Morre José Alencar

Seria muito calhorda de minha desfiar um mimimi sobre a morte de José Alencar. Lamento humanamente, é claro, mas não mais que isso.

De velhinho simpático (vocês são testemunhas de que caí nessa, bem lá no início), ele passou, aqui no Flanela, a um ocupante contumaz de leito de hospital. Pra ser mais precisa, desde o dia em que pólipos vieram a ser o quinto “P” do marketing de sua campanha não sei pra quê.

Não que não merecesse ótimo tratamento. Merecia, sim. Do bom e do melhor, como o merece o mais simples operário. Mas este, de regra, tem de pastar numa fila para um simples raio-X numa máquina enferrujada, suja e sem manutenção. Isso quando ela ainda está funcionando.

Nem teria pedido a Alencar, como vice-presidente da República, que se dedicasse a algo em torno da saúde brasileira, como administrador que deveria ser. Não foi. Manchetes por aí só atribuem a ele aquela coisinha metafísica de ter aproximado Lula dos empresários (como se fosse necessária alguma entidade simpática pra isso).

Eu lhe teria pedido atenção à saúde no velho modo brasileiro: agir de acordo com o tipo de água que lhe bate na bunda (coisas do tipo “deputado fez cirurgia de próstata e agora luta pela prevenção”. “Senadora apanha do marido e se engaja em prol da Lei Maria da Penha”).

No caso de Alencar, nem sua própria doença o moveu a fazer qualquer coisa por, quem sabe, aqueles que têm a mesma doença e não podem se internar num S-L nem em sonho. Sabemos que não é fácil assim. Mas ele nem tentou.

Isso porque prefiro a abordagem comum. Isso porque não falei da carência geral de leitos de qualquer espécie, desde os sebentos até os mais bacanas. Rico também precisa se tratar, sabe? E há ricos importantíssimos para nós aqui em SP.

Trocando em miúdos, e bem no popular: que JA descanse em paz. E que tudo seja liberado pá-buf pra trocar a roupa de cama: a fila anda.

Das vantagens da idade avançada

Quem é macaca, e velha, como eu, morre de medo de inflação. Pra quem nunca viu, plasil!

Uma vez engrenada, é difícil de conter. Não falo com ares de economista, até porque não entendo chongas do métier. Só sei do que vi, do que vivi desde que me entendo por gente, e das explicações de meu pai ao longo dessa verdadeira pindaíba que vivemos todos os brasileiros até o advento de FHC.

Eu sei lá o que o governo pensa da vida? Ou foi arrogância ou ingenuidade mesmo, achando que, qualquer coisa, dá-lhe um planinho real repaginado e Dilma aparecendo por entre as nuvens com um manto de cetim azul, sob a trilha sonora de Ben-Hur.

Editorial de hoje do Estadão:

“Existe uma engrenagem perversa no processo inflacionário que estamos começando a enfrentar. Esse processo teve início a partir do aumento dos preços das commodities no plano internacional, em razão de um desequilíbrio entre oferta e demanda, e também de um acontecimento – a saber, o excesso de liquidez – que escapava ao controle das autoridades do País, vítima desses fatores e mal preparado para enfrentá-los. Essa fase inicial desencadeou um mecanismo de propagação que, sob um governo desatento, pode se alastrar para toda a economia.

Parece que estamos justamente entrando nesta segunda fase do processo inflacionário, uma vez que nos mantivemos omissos diante da primeira onda inflacionária. É claro que essa primeira onda decorreu de fatores que estavam fora do controle do nosso governo, ou seja, o aumento dos preços das commodities, ainda por cima num momento em que o Fed (banco central norte-americano) favorecia um aumento da liquidez internacional por meio da recompra, nos EUA, de títulos da sua dívida, com o objetivo de dar à economia norte-americana o impulso que ela solicitava.

Acontece, porém, que o Brasil não é apenas fornecedor de commodities, mas também consumidor, o que criou o primeiro fator de alta de preços internos. Paralelamente, decidimos aproveitar a liquidez internacional criada pelo Fed aumentando nossos empréstimos externos, que têm custo menor do que os internos.

Naquele momento, teria sido oportuno que as autoridades brasileiras tentassem neutralizar esses fatores vindos do exterior. No caso dos preços das commodities, cabia ao governo reduzir alguns impostos (não os de importação) para permitir uma redução dos preços de bens que incluem commodities. E teria sido necessário tornar mais difícil a contratação de empréstimos externos, talvez por meio de uma redução do custo dos empréstimos internos.

Agora estamos numa fase em que, como sempre, o preço dos serviços já foi reajustado para cima e em que os bens finais têm de incluir nos seus preços o custo das commodities (o do petróleo tem peso importante). Já se verifica a alta de preços que o relatório do mercado registra bem, mostrando uma elevação gradual da expectativa sobre o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA). Dois outros fatores alimentam o processo: a Ata do Copom admitindo que a política monetária pode mudar e o ceticismo do público sobre os cortes orçamentários. Seria necessário o governo e o Banco Central atuarem para evitar dúvidas.”

Grandes tarefas

Um cara se percebe pelo que faz. Também é importante que as demais pessoas tenham determinada percepção do que é importante fazer.

O Henrique Meirelles, depois de anos na presidência do Banco Central, volta para algo igualmente grande: a Associação Viva o Centro, de São Paulo, de que é fundador.

Quem acha isso uma mixaria que fique onde está e meus mais efusivos parabéns.

Meirelles chega com a corda toda, defendendo a construção de prédios altos em regiões caidaças do Centro da cidade.

Mais prédios? Não sei. Quem sabe é ele, quem conhece é ele. Eu não veria nada demais em espigões na Nova Luz, por exemplo. Depende de quem, a longuíssimo prazo, os irá habitar. Matéria do Estadão, na íntegra:

Há 20 anos, o goiano Henrique Meirelles, então presidente do BankBoston, fundou a Associação Viva o Centro e liderou o debate sobre a revitalização da região. A pressão ajudou. Desde então, a área ganhou a Sala São Paulo, o Museu da Língua Portuguesa, recebeu de volta a sede da Prefeitura e secretarias municipais e estaduais. Após oito anos afastado para presidir o Banco Central, ele voltou ontem para reassumir novas bandeiras.

“O centro garante a identidade de uma cidade”, defende. “E esse é o momento do centro em todos os aspectos.”

Incentivar a construção de grandes espigões, com alturas de 35 a 40 andares, é uma delas. Na presidência do Banco Central, Meirelles ouvia reclamações de CEOs de grandes corporações sobre a dificuldade de achar lugar para sedes de empresas em São Paulo. “O centro pode recebê-las”, acredita.

O novo comandante da Autoridade Pública Olímpica (APO), cargo público que assumiu nesta semana, afirmou também que São Paulo pode tirar proveito do momento esportivo nacional. “A parceria feita com a iniciativa privada, como ocorreu com o projeto Nova Luz, parece ser um bom caminho.”

Entre outras medidas pontuais defendidas pela associação que preside, estão o reaproveitamento do prédio dos Correios para a revitalização do Vale do Anhangabaú. A sugestão é aproveitar o espaço, 80% ocioso, para abrigar um centro cultural nos moldes do Museu da Língua Portuguesa.

Nascido em Anápolis, Meirelles chegou a São Paulo aos 17 anos para estudar Engenharia Civil na USP.

Batata!

Quando estiver em meu QG novamente eu procuro. É um post em que pitaqueio que Marina Silva estava se achando tanto durante a campanha, com seus ares evangélico-ecológico-espartanos, acima do rebotalho nacional, tão olímpica e arrogante que a coisa não iria dar certo.

Ela e seus não sei quantos milhões de votos simplesmente sumiram, percebeu?

Mas os motivos – por enquanto – são menos fenomênico-midiáticos.

Marina Silva está em sérios atritos com o PV. Até entendo. O partido caminha para a subnutrição, porque o presidente José Luiz Penna é grudado naquilo desde sempre e não pretende sair.

Esse Penna é talhado pra ficar onde está mesmo. Imagina o presidente de um partido com o tamanho do PV ficar editando revistinha de anúncio, aqui em Vila Madalena. Com editorialzinho dele, com foto e tudo. Não dá, né?

Tanto é verdade que essas coisas prejudicam que não houve aproveitamento nenhum da votação expressiva de Marina.

Marina, Sirkis e Gabeira querem se mandar e fundar um novo partido. Acho ótimo. Desde que Marina não apareça por aí com um manto azul…

(aliás, Marina é outra tranqueira política, outro mito a ser construído. Essa mulher não participa da vida nacional, não tem especialidade, não é chamada pra coisa alguma, não faz porra nenhuma, ninguém quer saber sua opinião. Só aparece em tempo de eleição.
Já pensou? Outro fenômeno carismático por aqui e o país afunda de vez.)

(http://blogs.estadao.com.br/radar-politico/2011/03/18/pv-ignora-marina-e-ex-ministra-pode-deixar-o-partido/)

A laje como instrumento de poder

“Eles desrespeitaram o meu direito, a minha propriedade. Eu poderia até liberar, dependendo da conversa deles, mas resolveram me ameaçar e agora é que eu não quero mais conversa. Eu estou revoltada com essa situação”.

[…]

“Eu gosto do Obama, quero muito que ele venha aqui, mas desde que haja respeito com os moradores da Cidade de Deus”

[…]

“Pode ser o Obama, o Lula, não importa. Na minha casa, ninguém entra”

[…]

“Obama, continuo te amando. Mas não dá pra aceitar o comportamento arrogante dos mensageiros da Casa Branca. […] Respeite a CDD.”

Falas de moradores da Cidadideus, no Rio, ante o aparato da visita de Barack Obama.

Eu se fosse eles, nessa situação favelística (sim, porque eles se consideram favelados), faria a mesma coisa! Não é sempre que a gente pode assumir uma postura retroadocicada, se sentir importante e fazer valer nossos direitos, não?
Dificulta mesmo, pessoal! Assim uzamericânu vão ver com quem estão falando, que nóis sabe os nossos dereitcho. Nossa vida é uma merda, mas a gente viu na apostila e sabe o que pode e o que não pode!

(http://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/internacional/2011/03/18/casa-branca-quer-atiradores-em-lajes-da-cidade-de-deus-no-rio-moradora-organiza-protesto.jhtm)