Pesquisas eleitorais – tenho uma teoria

Ontem, aguardávamos os números do Datafolha, que acabaram saindo à tarde: Russeaumânnico despencou para 30%, Haddad foi de 15% para 18% e Serra foi de 21% para 22%. Números bem diferentes do Ibopte e do Vox PTopuli, que chegaram a animar petistas acenando com empates, ultrapassagens fantásticas, e tal.

Bem, mas não é disso que quero falar. Tampouco do fato de um instituto ir catar pesquisa na região A, B ou C de acordo com a “penetração do candidato” que lhe paga.

O que me intriga é certa distorção em São Paulo, por mais que a pesquisa possa ser honesta. Eduardo Odloak e Reinaldo Azevedo fizeram  levantamentos dos erros do Ibope nas últimas eleições, mas ainda não é disso que falo.

Questão que sempre me vem à mente a cada eleição e que nunca tinha ido atrás, e que considero importante numa cidade como São Paulo, é como são feitas as pesquisas. Ontem finalmente fui fuçar no Datafolha (porque, sinceramente, não me interessam as salsichas do Vox Populi). E encontrei uma explicação “chave” para minhas especulações:

8. Qual a diferença entre fazer entrevistas por telefone, pessoalmente nos domicílios ou pessoalmente em locais públicos?

É inviável realizar pesquisas eleitorais telefônicas no Brasil que sejam representativas do total do eleitorado já que apenas 40% dos brasileiros possuem linha telefônica fixa em casa. Por isso os institutos abordam os eleitores pessoalmente. O instituto opta por fazer essa abordagem nas ruas pois não há como ter completo acesso à residências localizadas em condomínios, edifícios ou favelas respeitando todos os procedimentos necessários. O método do Datafolha pratica a checagem simultânea dos questionários no momento das entrevistas e, posteriormente, por telefone. Além disso há uma checagem comparativa dos dados de cada pesquisador e de cada ponto pesquisado entre outros processos de segurança e consistência dos dados. Uma das vantagens desse método é a agilidade da coleta aliada ao rigor metodológico, atributo importante para acompanhar a dinâmica dos processos eleitorais, característica marcante do Datafolha. (aqui)

Então, confirmam-se as suspeitas: as pesquisas são feitas na rua. Se no Viaduto do Chá ou nos Jardins, se na Berrini ou na avenida Jacu-Pêssego, quase não interessa. O que interessa é o elemento “rua”.

Ora, no quesito pedestres X motoristas, São Paulo tem definições bem marcantes. Há “desvios-padrão” como eu, que tenho carro mas gosto de fazer as coisas a pé, caminhar e tals, mesmo que seja mais adequado, em certos momentos, usar o carro. Mas basicamente há os que usam carro e os que não usam carro. Os que não usam carro provavelmente é porque não o têm, ou preferem não usá-lo para ir ao trabalho rotineiramente; e os que usam carro o tempo inteiro o fazem de maneira bem hard: passam o dia dirigindo pra lá e pra cá, usam estacionamentos, enfim,  não andam na rua.

Precisaria saber o horário em que se dão as abordagens das pesquisas. Hora do almoço, por exemplo, seria uma chance de abranger pessoas que usam carro. Mas não sei se o Datafolha leva em conta esse aspecto. Também é difícil de mensurar a partir de um quesito desses, já que São Paulo não é canteiro de obra pra todo mundo almoçar à mesma hora.

Enfim. O que quero dizer é que pesquisas na rua, por menos piores que sejam, excluem uma boa parte da população que está inacessível em seus automóveis, em suas empresas, em suas academias, em seus shoppings, em suas reuniões, em seus cabeleireiros com valet, em seus restaurantes com estacionamento próprio, em seus “hooooumm officss” (EU!!!).

Se é verdade que há certa preferência por tipos de candidatos de acordo com a “distinção social” do eleitor (ver mapas eleitorais antigos), isso significa que pesquisas eleitorais, notadamente na cidade de São Paulo, são limitadas por um virtual portão imponente, com segurança Haganá e tudo.

É esse povo, protegido por seu modo de vida, o responsável pelas surprises pós-urnas.

P: Essa casa é sua? R.: Sim

A urbanista Raquel Rolnick é o tipo de analista que me provoca os instintos mais dúbios. As vezes gosto, às vezes não. Reconheço nela um valor acadêmico bem bom, mas várias vezes senti sua pesquisa talhada por laivos ideológicos um tantinho além da conta. Mas, enfim, quando a coisa se mostra coerente…

Então segue o texto, publicado inicialmente em YahooBlogs e reproduzido em seu próprio blog. Trocando em miúdos, Dilma e o PT querem, na marra, transformar o Brasil num paraíso. Uma nódoa para o futuro do IBGE, que virou casa da sogra:

Casa própria de quem, cara pálida?

27/09/12

Na semana passada, alguns veículos de comunicação estamparam em suas manchetes a informação de que 75% dos domicílios brasileiros são próprios. O dado foi retirado da última Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), divulgada recentemente pelo IBGE.

Os dados da PNAD mostram que 75% das pessoas entrevistadas responderam que compraram ou herdaram as casas ou apartamentos onde moram. Essa é a única conclusão que podemos tirar. Isto porque o fato de as pessoas dizerem que compraram ou herdaram as casas onde moram não significa que estes imóveis são “propriedade” destes moradores e que eles tenham legalmente assegurada sua posse.

O universo das moradias “próprias” em nosso país inclui um número X, desconhecido das estatísticas brasileiras, de moradores em favelas, loteamentos irregulares ou clandestinos. Além disso, este universo inclui também um sem número de situações de posse, muitas delas, por décadas e gerações, não formalmente tituladas no nome da pessoa, família ou comunidade que ali vivem. Muitas vezes, no conjunto dessas situações, estas pessoas pagaram para morar nestes locais e por isso respondem que a casa é “própria”.

Por incrível que pareça, embora tenhamos institutos de pesquisa e estatísticas consolidadas e confiáveis, simplesmente até hoje não sabemos quantos domicílios estão nestas condições. Em 2008, a pesquisa do Perfil dos Municípios do Brasil, realizada pelo IBGE, perguntou a cada um deles se possuem favelas ou loteamentos irregulares ou clandestinos. De um universo de 5.564 municípios, 33% afirmaram possuir favelas e 53% disseram ter loteamentos irregulares ou clandestinos. O total de municípios com alguma dessas ocorrências ou com ambas foi de 61%.

As favelas, ocupações e loteamentos irregulares aparecem também nos cálculos de “déficit” habitacional — em referência quase sempre à inexistência ou precariedade da infraestrutura nestes locais. Mas a pergunta que não quer calar é: afinal, quantos são os domicílios, que por ter uma condição de posse distinta da propriedade registrada em cartório em nome de seu possuidor, de alguma maneira estão imersos em uma trama de ambiguidades em relação ao pertencimento da casa e da terra onde habitam?

Ao anunciar que no Brasil 75% dos domicílios são “próprios”, o IBGE esconde — e isso não ajuda nada — o imenso conflito que ainda é no nosso país questão da posse da terra.

A vivissecção do paulistano, ou “Sua avó votou no Jânio”

Olha, com a surprise de Celso Russomanno encarapitado lá nos 35% de intenção de votos, quebrou-se o modelito de pensamento press-release nacional e os analistas tiveram de dar tratos à bola pra escrever alguma coisa tentando explicar a parada.

Daí fez-se o furdunço jeca: uma enxurrada de artigos “abalizados”, até de gente que nem mora aqui, nunca pegou o metrô e só conhece a Zona Leste a partir da marginal Tietê, resolveu passar o bisturi no povo paulistano, esse ET de Varginha do entendimento nacional.

Começa com a maior tosquice já vista: deram de importar o conceito norte-americano de “conservador”, como se “eleitor do Russomanno” fosse uma alguém com um trabuco na porteira de sua fazenda, comendo hambúrguer e se preparando para a invasão muçulmana após o culto de domingo. Agora tudo aqui é “conservador”. A fulanização do conceito foi tal que chegou ao fim do mundo: os ouvidos de Lula, que tascou essa outro dia em um dos comícios vazios que vem enfrentando.

Chegou-se ao absurdo de dividir a cidade em 5-tipos-escolha-o-seu. Uma moça chamada Eliane Brum, dada a textos semipoéticos, resolveu, preconceituosamente, esculachar eleitores paulistanos que deram de fazer o que todo mundo faz hoje em dia no BR: consumir. (Ela achou um racional pra coluna da semana, ufa!)

Ora, pode-se até questionar o neogosto de pessoas que nunca tiveram nada, nas no fundo tais pessoas querem mesmo o que a “antiga classe média” (essa mesma, que hoje trabalha em jornal) queria lá pelos anos 60: móveis X, eletrodomésticos e tal.

Daí o tom de nojinho de dona Brum soar bem provinciano, e cego para o próprio passado social. Trecho:

[…] Ao ascender economicamente, a “nova classe média” parece se apropriar da visão de mundo da classe média tradicional – talvez com mais pragmatismo e certamente com muito mais pressa. Em vez de lutar coletivamente por escola pública de qualidade, saúde pública de qualidade, transporte público de qualidade, o caminho é individual, via consumo: escola privada e plano de saúde privado, mesmo que sem qualidade, e carro para se livrar do ônibus, mesmo que fique parado no trânsito. […]

Ueras… A nova classe média faz exatamente aquilo que a antiga classe média fez nos anos 50/60: comprou um carro, adotou uma causa política pra chamar de sua, trocou o carro, falou, falou, escreveu, escreveu, trocou o carro, publicou, publicou e não fez rigorosamente nada pela escola pública, saúde pública de qualidade, transporte bla bla bla… e trocou o carro. Pelo contrário. Entre um carro e outro foi dando de comer a um monstro ideológico e vemos hoje no que deu. E até os mensaleiros por fim enxergarem o sol nascer quadrado, lá se vão mais uns três carros “pra quem não se incomoda de pegar um de segunda mão”, né, meu bem?

Portanto, nêga, não impinja à nova classe média aquilo que a sua classe média não se preocupou em fazer.

Outro que anda tendo gatos semanalmente é Vladimir Safatle:

O fenômeno Celso Russomanno poderia ser colocado na conta da inquebrantável tradição do populismo conservador paulistano. […]

Então você entendeu: o Brasil varonil seria um estado da arte em inovação, modernidade,  em sintonia com o que há de melhor no mundo, não fosse a atrasada São Paulo a estragar tudo, certo?

Já Dimenstein foi mais honesto:

Sinto nojo e pena.

Olha, a gente pode até não achar legal que um Russomanno da vida apareça “do nada” (ah, o nada da classe média…!) e dê uma pernada em todo mundo. Não sabemos a esta altura no que vai dar a eleição paulistana, mas certamente é de uma cretinice sem limites voltar ozóio injetados para os eleitores da capital, como se fossem uma só massa de idiotas desprezíveis.

Seria mais interessante, em vez de ficar de blá-blá-blá, dar uma olhadinha pra trás e perceber o que de fato aconteceu (sem, pelo amor de Deus,  sentir nojo do eleitor).

Quem mesmo açulou o ódio às boas administrações só porque seu partido não fazia parte delas?

Quem mesmo ficou por anos a fio tentando convencer o povo – esse mesmo, o nojento – que o crédito ilimitado era a chave para a felicidade e que”cidadão” que se preze deve consumir (desc. o trocadilho) seu dia em reclamações?

Quem mesmo inventou a metodologia de se pendurar em prestações (isso lá nos anos 60) e não melhorar o resto?

Quem mesmo ensinou aos pobres o caminho certinho de cobrar ABSOLUTAMENTE TUDO do “estado que dá tudo”?

De quem é mesmo o pensamento “escola-de-qualidade-para-todos” que não ligou quando o rebotalho se bandeou para um Jesus que dá casa e 10 carros na garagem?

Yes! Essa gente toda não lutou por absolutamente coisa alguma. “Pobre”, para eles, só são lindões quando votam em seus partidos de crença, e os analistas não estão nem aí e a vida do cara está uma merda, contanto que “votem certo”. Quando algo dá errado, os pobres são grotescos, ignorantes, conservadores e não seguiram o script planejado.

São Paulo está sendo, no presente momento, vivisseccionada. É uma punção, uma raspagem, uma cirurgia de estômago, um papanicolau na cidade ao vivo, pra todo mundo ver. Vem gente do Brasil inteiro apreciar e dar palpite.

Ainda quero que, no vendaval eleitoral, o mapa da votação na cidade acabe plaft!, aberto na cara de algum especialista em pitaco.

O mundo é vário, e as pessoas idem. Todas, absolutamente todas as categorias humanas estão em SP. É a vovozinha dos Jardins que vai votar em Russomanno, é a nordestina perua que vota no Serra, é a favelada que vota no Chalita e a rica solitária que vota no Gianazzi. É o jovem descolado que vota no Paulinho da Força, o malucão de meia-idade que escolheu Soninha, é a professorinha que escolhe Haddad.

E que ninguém venha com estatísticas de tipos sociais. Isso é horrível, é degradante, é anti-humano e é o começo de uma espécie de seleção institucionalizada. Nunca em tão pouco tempo se escreveu tanta asneira sobre o paulistano. Deveriam ser encadernadas juntas e nomeadas em hot stamp douradinho: VV. AA. Colonialismo moderno – a permanência da sociedade estamental.

Do pouco que consegui ler esses dias, apenas um – UM texto – não passa pelos preconceitos intelectuais de sempre: Vinicius Torres Freire, anteontem, na Folha de S. Paulo. (E repito com ele: Francamente!) Trechos:

[…] A primeira bobagem é atribuir identidade comum a todas as famílias com renda entre R$ 1.270 e R$ 5.480 (dois a nove salários mínimos, mais ou menos). Por que uma classificação estatístico-econômica imediatamente identifica o cidadão como isso ou aquilo em termos políticos, sociológicos etc.? […]

Há uma “onda de consumismo por aí”? A família que ganha até três salários mínimos, R$ 1.866, uns R$ 500 per capita (mais de metade do eleitorado), tem o luxo de ser “consumista”? Francamente.

O eleitor passou a “consumir a cidade” só agora? Não se incomodava antes com transporte e serviço de saúde ruins? Quando a esquerda fazia (ou mais escrevia sobre) “movimentos sociais”, o sujeito que queria hospital era “cidadão” e agora é “consumidor”? Os mais “ricos” atolados no trânsito não “consomem” a cidade? Francamente. (íntegra)

Assim: eu gostaria de ver a autópsia social de qualquer outra cidade, mas não há. Até entendo que jornalistas não achem muita graça em outras eleições municipais (porque são muito modernas, deve ser), e acabem voltando os olhos para São Paulo. Afinal, querem seus textos lidos e comentados.

Mas, na boa, parem de se comportar como urubus.

Uma muxquinha às segundas

Nos dias que correm, em que muitas subserviências de antes emergem agora sob a forma de valentia, acho bem hora de homenagear quem sempre criticou o governo Lula, não baseado em oposição metódica, mas em fatos. Este vídeo do usuário do Youtube Odilon Neto é de 2007, quando toda a imprensa ainda segurava seus anúncios com “sim, sim, o governo Lula está no caminho certo”. Ainda tem muita gente hesitando em abadonar o barco, mas é questão de tempo.

Ah, e com a muxquinha de Gabriel o pensador quero homenagear um contumaz leitor que, como qualquer petista, anda muito nervoso e acabou se traindo e usando aqui um de seus 592 e-mails que não deveria usar, olha só…

Não posso publicar o endereço dele aqui porque tenho compromissos com a privacidade deste blog, mas posso dizer que, sob outro nome, vem do lixão da área de comentários de um jornalista de Época.

Se atrapalhou, tadinho… E agora está bloqueado.

Polícia truculenta – onde mesmo?

Semana passada a psicanalista e torturadora de general Maria Rita Khel cometeu uma excrescência em coluna na Folha de S.Paulo (link na citação abaixo). Comparou o governador Alckmin a um ditador e a polícia paulista a uma força de exceção, aproveitando-se do “alto” saldo de mortos no confronto da Rota com traficantes em Várzea Paulista.

Hoje o jornalista Marcio Aith deu-lhe uma descascada, com a resposta que merecia a cabecinha louca da mulher. Reproduzo na íntegra:

Quem não consegue distinguir a democracia da ditadura acaba escolhendo a ditadura como se fosse democracia e a democracia como se fosse ditadura.

Só assim se entende que a psicanalista Maria Rita Kehl associe o democrata Geraldo Alckmin, eleito com 11,5 milhões de votos, a um regime de força, como o fez em seu artigo publicado na última “Ilustríssima” (“O veredicto de Geraldo Alckmin”), com chamada de capa neste jornal.

Kehl comparou a ação da Polícia Militar de São Paulo contra um grupo de bandidos fortemente armados, em uma chácara do município de Várzea Paulista, ao massacre de prisioneiros políticos indefesos da ditadura militar.

Decretou que o senso de justiça da bandidagem, no caso de Várzea Paulista, estaria acima daqueles da PM e do próprio governo do Estado. Isto porque um tribunal do crime, que na chácara se instalara, “absolvera” de forma generosa um dos presentes –acusado de estupro, depois morto na operação policial.

Por fim, Maria Rita classificou como sendo retórica ditatorial uma declaração do governador Geraldo Alckmin (“Quem não reagiu está vivo”) e despejou sobre os leitores números que pudessem dar verossimilhança a seu diagnóstico.

O texto é delirante, perverso e desequilibrado. A psicanalista demonstrou desconhecer segurança pública; desprezar fatos e estatísticas; e menosprezar a memória e o trabalho de várias pessoas que, embora não partilhem de sua cartilha, contribuíram para a redemocratização no país.

O Governo do Estado de São Paulo não tolera abuso oficial.

Desde 2000, 3.999 policiais militares e 1.795 policiais civis foram demitidos por má conduta no Estado (dados até 18 setembro deste ano). Só na atual gestão, foram 392 policiais militares e 252 policiais civis.

Ao mesmo tempo, e sem qualquer contradição entre os dois esforços, a Polícia Militar impediu, e vai continuar a fazê-lo, que o crime se organize e realize julgamentos ao arrepio do Estado democrático de Direito.

Aqui, o crime não instala tribunal; aqui, o crime não ocupará funções privativas do Estado; aqui, o crime não vai dialogar com os Poderes constituídos.

A declaração do governador que tanto ouriçou a psicanalista Maria Rita foi feita dentro de um contexto de apuração e controle. Ele não se omitiu em relação à necessidade de investigar o que ocorreu.

Ao contrário. Disse ele, na mesma ocasião: “Olha, quando há resistência seguida de morte: investigação. A própria Polícia Militar investiga e o DHPP, que é o Departamento de Homicídios, também investiga”¦ A investigação pela Corregedoria já era de praxe. O que é que nós colocamos a mais? O DHPP. Ele faz a investigação em todos esses casos, ele conduz a investigação.”

E o que isto significa? Que o Estado de São Paulo foi o primeiro a colocar um corpo de elite da Polícia Civil –no caso, o DHPP– para apurar resistências seguidas de morte. Nas demais unidades da Federação (algumas das quais querem adotar o modelo paulista), as resistências não são apuradas, muito menos comandadas, por departamentos qualificados.

MENTE FANTASIOSA

A medida fortaleceu o eficaz sistema de freios e contrapesos, típico dos regimes democráticos. Apenas na mente fantasiosa de Maria Rita Kehl os experientes delegados do Departamento de Homicídios e de Proteção à Pessoa, da Polícia Civil, deixarão de cumprir sua obrigação para encobrir eventuais desvios de conduta de policiais militares.

A retórica inflamada e irresponsável desta senhora não fará o governo mudar o rumo na segurança pública. Rumo este, aliás, iniciado na década de 90, com a criação da Ouvidoria da Polícia, com a instituição da disciplina de direitos humanos no curso das polícias e com o combate à letalidade. E que vem sendo seguido pelo atual secretário, Antonio Ferreira Pinto, notoriamente comprometido com o rigor e com a legalidade.

Segundo os dados do último anuário do Fórum Brasileiro de Segurança Pública do Ministério da Justiça (2011), a letalidade da polícia paulista é menor do que a de outros Estados do Brasil, tanto em números absolutos como nas taxas por 100 mil habitantes.

Em 2010, morreram 510 pessoas em confronto com a polícia paulista, uma taxa de 1,2 mortos por 100 mil habitantes. No Rio de Janeiro, que tem pouco mais de um terço da população de São Paulo, foram mortas 855 pessoas em confronto policial (taxa de 5,3 por 100 mil habitantes). Na Bahia, a taxa é de 2,2 por 100 mil. Como se vê, a fantasia baseada em distorções ideológicas não se sustenta quando confrontada com dados.

Maria Rita Kehl retrata a Polícia Militar de São Paulo como assassina contumaz de jovens. Pois São Paulo foi o Estado brasileiro que mais reduziu a taxa de homicídio de crianças e adolescentes (até 19 anos) por 100 mil habitantes entre 2000 e 2010, segundo o Mapa da Violência do Instituto Sangari: queda de 76,1%, de 22,3 para 5,4.

Também em números absolutos, o Estado de São Paulo teve a maior queda nesse índice entre 2000 e 2010. A redução foi de 2.991 homicídios de jovens e adolescentes, registrados em 2000, para 651 em 2010.

E o que aconteceu no Brasil no período? O número absoluto de homicídios de crianças e adolescentes cresceu 6,8%, entre 2000 e 2010 (de 8.132 para 8.686 casos) e a taxa por 100 mil habitantes subiu de 11,9, em 2000, para 13,8 em 2010.

DISTORÇÕES

Mas números não bastam para esta senhora. A distorção moral e ética de seu pensamento é insanável. Para Maria Rita, uma luta justa deveria contar sempre com mortos também entre policiais militares. Para ela, a profissionalização da Polícia Militar, treinada também para evitar baixas, é uma disfunção, um defeito, uma evidência de covardia.

Entende-se: entre a polícia e os bandidos, parece que ela já fez a sua escolha. Maria Rita acha que uma luta justa entre Polícia e bandido tem de terminar em empate –quiçá com a vitória da bandidagem, que ela deve confundir, em sua leitura perturbada da realidade, com uma variante da luta por justiça.

A Polícia Militar salva vidas, Maria Rita. É treinada para proteger a população do Estado. Atendeu a mais de 43 milhões de chamados em 2011. Realizou 310 mil resgates e remoções de feridos. Efetuou 128 mil prisões. A PM de São Paulo está entre as melhores do país.

Por isso, o Estado de São Paulo, segundo o Mapa da Violência, está em penúltimo lugar no ranking dos homicídios por 100 mil habitantes. A capital paulista é aquela em que, hoje, menos se mata no país, segundo o mesmo estudo.

Estivesse ela interessada em debater de fato o problema da Segurança Pública, Maria Rita tentaria entender a relação entre drogas e o crime organizado, como aquele instalado na chácara de Várzea Paulista. E por que o Brasil é o primeiro mercado consumidor mundial de crack e o segundo de cocaína? Nunca é suficiente repetir que o Estado de São Paulo produz laranja, cana, soja. Mas não produz folha de coca. Como ela entra no país? E as armas?

Mas estas não são as preocupações de Maria Rita. Ela quer confundir. Por isso até misturou o caso de Várzea Paulista à desocupação judicial da área conhecida como Pinheirinho, onde não houve vítima fatal e criou-se, bem ao seu estilo, um episódio mentiroso para fazer luta partidária.

A obrigação da autoridade pública é enfrentar o problema, seja ele a bandidagem comum ou a bandidagem da polícia. Se houve abusos, eles serão punidos após a investigação, como sempre o foram, e não antes.

Maria Rita Kehl, aliás, tornou-se partidária do julgamento extrajudicial. Ela não conhece detalhes da ação da polícia, mas já expediu a sua sentença condenatória, mimetizando, ela sim, os métodos das tiranias. Com uma diferença. As ditaduras criavam simulacros de julgamento. Precisavam convencer a si mesmas de sua farsa. Maria Rita não precisa ser nem parecer justa.

Ela deveria se envergonhar –mas não se conte com isso, pois está cumprindo uma agenda partidária –como, aliás, já havia feito nas eleições de 2010. Desmoralizar a polícia de São Paulo é parte de um projeto de poder.

O Governo do Estado de São Paulo não tem compromisso com o crime.

Reitero aqui: qualquer cidadão comum, paulistano ou não, sabe interpretar essas estatísticas. A ideia de que “a polícia paulista é assassina” não resiste a obviedades, nem de cunho numérico, nem àquelas que dizem respeito ao senso geral da população, que costuma ser o mais equilibrado num regime democrático.

A força-tarefa que as esquerdas vêm tentando pregar há décadas contra a polícia paulista está no estado em que se encontram seus idealizadores: agonizando em praça pública, sob os aplausos do cidadão comum.

Minha favela, meu cantinho

Do Estadão:

Um dia após o confronto entre a Guarda Civil Metropolitana (GCM) e moradores da Favela do Moinho, o prefeito Gilberto Kassab (PSD) acusou o PT de “explorar eleitoralmente a tragédia” e disse que a ação do partido é uma “tentativa de tumultuar”. O prefeito também negou que a GCM tenha sido truculenta. O conflito deixou nove pessoas feridas: três guardas e seis moradores, um deles baleado na perna.

“Estão usando as pessoas simples, com dificuldades na vida, para que com essa utilização haja exploração eleitoral. O PT à frente”, disse Kassab, durante evento no Anhembi. O prefeito afirmou ainda que o tráfico e o PT impedem a ação do poder público na favela. E criticou a atuação do senador Eduardo Suplicy (PT), que foi ao local na quinta-feira. “No primeiro incêndio (dia 17), ele fez de tudo para que os moradores continuassem debaixo do viaduto, todos sabem, tanto é que continuaram” afirmou.

Kassab ressaltou ter distribuído bolsa-aluguel para os desabrigados da favela e defendeu a ação da Guarda Civil Metropolitana. “A GCM não atira com bala de borracha”, disse, questionado os relatos de moradores que dizem ter sido agredidos.

[…]

Que coisa, não?

Quem será que não quer ver favelas na cidade, e quem será que quer? Vamos à memória recente?

“Não adianta mandar a gente para abrigo”, dizem moradores. Então desfaz-se a credibilidade da líder comunitária que disse: “Em nove meses (desde o primeiro incêndio na favela, em dezembro), eles (os agentes públicos) não fizeram nada, tanto que tem gente que mora em barraca improvisada”.

Em suas vertentes, o PT lida com ideias contraditórias. Figuras que lhe são afeitas, como o padre Julio Lancelotti e o senador Eduardo Suplicy, defendem a permanência de mendigos nas ruas e de pessoas em favelas. Pelo que pregam, os dois e sua legião de desmiolados, forma-se um juízo de que favela é um lugar de identidade afirmativa e que mendigo deve ter o direito de viver como quiser, ou seja, na rua.

O candidato petista em São Paulo, por outro lado, promete qualquer coisa em campanha: ora que vai providenciar 55 mil moradias pelo Minha Casa Minha Vida. Em um momento anterior, achou por bem prometer a escritura dos terrenos onde moram os favelados #@!*&!?#!.

É um tantinho difícil de acreditar nessa bipolaridade diária, não? A Favela do Moinho, por exemplo, chupada à exaustão pela campanha petista (neste caso, no vídeo do último link), existe há trinta anos, sobre um terreno do governo federal (RFFSA).

Portanto, ela estava lá durante as duas gestões petistas na cidade (Erundina e Marta), sendo que, em parte da gestão Marta, Lula já dominava o governo federal. Creio que a bipolaridade petista, naquela época, estava com a chave virada para a beleza de morar em favelas (Marta, após incêndios e enchentes, fazia as visitinhas protocolares com galochas).

Aqui um pequeno exemplo da política para favelas de Marta Suplicy/Haddad em São Paulo na época: “Em vez de atendimento definitivo ou cadastramento em um programa habitacional, 716 famílias receberam um cheque de R$ 2.100 cada como “apoio habitacional”. [o chamado “auxílio-barraco”]. Aqui outro exemplo da política habitacional de Marta, com todas aquelas hipóteses lindas no discurso, mas difíceis de fazer na prática. Ela gastou com essa goiabada toda cerca de duzentos milhões de reais.

Serra/Kassab, ao sucederem Marta Suplicy, encontraram um déficit de 850 mil casas. “A situação era ainda mais grave quanto às demandas por urbanização de favelas e de habitações em áreas de mananciais, que foram tratadas sem qualquer grau de prioridade. As poucas obras contratadas não foram iniciadas e não havia recursos previstos para sua execução em 2005.”

A gestão Serra Kassab  viabilizou, desde 2005, a entrega de mais de 20 mil unidades habitacionais, de um total de 34 mil, contando com as que estão em andamento.

Números, né? Torça-os como quiser.  Marta fez algumas unidades habitacionais, é certo. Mas não as suficientes, tampouco as adequadas. Um exemplo das poucas está na foto, que capturei hoje, do tal “Parque do Gato”, antiga Favela do Gato, obrinha da gestão petista.

Imagine você que o “projeto” foi concebido para se adequar a catadores de lixo. Previa um local para guarda de carroças, armazenagem de recicláveis, e tal. E PRONTO. Nada mais foi pensado em níveis razoavelmente decentes. Isso aí é na beira da Marginal Tietê. Me diz em sã consciência como é que uma pessoa pode progredir num ermo desses? Estão longe do comércio, longe de escolas, presos a um trabalho que, nas condições atuais do país, ainda é degradante – manusear lixo. Hoje o local oferece sérios riscos pela sujeira e degradação, até para a vizinhança. Grande parte dos moradores está inadimplente com aluguel e condomínio (sim, quando você faz política de habitação tem de pensar nos rolinhos sem-fim próprios do brasileiro. O PT não pensou). Compra e venda de unidades são feitas na clandestinidade. Marta Suplicy achou fino que grande parte das unidades fosse de quitinetes e de 1 dormitório (são os solteiros descolados da reciclagem, naturalmente).

Então é isso. Política habitacional tem de ser feita com planejamento, e não da noite pro dia. Se até bem pouco tempo o negócio era enfiar os pobres de qualquer num prédio qualquer, eu entendo: a direita e a esquerda tradicionais acham que “é isso mesmo, e está muito bom”.

Mas não pode ser assim. As pessoas em situação vulnerável e até de perigo, como é o caso da Favela do Moinho, não precisam de pseudodefensores com pataquada de “dignidade na favela”, “identidade na comunidade”, o cacete a quatro. As pessoas precisam ter condições de entrar numa vida digna.

Foi para isso que vieram para São Paulo, ou não?

Itaquerão e entorno

Vamos ao que interessa?

Esta semana, governo do estado e Prefeitura estiveram com o pessoal da Fifa no Itaquerão. No estádio, tudo muito bom: 50% das obras já feitas, tudo dentro do previsto, e tals.

Esse foi uma espécie de sinal verde para acelerar as obras do entorno. São operações urbanas  denominadas “Plano de desenvolvimento da Zona Leste”. Abrangem uma área de 10 mil hectares, que chega até o município de Mauá.

Todo esse incremento visa criar empregos descentralizados. “O desafio é direcionar o crescimento de São Paulo nas duas próximas décadas, aproximando trabalho e moradia e diminuindo a necessidade de grandes deslocamentos pela cidade”, afirma a Prefeitura.  Atualmente, Itaquera é uma região-dormitório, e despeja diariamente 1 milhão de pessoas no sistema de transportes da cidade,  em direção ao Centro ou ao ABC, para trabalhar em atividades de baixa complexidade. Isso não é justo nem para essas pessoas, nem para a cidade.

Enquanto candidatos desinformados ficam prometendo mundos e fundos como se a gestão atual simplesmente não existisse, a Prefeitura vem trabalhando, e não é de hoje: estão prontos 10 km da avenida Jacu-Pêssego, que leva ao Grande ABC, à zona leste, e facilita o acesso ao aeroporto de Cumbica e ao porto de Santos, além do Rodoanel Sul, pela Ayrton Senna. Isso propicia a instalação de indústrias no que se chama a zona industrial, as quais estarão na boca da exportação e contarão  com incentivos fiscais (espero que não haja reclamações).

Também está prevista uma verticaização de residências. Isso propiciará áreas mais verdes (lógica que defendemos aqui). Atualmente Itaquera segue o padrão de ocupação irregular na origem, com muitas casinhas completamente cimentadas, de que é exemplo a avenida Catitu. Com a nova realidade, haverá áreas mais verdes, permeáveis à chuva. Também é prevista a proteção a córregos, e a criação de um parque linear integrado ao Parque do Carmo.

Em São Miguel e São Mateus, que são áreas mais adensadas, pretende-se organizar o sistema de transportes, com o alargamento de ruas para acomodar o transporte e melhorar o fluxos viários, e construção de novas vias e terminais de ônibus. Também se prevê a adequação do sistema viário do entorno, com prioridade à acessibilidade a transportes de massa: metrô e CPTM.

O programa prevê a implantação de equipamentos públicos, que ainda dependem de parcerias com instituições privadas: fórum; terminal rodoviário; terminal de ônibus integrado (conclusão da obra em abril de 2013);  Fatec (primeira fase de obras fechada em outubro próximo,  conclusão em 2012); Etec; Senai (em fase de estudo preliminar); incubadora e laboratórios do futuro parque tecnológico da zona leste (em fase de estudos; o local já definido); centro de convenções (estágio preliminar); batalhão da polícia militar (depende de negociações para cessão do terreno à PM); sede da instituição Dom Bosco; e parque linear Rio Verde.

  • Acima, fotinho do polo institucional previsto. Maquetes são sempre lindas, e é claro que pode haver modificações. Mas eu confio mais na gestão atual do que em aventureiros com autismo estudado. E você?
  • Fonte: Portal 2014, PMSP.