Falando em simplismo…

Editorial da Folha de hoje aborda o fato de os dois candidatos à Prefeitura de São Paulo terem abandonado a batatada do kit gay e se debruçado sobre a saúde. Ok, concordo.

E lamenta que o debate sobre saúde tenha descambado para o maniqueísmo ideológico. Também concordo.

Daí pega pesquisas do Datafolha, como se opinião do povo (desculpe) fosse lá grande coisa. É estatístico que povo, penda para um lado ou para outro, utiliza critérios de povo para avaliar as coisas. Vai saber o que se passa na alma de cada entrevistado?

Tem gente que simplesmente acha de bom tom destacar defeitos em qq coisa. Ao criticar – mesmo algo que vai relativamente bem -, aquele ente se sente importante, passa uma ideia de exigente, de que tem gosto fino, paradigmas, e tals.

Isso sem contar com críticas – no caso ainda da saúde – de quem não usa o serviço público. Em São Paulo, 8 milhões dependem da saúde pública, o que significa que, grosso modo, alguns outros milhões usam planos de saúde. Esses também circulam em ruas onde Datafolha e Ibope pesquisam, vai daí você aborda um indivíduo, e acho muito difícil que ele corte a conversa com um “não uso a saúde pública, não posso responder”.

Ele diz que usa, nem que more em Diadema, pelo único e singelo fato de que lhe apraz responder pesquisa. Vai daí e despeja toda sua insatisfação “de ouvir falar”. Pesquisa Ibope recente aponta que 70% dos usuários de plano de saúde estão insatisfeitos, fato que abordamos aqui, de uma forma ou de outra.

São vários os motivos: falta de médicos para regiões mais distantes (e falta de médicos até nos centros de capitais); safadeza de planos de saúde que não se equipam para procedimentos mais complexos; safadeza de prefeituras outras, e até de ouros estados, que mandam seus pacientes mais complicados para os equipamentos das capitais (notadamente São Paulo).

As soluções das gestões de SP para lidar com o enorme número de pessoas que se tratam aqui (os porteiros aqui do prédio, por exemplo, alguns moram em outras cidades, mas suas consultas são aqui) vêm sendo feitas com planejamento e com o dinheiro que se tem.

As OSs, tão atacadas nessa campanha, é uma solução interessante: você paga a eficiência privada e economiza, evitando lidar com o mostro da máquina pública e todas as suas más características: enfermeiras arrastado chinelo, setores feudalizados em hospitais, altos encargos trabalhistas e a eterna herança de funcionários caros, muitas vezes preguiçosos e capacitados via mero concurso.

Outra coisa com que quase não me conformo (Serra nem tenta explicar, mas entendo seu lado) é a metralha petista à tentativa de tirar um bom partido da distorção de planos de saúde utilizarem o SUS de graça: hospitais públicos teriam uma ala (e não “roubariam leitos”) só para esse tipo de pacientes, devidamente ressarcidos pela saúde privada, corrigindo a distorção.

A grita petista foi tanta que tudo, então, permanece como está: planos de saúde continuam tirando grandes casquinhas do dinheiro público numa boa.

Alguém vai me dizer que um cidadão comum, entrevistado ao léu, sabe de tudo isso?

Por isso pesquisas Datafolha e Ibope não têm superioridade moral pra avaliar coisíssima nenhuma. A régua do povo não é parâmetro pra absolutamente nada. (Só que não)

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14 opiniões sobre “Falando em simplismo…”

  1. Já que todos metralham, deixa eu falar o meu lado: vou, todo mês, pegar remédio de alto custo para mamys, no SUS do Glicério. É repartição pública, certo, mas nunca vi o tal “mau tratamento” dos funcionários. Não nos carregam no colo, masa não destratam. Sempre que vou, há cadeiras vagas, mas as Jebuleines ficam de pé, atrapalhando a circulação e depois aparecem com voz esganiçada nos programas de certos partidos, dizendo que ficaram de pé POR HORAS. Fora que o pessoal vive com a cabeça na lua e perde a chamada de sua senha, depois ficam reclamando. Da minha parte, não espero nenhuma regalia.

  2. 10 anos de petismo “de sucesso” enfiaram na cabeça do povão idiota que a única coisa pela qual ele deve se preocupar é com a saúde, porque todo o resto o bolsa-família e a política de microcrédito do Lula resolve.

    Daí o resultado é esse aí, todo mundo falando sobre o que não sabe e não entende, se escandalizando a cada vez que a Rede Globo mostra algum serviço de saúde precário no Rio de Janeiro, coisa que acontece todos os dias, porque o Rio de Janeiro é precário em absolutamente tudo.

    Tenho amigos médicos, minha noiva é dentista. Uns atendem particular outros pelo SUS e a reclamação é sempre a mesma: o povão usa a desculpa da “saúde” para não trabalhar, se encostar no INSS, ganhar atestado para ficar dois dias em casa (teve um caso da minha noiva em que a Merdineide simplesmente fez um risco com caneta de cor diferente e aumentou o atestado de 1 para 4 dias de folga), mais de 50% das consultas simplesmente não precisariam ser feitas porque os pacientes não têm absolutamente nada!

    O Brasil tem mais recursos para a saúde que a maioria dos países do mundo, o problema é que aqui rouba-se demais. Médicos roubam, administradores políticos roubam, funcionários roubam e quando são públicos e concursados ainda fazem corpo mole, pacientes roubam e tentam roubar, fornecedores roubam, todo mundo quer tirar um naco e se aproveitar do jeito que der.

    Enfim, essa discussão é estéril. Desde que o PT virou partido nacional (na eleição da Erundina) a ladainha é sempre a mesma: saúde, saúde, saúde, saúde e o que é mais visível é que está há 10 anos no poder federal, mas a porcaria da saúde só piorou e o povão não entende ou não quer entender, porque a verdade é que se beneficia do caos de alguma forma, nem que seja um dia de folga para beber uns tragos no boteco!

  3. Mas, colegas, não dá para trocar de povo, não é? Será esse mesmo povo ai, para sempre. Nos países nórdicos também tem povo que reclama e muito. Na Alemanha e onde tiver povo. O nosso é esse.
    Porém, quem deveria ser claro na proposição e na defesa de suas propostas são os desenvolvedores, os planejadores de políticas públicas. Está mais do que cristalino que a crítica está tentando desacreditar os convênios com OSs, para que os funcionários sejam todos públicos. O velho papo da “privatização da Saúde”. A pergunta é: quem reponde clara e duramente a tais críticas? Quem mostra os dados antes e depois? Quem se propõe a não mudar por estar dando certo? É um silêncio enervante, quando falam enervam mais ainda, pois, parecem estar falando perante uma entidade superior, com aquela cara compungida, cheia de faceirices de quem foi pego sem ter razão no que propõe. Assim não dá e assim não vai. Tem de ter quem fale claro, no tom adequado. Explique com segurança, defenda-se fortemente no MP, ou seja lá onde for. Está ocorrendo exatamente o contrário. Ninguém fala ao tal de povo o que existe de verdade e o que é mentira. Assim fica fácil para os críticos.

  4. Leticia, concordo, mas já ia destacar que o que me assombrou muito mais foi o outro editorial de hoje (o de cima), pregando inacreditável impunidade aos criminosos do colarinho branco, mas acabei de ler um pist demolidor do Reinaldo exatamente sobre ele, duca, abs M

  5. Contando ainda com as pesquisas que ninguém sabe para que servem. Teve uma recente, atestando que mais de oitenta por cento da população de SP reprovava o trânsito da cidade. Indagado, Kassab disse acertadamente, estar a procura dos quase vinte por cento que então estavam satisfeitos com o trânsito. Chato, não?

  6. Claudio, essa foi ótima, sobre os ônibus. É uma das coisa que torram o pacová. A Cidade tem mais de 10 milhões de habitantes e mais de 5 milhões na RMSP, grande parte trabalhando na Capital. Oras, se coloca ônibus, lota de gente. Metrô, lota. Trens, lotam. O que queriam encontrar em ônibus, Metrôs e trens? E lotam, simplesmente porque são necessários!!! Ou iriam construir tudo isso para ficar às moscas? O que não dá para entender é o porque das autoridades não terem respostas óbvias para perguntas óbvias. Muitas das perguntas são para encher, pegar no pé etc. Mas, autoridades têm mandato ou mandado para isso mesmo. Quanto ao trânsito, as respostas seriam simples: mudem de São Paulo, vendam seus carros ou deixem-nos nas garagens de casa, utilizem o transporte coletivo lotado, ou fiquem em casa assistindo TV. Querem morar numa das maiores Cidades do mundo e ter o conforto de trânsito de um sítio em Marsilac? Passou da hora de pararem de torrar, não é?

  7. Sobre a saúde,o petista dividiu a saúde de SP em rica e pobre.A rica obviamente é a do Sírio Libanês,Albert Einstein,Santa Catarina..etc,e a pobre os hospitais públicos,AMAS,PS…etc. e despejou todo aquele rancor ideológico contra tudo é todos.Aí me pergunto-Em qual estado governado por petista a saúde pobre é um exemplo a ser seguido?E,a saúde rica?Os caciques petistas ,políticos..etc,quando precisam,saem dos seus estados e vêm prá onde?Prá saúde rica de SP.Se nem um hospital particular de qualidade,tem em seus estados,imagina os públicos para o povão.Quanto ao trânsito,ora…o governo facilita o crédito,reduz impostos ,o povo compra carro.Quantos carros novos vão prás ruas por dia,por mês…sei lá!O governo em contrapartida investe em infraestrutura,transporte urbano,avenidas ,ruas…etc,aumentaram ou são as mesmas?Como não ter trânsito?Como não poluir?Como não virar um caos?Onde arrumar espaço prá ônibus?Ah..mas tem que investir em metrô.Sim!Mas é caro é demorado,não vai acompanhar o volume de carros,motos..etc,que entram no mercado.Sem falar no apagão dos combustíveis,aliás,já acabaram com álcool(de novo).Como disseram falta alguém prá bater de frente,responder adequadamente.Enfim,sair das cordas.

  8. Ah..em tempo,esqueci,mas como exemplo,o Min. Lobão está internado no Einstein.Não ficou em Brasília, não foi pro seu estado e nem prá saúde pobre.

  9. Maria Edi, meus remédios eu pego aqui, na UBS Jardim Vera Cruz. Nunca vi bagunça, nunca me faltaram remédios, nunca fui mal atendida, os médicos e enfermeiras são superfofos. Mas há também as Jabuleines e suas proles. Estão sempre no celular e não conseguem fica um minuto sem falar alguma coisa. São essas mesmas que acham o serviço péssimo.

    Fábio, somos a turma do rolinho. Temos um trabalhão danado pra não precisa trabalhar. É o resumo.

    Dawran, como no primeiro turno, hoje fui a pé votar, uns 40 minutos de caminhada. Olhava as calçadas (limpas de santinhos desta vez). O estado das calçadas. É, esse é o povo que reclama de pelo em ovo no metrô. É o que temos meeeeesssmo.

    Eu vi, mdv. Você viu o último capítulo de Gabriela? O penúltimo? Texto didático de Jorge Amado, em mil novecentos e bolinha. Ramiro Bastos morreu, Mundinho Falcão automaticamente massageado pelo povo e pelas lideranças. Também é o que temos.

    Não é, Claudio? Esse tipo de filigrana, não é que o povo não vê. Ele simplesmente não tem alcance pra chegar lá e, mesmo que chegue, não interessa. Todo mundo opina instrumentalmente.

    Maria Edi, eu lamento tanto esses estado de coisas… Mas penso que, antes de não termos oposição, fizemos crescer um partido sem limites. É mais ou menos como a vizinha barraqueira: não se ganha discussão com esse tipo de gente. O exemplo é o ranking de “candidatos processados”, em que o PT aparece lá embaixo. Ora, se o PT tem um departamento organizado só de processar inimigo e os outros partidos não têm, é natural que só sejam processados quando acontece algum contratempo #robertojefferson, não?

    Dawran, fora o “efeito-borboleta” na cidade: a cada ônibus que se põe a mais, mais gente se muda pra perto de seu ponto final.

    JCM, a novela das oito ontem mostrou o favelão que é a UPA 24 horas do Morro do Alemão no Rio. Fui ver no twitter, quase não reverberou. Ou seja, ninguém notou. É o normal, é o padrão aceitado. Então, né?….

  10. JCM, esse perrengue acabará. São Paulo ficará tão sensacional que logo logo qualquer um deles poderá se internar num dos inúmeros hospitais construídos por Haddad. Aguardemos.

  11. De todo será engraçado de ver as cabeçadas. Na campanha, o então candidato, hoje eleito prefeito, disse que iria “acabar com a cobrança da taxa da inspeção veicular” . Hoje, na Jovem Pan, entrevistado, disse que vai acabar, só em 2013, pois depende da Câmara de Vereadores. Que depende de lei da Câmara. E será que o cidadão não sabia disso? E complementou que “seria mais rápido acabar com tributo do que instituir tributo”. Só que ele se engana. Ainda terá de seguir a Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF), determinando a receita em contrapartida ao corte da taxa. Assim, se acabar com uma fonte de receita, tem de determinar a receita correspondente para manter o orçamento equilibrado. É o que dizem dos “novos”, “dos postes novos”. São afoitos. E nós, teremos de ficar quatro anos vendo o cidadão estudar administração pública e finanças públicas, no exercício de um mandato? Numa das maiores cidades do mundo?

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