidade governantes das mais variadas correntes políticas. A maioria deles acabou contribuindo, de uma forma ou de outra, bem ou mal, para o que temos hoje.

Não poderia fazer um levantamento de pronto. O que tenho de cabeça são alguns fatos das últimas gestões PSDB-Kassab:

São Paulo é a capital menos violenta do país.

São Paulo é a cidade para onde vêm todos os brasileiros (e até estrangeiros) que precisam tratar de problemas complexos de saúde.

São Paulo (cidade e estado) ganham com folga no ranking das melhores estradas do país.

São Paulo continua recebendo todo mundo. Hoje, se não é para morar, é para ganhar dinheiro.

São Paulo continua enviando a maior porcentagem de impostos para o governo federal, e é um dos que menos recebe de volta.

Costumo dizer que de dez em dez anos os paulistanos sofrem um espasmo e acabam elegendo uma tranqueira que não tem nada que ver com o que se entende por paulistanidade. Depois veem a jaca que fizeram e voltam ganindo para os mesmos de sempre.

Foi assim com William Salem, Jânio Quadros, Luiza Erundina, Celso Pitta, Marta Suplicy – e hoje veremos se a frequência esquizoide se mantém. São entes que, se não metem a mão no dinheiro, tentam mudar tudo conforme suas “novidades” retumbantes, na base do tão russomaniano “agora vai, agora todos serão felizes aqui” – como se não fôssemos. No meio disso tudo, demandas de um povo misto, que se divide entre o alto grau de exigência e a “mão errada” dos sem-noção, aquilo de exigir o descabido.

Como se cada indivíduo que escolheu esta cidade pra viver necessitasse urgentemente de um tapete vermelho – a cidade rycka – pra solver suas vidas. Isso EXISTE. O exemplo mais recente foi a promessa haddadiana de exigir para os hospitais sob as OSs a mesma qualidade de um Einstein, de um Sírio. Isso mesmo que você entendeu: não basta bom atendimento médico. Tem de ter as mordomias dos melhores hospitais do país. Essa cretinice colou. Coloquem esse item para as próximas eleições: o luxo como direito a ser fornecido pelo Estado.

São Paulo é o que é. Tamanha, que simplesmente não dá tempo de alguém detoná-la por completo.

Quatro anos é muito pouco. Sejamos pacientes.

Quanto a mim, estou plantada aqui, levando a vida. Bocejarei muito nos próximos tempos, e só me moverei de verdade se tentarem tirar de nós os restos mortais de dom Pedro.

Sugiro o mesmo a você.

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14 comentários em “Dom Pedro I: é nóis”

  1. Cuidado, Lets, esses caras andam se esmerando nas melecas que aprontam. Quanto aos sindicalistas, espero que eles recebam como pagamento de sua participação, uma banana federal, como receberam muitos funcionários federais que entraram em greve. De resto, ainda não consegui me recuperar da notícia: estamos abaixo do AZERBAIJÃO em termos de educação. E eu chamava esse rincão de Zâmbia, devo estar ofendendo profundamente esse valoroso povo africano.

  2. Eu, pelo visto, não recebi tudo o que merecia. Devo ter jogado muita pedra na Cruz( peguei duas vezes a fila…).
    Vivo em Santo André 98% do tempo, então, perdi duplamente.
    Eu não suporto o Lula, mas a sua ideia de utilizar essas caras novas e levar debaixo do braço já deu certo duas vezes. Triste será se isso acontecer daqui a dois anos. Já estão trabalhando o nome do Padilha e ouvi falar no Marinho, também. Acredito que deva vir muito dinheiro nesses dois anos para ajudá-los na concretização desse plano. Veremos.
    Vai ser duro dormir esta noite…

  3. Pois é, Letícia. Já sobrevivemos a Marta, não é? Quem sabe a oposição não aprende com tudo isso. Em 2014, continuando nesse marasmo, podemos sim perder o estado para o Pt. Mas veja que também pode estar em gestação uma aliança forte com o PSB para tirar do Pt o governo federal. É difícil? Claro que é. Só que o lula trabalhou como um camelo para tomar de assalto a cidade de São Paulo. Os nomes mais fortes da oposição precisam dessa mesma disposição.

  4. São Paulo enquanto município já está numa fase de existência em que muitas coisas andam sozinhas e funcionam independentemente do governante. Senão, analisemos os últimos 28 anos: Janio, Erundina, Maluf, Pitta, Marta, Serra, Kassab.

    Só se pode dizer que teve bons administradores com Serra e Kassab, porque Jânio e Erundina foram uma ironia do destino, Maluf foi voto de protesto, e Pitta foi um desastre que culminou em Marta eleita. Serra e Kassab, mesmo com seus muitos defeitos, saíram do trivial e colocaram idéias em prática. É como almoçar sempre o trivial feijão, arroz e bife com batatinha, e de vez em quando passar para um prato francês elaborado por um “chef”: você vive bem comendo qualquer deles, mas com o chef, experimenta novas sensações. É mais ou menos assim que encaro: SP funciona independentemente do “chef”, mas quando o “chef” é bom ela agrega qualidade!

    Se olharmos bem, a cidade de São Paulo sobrevive, é forte porque é pujante, está acima dos governantes.

    Porém, não vou aliviar: a derrota foi muito mais do José Serra do que do PSDB ou mesmo da cidade de SP. Um político que já foi prefeito, governador, senador e ministro, com a idade de Serra, tem a obrigação de saber que já está numa fase em que seu índice de rejeição é imutável e foi isso que quebrou suas costelas nesta eleição. Ele devia ter apoiado uma liderança nova arejando o partido e preparando caminho para 2014, mas insistiu em um projeto pessoal, com essa desculpa tola do “quem, se não eu?”. E se insistir nisso, vai prejudicar ainda mais o partido. Serra deveria tomar o caminho do legislativo, como deputado federal, por exemplo e levar toda sua experiência para discutir problemas nacionais, mas se continuar insistindo em ser cabeça, quando o corpo pede idéias novas, vai continuar causando derrotas como esta. Se o PT consegue construir um candidato do nada como fez com Dilma e Haddad, o PSDB também consegue e nomes não faltam, como, por exemplo, Andrea Mattarazzo, é questão dos caciques darem lugar aos índios…

  5. Acho que vai chover dinheiro pois o pt quer o Palácio dos Bandeirantes custe o que custar. O dinheiro choverá mas não para obras tocadas pelo governo do estado. Metrô e cptm ficarão sem um tostão e veremos a culpa dos engarrafamentos recair nos “pedágios tucanos” no rodoanel… Duro de engolir. Sem contar com a campanha pelo indulto do jose dirceu…

  6. Vários recados foram dados pela população à classe política brasileira.
    Senão, vejamos: o Nordeste – reduto até então considerado cativo pelos petistas através das bolsas assistencialistas – parece que começou a acordar e desabafou nas urnas. O lulismo perdeu em todas as grandes capitais onde já governava. Luz amarela piscando para 2014? Quem sabe…
    São Paulo é um caso à parte. Serra é como aquele jogador que não sabe quando parar.
    Cometeu erros crassos ao subestimar a inteligência do eleitorado. Sair na metade de mandato para seguir vontade megalômana de poder foi apenas um deles. Cumprir promessas é primordial a um bom político.
    De resto, a “oposição”, representada pelo PSDB cumpriu seu papel da forma mais abúlica possível.
    Seus líderes nunca foram tão letárgicos como agora.
    Aqui em Curitiba, Richa ao permitir a saída de Fruet de suas fileiras, atirou nos próprios pés. O governador deixou escapar um vitória certa no 1ºturno ao jogar seu antigo companheiro às feras. Fruet foi eleito por méritos exclusivamente pessoais, não de partido ou aliados eventuais. Retribuiu a desconsideração do governador com um tapa de luva numa estrondosa vitória.

  7. Bem, o eleito já disse que é um poste, o segundo poste e nominou o dono do poste.
    Cada um tem ou é o que merece ter ou ser, não é verdade? Há desvios no meio do caminho, porém, chamar-se, orgulhosamente, de poste depois de vencer uma eleição municipal na maior cidade do País, mostra um pouco do que pode vir por ai.

    Depois na discurseira falar em “derrubar o muro da vergonha”. Oras, qual é o “muro da vergonha” aqui em São Paulo? E se ideologicamente ele for o que tenta fazer parecer que seja, elogiaria o “muro da vergonha”, que foi derrubado por democracia, a rigor. E pela falência do comunismo, também a rigor.

    Não adianta mais falar em equívocos do PSDB, o que deverá fazer, o que deveria ter feito. De todo modo, caso fosse para fazer algo, seria derrubar a abstenção em São Paulo, que foi elevada, 20%. Mais que isso…
    E nem de acertos de quem se julga o dono do País e perdeu Manaus e Salvador, além Belo Horizonte, Fortaleza…E pelo que aparenta estaria gestando mais um poste.
    O fato que conta, mesmo, é que ontem foi dada a largada para o Palácio dos Bandeirantes em 2014. E os cofres da prefeitura parecem estar bem.

  8. Pois é. Em Sampa não foi Haddad que ganhou. Foi Serra que perdeu em consequência de sua alta rejeição junto ao eleitorado.
    Por ilação, caso Lulla tivesse eleito o “poste” na principal capital do país, teria conseguido vencer também nas capitais nordestinas. E não foi o que aconteceu.
    Nem em Diadema, reduto sindicalista, Lulla teve influência.
    Felizmente a estrela está em queda flagrante. Aguardemos.

  9. Na verdade,o Serra esteve sozinho na campanha e,cometeu os erros de sempre.Ficou a maior parte do tempo sob ataque e na defensiva.O PSDB participou pouco,até o José Anibal(ressentido) detonou a gestão kassab,fogo amigo,muito amigo.Quem perdeu foi o Serra,o kassab não. O Haddad detonou a gestão Kassab durante a campanha e, ao mesmo tempo, negociavam uma aliança caso o Haddad fosse eleito. Parece que o Kassab terá um ministério.Quem perdeu?O PT terá que despejar dinheiro em SP,não será fácil cumprir as promessas, pelo menos nosso dinheiro virá de volta,se serve de consolo.Outro novo com os velhos métodos,o tal de Chalita,passou o primeiro turno dizendo das deiferenças entre PT/PSDB ,e que as piquinhas entre ambos atrapalhava SP.Muito bem,convenientemente aderiu um lado das piquinhas.Também terá sua boquinha.Querem apostar que a violência em SP irá diminuir e voltará em 2014?Aguardemos.

  10. Leticia minha querida, já estamos em fim de feira em relação á prefeitura, pois os camêlos estão retornamdo com força total a todas as ruas e avenidas antecipamdo a liberação petista. Eles tem como certa a ocupação do espaço público por todos. Afinal votaram no “poste” para que as calçadas, ruas e parques se tornassem um grande mercado, pois os “pobres” precisam trabalhar para não sairem cometendo ílicitos.

  11. Iolita, ouvi também sobre invasões de prédios fechados no centro. Como ele prometeu reformar os prédios e entregá-los aos pobres, os eleitores tradicionais do pt já estão invadindo suas futuras residências. Uma pena. Vamos ver no que se irá transformar isso, mas as previsões são péssimas. Já estou com pena da cidade.

  12. Dulce, digo que já recebi o que merecia por conta de prejuízos profissionais em virtude de minhas posições. Brasil, uma colônia. Quanto ao governo estadual, opções não faltarão. Teremos o que escolhermos, essa é a realidade (ando nessa vibe. Sobrevivência…)

    Claudio, sabe lá como estará o panorama federal em 2014? Tudo muda, e o PT não está imune a essa realidade.

    Fábio, sabe que Pitta foi voto de protesto também? Contra Erundina…

    Schu, eu acredito que o Brasil anda por caminhos paralelos. Não creio que haja governantes que mudem radicalmente a realidade de uma região. Lula não fez nada pelo Nordeste. Nem por região alguma. O governo federal, do jeito que é, faz muito pouco por quase ninguém.

    Dawran, sempre discordei – inclusive de vocês – das críticas ao desempenho do PSDB. É como meu pai diz, “briga com vizinha barraqueira a gente sempre perde”. Não dá pra achar que todo mundo deva adotar as mesmas práticas do PT. Se eles são desonestos, gritadores e sem-vergonhas, que sejam. Não podemos todos nos comportar como os seguranças do Genoíno, não é mesmo?

    Schu, a rejeição de Serra é fruto de DISCURSO. Só. Serra é excelente, do alto dos seus 70 anos. Quem viu, viu. Quem comprou ideia alheia que pague agora.

    JCM, a partir de agora SP será um deslumbre de modernidade, criativiodade, desenvolvimento e paz. Quanto à segurança, não sei, não, pois é estadual. Mas Haddad já deu mostras de que jogou suas promessas para o alto. Bilhete Único Mensal já foi pro espaço, Controlar “grátis” tb. Bobo de quem acreditou.

    Iolita e Claudio, aqui na Vila Madalena já vi camelô novo ontem. A área era privatizada por uma velhinha que vende coisas de crochê. Agora tem um cara vendendo óculos de 20 reáu. Se na área do Metrô não se podem instalar camelôs, eles se espalharão subindo a Heitor Penteado. É isso. É o que o povo escolheu.

  13. Leticia, o PSDB vem comportando-se mal, politicamente, desde as eleições de 2002. Depois daquela, nunca mais encontrou a gana de vencer e a energia administrativa que foi mostrada na estabilização da economia em 1994. O que aconteceu, sabe-se lá. Mas, não significa que Serra seja um mau administrador. Comprovadamente não o é. E não isso que o derrotou. Concordo que foi derrubado por discurso e falta de empenho de muitos. Não por ser pior do que o “novo”. Como pode o “novo” falar em derrubar a taxa de inspeção veicular ainda em 2013? Em 2013, estará governando com o orçamento do Kassab com essa receita já prevista. E pela LRF, deixar de gerar uma receita, tem de apontar onde vai cortar para equilibrar as coisas. E ainda, isso dependeria de deliberação legislativa.
    Zero em administração pública e em finanças públicas. Serra jamais cometeria um erro besta destes. Já o bilhete único mensal, para que serviria isso? Qual a grande sacada que o velho cérebro aqui ainda não capturou?
    A diversão promete ser séria e muito nos próximos 4 anos.

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