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Depois das eleições, surprises!

Se der curiosidade, dá uma olhadinha nessa matéria da Folha:

Trânsito piora e SP se iguala ao Rio no trajeto casa-trabalho
Moradores das metrópoles brasileiras enfrentam trajetos de casa para o trabalho entre os mais demorados do mundo –e, na maior parte dos casos, em tendência de piora. Estudo do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) constata que a Grande São Paulo passou a ter o trajeto mais demorado do país, ultrapassando a região metropolitana do Rio de Janeiro. (segue)

Que coisa, não? Passei anos da minha vendo noticiários sobre as – horrorosas – características únicas do trânsito em SP e sem entender muito bem. Afinal de contas, morei no Rio por muitos anos e gastei foi traseiro em horas intermináveis dentro de ônibus. Sem ar-cond e com direito a campeonatos de curva, dessas de atritar a carroceria no asfalto e sair faísca. Onde morava, no Méier, não há Metrô, não há vias rápidas como em São Paulo. Enfim, não há nada, porque, you know,  para o poder público carioca só existe a Zona Sul. Pra você do Méier ir ao centro da cidade de buzunga, gasta-se mais ou menos 50 minutos ou mais, dependendo da hora do dia. Pra você ir do Méier à rodoviária, então, é um suplício. Não há metrô e o ônibus é um cata-mendigo, vai balançando e você chega moída. Isso porque o Méier é uma espécie de Tatuapé em termos de distância do Centro. Imagina um ente que mora na Baixada Fluminense, em Duque de Caxias… Daí é claro que quem pode vai de carro.

A sorte do Rio é que muito pouca gente pode. A população de periferia é infinitamente mais pobre que a de SP. Ninguém tem dinheiro pra carro, então vai é de trem mesmo. Sim, aqueles mesmo que você vê normalmente apinhados de gente na TV. E busão. Se a população do Rio tivesse o mesmo poder aquisitivo, ou o animus financiandi de SP, o Rio entraria em colapso – o que não ira querer dizer muita coisa para o governo e a prefeitura locais, como se pode depreender, por exemplo, da triste área de saúde fluminense.

O gráfico faz parte da matéria, e surpreende ainda mais. Quer dizer que durante todo esse tempo rolou um estigma muito bem trabalhado de que o carioca vivia flanando, que a vida lá era boa, e que o inferno estressante era aqui?

Entendo. Não é à toa que o Cristo está de costas para a Zona Norte.

De qualquer modo, é curioso que só agora comecem a sair esses comparativos. Tenho cá pra mim que, agora, com essa questão dos royalties e uma possível nova configuração política, ficaremos sabendo de muitas outras (e novas!) escabrosidades cariocas/fluminenses.

Monotrilho: de tranqueira a deslumbre

Na melequinha condensada da memória, você se lembra: até as eleições, o Monotrilho que ligará a Estação de Vila Prudente até Cidade Tiradentes e Jabaqurara ao Morumbi, passando pelo Aeroporto de Congonhas – coisa do governo do estado, mas colada em Serra e Kassab – era um monstro “caro” que iria “estragar a paisagem” da cidade, e que não deu certo em alguns países. Depois da vitória de Haddad, ele se transformou da noite para o dia em uma solução moderna e eficiente.

Poderia fazer um levantamento completo por órgão de imprensa, mas vou me ater à revista Época São Paulo, em duas matérias:  a primeira de 17.08.2012 e a segunda de agora, em 02.11.2012.

Antes das eleições, a revista destacou alguns pontos do empreendimento que faziam crer que a decisão será um desastre para a vida da cidade, a começar pelo lead:

“Até que ponto vale a pena alterar a paisagem urbana para ter mobilidade?”

“Primeiro cercaram o canteiro central com tapumes de madeira, o que impediu a visão dos motoristas” – (O transtorno dos idiotas)

“Não dá mais para esconder o resultado do trabalho já realizado: eles instalaram 64 pilastras de 15 metros de altura” – (Hã? Como assim? Era pra esconder?)

“O número não deixa dúvidas: a paisagem da cidade será alterada. E vem daí a maior crítica dos opositores do monotrilho.”

“O espaço embaixo delas poderá ficar abandonado, como em viadutos”, diz Sergio Ejzenberg, mestre em transportes pela USP.

“Para quem vai conviver de perto com a novidade, a preocupação é generalizada. E já há gritaria.” (As madames do Morumbi. Povo da Zona Leste sequer foi entrevistado.)

“Há quem argumente que o melhor para o Morumbi seriam faixas exclusivas de ônibus, que dão conta de demandas menores.” (Novamente as madames. E novamente a ideia cretina dos ônibus. O BRT pode ser lindo em outras cidades. Aqui não dá.)

O resto é um arrazoado de comparações, alarmismo e vitimismo, elencando inclusive os países onde o monotrilho virou um monstro sem utilidade.

Já a matéria pós-eleições vem com um tom lulodilmístico, com destaque para a economia em relação ao Metrô, a modernidade (o mais moderno DO MUNDO”), a tecnologia, a quantidade de toneladas, o silêncio e o ponto central, que parece ser o que amolece os corações: a fábrica em Hortolândia com perspectivas de exportar a tal tecnologia.

Por fim, um ponto que antes era o horror: 50 minutos de viagem no trecho total. Hoje, na era Haddad, essa grande distância (natural. Aqui é SP) se transformou numa vantagem com toque debochado: enquanto viaja, você pode ler vinte páginas do livro da moda.

Convém destacar que toda essa epifania repentina em torno do Monotrilho é tomada como certa porque a obra é do governo estadual. Se fosse da Prefeitura sabe lá se não seria adiada? Haddad já mostrou petisticamente a que veio: alegar problemas orçamentários pra não fazer droga nenhuma.

  • Foto: Monotrilho de Sidney: na matéria pré-eleições, uma traquitana sem utilidade. Já podem usar a foto de novo, desta vez como solução inovadora. As propagandas (de tudo) já estão usando imagens assim para ilustrar o futuro do tipo Jetsons…

Polícia truculenta – onde mesmo?

Semana passada a psicanalista e torturadora de general Maria Rita Khel cometeu uma excrescência em coluna na Folha de S.Paulo (link na citação abaixo). Comparou o governador Alckmin a um ditador e a polícia paulista a uma força de exceção, aproveitando-se do “alto” saldo de mortos no confronto da Rota com traficantes em Várzea Paulista.

Hoje o jornalista Marcio Aith deu-lhe uma descascada, com a resposta que merecia a cabecinha louca da mulher. Reproduzo na íntegra:

Quem não consegue distinguir a democracia da ditadura acaba escolhendo a ditadura como se fosse democracia e a democracia como se fosse ditadura.

Só assim se entende que a psicanalista Maria Rita Kehl associe o democrata Geraldo Alckmin, eleito com 11,5 milhões de votos, a um regime de força, como o fez em seu artigo publicado na última “Ilustríssima” (“O veredicto de Geraldo Alckmin”), com chamada de capa neste jornal.

Kehl comparou a ação da Polícia Militar de São Paulo contra um grupo de bandidos fortemente armados, em uma chácara do município de Várzea Paulista, ao massacre de prisioneiros políticos indefesos da ditadura militar.

Decretou que o senso de justiça da bandidagem, no caso de Várzea Paulista, estaria acima daqueles da PM e do próprio governo do Estado. Isto porque um tribunal do crime, que na chácara se instalara, “absolvera” de forma generosa um dos presentes –acusado de estupro, depois morto na operação policial.

Por fim, Maria Rita classificou como sendo retórica ditatorial uma declaração do governador Geraldo Alckmin (“Quem não reagiu está vivo”) e despejou sobre os leitores números que pudessem dar verossimilhança a seu diagnóstico.

O texto é delirante, perverso e desequilibrado. A psicanalista demonstrou desconhecer segurança pública; desprezar fatos e estatísticas; e menosprezar a memória e o trabalho de várias pessoas que, embora não partilhem de sua cartilha, contribuíram para a redemocratização no país.

O Governo do Estado de São Paulo não tolera abuso oficial.

Desde 2000, 3.999 policiais militares e 1.795 policiais civis foram demitidos por má conduta no Estado (dados até 18 setembro deste ano). Só na atual gestão, foram 392 policiais militares e 252 policiais civis.

Ao mesmo tempo, e sem qualquer contradição entre os dois esforços, a Polícia Militar impediu, e vai continuar a fazê-lo, que o crime se organize e realize julgamentos ao arrepio do Estado democrático de Direito.

Aqui, o crime não instala tribunal; aqui, o crime não ocupará funções privativas do Estado; aqui, o crime não vai dialogar com os Poderes constituídos.

A declaração do governador que tanto ouriçou a psicanalista Maria Rita foi feita dentro de um contexto de apuração e controle. Ele não se omitiu em relação à necessidade de investigar o que ocorreu.

Ao contrário. Disse ele, na mesma ocasião: “Olha, quando há resistência seguida de morte: investigação. A própria Polícia Militar investiga e o DHPP, que é o Departamento de Homicídios, também investiga”¦ A investigação pela Corregedoria já era de praxe. O que é que nós colocamos a mais? O DHPP. Ele faz a investigação em todos esses casos, ele conduz a investigação.”

E o que isto significa? Que o Estado de São Paulo foi o primeiro a colocar um corpo de elite da Polícia Civil –no caso, o DHPP– para apurar resistências seguidas de morte. Nas demais unidades da Federação (algumas das quais querem adotar o modelo paulista), as resistências não são apuradas, muito menos comandadas, por departamentos qualificados.

MENTE FANTASIOSA

A medida fortaleceu o eficaz sistema de freios e contrapesos, típico dos regimes democráticos. Apenas na mente fantasiosa de Maria Rita Kehl os experientes delegados do Departamento de Homicídios e de Proteção à Pessoa, da Polícia Civil, deixarão de cumprir sua obrigação para encobrir eventuais desvios de conduta de policiais militares.

A retórica inflamada e irresponsável desta senhora não fará o governo mudar o rumo na segurança pública. Rumo este, aliás, iniciado na década de 90, com a criação da Ouvidoria da Polícia, com a instituição da disciplina de direitos humanos no curso das polícias e com o combate à letalidade. E que vem sendo seguido pelo atual secretário, Antonio Ferreira Pinto, notoriamente comprometido com o rigor e com a legalidade.

Segundo os dados do último anuário do Fórum Brasileiro de Segurança Pública do Ministério da Justiça (2011), a letalidade da polícia paulista é menor do que a de outros Estados do Brasil, tanto em números absolutos como nas taxas por 100 mil habitantes.

Em 2010, morreram 510 pessoas em confronto com a polícia paulista, uma taxa de 1,2 mortos por 100 mil habitantes. No Rio de Janeiro, que tem pouco mais de um terço da população de São Paulo, foram mortas 855 pessoas em confronto policial (taxa de 5,3 por 100 mil habitantes). Na Bahia, a taxa é de 2,2 por 100 mil. Como se vê, a fantasia baseada em distorções ideológicas não se sustenta quando confrontada com dados.

Maria Rita Kehl retrata a Polícia Militar de São Paulo como assassina contumaz de jovens. Pois São Paulo foi o Estado brasileiro que mais reduziu a taxa de homicídio de crianças e adolescentes (até 19 anos) por 100 mil habitantes entre 2000 e 2010, segundo o Mapa da Violência do Instituto Sangari: queda de 76,1%, de 22,3 para 5,4.

Também em números absolutos, o Estado de São Paulo teve a maior queda nesse índice entre 2000 e 2010. A redução foi de 2.991 homicídios de jovens e adolescentes, registrados em 2000, para 651 em 2010.

E o que aconteceu no Brasil no período? O número absoluto de homicídios de crianças e adolescentes cresceu 6,8%, entre 2000 e 2010 (de 8.132 para 8.686 casos) e a taxa por 100 mil habitantes subiu de 11,9, em 2000, para 13,8 em 2010.

DISTORÇÕES

Mas números não bastam para esta senhora. A distorção moral e ética de seu pensamento é insanável. Para Maria Rita, uma luta justa deveria contar sempre com mortos também entre policiais militares. Para ela, a profissionalização da Polícia Militar, treinada também para evitar baixas, é uma disfunção, um defeito, uma evidência de covardia.

Entende-se: entre a polícia e os bandidos, parece que ela já fez a sua escolha. Maria Rita acha que uma luta justa entre Polícia e bandido tem de terminar em empate –quiçá com a vitória da bandidagem, que ela deve confundir, em sua leitura perturbada da realidade, com uma variante da luta por justiça.

A Polícia Militar salva vidas, Maria Rita. É treinada para proteger a população do Estado. Atendeu a mais de 43 milhões de chamados em 2011. Realizou 310 mil resgates e remoções de feridos. Efetuou 128 mil prisões. A PM de São Paulo está entre as melhores do país.

Por isso, o Estado de São Paulo, segundo o Mapa da Violência, está em penúltimo lugar no ranking dos homicídios por 100 mil habitantes. A capital paulista é aquela em que, hoje, menos se mata no país, segundo o mesmo estudo.

Estivesse ela interessada em debater de fato o problema da Segurança Pública, Maria Rita tentaria entender a relação entre drogas e o crime organizado, como aquele instalado na chácara de Várzea Paulista. E por que o Brasil é o primeiro mercado consumidor mundial de crack e o segundo de cocaína? Nunca é suficiente repetir que o Estado de São Paulo produz laranja, cana, soja. Mas não produz folha de coca. Como ela entra no país? E as armas?

Mas estas não são as preocupações de Maria Rita. Ela quer confundir. Por isso até misturou o caso de Várzea Paulista à desocupação judicial da área conhecida como Pinheirinho, onde não houve vítima fatal e criou-se, bem ao seu estilo, um episódio mentiroso para fazer luta partidária.

A obrigação da autoridade pública é enfrentar o problema, seja ele a bandidagem comum ou a bandidagem da polícia. Se houve abusos, eles serão punidos após a investigação, como sempre o foram, e não antes.

Maria Rita Kehl, aliás, tornou-se partidária do julgamento extrajudicial. Ela não conhece detalhes da ação da polícia, mas já expediu a sua sentença condenatória, mimetizando, ela sim, os métodos das tiranias. Com uma diferença. As ditaduras criavam simulacros de julgamento. Precisavam convencer a si mesmas de sua farsa. Maria Rita não precisa ser nem parecer justa.

Ela deveria se envergonhar –mas não se conte com isso, pois está cumprindo uma agenda partidária –como, aliás, já havia feito nas eleições de 2010. Desmoralizar a polícia de São Paulo é parte de um projeto de poder.

O Governo do Estado de São Paulo não tem compromisso com o crime.

Reitero aqui: qualquer cidadão comum, paulistano ou não, sabe interpretar essas estatísticas. A ideia de que “a polícia paulista é assassina” não resiste a obviedades, nem de cunho numérico, nem àquelas que dizem respeito ao senso geral da população, que costuma ser o mais equilibrado num regime democrático.

A força-tarefa que as esquerdas vêm tentando pregar há décadas contra a polícia paulista está no estado em que se encontram seus idealizadores: agonizando em praça pública, sob os aplausos do cidadão comum.

Impressionismo para ver marromeno

Já comentei com vocês que, por muito menos que as propagadas filas, não estava com a mínima vontade de enfrentar o povão não só na Mostra impressionista (CCBB), mas também Caravaggio (Masp), fila pra restaurante, fila pra lanchonete, fila disso, fila daquilo, e, claro, a Livraria Cultura de minhas saídas corriqueiras, ultimamente entupida de senhouras e suas écharpes culturettes dando pinta (desculpe, não tenho gíria mais nova para isso).

Tudo agora em SP excesso de procura, e cá com meus botões eu creditava isso ao boom da (essa é especial pro Refer) resplandecência financeira do país, a animação do consumo, viagem e hospedagem por qq dá-cá-aquela-palha, etc. Mesmo assim, ainda havia lacunas nisso aí porque, vamos e venhamos, 4 horas de fila!!, tem alguma coisa a mais aí.

Acho que me satisfiz com um texto que saiu na Folha ontem, do professor Samy Dana e do pesquisador Octavio Augusto de Barros, ambos da Fundação Getúlio Vargas. Eis, na íntegra:

Eventos culturais têm ganhado destaque no cotidiano do paulistano, e esse fenômeno é evidenciado pelo crescimento acentuado do setor.

Ingressos esgotados para shows e espetáculos, filas enormes em exposições e cursos recém-criados de filosofia, arte e afins estão cada vez mais presentes na cidade.

Além da preocupação com o alcance de uma formação mais ampla, esse aumento pode ser justificado pelo favorecimento da imagem que a cultura representa.

A aprovação social passa a depender da demonstração clara de conhecimento, criando um receio comum de exclusão por falta de erudição, e abrindo espaço para que novos produtos, ainda que de critérios duvidosos, sejam oferecidos em larga escala.

A cultura vem se transformando, guardadas as devidas proporções, em um objeto de aumento da visibilidade frente à sociedade.

Nos principais polos culturais, como a região da avenida Paulista e o Baixo Augusta, é comum ver tribos que prezam pelo destaque a partir de visuais diferenciados, mas que na realidade carregam traços e atitudes muito semelhantes.

A preocupação é tão grande com a imagem “cult” a ser sinalizada que, muitas vezes, a ideologia é deixada em segundo plano.

Uma das possíveis causas de tal inversão é a dificuldade de avaliar a qualidade envolvida no produto cultural: altos preços ainda são confundidos com excelência.

Como exemplo, pode-se citar a proliferação de famosos cursos dispendiosos e acessíveis apenas a classes mais altas que são oferecidos –e muito bem atendidos– com a sedutora proposta de ampliação da formação cultural, e que, na realidade, não possuem o aprofundamento que o objeto lecionado requer.

Analogamente, superproduções cinematográficas, shows e grandes espetáculos, por vezes considerados essenciais aos entusiastas e estudiosos, justificam-se mais pela pirotecnia do que pelo conteúdo transmitido.

A autoafirmação social tem levado à intensificação da busca por produtos culturais. Se por um lado isso fomenta o setor e favorece o acesso a mais eventos, por outro, sugere a revisão do conceito de valorização cultural como uma necessidade iminente.

Aflitivo, não? Acho um tanto cafonão fazer programa de índio em nome de um discurso de “obrigação de ter cultura”, porque mesmo diante de um Michelângelo, no fundo no fundo cada um fica no seu mundico, não é mesmo?

Eu acho que, pelo fracasso das enciclopédias nos anos 50 a 80, a internet seria de grande ajuda para quem quer legitimamente se inteirar das “coisas da cultura”. Seria, se a pessoa, que tem tudo isso na mão, não saísse da frente do “Feice”.

Até me questiono sobre a utilidade dessas esposições para uma cabeça média. Qual diferença faz ver Monet ao vivo ou em imagens aqui? Pra maioria, nenhuma.

Pra mim não, sinceramente. A não ser que seja por um valor absolutamente sentimental (como Eliseu Visconti da minha adolescência no Rio, ou Tarsila, ou os vestidos de papel), ou se eu for dedicada a certa arte, pra ver as filigranas da coisa, e tals. Enfim, há muitas mostras muito legais de ver ao vivo.

 Mas não exatamente esses blockbusters. Eles foram feitos para o Criança Esperança da vida e eu – desculpe a aparente arrogância – não quero me envolver com isso.

E os números absolutos voooooltam à passarela!

Reinaldo Azevedo hoje:

Marta [Suplicy] deveria saber que, em números absolutos, São Paulo tem mais mulheres mortas, mais homens mortos, mais gênios, mais idiotas, mais pessoas bonitas, mais pessoas feias, mais honestos, mais desonestos, mais ricos, mais pobres… Em números absolutos, São Paulo sempre terá mais do que quer que seja porque tem 42 milhões de habitantes — 22% da população do país. E só diminuiu drasticamente as mortes porque tem mais presos também — tanto em números relativos como em números absolutos: 40% do total do país. (aqui)

A isso queria acrescentar, particularmente hoje, que São Paulo tem o maior número de fofoletes com saltinho de sapato sujo de barro reclamando de composições antigas do Metrô.  Sem mais,

Tudo em São Paulo

Já andamos abordando aqui o fato de que os órgãos de imprensa em gerais metem no balaio paulistano toda sorte de maloqueirices acontecidas nas cidades periféricas à capital. Hoje Raquel me chama atenção para mais uma entre as bilhões de ocorrências capciosas:

Quando você vai ler a baixaria, percebe que aconteceu em um ônibus de São Bernardo do Campo, no ABC. Mais precisamente, num ônibus que saiu do terminal Ferrazópolis, com destino a Santo André. Nada que ver com a capital, como a chamada da matéria leva a crer.

É claro que quem enviou a matéria para o G1 não tem culpa, mas quem foi o estagiário que tascou uma manchete dessas? Daí diria: é que aconteceu no estado de São Paaaulo…..

Sei…

Deve ser pelo mesmo motivo que linkaram, no meio da matéria, uma tortura de números sobre agressão a gays na capital paulista:

Dizendo assim, fica parecendo que os gays do meu Brasil vivem uma vida de felicidades, e só quando vem pra São Paulo a turismo são metódica e barbaramente espancados.

Vamos então ao link:

Uma pesquisa da Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo aponta que 70% dos gays que moram na capital paulista já sofreram algum tipo de preconceito. Intitulado “Sampacentro”, o levantamento foi feito entre novembro de 2011 e janeiro de 2012, com 1.217 homens homossexuais, em 92 lugares previamente selecionados, incluindo casas noturnas, saunas, cinemas e na rua.

(Beleza, matéria estava fófis e, quando publiquei, metade de meu texto sumiu. Vamos tentar resumir.)

A pesquisa, me parece, era para levantar dados relativos a DST/Aids. Não consegui achar a pesquisa em si, e o site do Sampacentro é bem jerereca. Também não havia entendido esse foco na “agressão contra homossexuais”, mas encontrei algo no site da Secretaria de Saúde (comunicação dez, hein?). Na verdade, 70% dos entrevistados afirmaram já terem sofrido algum tipo de agressão. É óbvio: a pesquisa foi feita na noite, onde não só gays, mas héteros, cachorros e carmelitas descalças têm mais probabilidade de sair no tapa com alguém, oras… Ninguém foi fazer entrevista com um gay que passa as noites de sábado lendo na biblioteca e fumando cachimbo. Portanto, bola fora da Secretaria em inventar essa de que “70% dos homossexuais de SP já sofreram algum tipo de agressão”. Sopa no mel pra imprensa, assim, de graça.

Já abordamos aqui o fato de que o estado de São Paulo , líder nesse aspecto ao lado de outras metrópoles do país, naturalmente abriga mais gays, atraídos por uma vida de mais liberdade e anonimato. Ainda assim, recorremos a matéria de O Globo para botar os pingos nos ii.

(Já que estamos em clima de Olimpíada), o Brasil é simplesmente o campeão mundial em execuções de gays. Só no primeiro semestre do ano, já chega a 165 o número homossexuais assassinados no Brasil, índice 28% maior do que o do mesmo período do ano passado. Números:

Em valores absolutos, São Paulo tem a maior ocorrência de mortes (19) entre os estados onde elas são mais frequentes. Depois, seguem-se Paraíba (15), Bahia (14), Paraná e Piauí (dez casos cada um) e Rio de Janeiro (9). O GGB não obteve informações sobre Roraima e Acre.

Bem, não precisa ter uma mente brilhante pra concluir que São Paulo lidera em números absolutos porque é São Paulo. São fatores que se encavalam: a elevada densidade demográfica + a grande atração que a capital e demais grandes cidades do estado exercem sobre tais grupos + a eficiência policial em registrar crimes enquadrados na categoria homofobia.

Além disso, o que interessa são números relativos (execuções x população): a Paraíba seria o estado mais homofóbico do Brasil. Os números indicam que a Região Nordeste é considerada a mais perigosa para os homossexuais.

A pesquisa foi feita pelo Grupo Gay da Bahia, liderado pelo antropólogo – paulista – Luiz Mott, fundador do GGB e coordenador da pesquisa. Mott explicou que a entidade faz o levantamento dos crimes homofóbicos (dados e denúncias aqui) porque o governo, pra variar, não mexe a buzanfa para nada. (Estas últimas palavras são minhas, naturalmente, não de Mott.). Ainda segundo O Globo:

O advogado Dudu Michels, responsável pela manutenção do banco de dados do site, lembrou que o Planalto já foi ameaçado de ser denunciado à Comissão de Direitos Humanos da OEA por sua incapacidade de documentar tais crimes e pela ausência de políticas públicas eficientes para tirar o Brasil do primeiro lugar no ranking de assassinatos de homossexuais.

Portanto, alto lá com essas estatísticas paulistanoides. Um estado com 41 milhões de habitantes e apenas 19 gays mortos?

Para, né?

De volta, mais do mesmo

Pertenço à corrente que acha bem calhorda o tipo de pensamento comum sobre a “inviabilidade do mundo”:

Agora que nós, ricos, nos esbaldamos à beça em desperdício,
compramos tudo o que quisemos e estamos enormes de gordos,
é hora de cortar as asinhas dos mais pobres
que finalente têm algum tipo de acesso a bens e comida.

Voltei terça-feira de viagem, e tomei contato com o último “episódio” da série “Planeta Terra – Lotação esgotada”, que a repórter Sonia Bridi desfia no Fantástico há algumas semanas. O assunto do último domingo foi São Paulo – cidade insustentável?

Bem, a escolha é óbvia. Ninguém pensaria em abordar tal assunto no Rio de Janeiro, por exemplo, até porque pegaria mal para quem abrigou a Rio +20 e só mostrou aos representantes estrangeiros, às menininhas-musa e aos índios as belezas da orla urbanizada. Em outras metrópoles, como Belo Horizonte, Recife ou Fortaleza, isso simplesmente não interessa.

A matéria começa com congestionamento. Já cansei de dizer aqui que isso é uma falácia. Congestionamento tem em um monte de cidades. Só varia de acordo com o nível de interesse/atração que elas despertam. No dia em que Jabiraca do Norte for polo de empregos e riqueza, daí você me conta como estará o trânsito por lá. Isso já acontece em um monte de municípios, e pior: sem estrutura viária para tanto. O excesso de carros tem que ver com uma série de fatores econômicos, sociais, culturais, de infraestrutura. Não com a a cidade em si.

Depois lasca no coitado do Ceasa. O horror, o horror!: 10 mil toneladas de comida. Ora bolas, se são 11 milhões de habitantes, isso dá 1 quilo de comida por dia/habitante. Isso porque ela não contou com as cidades satélite que vêm todo dia trabalhar e comer aqui. Não somos tão glutões nem desperdiçamos mais que qualquer brasileiro.

O entrevistado, presidente do Instituto Akatu, Helio Mattar, disse: “Os brasileiros, de modo geral, administram mal a comida. A estimativa é de que 30% da comida que entra em uma casa são perdidos”. Quer dizer, o pecado é do brasileiro, mas o estigma fica em São Paulo, tendeu? A megadimensão da cidade impressiona os espíritos mais ingênuos.

Prossegue, mencionando o “trânsito travado”. É chato e decepcionante dizer isso, mas o trânsito de São Paulo não é travado. Isso só acontece quando há acidentes. São muitos, mas são acidentes. Geralmente com caminhões. Quando não acontecem, a marginal, por exemplo, é uma delícia.

O lixo tóxico: São Paulo gera muito lixo tóxico, mas outras cidades geram muito mais. Ao contrário de São Paulo, estas últimas não têm um programa de controle de emissão de poluentes, eventualmente não recebem automóveis e caminhões de outras cidades nem programa de arborização. Como eu disse, é só uma questão de quantidade, não de DNA.

Prossegue no rosário de lugares-comuns, como má distribuição de água, a falta de planejamento urbano, a quantidade de carros, a malha “pequena” de metrô, e finalmente a suprema cretinice: São Paulo “chupa” energia de Itaipu.

E finaliza com o melhor: pai de bebê imagina uma cidade mais justa para o futuro. Isso, naturalmente, não se dará pelo empenho dele na educação da criança, mas por um passe de mágica – que só deve acontecer em… São Paulo. Jabiraca do Norte é fora de cogitação.

Talvez o melhor mesmo seja que São Paulo suma do mapa, e que o Brasil viva feliz com suas cidades médias, plenas de emprego e qualidade de vida, planejadíssimas e respeitadoras conscientes do meio ambiente.

Pouca gente, pouco carro e tal…