Já não se fazem mais novos ricos como antigamente

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Ir a cemitério não é necessariamente algo fúnebre. Há vários aqui em São Paulo que, por suas obras e história que (hãã…, hum…., não tenho outra palavra:) encerram, foram tombados pelo patrimônio histórico.

O Cemitério da Consolação não foi o primeiro da cidade, mas é o mais antigo de uma fase que a memória municipal pôde resgatar inteiramente. Ele foi criado em 1858, em um terreno beeeeeem longínquo, doado pela marquesa de Santos. Essa foi a solução para um problemão que incomodava a cidade (que se resumia à região da Sé): o contingente de vivos e mortos crescia, mas os ricos continuavam sendo enterrados nas Igrejas, e a patuléia continuava indo para um cemitério meia-boca na baixada do Glicério. Resultado: já não havia mais condições de convivência entre seres de hábitos tão diversos.

E assim o Cemitério da Consolação virou o “Getsêmani” do tempo do Império. Lá estão desde a própria marquesa de Santos até Monteiro Lobato, passando, é claro, pelas famílias de imigrantes que chegaram com uma mão na frente, outra atrás, e que aqui acumularam suas fortunas. São elas (as famílias e as fortunas) as responsáveis pelos túmulos mais bacanas, elaborados por artistas como Galileo Emendabile e Victor Brecheret. Naquele tempo, ter origem humilde não significava necessariamente ser um ignorante.

O túmulo da foto foi um dos primeiros a retratar um tema não religioso. Baseado no mito de Orfeu e Eurídice, foi elaborado por Nicola Rollo para a família Trevisioli. Data de 1920, e tem sido muito bem cuidado desde então.

O cemitério está tombado, mas as mortes continuam, firmes e fortes. Desde que não se modifique o andar dos vivos, a movimentação pode correr solta no andar de baixo.

Mas quanto glamour, hein?

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Outro dia eu e minha amicíssima Raquel finalmente adentramos, gloriosas, a nova Livraria Cultura, a melhor do país. Ela funcionou durante décadas neste edifício, e foi se expandindo em pequenas lojas no térreo.  Até que seu dono, o Pedro Hertz, deve ter perdido a paciência e resolveu montá-la em uma só área, na sobreloja, perfazendo um total de uns três andares. Ficou bonito, é verdade, mas deve ter acanhado muito freqüentador que preferia o “antes”: já era antiguinho, já fazia parte do hábito.

O fato é que o Conjunto Nacional continua sendo justiçado pela sua localização e pela arquitetura lindíssima. O Fasano saiu de lá. Mas a Livraria Cultura, eu e Raquel não. É isso que importa.

  • Foto: Avenida Paulista, Conjunto Nacional, 1957 – Copyright Agência Estado.

Você comprava? Nem eu

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Se dependesse apenas de uma preferência pessoal, tudo bem. Afinal de contas, tem gosto pra tudo, e compra quem quer. Mas o que me incomoda é que não há, no Brasil, nenhum código de posturas, nenhuma lei de zoneamento, de urbanização para coibir uma coisa dessas. Onde já se viu a criatura ser dona de um imóvel desse porte e deixar chegar nesse estado? Sei não, mas a Prefeitura poderia resolver isso em dois dez:  tem problema de espólio que se arrasta há anos, não tem vontade ou não tem mais condições de manter um prédio? É obrigado a vender. Ponto. Ou então a prefeitura desapropria. O que não dá é a gente passar vergonha com esse tipo de coisa, ainda mais em uma rua importante como a Domingos de Morais. Tá todo mundo vendo, pô! Que vexame!

O balato sai calo

Volta e meia todo mundo – mas todo mundo mesmo – dá uma passadinha no que chamo de “La garantia soy yo” lá da Paulista. Lá você encontra tudo para incrementar a parafernália eletrônica do dia-a-dia, a preços que realmente democratizam o acesso digital. É um verdadeiro parque de diversões para empresários bem-sucedidos, motoboys, mães zelosas, peruas e estudantes que só se relacionam com o mundo através de um celular.

Mas há que ser ter certas manhas. Se você pedir, sei lá, um cartão de memória, e a coreana te mostrar um saquinho cheio deles, sem embalagem nem nada, dê uma desculpa qualquer e circule. Vá comprar em outro stand. Levar material usado e mais balato acaba saindo calo. Exija a embalagem. E mais, o cartãozinho da loja. É o termo de garantia mais confiável e rápido da cidade.

Oscar Rodrigues

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Esta foto eu tirei por esses dias. O prédio chama-se Oscar Rodrigues e fica bem no início da avenida São João, na sequência dos Correios, numa das regiões mais degradadas de São Paulo. É uma pena, porque o edifício è bonito à beça.

Ele diz muito para mim. Meu avô teve escritório na sobreloja por muitos anos, lá pelas décadas de 30, 40. Ele era tradutor juramentado e por conta disso conhecia toda – toda – a colônia húngara de São Paulo. Algumas salas acima havia o consultório de um amigo dele, o dr. Eugênio Halazs, que (muitos anos mais tarde, façavor!) assistiu minha mãe durante a gestação e parto dessa que vos fala. Como vocês podem perceber, já freqüentei o dito-cujo, coisa que não dá pra fazer hoje. O ambiente e o comércio da área são suspeitíssimos. Este e os demais prédios, tão lindos quanto, estão degradados, e nem Deus sabe porque ainda estão lá. A área fica muito, mas muito perto de outros locais que estão dando a volta por cima da decadência: com prédios restaurados, bem utilizados, com policiamento e turistas despreocupados. Minha esperança é que o “novo” centro velho avance, rapidamente, e consiga atingir esse quarteirão.

As placas do Kassab

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Essa história de o prefeito Kassab querer fazer um limpeza no visual da cidade está causando muito estranhamento por aí. A gente dá um passeiozinho de nada e percebe que nem todo mundo se curvou à nova lei, ou que há donos de comércio que simplesmente têm vocação para a preguiça, para a economia besta e para uma porcariada básica. Tiradas aquelas placas horríveis, de alumínio ou de plástico costurado em estruturas, descortina-se um visual dantesco que, se a gente agir politico-corretamente, nunca mais põe os pés naquele estabelecimento. É óbvio que muita gente se ajustou, e é óbvio que os estabelecimentos mais modernos, cujo dono geralmente tem um pouquinho mais de informação e consciência, não precisaram mexer um milímetro em seus projetos.

Mas o enquadramento é necessário, e tomara que isso perdure. A cidade ficará mais civilizada, igualzinha àquelas localidades européias que a gente gostaria taaaaanto de ir e não sabe bem o porquê.

  • Foto: Banco Itaú, rua do Riachuelo, Centro de São Paulo. A cor do prédio é horrorosa, mas essa é outra história.

Beco é beco

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Os becos sempre foram lugares convidativos. Ninguém pode dizer que a história dos becos seja coalhada de imagens primaveris e da mais alta urbanidade, não é mesmo?

Pois é. Essta foto é do beco mais afamado da cidade. Fica na atual rua Roberto Simonsen, na Sé, espremido entre duas casas bem antigas. A da direita é o Solar da Marquesa de Santos. Ela morou aí depois de ter de se afastar de dom Pedro I. Como se sabe, um dos pré-requisitos para que dona Amélia de Leuschtenberg se enfiasse em um navio e desembarcasse no Brasil para casar com o Impedaor era que esse lavasse sua vida amorosa com ácido muriático.

Assim foi que a marquesa se mandou de volta para São Paulo. Instalada no solar, uma das primeiras medidas de dona Domitília foi comprar uma briga para que se fechasse o tal beco. Era um comunho barulhento, sujo e malcheiroso. Ela conseguiu, mas sua luta não parou. Caminho natural para pescadores, lavadeiras e carregadores de água, o beco era uma mão na roda para quem precisava transitar entre as partes alta e baixa da cidade e exercia uma intensa sedução em quem não queria andar muito para descarregar tonéis cheios de dejetos noturnos.

Mas a marquesa não foi a primeira a protagonizar essas brigas em torno do beco. O antigo dono do solar, o brigadeiro José Joaquim Pinto de Morais Leme, era um grande criador de caso. Chegou até a avançar em um pedaço do beco, para impedir a passagem de carroças, e vivia à turras com o vizinho do outro lado, o padre João José Vieira Ramalho, por causa do mesmíssimo beco.

O fato é que a passagem vivia abrindo e fechando por ser um grande depósito de lixo, entulho e barulho. Hoje está fechado. Acho que pelo mesmo motivo.