Safadeza sindical

Exemplo clássico da diferença entre a bacia das almas da incompetência humana e aquela parte que cumpre suas coisas direitinho é esse foto feita por Raquel: em uma agência do Bradesco em Santana, funcionários permanecem trabalhando, sem aderir à greve dos bancários. O sindicato, não contente com isso, monta em frente uma barraquinha-opressão e tasca uma faixa: “Estamos em greve”.

Não. Os funcionários dessa agência não estão em greve. Estão satisfeitos com seus salários. No dia que não estiverem, vão procurar outro emprego. E se forem bons e dedicados, arrumarão coisa melhor.

E os grevistas, esses permanecerão no sindicato, por falta de opção. Ou você já viu headhunters se estapearem pra conseguir o passe de algum sindicalista?

Atropela! Mas não mata….

Um homem conhecido com Alemão foi atropelado agora de manhã, quando atravessava afoito a avenida Rio Pequeno, na Zona Oste, pra cumprimentar Pááááooooolo Maloooof, que estava em carreata do outro lado da pista. Socorrido pelo malufista de primeira hora Fauzi Hamuche, o elemento ficou sem sentidos por alguns minutos e quando voltou a si só dizia: Maluf, Maluuufffff, Maluuuuuuuuffffffffffff, até ser levado pelos bombeiros até o Hospital da Universidade de São Paulo. A carreata – que lástima! – teve de ser interrompida.

  • Fotos: esse negócio de querer cumprimentar o doutor Paulo…

O Museu do Futebol

Estamos esperando a poeira baixar pra eu levar papai pra conhecer o Museu do Futebol, inaugurado ontem, nas dependências do Pacaembu. A idéia foi concretizada pela Prefeitura, ainda na gestão Serra, com a parceria da Fundação Roberto Marinho. Orçado em R$ 37,5 milhões, ele pertence à chamada terceira geração de museus, com milirrecursos tecnológicos, sem esquecer essa parede superbacana recheada de fotos com molduras evocativas, e acessibilidade total. O projeto é do arquiteto Mauro Munhoz, com museografia de Daniela Thomas e Felipe Tassara, e pretende que o visitante se sinta “dentro” da coisa.

O futebol foi trazido para o Brasil por um paulistano do Brás. Charles Miller era filho de um inglês, que veio trabalhar na São Paulo Railway Company, e de uma brasileira, descendente de ingleses. Aos 10 anos embarcou para estudar em Hééééémpshâr, onde conheceu o esporte, e voltou para o Brasil dez anos depois com duas bolas usadas, uma bomba de encher, um par de chuteiras e um livro de regras.

Miller foi um dos principais na criação da Liga Paulista de Futebol e do São Paulo. Participou ativamente das primeiras vitórias do time. Encerrou sua carreira de jogador em 1910, não sem antes contribuir para uma nova fase do futebol interplanetário: foi ele quem sugeriu o nome de Sport Club Corinthians Paulista.

Só tenho uma preocupêichon nesse Museu do Futebol: como é que papi, com 82 anos, vai dar conta de olhar isso tudo sem cansar? Até acredito que ele ache graça nas peripécias montadas, como entrar numa bola com diferença de temperatura, e esses quaisquaisquais todos. Espero que tenham pensado em cadeiras de rodas, ou pelo menos muitos bancos para a tribo da terceira idade. Se não, serão vááááárias visitas…

  • Fotos: acima (Daigo Oliva, G1): detail do Museu do Futebol, na parte meio heritage. Abaixo: em 1o. de outubro de 1942, um dos times de várzea em que meu pai jogou. Naquele tempo – conta ele – encostar era coisa de maricas, chuteira era pra quem podia e perna-de-pau só jogava se aparecesse com uma bola bacana. Onde está seu Paulo? É o mais bonito, oras!… agachado, à direita…

Shaná tová!

Hoje entramos no ano judaico de 5.769. O Flanela acompanha a data com as duas músicas hebraicas de que mais gosta. Numa, este coral russo interpreta “Yerushalaim shel sahav”, e este vídeo, escolhido não exatamente pela concepção visual (:P), mas pelo belo “Hatikva”, o hino nacional israelense.

Se você gosta, curta!

Shaná Tová ve chatimá tová!

PS: E, com isso, o Congrrrrrresso amerrrrrrricano párrrrrrra. Só na quinta-feira. Voltar pro lesco-lesco, só na quinta-feira ou na próxima semana. Mas na próxima semana já é o Yom Kippur e…

Çerenícima Autêza…

.. assina amanhã o Acordo Ortográfico.

Todo mundo sabe marromenos o que muda. Cai o trema, todo mundo danado achando que precisa dizer ling[u]ííííça, e tal. Isso é pânico de multidão enlouquecida. Faça como os cariocas, que continuam falando “qüestão” e andando pro mundo.

Desde que me entendo por gente, já houve dois acordos. O primeiro me passou meio batido, porque eu estava na fase de alfabetização, e (acho) meus pais tiveram todo o cuidado pra não contaminar a petizada com antigos hábitos. Muito embora mamãe continue escrevendo uma ou outra coisa pessoal com a grafia antiga. Digo, antiga da antiga da antiga, anterior a 1945.

É óbvio que quando rodo minha nécessaire cheia de lápis, canetas coloridas e borrachas na esquina, tenho de seguir à risca as novas regras. E, confesso, ô coisa chata! A sorte é que, quando o trabalho é no papel, tenho clientes fixos e sem-cerimônia que me mandam o arquivo pra catar o que escapou na base da busca.

Mas eu, euzinha pessoa física e doméstica, estou com profunda má-vontade com essa era de Aquarius da língua portuguesa. Primeiro que ela não segue nenhuma epifania filológico-etimológica. É só pro Brasil conseguir dar um up no seu currículo internacional. Segundo que esse tipo de coisa é meio ditatorial na vida das pessoas. Terceiro que – opinião minha – quanto mais se muda a língua na base da canetada, menos importante ela é.

Mas o que mais me dana é essa coisa de rejeitar texto velho. “Aiiiii, não dáááá, tá na ortografia antiiiigaaaaa!!!!”. Eu até concordo que seria um furdunço pra uma criança que está aprendendo agora, mas essa urgência, esse medo de se contaminar, essa fazeção de questã (que a partir de agora vai grassar nas conversas pseudo) me deixam enjoada de antemão. Será o tipo de exigência indigente. Como um capiau que reclama da cadeira do escritório no primeiro dia de trabalho. Ou de um bufê (isso aconteceu mesmo) durante uma filmagem, em que comiam todos, desde o diretor de fotografia até o motorista. Quem reclamou da comida? O motorista, é claro. Enfim, a exigência da nova ortografia por quem mal dominava a antiga. Como está fazendo Çerenícima plenipotenciária.

Aqui no Flanela continuarei escrevendo com a liberdade que não costumo ter no resto dos meus afazeres. Os erros de digitação vão continuar, uma escorregada ou outra na regência, na sintaxe… e a ortografia antiga permanece até que se adapte espontamentamente.

  • Foto: Página – aleatoriamente – recolhida de um papel nada avulso de Relíquias de casa velha (quá-quá-quá, juro que peguei o primeiro que – nem – vi) da coleção de Machado da vovó (a outra vovó, não a esposa do vovô que sempre menciono aqui). Vai continuar comigo, vou reler sempre siiiiim, e quando eu estiver com o pé na cova vai pra Periquito, siiiim, que se Deus quiser será um leitor contumaz, siiiiim, e acima desse nhénhénhé todo de acordo ortográfico.

Vereadores

Sra. Heida Woo,
Sou eleitora, moradora do Sumarezinho, e gostaria de saber quando sua Kombi e seus alto-falantes irão embora da minha região.
Hoje é sábado, 11:30 da manhã, e seu carro de som está perturbando o já escasso silêncio da rua Heitor Penteado e adjacências.
“Enxergar além das necessidades individuais, enxergar a necessidade do coletivo.
Servir ao próximo.
Ame São Paulo”
Esse são alguns dos pensamentos constantes do site da candidata. Portanto…
Atenciosamente,
Mandei isso agora de manhã, na raiva, para essa candidata. Havia tentado ligar, mas ninguém atendeu. Foi por e-mail mesmo.
Fico pensando cá com meus botões se as pissoas em gerais ligam uma coisa com outra. Já faz alguns anos que São Paulo decidiu, espontaneamente, não emporcalhar mais os postes, tapumes e fachadas com lixo de campanha. A poluição sonora foi pelo mesmo caminho, com exceção de um ou outro candidato que ainda ousa lançar mão de promoção tão rasteira. Aliás, é uma anti-propaganda. Outro dia vi um carro escalafobético aos berros na Doutor Arnaldo, com a cara enorme da Marta toda distorcida colada nas curvas da carroceria. Claro que não era propaganda direta dela. Era de algum candidato do PT cuja ficha de civilidade ainda não caiu.
O que pode oferecer à cidade um candidato que passa por cima de qualquer senso e me sai com uma Kombi aos berros num bairro residencial em pleno fim de semana? É como se eu resolvesse acender um cigarro enquanto aprecio a Virgem de Boticelli no Masp. Pode? Não pode. Carro de som é a mesma coisa. Se a prefeitura proibiu as pamonhas de Piracicaba… Mas nem que estivesse liberado. Mas nem que fosse em horário comercial. Mas nem que fosse na Prestes Maia.
Portanto, se eu morresse de amores pela senhora Heida Woo, uma japa loura e de propostas holísticas, mudaria meu voto imediatamente. Vá berrar em outra freguesia. Vai amolar o boi. E tomara que não leve. E tomara que outro, cuja promessa é fornecer “quentinhas” nas filas dos hospitais, perca também. Se fosse sério, se dedicaria a acabar com as filas, isso sim.
A Vejinha publicou uma matéria interessante, baseada em informações da ONG Voto Consciente, que desde 1987 está de olho na atuação dos vereadores de São Paulo. Critérios como assiduidade, fidelidade partidária e relevância dos projetos apresentados são levados em conta. O resultado, obviamente, é uma lástima.
Mesmo que o querido leitor não seja de São Paulo, é bom dar uma olhada. Vou além: pra ter uma Câmara decente, qualquer cidade deve não só acompanhar o trabalho do seu candidato eleito como ficar de olho no trabalho dos outros, durante toda a legislatura, em todas as legislaturas. Enfim, deve se interessar pelo andamento de seu município sempre e sempre. Esse negócio de “ouvir as propostas do candidato” é furada. Isso é apenas uma nova roupagem pras “promessas”. Tem de saber o que o cara tem sido antes disso.
Já disse aqui algumas vezes (e acho que é o Fábio Max que pensa do mesmo jeito): vereador, da maneira como conhecemos, não serve pra nada. A única utilidade da Câmara e abrigar representantes de lobbies muitas vezes duvidosos.
Tenho na ponta da língua os nomes de gente de São Paulo que se candidata como meio de vida, e só. Está cada vez mais difícil escolher candidatos sérios. Sim, eles existem. Mas o que toma conta cada vez mais é o bundalelê, em que não distingue um cantor brega de um administrador, uma piranhuda de um político sério.
Chega de dia do imigrante afegão. Chega de projeto de nome pra rua. Chega de marmitex. Chega de estofar tragédia. Chega de gente chinfrim. E chega de candidato sem educação.
***
Falando nisso, hoje sonhei com a Marta. Juro. Estávamos numa situação de multidão, em que as duas tentavam ser cordiais uma com a outra. Eu lembro que cheguei a elogiar sua horrível blusa de seda, metade vermelha metade verde-bandeira. E ela tinha um terço de sua circunferência atual. E estava muito fofa comigo, muito mais do que eu poderia ser com ela. Mas eu estava cumprindo a lição de casa. Amuada, mas estava. Não aconteceu nada de especial. O sonho foi o clima, sabe?
Ai ai ai…

Chiquita bacana

sartre

Quando eu tinha uns 11 anos, já morando no Rio, recebemos a visitinha de um amigo de vovô, o Brodi. Joseph Brodi. Brodi tinha tomado duas atitudes radicais em sua vida: a primeira foi quando veio parar no Brasil, antes da Segunda Guerra. E a segunda foi se deslocar – sei lá por quê – da ainda garoenta São Paulo para aquele verdadeiro drama mexicano que estava a Boca do Mato em pleno verão.

Eu não tinha entendimento sobre a adaptabilidade humana. Achei muito esquisito Brodi chegar lá em casa de paletó, com a camisa alvíssima (bordada com suas iniciais) abotoada na gola e nos punhos, no meio daquela canícula. Isso até minha mãe lhe oferecer um suco geladinho. De caju. Aí foi o fim da picada! Como é que podia um camarada com aquela cara de gueto, com aquela roupa e com aquele sotaque aceitar complacentemente algo tão tropical?, pensei. Por baixo por baixo deveriam lhe servir um conhaque. Um vermute. Um rum. Mas Brodi, para meu espanto pré-adolescente, tomou o suco de caju com a maior naturalidade do mundo.

Como falamos em gringos esta semana, isso me remete às memórias de Ruth Cardoso, recentemente evocadas, sobre quando teve a idéia de fazer uma sopa de mandioquinha (batata-baroa) para Jean-Paul Sartre, sob o olhar horrorizado e receoso de madam de Beauvoir, a leoa-de-chácara do estômago filosofal sartriano, afeito a embutidos que nem Deus sabia como era feitos.

Isso aconteceu por ocasião da notabilíssima e inolvidável “Conferência de Araraquara”, em 4 de novembro de 1960, na então Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, hoje integrada à Unesp. O convite foi feito pelo filósofo Fausto Castilho, então docente da FFCL local. O filósofo e Simone de Beauvoir tinham vindo ao Brasil sob a desculpa de participar do I Congresso Brasileiro de Crítica e História Literária no Recife, mas no duro estavam mesmo era fugindo de perseguições políticas por causa da oposição ao colonialismo francês na Argélia. Por isso, zanzaram por aqui durante dois meses e meio.

O evento foi concorridíssimo. Estavam lá não só Ruth e Fernando Henrique, Bento Prado Jr., Jorge Nagle, Miriam e Dante Moreira Leite, Antonio Candido e Gilda Mello e Souza, Nilo Scalzo, Michel Debrun, José Celso Martinez Corrêa, Dante Tringalli e José Aluysio Reis de Andrade, como a metade da população araraquarense, mais a das adjacências. A outra metade estava no estádio assistindo ao jogo da Ferroviária contra o Santos.

O cicerone Jorge Amado e Simone de Beauvoir, que de existencialistas não tinham nada, estavam torcendo o nariz praquela viagem interminável de Kombi, desde São Paulo. Isso porque todos pernoitaram na fazenda dos Mesquita (d’O Estado de S. Paulo), em Louveira. Ambos achavam muito mixuruca aquele convite pra dar palestra no fim do mundo, além de tudo numa faculdade recém-criada. Simone não estava nem aí para a intelectualidade brasileira. Queria mesmo, junto com Sartre, pregar a revolução cubana pros nativos e se mandar de volta pra Paris.

Antes da palestra, Sartre compareceu a um encontro com estudantes e trabalhadores no Teatro Municipal da cidade. Foi lá que Fernando Henrique teve a iniciativa de traduzir a coisa junto com Antonio Cândido, o que, obviamente, nunca foi mal-interpretado até que ele assumisse seu segundo mandato.

Ninguém ouviu praticamente nada sobre o existencialismo: Sartre mandou ver na propaganda cubana e na questão argelina, para uma platéia composta inxcrusive de camponeses, que depois disso tudo devem ter virado existencialistas convictos.

O filósofo, porém, foi aclamadíssimo em ambos os eventos, e mostrou-se impressionado com o entusiasmo do povo nas ruas de Araraquara, incrementado com fogos de artifício, bandeiras e cerveja.  Não tardaram, porém, a lhe explicar a diferença entre o ser e o nada: o Ferroviário tinha batido o Santos de Pelé por 4 X 0.

O fato é que Sartre e Beauvoir, amparados por um determinismo empedernido, não curtiram a sopa de mandioquinha. Passaram batido pelas delícias de meter os dentes numa manga, de afundar os beiços num caju, de comer uma inocente banana sentados num parapeito à beira-mar, de pés descalços, espreguiçando seus calos na brisa. Nunca colocaram um shortinho. Uma sandalinha de dedo.

Tirar aquele turbante da cabeça, então, nem pensar! Vai daí Simone ficou mal-humorada o tempo todo. Nem sei se adiantaria Emilinha Borba aparecer em pessoa pra ela. Metade do Brasil não entende a Chiquita Bacana… Por que ela, justo ela, iria entender?

  • Ouça aqui Emilinha Borba interpretando “Chiquita Bacana”, que pra mim é a síntese do que o Brasil brasileiro acha dos outros.
  • Fotos: Acima, a intelectualidade pulsante de Araraquara de acotovelando na faculdade pra ver Sartre. Sartre, prova cabal de que a dieta faz o homem. No meio (Arquivo Fundação Casa de Jorge Amado): um momento raro de felicidade para qualquer francês: Sartre e Beauvoir com Zélia Gattai e Jorge Amado, em torno da ialorixá Senhora, que iniciou o fotógrafo e etnólogo Pierre Verger no candomblé. Abaixo, o casal ladeado por Jorge Amado: cara de pouquíssimos amigos num calor de rachar.