Inveja do debate alheio

Cê vê, né? Esta semana houve um debate na CNN entre os presidenciáveis americanos Barack Obama e Mitt Romney, mas quem ganhou a parada foi a imprensa.

Debates geralmente são um tiroteio de mentiras. Mentiras, meias-mentiras, um modo de se expressar, de torcer números, de interpretar um episódio a seu bel-prazer e eis: um arremedo de elaborações feitas para o eleitor médio, ignorante, sem memória, que sabe mais ou menos de tudo, mas sempre de ouvir falar, sempre superficialmente.

No debate americano esse paradigma se quebrou: a mediadora Candy Crowley, jornalista da CNN, inaugurou o real papel de um jornalista nesses casos: bater o martelinho da ordem, restabelecer a verdade. (Sim, porque a verdade tem seus direitos. Ou não?)

A certa altura, Romney acusou Obama de só ter se pronunciado corretamente catorze dias após a morte de quatro americanos em um atentado ao consulado os EUA em Benghazi, na Líbia.

Obama se defendeu, dizendo que qualificou o ato como terrorismo logo no dia seguinte, dia 12 de setembro deste ano, desafiando Romney a rever arquivos.

E aí entra a inovação: a mediadora Candy Crowley interveio e confirmou a versão de Obama: Sim, de fato o presidente se pronunciou logo após o atentado.

Pra quê? Crowley sofreu uma chuva de críticas. Foi acusada de ajudar Obama, tal e coisa e coisa e tals. “Candy não tinha nada que fazer isso”, disseram partidários de Romney.

Bem, se a jornalista “não tinha nada que fazer isso”, o que será que resta a um jornalista mediador de debates? Transpondo para nossa imitação macaquística: qual é o papel de um Bóris Casoy, um José Roberto Burnier, uma Maria Lydia e tantos outros pelo Brasil adentro?

Sinceramente, no formato em que está, até meu sobrinho poderia mediar um debate. Tudo o que dizem está num script prévio, imóvel, previsível, meramente vomitando regras, um papel escrito, coisa que qualquer um pode ler. Nem mesmo os pedidos de resposta podem ser avaliados pelo mediador.

Então? Xuxa, Latino, a Beyoncé do Pará, Nicole Bahls, Adauto e a mulher-bunda, qualquer um pode mediar um debate no Brasil. O que se faz normalmente não é uma mediação, mas mera apresentação, desperdiçando o enorme potencial jornalístico de partir da verdade e desmentir uma… mentira.

Até mesmo a saudosa Hebe Camargo tinha mais poder de improvisação do que Bóris Casoy teve na última quinta-feira, no debate da Band entre Serra e Haddad.

Por exemplo: ficaram os dois trocando versões tímidas – superficiais – sobre o problema das creches federais em SP. Um diz que fez, outro diz que não fez. Então, por questão matemática, um dois dois está mentindo.

Bóris Casoy certamente sabe direitinho o que aconteceu com a questão das creches. Casualmente, eu, você e mais uma pequena parcela da população também sabe. O PSDB tem a correspondência pedindo grana para as creches. Haddad não teve respostas documentais a apresentar, mas afirmou que a Prefeitura de SP não pediu nada. Andou-se ainda dizendo que a grana federal imporia umas creches muito jererecas, que a Prefeitura de SP não aceitou. Então, jogue-se a verdade para o alto e fique-se com o blá-blá-blá, e ganha quem gritar mais.

A pergunta é essa:

Por que raios de “ética confortável” Bóris Casoy não explicou o que realmente aconteceu? O que impede um jornalista, do alto de sua independência, do alto de seu compromisso com os fatos, do alto de seu acesso profissional à verdade, de restabelecê-la ali, na hora?

Não se trata de “ajudar” o candidato X ou Y. Trata-se apenas e tão somente de baixar a verdade no palco e, a partir daí – aí sim – dar início ao debate.

Eu não gosto do formato atual dos debates. Me ressinto de um pouco mais de profundidade. “Ah, precisa se dirigir às pessoas que estão menos informadas”. Mas, ora, que se danem as pessoas menos informadas, até porque pessoas desinformadas o são por absoluto arbítrio, e não será esse formato que vai ajuda a informar coisíssima alguma.

A entidade jornalística é a principal responsável por esse sambarilove político. Espero que a atitude de Candy Crowley seja pensada e repensada e que possa inaugurar uma nova fase no debate eleitoral – nos EUA e aqui.

  • Foto: Candy é especialista no tema e cobre eleições presidenciais há vinte anos na CNN. Alguma objeção?
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19 opiniões sobre “Inveja do debate alheio”

  1. Candy – desculpem o trocadilho – não estava ali pra adocicar o debate.
    Para variar, numa democracia ou não, a VERDADE sempre vem anexada com os adereços pessoais de cada um.

  2. Inovar e superar esse formato de debate, que não passa de uma velharia, assim como velha é a política brasileira e não falo da faixa etária dos candidatos por que geralmente os boyzinhos do poder são os mais prostitutos de ideologias sucateadas.

    Nada muda por medo das militâncias, acho. Agora se deixar pautar por militância só mostra o adesismo, quando não alugado pelo estatal, e a covardia de jornalistas brasileiros. Deve ser objeto de estudo o Arregacionismo Masculino Brasileiro, porém já ouvi alguns gringos elaborarem algumas explicações para o tema, não sei no senso comum ou no bom, ao dizer que no Brasil não tem regiões montanhosas, tem comida fácil, natureza exuberante, pessoas seminuas, etc e talz… então? Somos cabras frouxos!!!

    Mas, parabéns Letícia por trazer à tona esse fato, sobre o jornalismo cartorial do Brasil.

  3. Se a Candy Crowley fizesse isso com as verbas para creches em São Paulo, que realmente não vieram, seria chamada de tucana e fim de papo: tucana e mentirosa.
    O outro, lógico, seria um petista preocupado com o povo humilde que precisa ter onde deixar as milhares de criancinhas que não tem condições de cuidar.
    Borys deve ter pensado naquela pergunta antiga sobre Deus a FHC. FHC, no caso deveria ter dito: não. E pronto. E mandado bala: sou evolucionista. Acabava com a brincadeira e deixaria muita gente aturdida até hoje.
    Os debates no Brasil, viraram algo do tipo: olha o povo não gosta de quem ataca, agride…Esse é outro sentido e besta, para quem tem coragem de colocar as coisas no seu devido lugar, não aceitar ilações, mentiras deslavadas, caras de pau convictos e despreparados em geral. Esses não podem falar nada, senão o povo fica bravo: quem é o Max? Oras, vão lamber sabão!!!
    Deveriam acabar com esses debates. Quem sabe que o povo pensa? Se soubessem, para que, então, fazer eleições a cada dois anos?

  4. …ou será que Kennedy não sabia que poderia ter sido incinerado junto com o povo norte-americano, ao enfrentar Kruchev. E Kruchev de seu lado, idem.

    Ambos falaram em apertar o gatilho nuclear e na última hora, repensaram e pararam. Cada um recuou por onde pode. Ponto. Funcionou o MAD, conceito de destruição mútua assegurada (MAD).
    Se for para ter representante covarde e cheio de dedos, para que eleger esses bananas?

  5. Estou com o Dawran e o Henrique e tenho a mesma opinião.
    O problema do Brasil é a banana, tanto a fruta quanto o povo.
    Não sei onde ouvi isso mas desde jovem sei que em terra onde dá Banana não há progresso.
    Já tive exemplo prático disso.
    O caseiro de uma amiga recusou-se a pintar a casa que fica no litoral norte,SP, mesmo sendo pago a mais para isso.
    Conversando com o matuto porque não ganhar uma grana extra a resposta foi:
    – Prá que? Eu vou na praia jogo a tarrafa e pego peixe, tem banana verde a vontade aí no mato. Minha mulher faz um peixe com banana verde que é muito bom e eu não preciso de dinheiro para isso. Prá que vou me cansar?
    E continuou pitando seu cigarrinho de palha deitado na rede. E viva o Brasil. 😦

  6. Eu não sei como isto está sendo noticiado no Brasil, mas nos Estados Unidos a apresentadora está sendo acusada de favorecer claramente Obama, é um debate eu também acredito que quem deve responder as peguntas são os debatedores e não a apresentadora, os jornalistas podem obviamente comentar o que quiserem nos seus espaços mas não podem interferir diretamente no debate.
    Jornalismo super valorizado geralmente é um sinal que o país vai mal, seja nas liberdades seja na capacidade da população em compreender e exigir seus direitos sem precisar de intermediário.
    Muito cuidado nesta hora, jornalista também é gente, tem aspirações e interesses e como qualquer pessoa pode estar errado.

    http://www.washingtontimes.com/news/2012/oct/17/curl-crowley-skews-hard-obama-disastrous-debate/?page=all#pagebreak

    http://obamatorio.blogspot.com.au/2012/10/imediatamente-parte-2.html

    http://www.dailymail.co.uk/news/article-2218841/Presidential-Debate-2012-Outrage-moderator-Candy-Crowley-sides-Obama.html

    Este debate portante não é uma boa referência, ao menos para mim.

    Abraços a todos.

  7. Aqui?

    Esqueça! Mal ou bem, candidatos à presidência dos EUA são pessoas com boa formação intelectual e política e sabem colocar classe na campanha, quando instados a tanto. No Brasil não: a regra entre nossos políticos (FHC é exceção) é gente boquirrota, populista que se acha no direito de meter o dedão no nariz de quem aparecer pela frente e lhe atrapalhar seus planos de poder absoluto.

    E digo isso lembrando que provavelmente o nível nos EUA é baixo quando se tratam de eleições de governador, senador, deputado, etc…

    Ademais, se trata de um traço cultural. A imprensa americana está acostumada mesmo a emitir opiniões sem medo de ser taxada pró isso ou contra aquilo. Jornalistas da Fox TV criticam Romney e os da CNN não pensam duas vezes em falar mal do Obama, e nem por isso, via de regra, são admoestados pelos seus chefes. Aqui no Brasil tem órgão de imprensa da situação e da oposição, até porque se trata de uma disputa para saber quem vai receber mais verba de publicidade governamental, que, aqui, todos sabemos, é generosa: gasta-se o que não se precisa para se divulgar aquilo que melhore a imagem dos governantes, não necessariamente de interesse público.

    Sem contar que o Brasil tem a tradição de não respeitar opinião e pior: o Brasil não respeita a verdade.

    Mensaleiros foram condenados e tem deputado de m… que diz que o STF é venal, que quem condenou foi a imprensa, que tem que ter controle social da mídia. Pesquisa só é boa e aceitável se coloca o candidato do próprio partido no topo, senão é mentirosa e é preciso investigar os institutos…

    Enfim, querer que o Brasil tenha algo parecido com os EUA nesse sentido dependeria de melhorar MUITO o nível meia-boca de tudo que existe por aqui… especialmente o povo, que acredita tanto em político ladrão que mesmo com ele condenado continua elegendo-o.

  8. Carlos, acho que, do jeito que está, o jornalismo ruim está supervalorizado, e aqui. Você pega sites pro-governo federal, recheados de anúncios de estatais. Isso é valorizar jornalismo, mas da forma errada. Eu acho que jornalista deveria ter juramento no final da faculdade. Como está, aí é que não serve. Muito menos desvalorizar o cara, o que significaria carta-branca pra escrever só sobre seus interesses. Jornalista deve ser valorizado como qualquer profissional, inclusive dedetizando os maus. Tem uns conhecidos aí que nem deviam ter mais registro.

  9. Fábio Mayer e Tea Party, há concordância no geral.
    Vai demorar ainda um pouco. No caso da imprensa, todos parecem pensar só eme imprensa a favor. Não pode ser independente, livre.

    Porém, tem uma coisa. O Brasil não mais o mesmo depois do início julgamento do mensalão. Ainda pode demorar para aparecer algo, diga-se, mais palpável. Mas, a partir do momento antes e depois, que a Ministra Cármen Lúcia, sentenciou

    (…) “…Acho estranho e muito, muito grave, que alguém diga com toda tranquilidade que ‘ora, houve caixa dois’. Caixa dois é crime. Caixa dois é uma agressão à sociedade brasileira. Dizer isso perante o Supremo Tribunal Federal me parece realmente grave porque fica parecendo que isso pode ser praticado e confessado e tudo bem”(…)

    Assim, o Brasil não é mais o mesmo. Muitos serão absolvidos de vários crimes, mas, condenados por muitos outros crimes. Será impossível absolvição de todos ou a condenação de todos, nesta altura.

    Ninguém mais terá a cara de pau de ficar sorrindo por ser julgado em foro privilegiado.

    Quando esta maneira de encarar o Brasil estiver mais forte, teremos algo assemelhado ao que ocorre nas grandes Democracias do mundo. Hoje ainda estamos fase “Janjaweed”, violenta milícia do Sudão.

  10. Falando em jornalismo…

    Pessoal, vamos ficar de olho nos acontecimentos logo após as eleições.
    Vermelhinhos PTelhos já estão se coçando para trazer à tona um dos assuntos mais controversos de nossa engatinhante democracia.
    Trata-se daquilo que ‘elles’ chamam eufemisticamente de “marco regulatório” ou “controle social da mídia”. Em outras palavras: CENSURA DE IMPRENSA!

    Então, não custa lembrar o que disse nossa presidAnta Dilma Rousseff logo após ser eleita:
    “O controle social da mídia, se for de conteúdo, é um absurdo. É um acinte à liberdade de imprensa. Não compactuo com isso. Se chegar à minha mesa qualquer tentativa de coibir a imprensa no que se refere à divulgação de ideias, propostas, opiniões, tudo o que for conteúdo, é o que eu falei: o barulho da imprensa é infinitas vezes melhor do que o silêncio das ditaduras.”

    Talvez ela não acreditasse que o julgamento do mensalão chegaria onde chegou com todo o respaldo conferido pela exposição midiática.
    Cara-a-cara com Dirceu, Lulla et caterva, ela repetiria as mesmas palavras, HOJE?

  11. “Sum Paulo” é o terceiro cofre. Se o retirante nordestino botar a mão nesse, “lasciate ogni speranza, voi ch’entrate” Será o fim, o verdadeiro inferno daqueles que doutrinam a liberdade.

  12. Emtempo: Retirante nordestino, o Ex defuntus Sebento, o Apedeuta, o Babalorixá de Banânia, o chefe das RatazanasVermelhas o Sapo Barbudo.

  13. Schu, tenho cá comigo uma teoria: se o povo vai preferindo X é porque concorda e acata os pensamentos de X. Não tolero a ideia de que “oh, nós não sabíamos, vocês nos traíram”, e tals. Cada um vota sabendo direitinho o que está fazendo. Nem que seja trocar por duzentos reais. Cada um que assuma suas atitudes e não reclame depois.

  14. Em outras palavras, Lets: fazem por merecer aquilo que procuram.
    Está tudo escancarado. Mas se optam por saltar no escuro…

    Temos consciência que às vezes bradamos no deserto, idealizando demais as coisas.
    Mas, de uma coisa tenho certeza: a voz do povo nem sempre é a voz de Deus.

  15. Daí vem a teoria: Se você vota não tem direito de reclamar, ao contrário do pensamento geral.
    Explico: Se você vota está concordando com o resultado, seja ele qual for então não pode reclamar. Se não vota pode botar a boca no trombone. Você não participou da orgia.
    Por isso a definição de democracia: Dois lobos e um cordeiro votando o que jantar. Liberdade: uma ovelha bem armada contestando o resultado.

  16. Schu, tenho minhas reservas nessa relação entre povo e Deus. Não tem a santíssima trindade? Então, o papel de Deus foi criar e cabô. Se há nesse trio alguém com a incumbência de cuidar, coitado, esse é o pior papel. Parece que não deu certo.

    Tea Party, o pior é você votar em X e Y ganhar, você se submete moralmente a Y. É o que farei. Mas também não quero ouvir um pio de reclamação de quem votou em Y. Como disse, não tolero essa coisa de que “ele nos enganou”.

  17. Desculpem por voltar ao assunto, acabo de me lembrar deste vídeo:

    Inveja da imprensa alheia, cada vez tenha mais nojo da nossa imprensa venal e corrupta que adora paparicar poderosos e até jogadores de futebol.

    Abraços.

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