Mais coisinhas do GP

Assim caminha a humanidade:

Não contei, mas semana retrasada eu passei a mão no resto dos livros de vovô que haviam ficado na garagem da tia. Era isso o combinado. Resultado: virei uma madame dos livros a metro, coisa que nunca havia cogitado e agora curto à beça: aquela estante harmônica, organizadíssima por volumes.

Outra coleção, similar à “Nosso Século”, mas que chama “Conhecer Nosso Tempo”. Ela é muito interessante também. Pena que não está tão bonita quanto à anterior. Mas não é por desleixo; é o material que não ajuda: a lombada, por exemplo, está desbotada em relação à capa. Mas está inteiraça.

Foi nessa coleçã que achei essa foto aí em cima, de um GP de Interlagos no tempo de Dom João Charuto. Nela, se percebem algumas coisas: a organização espacial do evento parecia a festa do caqui, com a patulée fotografando à vontade, pai e mãe de algum piloto praticamente encostados no carrinho do filho e a mulherada sapeando amadoristicamente, muito diferente das contratadíssimas line girls d’agora e das não tão line, não tão girls que persistem em torno desse tipo de evento. Enfim, um mafuá.

Idem a assistência e o entorno. Outro dia mamãe lembrou de um amigo do meu irmão que conhecia uma “árvore ótima” para assistir aos grandes prêmios. Não tenho registro de que meu irmão tenha se empoleirado numa dessas, tampouco tenha frequentado puxadinhos e janelinhas jeitosas na vizinhança (essas persistem firmes e fortes).

Ai, meu Deus!

Estou sabendo que Fafá de Belém mandará ver em sua versão dor-de-barriga do Hino Nacional antes da corrida deste domingo. Mas, vem cá, isso não dava azar? Passou a quizumba?

Ai meu Deus! II

A Barbara Gancia adorou as linhas do troféu desenhado por Oscar Niemeyer, embora questione sua durabilidade a curtíssimo prazo. Eu não gostei, não. Adorei essa coisa do material vegetal, e tal. Mas o desenho me evocou uma coisa meio cornuda, meio JK.

Ídolos para os pobres, GP para os ricos

Duzentos e trinha milhões de reais. Este é o montante de grana que o turismo de Formula 1 está atraindo pra cidade este ano. Trinta paus a mais que no ano passado. E sem crise. Até porque as viagens já tinham sido planejadas e fechadas antes do tsunami americano. Desde o Hotel Fasano até o Hotel Feelings, está tudo praticamente lotado.

A F1 é um turismo para alto poder aquisitivo e envolve, necessariamente, muito mais gente que qualquer outro. Para se ter uma idéia, a última Parada Gay movimentou R$ 189 milhões. A Bienal (hirc!), em torno de R$ 120 milhões. O Carnaval deste ano rendeu pra cidade minguados R$ 40 milhões.

Por isso, acho mesmo é bom que a Prefeitura fique sempre de olho bem esbugalhado nos gastos e na qualidade do Autódromo (José Carlos Pace) de Interlagos. Porque o autódromo tem calendário constante e os preços “salgados” não espantam os usuários. Segundo o site do circuito:

[…] reformas anuais no autódromo, na atual gestão, destacando a redução gradativa das despesas e uma sensível melhoria na receita. Enquanto, por exemplo, em 2004, o déficit do autódromo foi de 5.2 milhões de reais, em 2007 caiu para 799 mil reais. E as obras prosseguem. Para o GP Brasil deste ano, dias 31 de outubro, 1º e 2 de novembro, o circuito terá um novo hospital – uma solicitação da própria FIA – além da conclusão do módulo “M” da arquibancada com capacidade para mais 2.5 mil lugares. A adequação de Interlagos inclui ainda uma estrutura fixa para o Hospitality Centre, com possibilidades de uso para outras atividades, e melhorias na área de paddock.

“Estamos cumprindo rigorosamente tudo o que foi prometido. Interlagos estará ainda melhor este ano”, disse Caio Luiz de Carvalho. A Prefeitura Municipal tem contrato com a FOM – Formula One Management – para a realização da corrida em Interlagos até 2014.

A única coisa desagradável do GP deste ano é que já percebi que a Globo faz de um tudo pra substituir um ídolo por outro. Não é segredo pra ninguém que sempre achei Ayron Senna um chato, e acho mais sacal ainda essa lembrança chorosa toda, como se ele fose da família (blargh!). Agora, pelo jeito, é Massa, que anda massivo demais (que trocadilho porco!). Não aguento mais olhar pra cara dele. Espero que não se torne um pé-no-saco também.

  • Fotos: acima (O Globo): botei fotinho do Pace só de desaforo. Esta foi no GP de Interlagos em 1975 (ao lado de Fittipaldi). Pelo menos, ele teve a hombridade de morrer num acidente de avião; e longe das câmeras. Abaixo (Marcelo Pereira, Terra): ranhuras feitas na pista, caso chova. Acho lindas essas finalizações certinhas da engenharia civil!

IURL

Todo mundo tem na cabeça o jeito como funciona o PT. Já aprendeu tanto que é capaz de imaginar a próxima desculpa. Mas de vez em quando sai uma frase lapidar pela sua exatidão. É o caso do Gravataí, do Imprensa Marrom:

Toda a vida do Partido dos Trabalhadores consiste na sustentação do mito de Lula.

E não é que é, mesmo? Estava lendo seu post agora, e lembrei que passei hoje no S.a.b.e.lucha, praticamente o único lugar onde dá pra tomar um ca.fé normalmente em toda a rua Tr.eze de Maio, no Beexeega. O dono lá é o B.r.u.n.o, petista doente.

No início era só discurso, mesmo assim quando o cliente puxava a conversa. Agora (fazia tempo que eu não ia lá) ele tem uma espécie de altarzinho, consistente numa foto autografada do apedeuta: “Ao companheiro B., um abraço do Lula”, uma espécie de cartão-postal com uma foto do Lula das antigas e uns dizeres proféticos, um tercinho de artesanato (ai, ai, ai, essas estéticas), um boné do PT, e isso e aquilo, que também não fiquei olhando muito.

Fiquei pensando em quão arrasado ele está. Mas aventei também a possibilidade de o babado dele ser com Lula apenas e tão-somente. Uma coisa meio IURD.

Quando estava de saída, ele chegava. Havia uns clientes antigos que começaram a conversar e a cantar “Sorria”, a músiquinha de Evaldo Braga que bombou na campanha de Kassab. Ele aceitou a brincadeira, conformado.

Deu pena. Palavra.

Por uma Bienal pobre, mas… limpinha???

Começo com a síntese sintética de Tutty Vasques no Estadão de hoje:

Parece que o público entendeu a idéia da “Bienal do Vazio”. Ontem, na reabertura da mostra no Pavilhão do Ibirapuera, não havia filas nem para andar de tobogã.

Pra quem está por fora, o evento deste ano veio com um conceito boko-moko cheio de blá-blá-blá pra encobrir outro muito mais prosaico: a falta de grana. Simplesmente manteve um andar totalmente vazio, achando que os visitantes chegariam lá e diriam: oooohhhh, que significativo!

Artistas e entes ligados ao mundo das artes que se creem donos do pedaço tiveram, então, um “choque de realidade”; Aberta em 26 de outubro, logo no primeiro dia a Bienal apareceu com pichações como a da foto, feitas por grupos denominados “Susto”, “4” e “Secretos”. De lambuja, os “vândalos” quebraram vários vidros do prédio. Houve tumulto e aquela coisa pheena® virou uma delegacia: “ninguém entra, ninguém sai”, até que a PM chegasse. O pessoal da organização, é claro, “repudiou” o ato.

Andrea Matarazzo, secretário das subprefeituras, membro do conselho da Bienal (!?) e sobrinho-neto de Ciccilo Matarazzo – que emprestou seu prestígio e empenho para que a Bienal fosse criada em São Paulo nos anos 50 – ficou tiririca. Ele até entende o esforço de Ivo Mesquita, curador do evento, diante de um orçamento reduzidíssmo. Mas tudo tem limite, não? A manter um andar totalmente vazio, Andrea preferiria que não houvesse evento algum.

Bem-feito! Mas não é esse o pessoal da criatividade? Tenho cá comigo um conceito muito tosco, mas difícil de rebater: quem não sabe lidar com a falta de grana não tem criatividade coisíssima nenhuma.

A Bienal é feita para o povo, nénão? E não tem povo que engula uma falácia dessas: um andar vazio pra oferecer ao visitante

“[…] uma experiência física da arquitetura do edifício. É nesse território do suposto vazio que a intuição e a razão encontram solo propício para fazer emergir as potências da imaginação e da invenção. Esse é o espaço em que tudo está em um devir pleno e ativo, criando demanda e condições para a busca de outros sentidos, de novos conteúdos.”

Ainda disseram que era uma oportunidade do visitante olhar melhor pra “arquitetura do prédio”.

Tô sabendo. Da próxima vez, usem esse conceito em cima de seus salários. Andrea Matarazzo já questionou o tamanho da participação do estado no evento. A julgar pelos caminhos que toma a Bienal (da última vez que fui, há séculos, topei com um monte de uns 5 metros de altura só de tênis velhos) estou achando que a coisa vai de mal a pior. Ou trocam esses curadores-conceito ou o Estado tira o corpo fora. Eu pago, e pago com gosto, a manutenção de uma Pinacoteca, e até de um Masp mal-gerido. Mas isso? Nem a pau, Juvenal!

  • Foto: (Via Cadê o Revisor) (Aguinaldo Rocca, VC no G1): Por que vândalo é sempre analfa? Mas, num esforço de entendimento, creio que ele quis dar um tom imperativo: abaixa essa ditadura da “arte” aí, geeeeeentche!
  • ® by Tia Cris.

Finalzinho de noite

Estou achando um loooooosho poder vadiar a essa hora por aqui. Minha rotina tem sido acordar cedíssimo, geralmente em jejum solidário, e ficar perambulando em unidades de diagnóstico, lendo folhetos de linguagem suave e didática enquanto espero. Mas a causa é justa, urgente, não passará de uma preocupação boba e tem-se mais é obrigação de agradecer de joelhos, porque há um ótimo plano de saúde e estamos na melhor, senão única cidade deste país sujinho em que o paciente é tratado a pão-de-ló demais da conta. Até em laboratório.

De vez em quando dou uma monitorada no andamento do blog, por curiosidade, porque não faço posts “chamativos”. Não que não devesse. Mas é meu feitio mesmo. Sou simplória. Ou escrevo ou fico pensando em marquetíngui. Como não curto marquetíngui, limito-me a escrever.

De fato, esses dias eleitorais trouxeram uma troca muito intensa. Eu perambulei bastante no domingo, com recíproca verdadeira. Por causas justas e urbanas e civis, por causa das eleições e tal. Todo mundo comemorando junto. Mas meu queixo cai a cada bisoiada na frequência do blog, quando comprovo que a procura por “vestidos” está na lista dos mais-mais não-ficção. Há SEMANAS. “Vestidos” e “Alexandre Herchcovitch”. O que que foi? O Herchcovitch morreu? Aquele apoio que ele deu a Marta foi do além? O que aconteceu?

O mundo acabando, investidores se jogando dos três andares da Bovespa, Balacobama quase lá, o PT com suas abóboras interpretativas, dona Osm prestes a devolver seu fogão de seis bocas porque o crédito acabou… e o povo preocupado com VESTIDOS?

Não que tenha algo contra vestidos. Muito pelo contrário, adoro, o que não necessariamente tem que ver com essa modinha Merdinaline-lantejoula que anda por aí. Eu gosto é desses das fotos que escolhi. Não são de ninguém de SP, óbvio, porque a tendência aqui sempre foram as estampas de oncinha. São do francês Paul Poiret, o primeiro costureiro famoso oficialmente conhecido, e o primeiro que transformou seu nobre ofício num negócio, no que fez muito bem.

Portanto, pra quem cai de pára-quedas nestas mal-traçadas, tome Poiret! Toma você, toma você e mais você! Biscoito fino para as massas! E vê se larga esse sutiã de espuma, esse jeans de cintura baixa que já foi, essa blusa horrível cheia de estampas, essa bolsa toda tacheada e essa chapinha (que também já foi). E esse beiço duro também, que ninguém aguenta mais.

Agora dá licença que vou desabar na cama.

Non Ducor Duca, II

Eu estava esperando esse mapinha pra trocar umas idéias com vocês. É claro que, para quem mora e conhece a cidade, fica fácil de entender. Mas tentarei ser didática com os que não a conhecem. E desculpem a extensão do texto.

Felômenos, felômenos, felômenos… Kassab venceu em lugares até hoje tidos pelo senso médio paulistano como fora do sistema solar: Cidade Ademar, Capela do Socorro (um lugar que sempre foi reduto petista, encabeçado pela quadrilha Tatto), São Miguel Paulista, Cangaíba… São todos bairros enormes, tradicionalmente formados ao sabor dos loteamentos clandestinos, sem verde, com casas e puxadinhos um colado no outro, sem infra-estrutura totalmente confortável, com um déficit de saúde, educação e transporte que vem de décadas.

A desculpa petista, basicamente, foi a de que o governo Lula propiciou uma melhora de vida e as pessoas a relacionaram ao prefeito; mas “os pobres continuam votando em Marta”, dizem. Não sei se é bem isso, porque a melhora de vida vem vindo desde os tempos de FHC. Na eleição anterior, quando Marta perdeu pra Serra, o PT buscou essa mesma desculpa, e Serra brincou, agradecendo aos “ricos de Sapopemba” (outro bairro distante e carente) por ter obtido mais votos lá.

O avanço de Kassab na Zona Oeste não conta. Primeiro que ela sempre foi a menos pior das regiões, em termos de pobreza. Segundo, ela é muito pequena, termina num susto, abruptamente, lá nas marginais, após o que há outros municípios, tão intensamente ligados à capital quanto qualquer outro. O Rio Pequeno, por exemplo, fica espremido entre os limites do Município com Osasco (cidade onde, se não me engano, o PT ganhou) e a USP.

Bairros mais longínquos onde Kassab ganhou, como Cursino, Vila Prudente e Pirituba, não têm a estrutura que existe em Perdizes ou Pinheiros, bairros considerados “ricos”, tampouco chegaram ao conforto que há em bairros que outrora foram meramente fabris, populares e “distantes”, como Mooca, Tatuapé e Penha. Aliás, há algumas décadas o Tatuapé e a Mooca, por exemplo, foram alçados a um nível de vida moderno, com ótimas escolas públicas e particulares, profissionais qualificadíssimos, Metrô, shoppings, hospitais (inclusive filiais de hospitais de ponta, como o São Luis) e empreendimentos imobiliários de alto padrão. Aliás, antes de o Citibank virar banco de  calangos,  existiam poucas agências: das que eu conheço, a central, na Paulista,  outra no centro, outra no Tatuapé.

Trocando em miúdos: o paulistano quer saber é de sua vida. E cada vez tem mais nítida a noção de que, para vencer na vida, precisa estudar, trabalhar e exigir do Poder Público que faça valer todo esse esforço e os resultados de sua luta. Sem ração e sem tutela. É como se a alma paulistana dissesse: Olha aqui, meu senhor, eu não estou precisando de comida. Eu almoço e janto normalmente. Eu quero é que que você faça um metrô até aqui para eu poder ir estudar à noite.

Não vai aqui nenhum ufanismo besta, do tipo “aqui é terra boa, terra da garoa”. Até porque faz séculos que não há garoa alguma aqui.

***

Isso necessariamente me remete a outro assunto.

Me chamou a atenção, nesse caso de Santo André, que as meninas estudavam, e muito. As notas, tanto de Nayara como de Eloá, eram muito boas. Meninas vaidosas, educadas, com um português acima do razoável, levando suas vidas e se divertindo e se relacionando, com Orkut e tudo o mais, como qualquer adolescente. Nenhuma das duas, ao que se sabe, precisavam trabalhar, e Lindemberg trabalhava, oficialmente, com carteira assinada e tudo.

Esse recorte social está, a meu ver, muito mal interpretado pela imprensa. Aquele conjunto CDHU não é formado por pessoas pobres, muito menos simplórias. O Brasil inteiro viu que lá se tem acesso a computadores, máquinas digitais, celulares, motocicletas, automóveis, roupas, besteirinhas adolescentes, decoração apurada…, elementos tradicionalmente reservados a camadas médias pra cima.

Ao mesmo tempo, com todo esse relativo conforto e pelos depoimentos da própria Nayara (que hoje deu entrevista para Ana Maria Braga, que habilmente extraiu informações sobre a amiga morta), se entrevê um elemento cultural de miséria que perdurou, apesar de todo o acesso a informação: a violência nas relações familiares. Como uma menina tão linda e ajeitadinha, com cabelos sempre feitos, maquiada, educadinha e estudiosa… enfim, ciosa de seu futuro, namorava um cara que a agredia constantemente? Hoje Nayara comentou um episódio em que Lindemberg, num de seus acessos, perseguiu Eloá até o ponto do ônibus, dando-lhe tabefes nas costas. Não deve ter sido o único.

Como essa menina e sua família se submetiam a um cro-magnon como esse? A única conclusão possível, para mim, é de fundo cultural. Naquele ambiente CDHU com máquineta digital, é absolutamente normal que o homem beba, que ande armado, que se sinta dono de outras pessoas. E cabe às mulheres aceitar e até protegê-lo em suas fraquezas, como quem diz: ele matou porque está nervoso, porque ama demais a família, porque está apaixonado, ele pode porque é homem, etc.

Isso sem contar as bolas cantadas entre a polícia de Alagoas e a nossa: Lindemberg pode ter ligações mais antigas com o pai de Eloá, ambos podem não ser esses homens trabalhadores e honestos-de-até-então. E a mãe de Eloá pode não ser essa máter-dolorosa que declarou perdão ao assassino na frente das câmeras. Enfim, é mais difícil tentar enquadrar o pensamento dessas pessoas. São pobres? Pobre é simplório? São classe média? Classe média tem cidadania mais elaborada? O crime não pode conviver junto com uma evolução social? Só porque moram numa CDHU estão proibidos de ter pequenas sofisticações, perversões e intrincados de relacionamento (que, por sinal, a classe média ignora)?

Esse, na minha opini]ao, o grande erro da imprensa da carochinha: um caso de violência entre pessoas simples. Definitivamente, não há pessoas simples num bloco de apartamentos desse tipo, nem em São Paulo, nem em Santo André nem em lugar nenhum.

Quer dizer, eu acho que se forma aí uma nova classe, que não sei se poderia ser chamada de média. Aliás, nem sei se esse esquema classe baixa, classe média, média alta e alta existe mais. Isso no Brasil inteiro. Em São Paulo, onde a mobilidade social é grande, é mais difícil ainda de entender.

De qualquer maneira, essa expansão dos votos de Kassab pelos bolsões da periferia foi, no meu módiver, um recado: eu não quero que vocês reconheçam que estou na merda. Eu quero é sair dela. Em Santo André, talvez Eloá quisesse. Talvez Nayara queira. Está tudo pronto pra isso. Só falta conhecer outras realidades de vida, para além dos celulares e das câmeras digitais.

Tchau, pascácia!

Tchau, botocuda!

Uma banana da queridíssima São Paulo pra você e sua turma!

Adeus pobreza!

Xô, baratas aproveitadoras e fermentadoras de miséria!

(Nos próximos dias troco umas idéias com vocês sobre o que é ser pobre, simples, simplório e humilde atualmente, principalmente em São Paulo.)

Da série Grandes Momentos Paulistanos

O interessante cavalheiro da foto chama-se Geraldo Forbes, é advogado (com “d” mudo, of course), empresário, ex-conselheiro e hoje pesquisador visitante do Instituto de Estudos Avançados da USP, e coordenador da Área Temática Estados Unidos do Grupo de Análise de Conjuntura Internacional (Gacint) da USP. Uma pessoa conhecidíssima e atuante em São Paulo e no Brasil.

E…?

Confesso que não lembrava exatamente o nome dele. Mas lembro muito bem o acontecido: às vésperas das eleições de 2004, Marta X Serra, o dr. Geraldo Forbes estendeu uma enorme e profética faixa no seu portão:

Para quem tem um mínimo de miolos, isso já não era novidade alguma em 2004. O bolsa-esmola já tinha ido pro saco e o Estado já estava reaparelhado (isso porque os sucessivos escândalos do governo nem tinham começado).

O problema não eram os dizeres óbvios da faixa. Era o fato de o senhor Forbes ser vizinho próximo de Marta Suplicy. Diz a versão oficial que a faixa foi retirada uma hora depois, pela Justiça Eleitoral. Mas as más, porém não necessariamente falsas línguas juram de pé junto que Favre (que a essa altura já tinha se aboletado na mansão supliciana dos Jardins) saiu de casa ensandecido e foi lá tomar satisfações. E que os seguranças da prefeita arrancaram a faixa, como convém a uma dama democrata e republicana.

Forbes chegou a recorrer, mas não quis levar adiante a quizila. Até porque um dia depois, se não me engano, Marta inaugurava uma recorrência malufiana: perder eleições. Mas não posso me furtar em recordar a história. É tão bom…

Abaixo, a divertidíssima carta que Forbes enviou ao juiz da 1ª Zona Eleitoral do Estado de São Paulo pedindo a reconsideração da decisão e lembrando ao preclaro o direito de expressar livremente sua opinião. Catei a íntegra por aí, há vários sites que a publicaram. Mais que divertidíssima, ela convida a pensar:

“Eu, GERALDO DE FIGUEIREDO FORBES, cidadão brasileiro, advogado inscrito na OAB sob n° 19.853, residente à rua Dinamarca 91, CEP 01449-040, Capital, venho respeitosa mas indignadamente à presença de Vossa Excelência solicitar a urgente reconsideração de sua LIMINAR e MANDADO DE INTIMAÇÃO, referente à Representação nº 378/2004 (com pedido de liminar), datados de 23 de outubro de 2004, pelas límpidas razões de DIREITO que exponho a seguir:

1-Vossa Excelência houve por bem acolher, com raríssima rapidez, que honra o nosso injustiçado Judiciário, uma representação da cidadã MARTA TERESA SUPLICY, de qualificação desconhecida, assinada por seus representantes legais, que, a julgar pelo seu claudicante vernáculo e infantil arrazoado, foram diplomados por alguma dessas escolas de fim de semana.

2-Inobstante a dificuldade de se entender o que pretendem os dignos causídicos, que em sua petição, nomeiam tanto a mim, quanto à cidadã Marta como “Representado”, Vossa Excelência conseguiu vislumbrar em uma legítima manifestação de opinião, que me é assegurada pelo art 5º, IV, da Constituição Federal, ofensa à lei eleitoral e mandou que aspas QUALQUER DOS OFICIAIS DE JUSTIÇA ETC ETC PROCEDA NAQUELE LOCAL (minha residência e abrigo inviolável do indivíduo cf C.F. art 5º, XI) À CONSTATAÇÃO, BUSCA E APREENSÃO DO MATERIAL DESCRITO NA INICIAL ETC ETC . RESSALTO QUE O OFICIAL DE JUSTIÇA ESTÁ AUTORIZADO A SOLICITAR APOIO POLICIAL ETC ETC aspas

3-Afinal de que se trata? Que enorme crime mereceu tão taxativo quanto sobrenatural despacho, a despeito de tão precárias informação e petição? Apenas o seguinte: ontem contratei a feitura de uma “faixa” que mandei afixar no muro de minha casa com os seguintes dizeres, em três linhas: Aspas CONTRA A PREPOTÊNCIA E A CORRUPÇÃO DO PT, PELA REPÚBLICA E PELA DEMOCRACIA VOTO EM JOSÉ SERRA. Aspas

4- A cidadã Marta Suplicy, candidata à prefeitura de São Paulo, insurgiu-se contra esta manifestação estritamente pessoal, repita-se, assegurada pela Constituição Federal, e recorreu a este Juízo argumentando, em síntese, que:

a- minha opinião lhe é ofensiva;
b- é ainda mais ofensiva porque moramos em casas vizinhas e a imprensa poderia notar este fato
c-que o termo PREPOTÊNCIA (ressalve-se, do PT) lhe é pessoalmente ofensivo
d-que o termo CORRUPÇÃO (ressalve-se, do PT) lhe é pessoalmente ofensivo
e- que a expressão pública de minha opinião estritamente pessoal, afixada no muro de minha residência, constitui propaganda eleitoral (ressalve-se que não escrevi “vote” em José Serra, mas sim, “voto” em José Serra.

5-Gostaria agora de rebater, ponto a ponto, isto que é mais matéria para psiquiatra especializado em delírio persecutório do que para cultores da Lei e do Direito, mas a tanto sou obrigado, para salvaguardar o meu DIREITO.

6-Quanto à letra 4 a acima – Certamente tenho opiniões muito diversas da cidadã Marta Suplicy, mas nem por isto sinto-me ofendido pelas dela, nem muito menos tento cercear o seu direito de exprimi-las, dentro da Lei.

7-Quanto à letra 4 b acima – Gostaria que me fosse informado qual é a distância mínima a partir do perímetro da residência da cidadã Marta Suplicy, em que me seria restaurado o direito à livre opinião. Um quarteirão? Dois? Mil metros? Será que a parte contrária não enxerga, nesta mesma representação, a sua CLARA PREPOTÊNCIA? E se eu me declarar torcedor do Santos Futebol Clube e a prefeita preferir o Boca Juniors, serei eu proibido de colocar uma faixa declarando minha preferência pelo time de meu coração, só porque sou seu vizinho e isto poderia ser tido como provocação?

8-Quanto à letra 4 c acima: Ensina o excelente dicionário Houaiss : ASPAS PREPOTÊNCIA: (3) ABUSO DO PODER, OU DE AUTORIDADE, OPRESSÃO, TIRANIA, DESPOTISMO (4) TENDÊNCIA PARA O MANDONISMO ESPECIALMENTE SE SE POSSUI ALGUMA VANTAGEM COMO RIQUEZA. PODER, FORÇA FÍSICA – sinonímia: AUTORITARISMO ASPAS . Em minha opinião pessoal, sim, Excelência, o Partido dos Trabalhadores é um agrupamento partidário prepotente e por isto mesmo e por amor à República e à Democracia, foi que mandei, simples cidadão, sem afiliação partidária, afixar a faixa ora objeto desta contenda. E pergunto com todo o respeito: Posso ou não pensar assim?

9-Quanto à letra 4 d acima: Como muitos outros cidadãos, li que figuras chaves da administração, filiadas ao PT, estão envolvidas em escândalos de corrupção. Cito apenas os mais notórios: o caso da morte do prefeito Celso Daniel; o caso Waldomiro Diniz e o caso da concessão, a perder de vista, de coleta do lixo em São Paulo. Não são apenas intrigas a que me refiro; tudo isto tem sido objeto de investigações pelo Ministério Público e também de processos que correm no JUDICIÁRIO. Agora, o que mais me surpreendeu foi a cidadã Marta Suplicy, sentir-se atingida em sua honra, ou acervo moral, por esta manifestação, já que não fiz qualquer menção pessoal àquela respeitável senhora.

Por que deveria a cidadã Marta Suplicy incorporar-se, de moto próprio, a este cordão de corruptos? É realmente algo surpreendente e entristecedor, pois, guardadas as divergências, até hoje sempre imaginei que a conduta da cidadã Marta Suplicy , no trato dos dinheiros públicos, fosse absolutamente inatacável e que portanto jamais poderia ela se sentir atacada, pessoalmente, por essa frase. Não quero nem supor, pois não era este o meu intuito, que a cidadã Marta Suplicy tenha tomado a si dores de pessoas próximas, já que isto não faz parte do que escrevi e que foi por Vossa Excelência, célere e injustamente, censurado.

10- Finalmente e muito importante: Mandei escrever em minha faixa: VOTO em José Serra. Não escrevi VOTE ou VOTEM, não pedi que “votem”; não quis fazer propaganda; não sou membro de qualquer partido; não sou nem mesmo amigo do candidato em questão. Portanto, não fiz publicidade eleitoral e portanto, data venia, Vossa Excelência exorbitou de suas funções a cassar, contra legem et contra Magnam Legem, o meu direito de cidadão de expressar livremente o meu pensamento.

Por todo o exposto, peço a Vossa Excelência que reconsidere, COM IGUAL PRESTEZA, a sua LIMINAR e devolva-me, junto com a faixa apreendida, a minha CIDADANIA e a minha LIBERDADE DE EXPRESSÃO, que tanto prezo e pela qual estou disposto a enfrentar os prepotentes de todos os poderes e os comprometidos de todos os setores da vida pública.

Termos em que

Peço deferimento

São Paulo, 24 de outubro de 2004

Atenciosamente,

Vamos combinar

(Não pude ver todo o debate ontem. Mas pelo pouco que vi, se pudesse optar por continuar vendo ou fazer outra coisa, iria fazer outra coisa.)

Nossos debates são extremamente chatos. Os da Globo, por sua assepsia, mais ainda. Restam-nos outras emissoras, como a Band e a Record: pelo menos temos a esperança de ver algum bafafá, alguma baixaria. E os prazerosos enganos de fala: fulano falou sim quando devia dizer não, fulana se enganou na palavra tal, coisa que, em um país bananístico, rende gozação e assunto pra uma semana. A coisa é tão morna que temos de nos apegar (eu em primeiro lugar, bem entendido) a imprevistos dentais, papéis que caíram, piscadas nervosas, enfim.

Em emissoras menores parece mesmo que os próprios convidados da platéia se sentem mais à vontade pra fazer uma churrascada. Ou você acha que Carlos Zarattini ficaria aos berros chamando o Chico Pinheiro de “vendido”, como fez com Boris Casoy?

Enfim, debates não passam de uma extensão da propaganda no rádio e na TV. Ninguém discute nada. Fala superficialmente sobre tudo de maravilhoso que vai fazer, sobre tudo de maravilhoso que fez, sobre tudo de errado e cruel que o outro fez, e pronto. Com direito a omissões, maquiagem de números e conversa pra pobre ver. Aquela perguntinha obrigatória “o que o senhor pretende fazer no quesito tal?” é só pra dar uma roupagem de civilidade. Não funciona.

Candidatos, especialmente os não populistas, têm de se desviar de assuntos-tabus. No mundo inteiro, e aqui ainda mais, ficou convencionado que certos setores da população têm uma aura meio marial, e ai de quem ousar tocar no assunto.

Por exemplo: sabe-se que aqui em São Paulo, pela própria atração da cidade e por não seguirmos métodos aceemísticos, a favela virou uma indústria. Guiados por agentes obscuros, hordas do lúmpen são orientadas a ocupar lugares cuja posterior desocupação é de uma burocracia kafkiana, por pertencerem, por exemplo, ao Estado, à Prefeitura ou a empresas públicas. Muitas vezes, só pra encher o saco, numa agenda política, como Marta pode tão claramente atestar. Note-se que a desocupação de terrenos particulares nunca é notícia. Só de terrenos públicos, que aí já vira escândalo com toda a carga de pensamento dogmático insuflado por partidos, pelo torto senso de justiça social que a Constituição de 88 finalmente implementou e pela própria mídia, esse conjunto de jornalistas que escreve uma coisa, mas mora em outra.

Quem sabe vai chegar o dia em que candidatos poderão chegar fundo em questões como ocupações ilegais, e propostas concretas para evitá-las ou desfazê-las, sem que isso signifique uma demonização  de parte a parte?

Quem sabe um dia algum candidato poderá olhar pra câmera e dizer: Planta uma árvore em frente de casa, façavor! Esta cidade não respira mais! Pára de jogar lixo na rua! Sai desse terreno que não te pertence!, sem ser linchado no minuto seguinte?

É óbvio que isso nunca será possível, porque o cerumano tem a si mesmo como imagem e semelhança de Deus. Mas a gente não precisa exagerar, né? Se pudéssemos nos aproximar um tequinho mais dos debates americanos, por exemplo, já tava de bom tamanho. Mesmo que eles lá sejam “bonzinhos” também.

***

Vamos, agora, ao esporte:

Sabe por que Marta vestiu vermelho no último dia de propaganda e no debate? Pra dar sorte.

Chico Pinheiro se enganou e chamou Gilberto Kassab de “Geraldo Kassab”. Tal engano foi inaugurado pelo vice de Serra, Alberto Goldman, na convenção do DEM. Isso não é mais ato falho, é amoooorrrrr mesmo.

Marta tremia como vara verde enquanto lia a “ação de despejo”, cuidadosamente guardada pra ela por uma favelée. Eu até achei a ação de despejo bem bonitinha e cuidadosa: “desligue a geladeira; deixe almoço pronto na véspera; desmonte os móveis com antecedência; tire as crianças da frente”. Fosse um despejo do tempo de Marta (eles aconteceram às pencas), ela usaria esses itens a seu favor.

Conforme psicografado por aqui, o último dia da campanha de Marta usou, sim, as imagens de Kassab chamando o outro de vagabundo. Bola fora. Todo mundo achou o cara um vagabundo mesmo… Usou também depoimento de Deus e o mundo no último dia. Desde um membro do partido que usa serviços de acompanhantes até vereador eleito que bate na mulher, passando, é óbvio, por cornos, homens que se gabam de terem emprenhado a mulher logo de primeira, artistas e escritores de esquerda. No geral, só teve um assunto: Kassab.

Já Kassab, confortavelmente instalado na sua ampla vantagem sobre Marta, fez um programa pra cima, e terminou com aquela musiquinha “Eu acredito é na rapaziaaaaada…”. Zarattini deve ter visto e batido na testa: “como não tive essa idéia antes, Batman”?

  • Photô: Fábio Braga, Futura Press, via G1.

A crise de 1929

Muito bonitinho, como sempre, o seu Mindlin explicando 1929 (que hoje fez exatamente 79 anos) e como aquela crise afetou o Brasil (embora saibamos de antemão que nada nos abala). Ele tinha 15 anos e era repórter do Estadão.

Umas coisas que me danam:

1) Botar um charleston ou um chorinho pra evocar dada época. Hirc! Nada contra os gêneros, mas não se ouvia outra coisa, não?

2) A falta de paciência do repórter (Hã… Sei… Hã… Tá…) com o ritmo de falar dos mais velhos. Mindlin fala mais devagar mas é extremamente encadeado e claro. Quem não tem paciência pra ouvir deve entrevistar adolescentes.

3) Milhares de vinhetas bobinhas pra disfarçar edição.

4) Tiraram o xerox do colo dele, e a edição escondeu alguma eventual liçença pra fazer isso.

  • Foto: Fila da sopa em Chicago, na década de 1930. Coisa que não vai acontecer conosco, óbvio. Se filas houver, é pra comprar papai noel que rebola com a calça arriada, na 25 de Março.
  • No vídeo, Mindlin faz referência à Fazenda São Martinho, em Ribeirão Preto, como a única muderna e mecanizada. Ela pertencia à elite perversa do país, a família Silva Prado. E refere-se também a Otto Niemeyer, a quem entrevistou, cujo contexto da visita ao Brasil pode ser visto em texto da FGV.