Nick Perón

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Eu acho simplesmente fantástica a arte de inventar nomes. Sempre admirei isso nos autores de novelas, e acho que eles deveriam cobrar à parte por verdadeiras obras de arte, como “Yolanda Pratini”, “Odete Roitman” (era pra ser Reutmann, mas aí já fica difícil de ler no resumo da semana), “Herculano Quintanilha”, e agora, “Inácio Guevara”…

Mas em matéria de nomes, os profissionais da montagem se superam: Salete Campari, Paulette Pink, Silvetty Montilla, Llady Meteora, Gretta Star e tantos outros são praticamente adventos sonoros. Meio influenciados por ebulições etílicas, é verdade. Mas sem dúvida imponentes; épicos até.

Mas esse rapaz aí da foto é o Nick Perón, que fez aquela performance na Assembléia Legislativa de São Paulo um tempo atrás. Nick Perón. Perceba-se o extremo cuidado na escolha do nick: é um nome unissex, que dá para usar em várias atividades. Deixa entrever o masculino, sem abrir mão do feminino. E ainda mais o complemento “Perón”, que dá um toque meio caliente à coisa, ao mesmo tempo que evoca algo piedoso, corajoso, maternal, histórico.

Mas, ó, Nick, na boa: a sobrancelha tá torta. Você não anda bem assessorado neste quesito não. Muda de profissional. Se não for assim, como poderá valorizar seus cílios naturais, que são superbonitos?

Copia-e-colinha

A internet é o portão dourado e madrigalesco dos preguiçosos. Mas ainda há muitos heróis, capazes de digitar um texto inteiro (que não achou na net), para exibi-lo a quem quiser ver. Vem de dentro uma indignação, uma força muscular-intelectual-beligerante, que diz: “Ah, de jeito nenhum! Mas como esse texto ou essa imagem ainda não está circulando???” E vai lá o dom Quixote e digita. Digita! Ou, no meu caso, pega o escâner, que está guardado bem longe da parafernália, arruma espaço na escrivaninha (escrivaninha?!), liga tudo, vai procurar o livro onde está aquela imagem e espera o znnnnnnnn, com toda a paciência, só para poder compartilhar com outros.

Mas este último caso é uma mentira deslavada. Estou com preguiça, queria a imagem digitalizada, sabia que tinha em um livro, olhei o escâner lá num canto, deu mais preguiça ainda e comecei a procurar no único escaninho que tem regido nossas vidas: esse que você enxerga no momento. E achei. E não é que a fonte é a mesma que eu teria se tivesse empoeirado as mãos na minha estante?

 

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Explico: é que hoje recebi um comentário tão bonitinho, de uma pessoa que não conheço, para um post antigo, sobre A Carta de Anita a Mario (que digitei…). A Carol foi tão delicada, tão tímida, que senti saudades de Anita Malfatti e lembrei deste desenho, feito com a despretensão dos grandes de alma. Malfatti pegou uma reunião dos modernistas na sala de Tarsila e desenhou, simples assim, como a gente faz (ou deveria fazê-lo) de vez em quando: descansando, deitado, numa tarde de domingo, reproduzindo despretensiosamente o que está a seu alcance visual, na pontinha de um jornal, no verso de uma nota fiscal, num papelzinho de nada. A diferença é que a gente faz com caneta esferográfica. Anita fez um teco melhor: usou tinta de caneta e lápis de cor sobre papel.

 

É da mesma época a pintura de Tarsila, Margaridas de Mario de Andrade, 1922, que quis marcar o episódio em que Mario comprou todas as flores do Largo do Arouche e mandou para ela. No desenho acima, Anita retratou o momento sob outra perspectiva.

  • Reprodução (Instituto Moreira Salles): Anita Malfatti, O Grupo dos Cinco, 1922, em Nadia Battella Gottlieb, Tarsila do Amaral, a modernista (2. ed. São Paulo: Senac, 2000) (Levantei e peguei, esta já é a minha edição.): Tarsila deitada no sofá, Menotti Del Picchia e Oswald no tapete, e Anita e Mario no piano.

A ordem das coisas

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Outro dia estávamos eu e meu pai na rodoviária, esperando o ônibus da mamãe e da titia sair da plataforma (a gente sempre espera pra dar o máximo de tchauzinhos). As duas estavam sentadas, e abriam e reabriam as bolsas várias vezes. Perguntei, retoricamente, o que tanto elas procuravam, e meu pai me disse: “a vida inteira foi assim”.

Faz umas semanas vislumbrei sem querer essas placas de acrílico coloridas da rodoviária antiga e andei uns passinhos apressados, para ver e fotografá-la para mim e para vocês. Eu lembro de ter ido aí algumas vezes quando era pequena: todo mundo se enfiava no carro pra pegar minha tia, cuja chegada era uma festa, como é até hoje, com a diferença que hoje sou eu quem pego, e a rodoviária faz séculos não é mais aí.

Tal como o caminho de volta, em que passávamos por uma rua estreita e movimentada, em que todas as lojas tinham luminosos RCA Victor (acho que era a Santa Ifigênia), essas placas coloridas fazem parte da minha memória: não tenho muito nítido na cabeça o que achava desse colorido todo – tenho a impressão de que não achava nada -, mas lembro quando minha mãe bateu o martelo: “isso é coisa de paulista desajeitado”. Vulnerável que era, adotei sua opinião, e hoje acho que ela tinha certa razão, mesmo tirando o bairrismo da parada: visto de dentro, esse efeito é assombroso.

Antes desse terminal de ônibus, inaugurado em 1962 – isso é meu pai que conta -, os Morubixabas da vida se concentravam aí perto, mas na calçada mesmo. Essa rodoviária melhorou bastante a vida dos usuários, mas teve uma hora que não deu: em 1980 ela se transferiu para a marginal Tietê, com a sorte (sorte? Não; foi planejamento, ora veja!) de já ser inaugurada com o metrô passando dentro. Mas ordem das coisas aqui é contrária: em vez de melhorar conforto dos usuários, a nova rodoviária atraiu mais gente. Aquele monstro ficou lotado rapidinho. E aí foi feita outra ampliação. E aí veio a passagem de avião a R$ 0,50, como bem lembrou o Túlio. E aí a rodô esvaziou um pouco. E, por enquanto, está mais do que dando pro gasto – quem quiser pode até morar lá dentro -, mas não sei até quando vai o conforto.

Voltando ao pinball wizard sem The Who, a desativação da rodoviária da Luz fez parte do processo de degradação da região. Nos últimos tempos, aí funcionava um shoppinzinho coreano muito do boco-moco, e parece que agora o espaço terá um fim digno.

 

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Mas eu não sei descrever a alegria infantil que tive quando estava na Santa Ifigênia e percebi um pedacinho desses acrílicos. É como se eu tivesse visto a baleia dos supermercados Água Branca, ou o Jack in the Box da Praça Panamericana, ou algumas gárgulas do centro da cidade, ou um tobogã, que hoje só estão de pé na minha memória.

 

  • Fotos: Acima: Estação Rodoviária Julio Prestes. Será que o governo manterá esses gomes coloridos na nova Escola de Dança? Abaixo: mamãe e titia, em 1962. Pela pinta da bagagem de mão, iam viajar; pela Viação Cometa, é claro (“todas as nossas poltronas são confeccionadas em couro legítimo“). E as duas, até hoje, sempre de pititi-pititi, conferindo mil vezes se não esqueceram nada. (Ah, e mamãe acha a rodoviária do Tietê o máximo.)

 

Sem imagem, sem som. Só texto

Bem, quem acompanhou os comentários ao post anterior percebeu que não comi churrasco grego coisíssima nenhuma. Fui engambelada pelo Ricardo, que na última hora saltou fora! (brincadeira, somos pessoas ajuizadas – mas fiquei de olho nas indicações do Fabio Marton, não desisti não). Acabamos no Museu da Língua Portuguesa – nunca tive vontade de ir lá, mas hoje tinha Gilberto Freire…

Sabe o que acho? Que o Dia do Juízo Final (que uso sempre em sentido figurativo, veeeeja bem), que a apoteose da escatologia será um emaranhado de luzes, de sons, de interatividades sobrepostas, de um ter-de-participar-de-mil-coisas-ao-mesmo-tempo sem fim. O savoir-faire do museu é, sem dúvida, muito inovador: tudo em sessões com hora marcada, espetáculos de palavras boiando no escuro, ótimas referências varadas no tempo e no espaço, textos rodando dentro de microondas, exercícios em superfícies sensíveis, vídeos, vídeos, vídeos, sons misturados; e sempre muito altos…

Dirão vocês que eu estou velha. Isso é verdade. Ainda mais porque lá dentro éramos uma população de uns 2% acima dos 25 anos – era dia de escola. Mas eu fico pensando em uma garotada criada e orientada a só se interessar por algo se tiver muuuuito estímulo. Chega na hora se deitar, no silêncio da noite – aquela coisa do meu tempo -, ela simplesmente não verá graça nenhuma em se dedicar a um mero livro. Um livro simples, de papel, daqueles com letrinhas imóveis, com páginas que têm de ser viradas, daqueles cujas histórias teriam de ser retomadas 24 horas depois, daqueles que não dá pra ler disperso, daqueles que não falam em fones de ouvido, daqueles que, para serem lidos e curtidos, dependem unicamente de uma predisposição muito individual.

Lá no museu, a não ser pelas orientações tácitas (assista isso; – a tela se levanta -; agora vá para a sala seguinte; sente aqui), não vi ninguém absorto em exibição alguma. Nem eu. É claro que nos detivemos em documentos, pertences do Gilberto Freire, enfim. Mas eu clamava interiormente por um pouco de silêncio…

Hoje tive a prova cabal de que o livro vai acabar. Não pela introdução de novas tecnologias para leitura de textos, mas por falta de demanda. Vai chegar em um ponto que o livro não terá mais graça. Serão eleitas as partes mais importantes, mais difundidas, aquela frase que resume a idéia, o trecho que interessa pra pessoa poder interagir e baladar a última voga misteriosa, e elas serão divulgadas à exaustão para que todos a introjetem até a próxima novidade. Ensaios para isso têm sido feitos há décadas (estou falando aqui só em cultura popular, que neste blog é o que interessa). Do que eu me lembro, alguns exemplos nativos: Agatha Christie, Arthur Hailey, Lobsang Rampa, Von Däniken, Fernão Capelo Gaivota (Jesus!), e mais recentemente, Dan Brown, que – valei-me nossa senhora! – está sendo passado pra trás por Rhonda Byrne (não, nossa senhora não está com essa bola toda).

Eu tenho uma estante em casa – composta de muitos livros assim, assado, e por livros que comprei agora pra ler depois. E tenho a impressão de que um dia poderei lê-los todos e, uma vez lidos, por falta de opção, começarei a relê-los, e acabarei meus dias com gibis do Pato Donald, descobrindo lá referências pelas quais em passava batido aos 6 anos de idade.

  • Esse post não tem foto – esquecemos ambos a maldita maquineta – nem trilha sonora, mas ainda é um texto.

Cerumano não nasceu pra apertar parafuso

Seguinte: o taylorismo, o fordismo e os vinhas-da-irismo já foram. Durante o tempo em que o homem carpiu, passando pela Revolução Industrial, em que ele continuou usando apenas seus músculos, o cérebro definhou, e parece que grande parte da humanidade ainda acha que emprego é um lugar onde você deve deixar seu sagrado suor suado e ganhar uma merreca no final do mês.

Aqui no BR, então, a linha de produção segue firme e forte na cabeça do lúmpen. Botocudos, tapuias, bororos e ostrogodos se estapeiam para invadir empresas de mineração, em busca de um trabalho duro – no qual, se fossem admitidos, passariam a vida reclamando do salário. Enquanto isso, nas grandes cidades do país, massas humanas vão se acomodando em rendimentos mais leves, mais criativos e mais rendosos.

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Vejam vocês o caso do camelô David: veio do nada e com a cabeça – e só com a cabeça – conseguiu uma vida pra lá de confortável. Hoje fatura alto com sua sempre fiel barraca no centro do Rio, mais a grana preta que amealha com palestras para grandes empresas, e vive num casão bem bacana com a família. “Como a globalização deixa os produtos iguais, o diferencial está no atendimento”, diz David. Ele costuma dizer que é o segundo camelô mais bem-sucedido do Brasil. O primeiro é Silvio Santos, que dispensa apresentações.

Outra coisa que me deixa simplesmente encantada são as fazedoras de bolo aqui em SP. Volta e meia precisamos de um bolo, e lá estão elas, com site e tudo, oferecendo coisas do outro mundo a preços justos e serviço profissional. E são milhares de outros serviços, inventados, assim, no mais, que fazem bastante sucesso: cabeleireira-esteticista- massagista (aos milhões), pet-shops (a praga do momento), arrumador de armários, passeador de cachorro, visagista, personal stylist, personal diet, personal training, vitrinista, costureira (as costuras domésticas estão voltando!), hoteleiro de cachorro, telefonemas animados, barista, enfim, coisas em que a pessoa pode fazer um pequeno investimento e ter um retorno bem bom – se persistir e se empenhar.

Nessa nova ordem, só uma coisa é certa: público consumidor é o que não falta. Faz alguns anos, não sei quem teve a iniciativa de valorizar a baixa gastronomia aqui em SP, e lá se despencou toda a população novidadeira de Vila Madalena para safaris em botequins de luxo como o Frangó, na Freguesia do Ó, comer coxinha, carne-seca acebolada, frango com polenta e outras curiosidades da fome premente. A onda valorizou as iguarias, deu emprego pra um monte de gente e pronto.

Mas o último grito (aaaaaiii!!!) da moda é o churrasco grego de butique. Churrasco grego, pra quem não conhece, é a comida de esquina, a consolação dos descamisados, é a fome achada na rua, é a fronteira do flagelo, é o último desvio antes do portal da inanição. O problema era esse: muita madame e muita não-madame com vontade de experimentar, inxcrusive eu, sem coragem de despender um simples realzinho para a empreitada trash na Praça da Sé.

Agora alguns bons restaurantes bem situados da capital já oferecem o CG em lindos pratos (foto menor, abaixo), com preços mais lindos ainda. Mas, ó, não dá bandeira: pede pelo nome: kebab. Pesca a diferença no visual, na qualidade e no atendimento e translitera para o número de empregos que um e outro geram:

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A porção mimosa à esquerda dá pra 8 pessoas em dieta, e sei lá quanto custa. A porção fatiada desse monte de carne à direita também dá pra 8 pessoas, mas geralmente é uma só que traça, e custa 1 real, 1,50, com direito a suco.

Sei lá. Mesmo depois de comer um kebab, acho que ainda ficarei na vontade com o CG. Só me falta um parceiro machudo para a empreitada: meu ex me chamou de louca. Minha ex-chefe idem. Um monte de amigos ocasionais ibidem. Raquel vomita. Rico e Leticia ririam da minha cara. Marcelo me lançou um olhar de pena. A minhas amigas esquerdistas classe média alta, eu jamais faria uma proposta dessas. Colegas de batente iam querer dissecar tudo pra conferir. Rick, hummm, não faz o estilo dele. Que faço?

 

Que qué iiiiiiiissssooooo!!!!!

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Rapaz, onde é que você estava com a cabeça, criatura!?

Foi no domingo, às 3 da tarde. O cara devia estar barbarizando na velocidade! E resolveu capotar logo na avenida Morumbi, entre a marginal e o Palácio do Bandeirantes!

É louco! Fosse um pouco mais ajuizado, arrumaria outro lugar pra capotar, rapá! Você imagina o risco que corria? Já pensou?, ser socorrido no Einstein e não poder sair? Seguro não cobre essas coisas, não, ô goiaba! Você teve muita sorte em ser levado pro São Luiz, tá ouvindo?

Há milênios, quando eu trabalhava numa grande distribuidora de energia, os dois filhos de um engenheiro sofreram um acidente sério. Em frente ao Einstein. Não tinha plano de saúde poderoso que cobrisse as diárias, porque um deles ficou em estado grave, em coma, se bem me lembro. A empresa (que graças a Deus era enorme) teve de fazer uma vacona pra pagar todas as despesas hospitalares enquanto o pai tentava, sem sucesso, tirar os dois de lá.

Isso não é brincadeira, não! Lá pelas curvas do Morumbi tem de passar devagarinho!