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Testemunha de favela

Eu aqui continuo com trabalho em excesso. Gostaria de escrever sobre tudo, inclusive sobre capas retumbantes de revistas semanais, mas cadê tempo pra elaborar texto?

Uma passada rápida pela repercussão da Veja de ontem, que exibe declarações “indiretas” de Marcos Valério a respeito das piabas grandes do Mensalão, foi a esperada: petistas cobrando a “suposta” gravação”, mal percebendo que estão numa encruzilhada de macumba.

Tudo foi feito pela Veja comme il faut para evitar o efeito Celso Daniel, não é mesmo? As declarações estão lá, mas foram feitas “por pessoas chegadas a Marcos Valério”.

Pois bem, acho que é assim que se deve agir num país que virou bangue-bangue graças ao PT. No lugar deles (Veja e Marcos Valério) eu faria a mesma coisa.

Pra não acordar com a boca cheia de formiga.

Testemunhos indiretos, típico de lugares onde reina o banditismo.

E se a justiça abrisse um telefone só pra denúncia anônima do Mensalão?

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Repescagem bovina

Saiu ontem na Monica Bergamo (sem link a partir de agora, porque a Foia deu pra regular qualquer matéria. Morra.):

A ex-ministra da Fazenda Zélia Cardoso de Mello afirmou que seu romance com o colega Bernardo Cabral, da Justiça, no governo Collor, aconteceu por assédio da parte dele – que era casado. “Tenho até medo de me crucificarem, mas vou falar. Hoje acho que fui vítima de um… Como é que se chama no Brasil ‘sexual harassment’?”, disse em entrevista à Claudia de agosto.

“Ele já tinha sido indicado ministro, eu ainda não”, disse Zélia. “Eu estava vulnerável. Não estou querendo me justificar, mas minha visão é que me deixei levar por uma situação de poder. […] A pessoa em questão não tem nada a ver comigo. Zero! Não teve hábitos, educação e cultura parecidos com os meus. É como se me apaixonasse hoje por um cara qualquer que estivesse passando aí na rua.”

Não sou daquelas que condenam Fernando Sabino por ter defendido o leitinho das crianças ao escrever Zélia, uma paixão. Deu conta da encomenda, ganhou a graninha dele, o que é que tem? Todo mundo faz isso, oras! O importante é o profissional fazer seu trabalho com retidão e honestidade, o que nada tem que ver com conteúdo.

Essas coisas são muito subjetivas. No meu métier, p. ex., você pode revisar Mein Kampf, mas fica estranho revisar um novo livro sobre o assunto, tendeu? Vai da hora, da circunstância.

No caso de Sabino, alguns meses depois o livro foi parar no sebo. Ele naturalmente sabia que isso ia acontecer, mas e daí?

Mas, é o tal negócio: pra que a gente guarda tranqueira, não?

Adquiri o tal livro há uns anos, tipo leve 3 por 5 reáu. Além da firme convicção de que a gente deve ter à mão a memória recente do país, não resisto a uma coleção. Da Editora Record, a capa, a tipologia, o design todo igualzinho à famosa coleção de obras de Sabino. Em ótimo estado (não é do tipo de narrativa que passe de mão em mão),  a lombada ficou linda na estante:

Daí é que essa declaração tardia de “sexual harassment” está com pinta de quero voltar à cena. Zélia mora em Nova York e é sócia de uma firrrma que flerta em investimentos no Brasil. Voltou ao noticiário quando veio ao sepultamento de seu ex-marido, o humorista Chico Anísio. Anda dando entrevistas por aí. Aparições demais, sabe como é?

Mas vamos ao assédio sexual, uma falácia. Tá tudo lá, em Zélia, uma paixão. Bernardo Cabral começou a dar em cima dela, com direito a presentes, champã, flores e declarações melosas, pequenas e ordinárias artimanhas masculinas bem comuns, que acabaram encantando a fofa. Vale dizer que Zélia não era menininha, não. Quando assumiu a pasta da Fazenda, já ia lá pelos seus 37 anos. Quer dizer, quando concluiu, “pasmada”, que “Ele está me paquerando!” (p. 124), você entrevê nessa exclamação não uma indignação – a circunstância era de poder e audácia masculina -, mas de encantamento mesmo. Depois de macaca velha, veja só…

Ou outro episódio em que, ao desligar o telefone depois de monossílabos (típica cena em que se ouve uma bronca da mulher), Cabral lhe disse “Solidão… Brutal solidão”. Aquilo lhe impressionou e virou mote do namorico, repetido em cartas chorosas.

Fora o Besame Mucho que dançaram de rostinho colado em Brasília, no aniversário dela, em 1990, escancarando o caso para o país inteiro. Fora o elogio barato à saia curta, fora os bilhetinhos passados sob a mesa em reuniões de governo…

O mico da mulher boboca que se impressiona com cantada barata se completou com o lançamento do livro meloso, ghotswriteado por Fernando Sabino.  Ela achava sua história importante, sabe?

Zélia vive dando pistinhas de que pode voltar ao Brasil. Que volte, pois. Desejo do fundo do coração que entre no lugar que lhe cabe duplamente no país: o reality show A Fazenda.

Pausa para ninharia

Faz umas semanas venho matutando (não por eventualidade profissional) sobre a validade ou não do pluralzinho danado das Ilhas Falklands. E desde então, quando dá, faço minhas pesquisinhas. Exprico:

Bem, nos mapas por aí e lá mesmo, in loco, ninguém usa Falklands, no plural. Vamos à Wikipedia, que mistura as duas formas mas acaba explicando a origem e tirando parte da minha dúvida:

O nome “Falklands” foi dado por John Strong em 1690, em homenagem ao Visconde de Falkand, nobre escocês, que era o patrocinador da sua expedição, enquanto o nome “Malvinas” deriva do nome francês Îles Malouines, dado em 1764 por Louis Antoine de Bougainville em referência à cidade francesa de Saint-Malo.

Então, se o hômi era o Visconde de Falkland (claro que está digitado errado, faltou um “l” na citação acima), é Falkland. Poderia ser um bilhão de ilhas: é Ilhas Falkland, sem o “s”, como de fato é:

Nos mapas, tudo coerente. Não encontrei unzinho sequer com a forma no plural. Nem na internet nem no meu atlas velhinho:

Tem coisas que não querem dizer rigorosamente nada. Tem a prova, a constatação de origem, mas prevalece o uso, o hábito. Taí Getúlio Vargas que não me deixa mentir. O caudilho não tinha acento no prenome, mas entrou naquele funil horroroso adotado pela maioria das redações: morreu, padronizou por baixo: simplifica o nome e cabô: Getúúúlio.

Também dei um rolê pelos manuais de redação. Nos da Folha e do Estadão, não encontrei. Nos demais também não há menção. Só um, conhecido dos revisores como Ildete (Ildete Oliveira Pinto – um homem -, autor do Manual da Editora Ática) traz lá na sua manuseada lista de topônimos: Falkland, Ilhas Falkland.

Nos sites de grandes jornais, vai ao gosto do freguês. Folha, Estadão, Globo, nenhum deles padronizou a coisa.

Talvez ninguém tenha pensado nisso. Talvez todo mundo seja induzido ao plural em contraposição a Ilhas Malvinas. Ou talvez haja um acordo intergalático (sim, as duas formas acontecem no mundo inteiro) pra não tocar no assunto e deixar tudo como está.

Mas euzinha já me decidi: Ilhas Falkland. E se alguém reclamar desfio esses argumentos.

Revirando a memória

Eu e meu pai vendo o jornal, e aí dizem que Ricardo Teixeira será substituído na CBF por José Maria Marin.

Entreolhamo-nos com cara de “eu conheço esse nome”. Lasquei eu: foi governador, era do malufismo! E meu pai: foi prefeito, e teve alguma coisa que não lembro!

Ganhei metade, e papai a outra. Lá fui eu pesquisar na Wikipedia (atual deslumbre de meu sobrinho José; tudo agora ele busca na Wikipedia).

Foi governador de São Paulo, sim, nos anos 80, quando Páoolo Malóf se desincompatibilizou para concorrer – vejam vocês! – a deputado federal. Ninguém se ofendeu. Naquele tempo o PT contra São Paulo não era exatamente legião.

E teve um babado, sim. Mas não antigamente. Agora. Embolsou a medalha dos juniores do Corinthians este ano:

Caminho equivocado

O promotor do MPE de São Paulo, Mauricio Antonio Ribeiro Lopes, ruma firme a caminho da desacreditação.

No afã de se reerguer após anos de ostracismo por conta de um vergonhoso caso de plágio, tem tomado atitudes um tanto ridículas.

Ao invés de tentar se aprumar dignamente numa carreira que ele julga de direito, escolheu o caminho de aparecer via polêmica, como qualquer boa mulher-peitos. Senão vejamos (e só do que eu me lembro):

1) Em 2010, atirou para todos os lados com relação a doações de campanha a candidatos à prefeitura e veradores em São Paulo. Tudo besteira.

2) Pegou carona no bafafá artificialmente formado na questão da estação de metrô em Higienópolis. Queria saber se a questão era preconceito das elites ou se seguia critérios técnicos, pergunta facilmente respondida  com uma breve (breve mesmo!) investigação no Google.

3) Implicou com Tiririca, suspeitando analfabetismo depois de o candidato ter sido eleito deputado federal. Fez o rapaz passar pela humilhação de um teste. Tiririca acabou passando, e hoje, se não é “brilhante” parlamentar (conceito a ver), está fazendo um trabalho decente, voltado à cultura em comunidades carentes. Sem roubar. Nem dinheiro nem texto alheio. Ao contrário de outros candidatos analfabetos, com quem o promotor nunca se meteu.

4) Recentemente, investiu contra moradores de Pinheiros que, legitimamente, lutam pela não instalação de um albergue de mendigos nas cercanias.

5) E hoje, em reportagem no Estadão, volta a a aparecer com a absurda demanda de querer ficha suja para Kassab e todos os políticos que “deixarem alagar” áreas tradicionalmente alagáveis da capital, como o largo da Pompeia, Bom Retiro e Jardim Helena.

Ora, além de serem áreas que alagam desde que o mundo é mundo, São Paulo é a única cidade do Brasil em que as precipitações da natureza têm ligação direta com a qualidade das gestões municipais.

Pode-se até questionar a morosidade das autoridades paulistanas em acompanhar a violenta e ratazânica invasão demográfica em São Paulo.

O que não é direito é fazê-lo via terror eleitoral e – este blog acrescenta – como diferencial político-regionalista, pintando a caveira de uma cidade que sofre como um galinheiro lotado, onde a exigência de qualidade urbanística é elevada à potência apenas no que toca o Poder Público.

  • Foto: Mauricio Antonio Ribeiro Lopes, hoje envelhecido e lascado, tentando retomar uma carreira que está, definitivamente, carimbada com 30 páginas de roubo deliberado.

Qual é o seu Andrade?

O Mario ou o Oswald?

O meu é Mario.

Mas quem não vê em Oswald o desaforismo paulista, o moderno, o cara que influenciou tanta coisa na cultura do país, desde o concretismo até a teorização dos balagandãs?

Eu adoro! Adoro o Pau Brasil, o Manifesto Antropofágico, o Tupi or not Tupi, as coisas com Tarsila e Pagu. Até de sua decadência eu gosto.

E está lá, na exposição O culpado de tudo, instalada no Museu da Língua Portuguesa. Curada por José Miguel Wisnik,  Cacá Machado e Vadim Nikitin, a mostra se divide em temas, a começar pelo Direito de ser traduzido, reproduzido e deformado em todas as línguas (o que será que Oswald acharia do “concerteza” e “a nível de”?)

De 27 de setembro a 30 de janeiro. Diz que tem frases de Oswald até no banheiro.

Eu vou. Deixa passar o interessantismo perfunctório que estarei lá. Enquanto isso, pedaço de uns versinhos à propos:

[…] Minha terra tem mais ouro
Minha terra tem mais terra
Ouro terra amor e rosas
Eu quero tudo de lá
Não permita Deus que eu morra
Sem que volte para lá
Não permita Deus que eu morra
Sem que volte pra São Paulo
Sem que veja a Rua 15
E o progresso de São Paulo.