Sem inveja, graças a Deus!

Se São Paulo não estivesse no caldeirão da articulação da passeata “Fora Lula” do dia 4 de agosto aqui em São Paulo, eu juro que ficaria com inveja. Como isso seria impossível e estou na maior animação para o próximo sábado, espero sinceramente que o evento, que está sendo organizado em várias capitais – e, mais importante, por várias CLASSES SOCIAIS que penam igualmente com este governo incompetente -, marque o fim definitivo de uma mentalidade rançosa, pobrista, coitadista, de fundo de igreja e covarde. Todos nós: empregados, desempregados, ricos, pobres, remediados, classe média alta, baixa, média-média, enfim, todos os brasileiros que sofrem com aviões em chamas, com filas absurdas em hospitais, com miséria física, moral e intelectual, com aposentadorias indecentes, com um serviço público inútil e com importos extorsivos, precisamos aprender a cobrar, a acompanhar tudo o que é feito, e mais: parar com essa coisa de “eu quero meu confortinho e tudo o mais que se dane”.

 

Lá vai a agenda que roubei lá no Reinaldo Azevedo:

 

O endereço no Orkut é este: http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=1423854

Data: 4 de Agosto, sábado, às 14h.

São Paulo – Concentração na Avenida Paulista (c/ Pamplona) – Metrô Trianon/Masp

Rio de Janeiro – Copacabana, Forte do Leme

Belo Horizonte – Praça da Liberdade

Vitória – Praça do Papa (em frente ao Palácio do Café)

Brasília – Aeroporto JK, Porto Alegre – Aeroporto Salgado Filho

Curitiba – Rua XV, em frente à Praça Osório

Belém – Praça do CanNatal – Aeroporto Internacional Augusto Severo

A carta de Anita a Mário

Anita Malfatti amava Mário de Andrade, e ele sempre se calou a esse respeito. Isso é público e notório. Mário, com toda aquela figura que aparece séria, circunspecta ao grande público, era, na verdade, um detonado. Topava todas, em todos os sentidos; mas era inconteste, pelo testemunho de amigos e pelos seus escritos, o turbilhão em que vivia. Católico semi-inconsciente, cheirador de cocaína e éter, saudoso da mãe quando morou no Rio, um semi-alcoólatra; quem sabe bissexual; doce e amargo; sensível e monstruoso. Talvez por isso não lhe tenha sequer passado pela cabeça provocar alguma dor em Anita – tão vulnerável, tão terna, tão recolhida em seu defeito físico e em sua grande decepção artística desde a crítica de Monteiro Lobato, em 1917.

A carta a seguir eu procurava fazia tempo. Por preguiça de digitar, procurei na net, sem achar uma íntegra. Depois suspirei fundo e comecei a desbravar a bagunça da minha estante, cujos livros estão amontoados por tamanho (!) desde a reforma da cozinha. E outro dia achei, olha só…! Estava separada aqui embaixo, perdida nos papéis da minha escrivaninha. É um xerox que ganhei faz séculos, nem sei a que livro pertence. Gostaria de dar o crédito, mas… De qualquer maneira, os escritos de Anita Malfatti estão sob a guarda do Instituto de Estudos Brasileiros da USP.

Quando se completaram dez anos da morte de Mário, o jornal Diário de São Paulo encomendou a ela uma carta. O texto – lindo, lindo – diz muito da São Paulo dos anos 1950 e, mais, deixa entrever toda a delicada dimensão de Anita Malfatti e de seu sentimento.

 

Caminho do Céu – Estrada da Saudade
Após dez anos de sua partida da terra
onde nós estamos morando provisoriamente

anita-malfatti2.jpg“Bom dia, Máriomario-de-andrade.jpg

Já sei que você deve ter estranhado muito ter passado dez anos sem notícias minhas.(1) Não foi por falta de lembrança, muito ao contrário, foi por falta de iniciativa. A gente chegando a própria presença dissipa as dúvidas, o alegrão da chegada é tão grande que até a musica da alvorada parece ser tocada em surdina. Ai que bom! Depois de abrandar a exaltação da volta, vem um estado brando e feliz e, aos poucos, podemos falar. É tanta coisa para se contar, é tanta pergunta para se fazer que, felizmente, o tempo não conta por hoje!…

Você viajou muito, que tal. Você está bem, tão remoçado que parece um adolescente sábio, isto é, um poeta hoje sábio, que já sabe o que não sabemos, e perenemente jovem como seu espírito sempre foi, e alegre, e feliz, sem a dúvida que mata os homens desta nossa triste Paulicéia, que hoje não é mais desvairada, mas, sim, avoada, cheia de arranha-céus, de viadutos, de dois para três milhões de gente que brotaram não sei de onde. Tudo se movimenta, tudo trabalha, tudo faz barulho, a ambição se condensa por cima dos homens e das casas numa nuvem feita como um cogumelo que parece bomba atômica. Não sei ainda os efeitos desta coisa tremenda, que, em pequenas doses, vitaliza e dá energia às pessoas, ao trabalho e às coisas, mas em grande escala, assim como em São Paulo, pode ser terrível. O talento do grande povo daqui, tanto artístico como científico, é uma dádiva comum e é uma verdadeira maravilha, mas o erro é que todos o querem só para si… daí a confusão!
Depois que você partiu, inventaram o Ibirapuera, o Parque das Exposições,(2) uma verdadeira festa de coisas que se podem mostrar para os outros. A arquitetura dos grandes prédios como seus planos inclinados enormes, com espaços simples e maravilhosos, foi o que mais me surpreendeu e encantou. A pintura moderna se manifesta em toda a linha. Os estrangeiros felizes de serem, como sempre, muito bem recebidos, mandam os superfeitos de suas criações plásticas. A História do Brasil tem seu lugar digno, imponente e belo nisto tudo. Nós, que não sabíamos história do Brasil, saímos do Pavilhão da História rememorados e doutrinados; saí com a impressão de ter assistido a uma aula de José de Anchieta, isto é, a um curso inteiro, condensado e resolvido. O Ciccilo,(3) com seus auxiliares, começou a grande obra e Guilherme(4) a rematou. Alguns de seus amigos ficaram célebres como pintores, como escultores, músicos e escritores! Todos os artistas do Brasil eram loucos por você, mas ainda quando Osvald partiu, seus amigos disseram que não se conformavam com sua falta.
Felizmente estamos todos como que juntos outra vez, mesmo sem esperar os cinqüenta anos da sua ausência, quando surgirão todas as 3.000 cartas que você guardou.(5) Como você vê, eu tinha perdido o jeito de escrever para você, mas estou achando mais fácil do que eu esperava. Eu moro longe de São Paulo, tomo conta do meu jardim, arranco o mato e planto as flores e as árvores, rego quando posso,(6) arrumo a casa e pinto as festinhas do nosso povo que dão alegria ao coração da gente simples. O grandioso e majestoso, assim como a glória e o mágico sucesso me deixam calada, triste, mas as coisas fáceis de pintar, simples de se compreender, onde mora a ternura e o amor do nosso povo, isto me consola, isto me comove.
Não sei ainda como é onde você foi morar… será como?… Deve ser um lugar cheio de poesia, de anjos de vez em quando e… e como é que você escreve hoje? Mudou de diretrizes? Será mais músico do que poeta?… – Parece-me que você bem pode ser as duas coisas ao mesmo tempo.
E nós que não sabemos as últimas novidades, porque você sempre foi novidadeiro… Mário. Como poderíamos saber! Ouvir?… sim, mansinho dentro do nosso coração!
Tenho medo de ter desapontado a você. Quando se espera tanto de um amigo, este fica assustado, pois sabe que por nós mesmos nada podemos fazer e ficamos querendo, querendo ser grandes artistas e tristes de ficarmos aquém da expectativa.
Procurei todas as técnicas e voltei à simplicidade, diretamente, não sou mais moderna nem antiga, mas escrevo e pinto, o que me encanta.
Escrevo pois para você, grande e querido amigo, ai se eu pudesse consolá-lo, quanta felicidade para todos nós.

Anita

 

[em Diário de São Paulo, São Paulo, 1955

(recorte sem indicação de dia e mês, Arquivo Anita Malfatti.]

 

(1) Mário de Andrade morreu em 1945, com 52 anos. Esta carta foi escrita em 1955.
(2) Palácio das Exposições, no Parque do Ibirapuera, construído especialmente para as comemorações do IV Centenário da cidade, em 1954. O trecho seguinte também se refere à grande exposição comemorativa.
(3) Francisco Matarazzo Sobrinho, o Ciccilo, mecenas e presidente da Comissão do IV Centenário.
(4) O poeta Guilherme de Almeida, que substituiu Ciccilo na presidência da Comissão.
(5) A pedido de Mário, as cartas que recebeu não poderiam ser publicadas antes de cinqüenta anos de sua morte. O Instituto de Estudos Brasileiros da USP cumpriu a promessa e há alguns anos abriu para o público não só a correspondência de Mário de Andrade, mas também a de Anita Malfatti. Já para as cartas que Mário enviou, não foi necessário esperar tanto tempo.
(6) No último período de sua vida, Anita Malfatti afastou-se da imprensa e do meio artístico e foi morar com a irmã em Diadema, na época uma região rural.

Que verrrrrrgonha!

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Inúmeros pilotos, do Brasil inteiro, estão devolvendo ou pretendem devolver as medalhas do mérito Santos Dumont com que foram agraciados nos tempos em que ela estava valendo alguma coisa. A homenagem foi criada em 1956, por JK, e destinava-se a nomes ligados à aeronáutica cuja carreira tenha sido de grande valia para a aviação.

A reação, como todos sabem, originou-se na infeliz condecoração, com a mesma distinção, de notórios incompetentes da Anac, apenas três dias após o acidente aéreo que matou duzentas pessoas em São Paulo.

Tenho certeza que Alberto Santos-Dumont se mataria novamente ao ver que a medalha que leva seu nome está servindo pra tirar feijão do dente e pra limpar unha. Desta vez não se enforcaria. Daria um tiro na cabeça. Seria mais rápido.

  • Foto: réplica do 14-Bis, na praça Campo de Bagatelle, avenida Santos Dumont, próxima ao Aeroporto Campo de Marte, em Santana, Zona Norte da cidade.

O mictório municipal

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Eu quero mesmo que saia do papel o projeto de um transporte rápido para Cumbica, e até mesmo para Congonhas. No caso de Guarulhos, não precisa nem ser trem-bala: pode ser um Metrozinho básico mesmo. Duvido que o tempo de chegada lá não abrevie em relação ao automóvel. Além de tudo, democratiza o transporte mais ainda, malgrado o excesso de gente que desfruta da coisa.

O Metrô da cidade, por exemplo, foi algo que democratizou. É usado por todo tipo de gente, embora isso devesse requerer eterna vigilância; o que, como sempre defendo, não é possível. Não dá pra botar um guarda a cada 5 metros quadrados de cidade. A única maneira de convivência na sociedade é a educação.

Outro dia vi um indivíduo chegando à plataforma do Metrô Vila Madalena, e ele simplesmente soltou uma cusparada na via. Pensei comigo: Pô, de que buraco esse cara saiu? Sim, porque até onde sei, a cidade melhorou muito em termos de hábitos cusparativos. Meu pai sempre me conta que cuspir era uma febre lá pelos anos 1950, 1960, e que melhorou muito de lá para cá. A coisa resiste, por exemplo, nos trens tradicionais, que levam a grandes distâncias; mas no Metrô, até pela própria conformação da coisa, muitos hábitos ruins foram coibidos.

Outra coisa que persiste – acho que em qualquer lugar do mundo – é fazer xixi em escadas. Qualquer escadaria de São Paulo exala aquele cheiro forte, e por cima o odor do desinfetante público, o que – acho – torna a coisa mais nojenta ainda.

A Prefeitura gasta milhões de reais com a limpeza diária da res publica. Cá pra nós, isso um absurdo. Melhor seria se as pessoas parassem de cuspir, de jogar lixo ou de encher a caveira e urinar no cantinho mais próximo.

Esta escada aí da foto é a saída principal do Metrô Sé. Passei cinco anos de minha vida usando-a todas as manhãs, e digo: os narizes mais sensíveis têm de suspender a respiração. O povaréu definitivamente a elegeu para fins privados. Isso sem contar com as outras saídas, que as pessoas de bem simplemente não usam porque dão diretamente na praça – sim, sim, ela continua perigosa, apesar da reforma da Prefeitura.

Se eu fosse o Metrô, avançava com a grade – sim, as eternas grades – que existe abaixo desta escadaria para a parte de cima. Assim, na madrugada, período em que as estações estão fechadas, ninguém conseguiria fazer xixi nela. Afinal de contas, como vivemos num regime democrático, há que se pensar também naquelas outras pessoas – a maioria – a quem mamãe ensinou para que serve um banheiro.

Caminhada amanhã em São Paulo

A concentração será no Monumento às Bandeiras, no Parque do Ibirapuera, neste domingo, às 9 horas. Segue pela República do Líbano, avenida Moreira Guimarães e entra na Washigton Luis, prosseguindo até o terminal de cargas da TAM Express, onde houve a queda do Airbus, para homenagear os bombeiros.

 

Lá estarão parentes das vítimas do vôo 3054 da TAM, acompanhados de membros de entidades como a Associação Brasileira de Parentes de Vítimas de Acidentes Aéreos (Abrapavaa), Cidadão, Responsável, Informado e Atuante (Cria Brasil), Campanha Rir para não Chorar, Casa do Zezinho, Fundação SOS Mata Atlântica, Instituto Brasil Verdade, Instituto Rukha e Movimento Nossa São Paulo: Outra Cidade. O evento exporá publicamente o seu repúdio pela crise e exigirá do governo soluções imediatas.

 

Pede-se que os participantes usem pelo menos uma peça de roupa preta e que levem flores para homenagear as vítimas. Esta caminhada é apenas o primeiro ato da mobilização nacional pela segurança aérea.

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(…)

Quando eu morrer quero ficar,
Não contem aos meus amigos,
Sepultado em minha cidade,
Saudade.

Meus pés enterrem na rua Aurora,
No Paissandu deixem meu sexo,
Na Lopes Chaves a cabeça
Esqueçam.

No Pátio do Colégio afundem
O meu coração paulistano:
Um coração vivo e um defunto
Bem juntos.

Escondam no Correio o ouvido
Direito, o esquerdo nos Telégrafos,
Quero saber da vida alheia
Sereia.

O nariz guardem nos rosais,
A língua no alto do Ipiranga
Para cantar a liberdade.
Saudade…

Os olhos lá no Jaraguá
Assistirão ao que há de vir,
O joelho na Universidade,
Saudade…

As mãos atirem por aí,
Que desvivam como viveram,
As tripas atirem pro Diabo,
Que o espírito será de Deus.
Adeus.

  • Mario de Andrade, Poemas da amiga (excerto).

A praga dos espelhados

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Cês ouçam o que estou dizendo: daqui uns dez anos ninguém mais vai agüentar olhar pra prédio espelhado. Um arquiteto bola uma idéia inovadora, daí todo mundo copia. E aí não é mole não, fica tudo um arremedo do muderno.
Logo logo pego uns exemplos do que foi o (aaaaaaaaaaiiiiii!) grito da moda uns vinte anos atrás, pra vocês entenderem o que estou dizendo.