O plágio como filosofia de vida

denise

Denise Bottman (links) venceu, linda loura e japonesa, mais uma etapa em sua luta  contra alguns hortelãos do setor editorial, que seguem fazendo suas  gororobas na certeza de que o país é de idiotas mesmo e leem qualquer coisa.

Desta vez, a justiça rejeitou um recurso impetrado em segunda instância pelo sr. Martin Claret – o louco do scanner -, que, na falta de argumentos, resolveu acusar a blogueira de calúnia e difamação por ela ter apontado plágio de tradução em obra da editora. Em primeira instância, o juiz havia rejeitado o processo por falta de provas.

Na matéria, publicada na Folha de hoje, a declaração de Marcel Leonardi, especialista em direito na internet da Faculdade de Direito da Fundação Getúlio Vargas: “Acho que é uma boa vitória da liberdade de expressão consciente, ou seja, daqueles que se identificam e têm responsabilidade pelo conteúdo publicado”.

Sobre processo semelhante (plagiado?) que lhe move a Editora Landmark, a coisa está em andamento. Quando houver avanços relevantes, postarei aqui.

O trabalho sério de Denise Bottmann está mais do que provado pela consistência do abaixo-assinado em seu apoio lançado mês passado. O documento, de caráter específico, conta com mais de 2.700 assinaturas e permanece aberto a adesões (e Suplicy, conhecido nacionalmente, encerrou o seu com pífias 3.530 firmas, tsc, tsc!)

Foto do dia

Goldman

Enquanto, do outro lado da cidade, pequenos ditadores feios como o capeta espumavam e se contorciam num num protesto irracional e definitivamente fracassado, por reunir mais PMs que manifestantes, o Palácio dos Bandeirantes era palco da cerimônia de desligamento de José Serra  das funções do governo paulista, rumo às eleições à Presidência do país.

Um trecho importante de seu discurso de despedida (que ninguém destacou):

Mas nós demos também uma imensa prioridade ao ensino técnico, mais do que dobrando as vagas nas Escolas Técnicas e as unidades das Faculdades de Tecnologia. Implantamos novos cursos. Só nas Escolas Técnicas são 84 variedades de cursos adaptados às realidades regionais. Nós encontramos setenta e tantos mil alunos e vamos deixar mais de cento e setenta mil vagas. Nas Faculdades de Tecnologia, encontramos 26. O Alckmin passou de nove para 26. E nós levamos de vinte e seis para mais de 52 neste período de governo. Não é à toa que aqui em São Paulo se diz: este é o ensino que vira emprego.

E o que mais gosteipro (pro brasilia fiant eximia):

Até 1932, nosso Estado, em seu brasão, ostentava aquela frase em latim “não sou conduzido, conduzo”. Esse era o lema de São Paulo, até a Revolução Constitucionalista de 32. Mas, desde então, a divisa mudou. A divisa passou a ser: “Pelo Brasil, façam-se as grandes coisas”. É o papel, é o destino de São Paulo, construído por brasileiros de todas as partes do Brasil. E esta é também a nossa missão. (íntegra)

E agora, o governador do estado de São Paulo é o excelente Alberto Goldman.

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Saiba mais sobre Goldman aqui.

Oh! Onde estou?…

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Já está uma coisa bocejante dizer que os erros em São Paulo são amplificados com uma lente de aumento gigante.

É mais divertido jogar com quem joga. Imagina você reclamar de alguma coisa que, todo mundo sabe, nunca será providenciada? Não tem graça nenhuma. Então, nos concentremos em São Paulo.

Lembra da falta de relógios, por conta de um hiato de contrato, que deixou, segundo a imprensa, as pessoas “sem noção das horas”?

Pois é. Agora é o novo trecho da marginal.

“Motoristas se perdem na marginal.” “Motoristas ficam desnorteados com a falta de placas”. Motoristas isso, os motoristas aquilo. Isso me faz crer que, antes, ninguém se perdia na marginal. Deve ser porque aquilo sempre foi muito bem sinalizado, não?

A falta de placas é decorrente da inauguração “prematura” dos trechos novos. Assim está sendo tratado porque Serra inaugurou antes de se desligar do cargo para concorrer às eleições presidenciais. A instalação das placas, ao que consta, ficará para mais tarde. Eu, leiga de tudo, imagino que a colocação de placas não seja tão difícil assim. Mas eles devem ter suas razões. Fico imaginando qual seria o tamanho da grita se as pistas, prontas, não fossem liberadas imediatamente ao tráfego, mesmo sem placas.

A marginal, pra quem não conhece, é terra sem Deus. Sempre foi. Não por inoperância de ninguém. É que o troço tem ares de rodovia mas está instalado nos mendrulhos da cidade. Esse meio de campo é ruim de tratar, mesmo com as melhores intenções e competências.

O fato é que todo mundo já se perdeu na marginal um dia. Todo mundo se perde em estradas muito cheia de pistas, entradas e retornos. Mesmo tom toda sinalização, mesmo com tudo. Eu já peguei caminhos fantásticos, várias vezes. Uma vez (com a mãe da Raquel) perdi uma entrada na Anhanguera e “quase fui cair em Campinas”, como costumo dizer. Outro dia, numa simples ida a um supermercado, quase levei papai para uma viagem e tanto.

Imagina quem não é daqui? Imagina eu em outras cidades? Não precisa ir longe: só pego a Avenida Brasil, no Rio, com alguém que me mostre o caminho tatibitati. Sozinha, nem pensar! Isso porque aquela via nunca muda. Imagina com obras?

Pra isso, só é necessário ter paciência e gasolina. O desperdício de tempo, todo mundo aqui já aprendeu a perdoar. Há motoristas em São Paulo que simplesmente não pegam a marginal.

Aquilo é difícil de fato (agora, os acessos ida e volta da Anhanguera são feitos por quatro pontes), e só com o hábito você consegue fazer seu caminho sem contratempos.

  • Foto (Automais): trecho liberado em novembro de 2009. Óia, com sinalização de asfalto!

Livrarias? Sei…

Comentadores do Estadão desancam Vitor Tavares, autor de artigo hoje  sobre “Livrarias: os dois lados da mesma moeda”, que faz uma espécie de mimimi sobre a concentração de livrarias nos grandes centros.

Entendo, entendo…

Deve ter havido choradeira semelhante quando os grandes supermercados vieram atropelar as mercearias de bairro.

Fazer o quê? A vida anda, meu phylho! Coragem! Livrarias de bairro nos grandes centros também acabaram.

São quinhentos anos sem tradição… Vamos supor um livreiro de bom coração que resolveu abrir seu negócio lá em Fiofó das Pedras. Esperto, montou um acervo de clássicos da leitura nacional: Zíbia Gasparetto, Momentos de Sabedoria, todos do Dan Brown e, porque é sabido e proativo, A menina que roubava livros

Bem, vendeu um exemplar de cada e passou o resto do tempo tirando pó da vitrine, não?

O Brasil pode ter melhorado muito, mas o que conta mesmo na vida das pessoas são os hábitos arraigados. Imagina uma cidade pequena: o cara compra 1 (um) exemplar, e daí começa a romaria de leitura entre parentes, vizinhos e amigos.

Não dá mesmo. Nesta mesma cidade pequena, o minúsculo contingente de pessoas enfronhadas com livros (e que não quer dividi-los com ninguém) já lida, há muito tempo, com um troço chamado correio. Agora, então, com internet, pode chafurdar tanto em livrarias como em sebos sem se locomover pra nada. É só pedir, o bichinho chega lá, tão certo quanto a completa impossibilidade de inauguração (imaginária) de uma livraria local.

Livros são a coisa mais desonerada deste país. Melhor pra quem aproveitou.  Nesse jogo, ganham as livrarias que tem méritos absolutamente individuais de marketing, investem na credibilidade e formam um nome. Há bons exemplos disso. Quer que eu enumere?

São Paulo sem fronteiras

Desde pequena sempre percebi que a cidade de São Paulo não tem fronteiras sociais muito definidas. Não existe aqui uma Faixa de Gaza social, uma Cisjordânia do dinheiro, e além disso o Hades. Não.

Já era assim nos anos 1970. Agora, então, a coisa ficou mais misturada. Você sai do circuito mais sofisticado da zona central, atravessa um pedaço mais popular e logo cai de novo em uma região mais abastada. Isso acontece na direção sul, oeste, norte e leste.

O comércio vai atrás, com “clusters comerciais” que atendem a essa população – alguns deles com características emergentes, para atender o pessoal que faz questã de dar adeus aos móveis das Casas Bahia.

A cidade tem um monte de aglomerados temáticos: roupas no Brás e no Bom Retiro, iluminação na Consolação, móveis na middle Teodoro Sampaio, instrumentos musicais na high Teodoro Sampaio, calçados e bolsas em Moema, veículos importados na av. Europa, tranqueiras na 25 de Março, decoração na Gabriel Monteiro da Silva, óculos xing-ling e material para restaurantes e lojas na Senador Queirós, uniformes na av. Tiradentes, tecidos de decoração e produtos em madeira no Gasômetro, produtos orientais na Galvão Bueno, náutica no Brooklin, eletrônicos na rua Santa Ifigênia, alta moda na Oscar Freire, equipamentos cirúrgicos na Borges Lagoa, essências e perfumaria popular na Tabatinguera, ferramentas na Florêncio de Abreu, peças automotivas na Duque de Caxias, noivas na São Caetano… Que mais? Não dá pra enumerar tudo.

E agora, os móveis de design ganham mais um núcleo além da Gabriel: é na rua Eleonora Cintra, na Zona Leste, no lastro da valorização em torno do Jardim Anália Franco, pioneiro da classe média alta na região. O melhor: os comerciantes locais já montaram uma associação, para garantir a diferenciação e os preços mais baixos. Tanto é que já recebe clientes de todas as regiões da cidade.

(Hummm… ficou parecendo jabá, mas não é não. É só entusiasmo pelo trabalho.)

O ambientalismo é impopular, antipático e odioso

fabio feldman

Estava lendo o artigo de Marina Silva hoje na Folha, sobre o Forum Urbano Mundial (ONU Habitat) acontecido semana passada no Rio, e está aí uma boa oportunidade de falar about.

Informação divulgada no fórum: das vinte cidades mais desiguais do planeta, cinco são brasileiras: Goiânia, Belo Horizonte, Fortaleza, Brasília e Curitiba.

São Paulo não está nessa, olha só! Deve ser por isso que seus problemas são mais agressivos e difíceis de resolver.

Já faz algum tempo a população percebe que não  há mais “horário” pra escapar de congestionamento aqui. Aquela velha estratégia, usada por quem pode, de tentar fazer suas coisas de madrugada ou nos finais de semana, já era.  Talvez o único horário que dê pé pra isso seja entre 3 e 4 da manhã, quando os espertos da madrugada já se recolheram e os caminhoneiros ainda não chegaram.

Daí a gente se pergunta: não há nenhum governo que possa pensar a cidade e tomar medidas abrangentes para resolver de vez os grandes problemas que temos?

Tenho receio de dizer isso, mas a resposta é não.

Costumo brincar, dizendo que se se fosse prefeita obrigaria todo mundo a ter um jardim proporcional ao tamanho do imóvel onde vive. E que jogaria multas pesadíssimas em gente flagrada jogando lixo na rua, queimando óleo e arrebentando pontes nas marginais por excesso de altura. E obrigaria todo mundo que mora perto de metrô a ir para o trabalho sem carro. E blablablá e blablablá… E que no dia seguinte apareceria enforcada, pendurada de cabeça pra baixo. Onde? Num posto de gasolina, claro!

Não dá pra ser assim. As pessoas têm seu conforto e sua ideia de conforto. Inventam suas necessidades e querem fazer suas coisas.

E toda – TODA – medida  restritiva ao cidadão que se acostumou com uma rotina espaçosa vira alvo da mais ácida salivação de ódio. E pode provocar efeitos-borboleta incríveis. O rodízio, por exemplo, gerou  na população o hábito de ter dois, três carros na garagem. Com a facilidade de crédito, então, até a família mais humilde de São Miguel esquema semelhante.

Minha inspeção veicular está marcada pro fim de abril. Tem de ir lá, tem de estar com o carro em ordem, tem de pagar uma taxa. E lá vou eu fazer tudo isso. É um transtorno, mas não reclamo, não. A maioria das pessoas reclama, com a firme convicção de que o Kassab inventou isso pra tirar dinheiro da gente. Outro dia (contei, né?) um cara me disse isso quando fui renovar carteira. Diga-se de passagem, ele ficou plantado lá, olhando pras questões enquanto eu entregava a prova. Aliás, tinha muito senhor que não passou na provinha.

É muito difícil pra um governante tentar botar balizas na vida da cidade sem cutucar a onça. Isso pode lhe valer o resto da vida pública.

Exemplo claro é esse aí da foto. O nome dele é Fábio Feldman (nada que ver com o Walter, secretário dos Esportes). Fábio Feldman foi deputado federal pelo PSDB e secretário de Meio Ambiente na primeira gestão de Covas. Foi ele que implantou o rodízio na cidade, em 1995. Na época foi tremendamente achincalhado, recebeu até ameaças de morte e passou andar com guarda-costas. Perdeu a reeleição a deputado em 1998, depois de três mandatos. Hoje está filiado ao Partido Verde e continua ativo no assuntos ambientais. Mas trabalha mesmo é em seu escritório de advocacia.

E, ora veja, depois desse linchamento todo, o fato é que a cidade, hoje, não andaria se não houvesse o rodízio.