Uma muxquinha às segundas

Esta em homenagem ao Aerosmith, que andou por São Paulo esses dias.

E essa pelo Dennis Hopper, que se foi de vontade própria.

Pro Adriano? Pro Adriano não tem muxquinha, não. Não tem essa de  “imperador”, não tem “ele tem pobrema com a bebida”, não tem segunda chance tem terceira nem quarta. Nossa mania de tratar marginal  no divã  só porque é famoso é um um cancro enjoado pra cacete!

Que ótimo!…

Dez mil reais. Esta é a multa para comerciante da cidade que se meter a empavonar sua área pra atrair cliente por conta da Copa do Mundo. Tá certo que o preço da infração à Lei Cidade Limpa é mais salgado que  as multinhas às propagandas ilegais de partido, mas foi o bastante pra inibir os mais “animados”.

Não é espírito de porco, não, mas acho um horror essas manifestações futebolísticas, tanto de comerciantes como de moradores. Não pela manifestação em si, mas é porque são feias de lascar. E depois fica aquela bandeira toda torta desbotando e gastando durante anos nos muros, no asfalto. É como as antigas pinturas pichações (não tenho outra definição) com nome de candidatos. Graças a uma campanha, essa porcariada acabou. Com alegrias do povão, entretanto, a Prefeitura pega leve, porque convencionou-se que as coisas populares – qualquer uma – são necessariamente maravilhosas e invioláveis.

Na verdade, manifestação de morador puóóóde, mas anúncio disfarçado, não puóóóde. “Pode pôr verde e amarelo na cidade inteira. Só não queira tirar proveito comercial”, diz Regina Monteiro, presidente da Comissão de Proteção à Paisagem Urbana (CPPU) da Prefeitura, responsável por definir as regras da Cidade Limpa. “Anúncio disfarçado de torcida não pode. Os estabelecimentos comerciais devem tomar cuidado para que a decoração não vire propaganda.” (íntegra Estadão).

Por que não faz como o atapetamento de ruas durante as procissões de Corpus Christi, por exemplo? Aquilo é superbonito e tem a vantagem fantástica de poder ser varrido depois do uso…

Então tá. Eu acho ótimo refrear a animação contagiante do comércio. Mas é de temer que ao longo dos próximos anos isso se radicalize e invada outras datas, como o Natal. Num shopping todo enfeitado, por exemplo, como é que você vai definir o limite entre comemoração e propaganda?

Momento na vida de um pascácio

A internétchis é uma província, não? Hoje, pelo Twitter, cheguei ao post  de um pascácio que conheço desde a época da chuva em São Paulo, lembra? Não linkei suas abobrinhas na ocasião porque lhe surgiram tantos clones que não tinha mais graça.

Mas hoje faço questã de linkar,  porque tem certos tipos de idiotia que merecem destaque com néon piscando em volta…

Resumindo, o cara despejou um monte de palavrões e ofensas porque levou seu carro na inspeção veicular e o bichinho foi reprovado. Falou mal de Deus e o mundo, deu chilique, esperneou, porque o universo não está conforme à sua vontade.

Detail: o carro que ele chama de antiguidade é um Gol  velho todo funhecado, em cuja lataria, pelo jeito, ele dá polimento todo santo dia. Por fora está um luxo só – o cara se dedica muito ao óleo e à manutenção das lanternas). Mas por dentro…

Alega que não  foi ao mecânico por que isso tudo é uma indústria montada especialmente para lhe extorquir, e blá-blá-blá, blá-blá-blá, blá-blá-blá.

Então,… parabééééééns!

Pelas fotos, foi no mesmo lugar onde eu estive hoje. Pois digo: o lugar não é na puta que pariu como ele diz (só se ELE mora na puta que pariu), fui muito bem recebida, todo mundo me disse boa tarde e obrigado, um deles solicitou com toda a educação que eu tirasse as coisas de valor de dentro do carro (nem precisava: a gente vê tudo de perto), outro perguntou a meu pai se não queria sentar um pouquinho, o cara abriu o capô normalmente, acelerou até o fim (o que não desmontou meu pois-é),  e o carro saiu de lá com deproma  (acima) e muito feliz da vida.

Conselho pro nisso amigo revoltado com Deus e o mundo: mude de hobbie. Se a pindaíba está tão grande que não dá pra ir ao mecânico, que tal selos? Colecionar selos é super em conta…

Transição amarga

Do Estadão:

Por falta de docentes qualificados em disciplinas muito específicas, a rede pública de ensino básico do Estado de São Paulo anunciou que terá de continuar utilizando professores temporários em 2011. A informação revela as dificuldades que as autoridades educacionais paulistas vêm enfrentando para tentar melhorar a qualidade da educação fundamental e média, mediante o aumento do número de professores selecionados em concurso público pelo critério de mérito. (continua)

A educação paulista vive um terrível momento de transição. Por uma série de desatenções ao longo das décadas, professores foram do céu ao inferno.

Se antes tinham mérito pelo próprio prestígio da profissão, por esse mesmo motivo passaram a ser mal-remunerados porque entrariam na carreira do mesmo jeito, o que, por sua vez, desinteressou a quem de fato tinha background para exercê-la. Assim, “ser professor” passou a interessar a uma camada mais despreparada da população. Diria até que  o conceito de professor virou quase uma extensão do amadorismo doméstico, com todas as mazelas  que isso traz: despreparo, pessoal desprofissionalismo e uma carga de vícios de uma sociedade atrasada, do que temos exemplo aqui e aqui.

É claro e cristalino que a recíproca é verdadeira: todos os anos, milhares e milhares de famílias despejam crianças agressivas (marginais, até) na frente de professores que muitas vezes não sabem o que fazer com aquelas tranqueiras.

É difícil, eu sei. Eu também não saberia lidar com marginais. Mas eu não sou professora. É impossível que o aprendizado pedagógico não tente, pelo menos, enfrentar o problema como gente grande, e não jogando apagador na testa de aluno.

O fato é que o governo estadual está com um abacaxi na mão. E ficará com ele durante muito tempo. Seja lá o governo que vier na próxima, e na próxima, e na próxima gestão, o jeito é ir se livrando de professores ruins conforme o tempo passa, e seguir com a política de investimento em educação continuada e prêmios por desempenho, até que chegemos a um patamar de excelência no ensino, em que “dar aula” volte a ser uma atividade de prestígio, atraindo o melhor da sociedade para a profissão.

O mesmo editorial diz que, no último concurso, a taxa de aprovação em língua portuguesa  foi de 18,1%. (Isso porque português não é “matéria específica”, o que, sinceramente, me choca.)

Não é necessário saber mais do que isso pra ver que a coisa anda feia demais, e que a tarefa pra revertê-la é imensa.

A bruma fétida do Tietê…

Vocês me desculpem a recorrência do tema, mas é que a inauguração das mudernérrimas estações da Linha Amarela estão rendendo o que se poderia chamar de “emoção ofensiva” nos corações e mentes por aí.

Nos últimos dias tenho lido todo tipo de reclamação: que o corrimão é alto, que as estações são modernas demais, que a malha metroviária é escassa, que a estação tal não tem banheiro, que a obra atrasou, que passa longe não sei do quê, o diabo.

Agora, essa…, essa é fofa: o escritor Chico Mattoso reclama da lógica ao nomear a estação da Paulista como “Consolação”, e a estação da Consolação como “Paulista”. É aquela coisa “oh, onde estou?”,

Essa minúcia do cotidiano reverberou a tal ponto em sua cabeça que ele partiu para elucubrações fantásticas a respeito da cidade, terminando por dizer que nada aqui dá certo. Tudo isso pra escrever um simples artigo.

Enfim, depois de ver suas considerações a gente chega à conclusão de que, numa perpectiva nacional, a cidade é um fracasso mesmo.  Sua estocada definitiva vem no quesito “desordem”, sugerido por ele como marca turística da cidade, já que “não temos nenhuma identidade”. Comparar São Paulo às cidades que ele mencionou (Brasília, Curitiba, Rio de Janeiro) é de uma covardia sem tamanho…

Olha, não sei. Talvez devêssemos investir na literatura udigrudi: cada estação teria o nome de um “escritor da nova geração”, que tal? Assim, em homenagem a seu questionamento metafísico, a estação Paulista/ Consolação mudaria de nome, para “Estação Chico Mattoso”.

Poderíamos, assim, começar a dar uma identidade a São Paulo, a cidade  “por excelência” dos escritores udigrudi (sabe lá Deus por que. Aqui é  um ambiente tão ruim pra um início literário…) que invariavelmente começam seus textos com um amanhecer, e invariavelmente no mesmo estilo:

“A bruma fétida do Tietê invadia os interstícios carcomidos da veneziana…”

Nesses parágrafos iniciais, alguma coisa sempre invade a janela, açoitando o  sono pesado pós-bebedeira, único refúgio de um ser atormentado… A dor de cabeça da noitada anterior, a falta de sentido em viver num lugar poluído e barulhento como esse, o vazio da vida, uma pitada de épater la bourgeoisie, a lembrança de uma transa ruim (o nome dela é sempre algo como Mirella), a tentativa eterna de publicar seus originais (o narrador é – sempre – um escritor incompreendido pelo povo, e principalmente pelas editoras).

Não ia ficar superlegal? São Paulo, berço dos escritores incompreendidos que pensam a cidade.

Vidro antirrabicó

Sabe o que me chamou grata atenção no vagão do Metrô, e que só percebi hoje? Os vidros antigente entre os bancos e a porta.  Sim, porque até então, só se valendo de corrimões, se você senta naquele banco perto da porta, há sempre um cerumano que se aboleta em cima do corrimão que separa os dois espaços, e você é obrigada a passar a viagem inteira com aquele constrangimento anatômico bem na frente do seu olho (e do seu nariz também).

Bem, espero que o povo, tão preocupado com conforto e modernidade, não resolva assentar seu traseiro suado no encosto do banco duplo, aquele junto do vidro (à esquerda na foto).

Nosso homem em Higienópolis

Vocês lembram de um post em que eu falava da instrumentalidade do elogio?

Pois é. Lembrei dele hoje, com essa história formatada pelo governo apedêutico de que o chega pra lá de Obama ao convite pra vir ao Brasil seria coisa de FHC, que é amigo do Clinton, que ligou pra Hillary, que passou a bola pro Obama.

Reinaldo Azevedo explica a verdade dos fatos:

Tudo foi combinado aqui em Higienópolis. Confesso: participei da tramoia. Estava fazendo a minha caminhada, encontrei FHC comendo uma coxinha na padaria Aracaju e recebi o convite: “Topa sabotar a paz mundial e ferrar o Lula?” Aceitei imediatamente o convite, sem saber qual das duas coisas me daria mais prazer.  Ou das três: também pedi uma coxinha. (íntegra)

Agora me diz: se Obama caísse na asneira de vir, levariam ele pra onde? Pra ver obra do PAC na Rocinha? E depois?

Não sei vocês… Mas eu tenho vergonha.

Nome aos bois

Manchete mimimi (que por acaso é do Estadão, mas poderia ser de qualquer jornal, porque, sem trocadilhos, mídia serve é pra fazer média com o leitor):

Pedestre fica sem lixeira nas ruas da cidade

Ah, para! Cheguei à conclusão de que essa discussão sobre durabilidade de lixeira é inócua. As lixeiras da Paulista, que vieram com a nova calçada, e tal, eram pra ser um monumento à resistência. Mesmo assim, muitas já estão vandalizadas.

O que acontece é que pedestre gosta de destruir lixeira. “É, mas não sou eu!”, você dirá. Nem eu, oras! Mas é essa a verdade. Nós somos o pedestre. O povo é uma entidade unicelular, não? Pois é. Então tem de ser para o bem e para o mal. Todos destroem lixeira, desde o marginal até a Priscilla de Moraes Botelho que saiu bêbada da balada e se estourou num poste, passando pelos estudantes que barbarizam horrores e depois se recolhem no conforto do lar. E o Estado tem de ir atrás, consertando as melecas que NÓS fazemos.

Do jeito que os jornais tratam essa e outras questões, parece que nós, pedestres -sempre-bonzinhos, estamos sujeitos a um ente invisível  – que se mistura com a figura do Leviatã mauzinho, não? – que destroi nossos sonhos mais fofos de cidadania.

Enquanto a gente não se tratar como categoria una e indivisível, os vândalos se sentirão indivíduos, na pior acepção da palavra.

Quem destroi lixeiras somos nós. Ponto. Tem jeito? Não, até porque rua é terra de ninguém, por mais que haja fiscalização e por mais que haja educação.

Mas esse bom-mocismo solidário de jornal irrita.

São Paulo esquadrinhada

O Google Street View (de que falei aqui) já fotografou cerca de 17 mil quilômetros da cidade e agora as fotos passam pela fase de “tratamento legal”: um bando de gente está descaracterizando rostos e marcas em registrados em cada foto.

Ainda sem prazo pra exibir os mendrulhos paulistanos com ares de 3D,  a nova ferramenta possibilitará visualizar localidades em 360 graus.

Segundo o Google Brasil, o serviço tem uma série de usos. “As pessoas podem olhar um local antes de alugar um imóvel, ver se a localização de um hotel é boa ou ruim e até fazer um tour virtual pelos pontos turísticos de uma cidade sem ter de sair de casa”, afirma.

É, também dá pra bisbilhotar o style de um desafeto, não?

Isso sem contar questões de segurança, individual e institucional. Em São Paulo, o máximo que poderia acontecer seria o quê? Quem sabe  Bebel da Apeoesp, osamamente derrotada e espumando, planejar um atentado ao Palácio dos Bandeirantes.

Sem brincadeira,  países como Estados Unidos, Alemanha, Espanha, Itália, França, Israel, Nova Zelândia e Japão já tiveram problemas em vários níveis, desde questões de segurança governamental até cidadãos que entraram com ações envolvendo quebra de privacidade. Na Grécia, a captura das imagens simplesmente foi proibida.

No Brasil, não há notícia de desagrado com a novidade, até porque somos botocudos e exibicionistas. Belo Horizonte foi a primeira cidade do país a receber os carros do Google Street View. Agora, São Paulo e Rio de Janeiro e mais adiante, outras cidades brasileiras. Nos EUA, o mapeamento já abrange a maioria das cidades. Na Europa, boa parte também já está devidamente esquadrinhada. O Google Street View está disponível em cerca de trinta países.

As raposas e a uva

Sorvam, antisserristas, antipeessedebistas e correlatos!

A Linha 4 Amarela começa a funcionar, em caráter experimental, na próxima terça-feira. Por enquanto, apenas duas estações funcionarão – Paulista e Faria Lima -, ainda sem a ligação para baldeação com outras linhas. Isso para que se possam fazer ajustes a partir da operação efetiva dos trens, aproveitando o ainda escasso público circulante.

Em novembro, serão inauguradas as Estações Butantã e Pinheiros. Entre elas, o metrô se enfia 15 metros abaixo do rio Pinheiros. Em abril de 2011, será a vez das Estações República e Luz, quando então haverá o estouro da manada, já que ambas são baldeações para o fim do mundo, devidamente provido de metrô e trem faz tempo.

Outro dia passei em frente à Estação Paulista, na Consolação, e morri de pena de não poder fotografar. Até estava com a maquineta, mas dirigia sozinha. Então, me restou mesmo foi tungar as fotos do site do Metrô.

Este é o novo trem, driveless, uma maneira sophisticated e elegã de dar adeus aos condutores de cabelinho anos 80.  Se por um lado vão se acabando profissões (mas se inventando outras!), por outro é uma bela notícia saber que o cutístico Sindicato dos Metroviários falecerá dentro em breve. Só tenho uma dúvida: o sistema driveless detecta suicida na via? Espero que sim. Ou melhor, espero que não.

Achei phyno também o interior das novas composições, apesar de achar a cor branca dos assentos meio perigosa: não é antiporco, qualquer sujeirinha aparece. Por outro lado, inibe o rebotalho (principalmente jovens botocudos) de botar os pés nos bancos.

A nova linha do Metrô é prato cheio para reabastecer o efeito-enchente de alguns jornais. A começar pela materinha sem-vergonha saída hoje no Estadão:  em tom de reclamação, diz que problemas de desapropriações e o acidente na Estação Pinheiros “atrasaram as obras…” em dois meses! Se tivesse saído tudo dentro do cronograma, diriam que o Serra manipulou a data de inauguração pra poder aparecer. Aiiiiiiiii, bocejo!

Outra reclamação da matéria, típica de pobre dando piti em hospital de ponta, está na última frase: “motivo que desanima algumas pessoas é a distância da Estação Faria Lima em relação aos centros comerciais.”



Oi, oi! Vai aí uma almofada, um suquinho, uns acepipes? A Linha Amarela passa perpendicular à Faria Lima, caramba! O que se queria? Um braço de Metrô levando a algum “centro comercial” de sua preferência? Qual? Ao Shopping Iguatemi? Garanto que a Tiffany, a Bulgari, a Calvin Klein e o Carlos Miele querem distância de quem só entra no Iguatemi pra ir dar pinta  por menos de cinco paus no Café Suplicy. Xô! Xô!

Onde deveria haver estação próxima a centro comercial há, que é a (adivinha?) Estação Faria Lima, precisamente aboletada no Largo da Batata, um centro comercial jerereca, mas que tende a melhorar com a presença da Estação. Tá de bom tamanho pra gente que usa a reclamação contumaz como ilusão de alpinismo social. Vão todos catar coquinho!

  • Consórcio Via Amarela, onde dá pra fazer um tour pela nova linha, aqui.
  • Expansão Metrô Linha Amarela, aqui.