Repescagem bovina

Saiu ontem na Monica Bergamo (sem link a partir de agora, porque a Foia deu pra regular qualquer matéria. Morra.):

A ex-ministra da Fazenda Zélia Cardoso de Mello afirmou que seu romance com o colega Bernardo Cabral, da Justiça, no governo Collor, aconteceu por assédio da parte dele – que era casado. “Tenho até medo de me crucificarem, mas vou falar. Hoje acho que fui vítima de um… Como é que se chama no Brasil ‘sexual harassment’?”, disse em entrevista à Claudia de agosto.

“Ele já tinha sido indicado ministro, eu ainda não”, disse Zélia. “Eu estava vulnerável. Não estou querendo me justificar, mas minha visão é que me deixei levar por uma situação de poder. […] A pessoa em questão não tem nada a ver comigo. Zero! Não teve hábitos, educação e cultura parecidos com os meus. É como se me apaixonasse hoje por um cara qualquer que estivesse passando aí na rua.”

Não sou daquelas que condenam Fernando Sabino por ter defendido o leitinho das crianças ao escrever Zélia, uma paixão. Deu conta da encomenda, ganhou a graninha dele, o que é que tem? Todo mundo faz isso, oras! O importante é o profissional fazer seu trabalho com retidão e honestidade, o que nada tem que ver com conteúdo.

Essas coisas são muito subjetivas. No meu métier, p. ex., você pode revisar Mein Kampf, mas fica estranho revisar um novo livro sobre o assunto, tendeu? Vai da hora, da circunstância.

No caso de Sabino, alguns meses depois o livro foi parar no sebo. Ele naturalmente sabia que isso ia acontecer, mas e daí?

Mas, é o tal negócio: pra que a gente guarda tranqueira, não?

Adquiri o tal livro há uns anos, tipo leve 3 por 5 reáu. Além da firme convicção de que a gente deve ter à mão a memória recente do país, não resisto a uma coleção. Da Editora Record, a capa, a tipologia, o design todo igualzinho à famosa coleção de obras de Sabino. Em ótimo estado (não é do tipo de narrativa que passe de mão em mão),  a lombada ficou linda na estante:

Daí é que essa declaração tardia de “sexual harassment” está com pinta de quero voltar à cena. Zélia mora em Nova York e é sócia de uma firrrma que flerta em investimentos no Brasil. Voltou ao noticiário quando veio ao sepultamento de seu ex-marido, o humorista Chico Anísio. Anda dando entrevistas por aí. Aparições demais, sabe como é?

Mas vamos ao assédio sexual, uma falácia. Tá tudo lá, em Zélia, uma paixão. Bernardo Cabral começou a dar em cima dela, com direito a presentes, champã, flores e declarações melosas, pequenas e ordinárias artimanhas masculinas bem comuns, que acabaram encantando a fofa. Vale dizer que Zélia não era menininha, não. Quando assumiu a pasta da Fazenda, já ia lá pelos seus 37 anos. Quer dizer, quando concluiu, “pasmada”, que “Ele está me paquerando!” (p. 124), você entrevê nessa exclamação não uma indignação – a circunstância era de poder e audácia masculina -, mas de encantamento mesmo. Depois de macaca velha, veja só…

Ou outro episódio em que, ao desligar o telefone depois de monossílabos (típica cena em que se ouve uma bronca da mulher), Cabral lhe disse “Solidão… Brutal solidão”. Aquilo lhe impressionou e virou mote do namorico, repetido em cartas chorosas.

Fora o Besame Mucho que dançaram de rostinho colado em Brasília, no aniversário dela, em 1990, escancarando o caso para o país inteiro. Fora o elogio barato à saia curta, fora os bilhetinhos passados sob a mesa em reuniões de governo…

O mico da mulher boboca que se impressiona com cantada barata se completou com o lançamento do livro meloso, ghotswriteado por Fernando Sabino.  Ela achava sua história importante, sabe?

Zélia vive dando pistinhas de que pode voltar ao Brasil. Que volte, pois. Desejo do fundo do coração que entre no lugar que lhe cabe duplamente no país: o reality show A Fazenda.

Helicóptero era novidade… em 1950

Moradores da Lapa reclamando, e com razão, dos helicópteros que “cortam” caminho por lá.

Explicando: até uns dez anos atrás, a cidade de São Paulo era uma várzea na questão “sair voando por aí”. Qualquer zé-mané, qualquer emissora de TV, qualquer dondoca se enfiava num helicóptero e andava onde bem entendesse, na altura que lhe conviesse e no horário que lhe fosse conveniente.

Pela manhã, em dia de semana, era o inferno: simplesmente todas as emissoras tinham como regra, diariamente, cobrir o trânsito às seis horas da manhã bem em cima das residências, com seus Robôs, seus Cops, seus gaviões não sei de quê, não sei que lá dourados…

Eu mesma lembro um dia feriado, desses desertos, quando fui acordada às 5 e meia da manhã por um monstrengo da Rede TV! que cobria sabe o quê? Um troncho que destruía a grade de um prédio porque havia brigado com a namorada na madrugada.

Ah, tenha dó, né?

Desde então a Prefeitura botou a banca e baixou umas normas. Helicóptero só pelas marginais e acabou. Exceção, é claro, à PM (e ao comandante Hamilton, vá, mas mesmo assim, ele ainda pede autorização).

Entonces, voltando à Lapa. É um bairro que fica numa ponta, na junção das marginais Tietê e Pinheiros:

Veja as marginais, num amarelo mais destacado, formando como que a cabeça de um cachorrinho. A de cima, marginal Tietê. A de baixo, marginal Pinheiros. E a coitada da Lapa no meio. Lapa, Lapa de Baixo, Anastácio, Vila Leopoldina, Vila Hamburguesa, é tudo Lapa, e está tudo sob a vontade dos pilotinhos que economizam o quê? Dois minutos na barbeiragem? (Abaixo, a seta vermelha indica onde os pilotinhos cortam caminho):

A matéria do Estadão diz que a Associação Brasileira de Pilotos de Helicóptero (Abraphe) está lançando uma “campanha”.

Que campanha, pô? Se até cicista tem de seguir regra agora, por que piloto não seguiria? É multa e pronto.

Chega de achar helicóptero uma novidade, um jet-ski aéreo, um lazerzão sem mais nem aquelas.

Você corre da polícia?

Estava vendo agora pela manhã no Bom Dia SP cenas da manifestação no Ibirapuera dos parentes do “empresário” (gosto das classificações de jornais) morto em blitz da PM na avenida das Corujas, em SP.

Sempre é necessário dizer que obviamente não sou a favor da truculência policial, nem de policial metido a justiceiro, nem da PM como categoria social de terror.

Mas fico aqui pensando o que leva um cidadão a “fugir da polícia”. Nem vou usar o argumento natural que nos vem à cabeça: “Ah, tinha culpa no cartório”.

O que fico matutando é quais os caminhos que levaram nossa sociedade a criar um medo da polícia – um antagonismo entre cidadão e polícia.

Polícia, eu digo, num conceito amplo. Vocês se lembram do pós-11 de setembro de 2011, quando instalou-se um procedimento de revistas em aeroportos. Nos EUA a coisa segue firme e forte. No Brasil, como sempre, foi só nos primeiros dias, como de rotina nesta terra. Vocês lembram como cidadãos (de bem) ficavam indignados pelo fato de serem revistados?

No BR, é difícil alguém entender o conceito de “é para sua segurança”.  Consideram uma revista, ou uma parada em blitz, ou uma simples apresentação de carteira como um acinte à SUA pessoa, ao SEU individual.

Bem, pra começar isso denuncia o que vai nas nossas cabeças desde os tempos de Pero Vaz de Caminha: uma separação bem nítida entre cidadãos “legais” e o “resto” e  – e que a polícia é obrigada a adivinhar. E a impressão que tenho é que os tempos de ditadura militar acirraram essa noção, um tanto falsa, de que a “polícia aborda qualquer um na rua, a troco de nada”.

Dentro disso, só posso concluir que nossa sociedade não é, não pode ser e nunca será igualitária. Se qualquer cidadão tem direito a moradia, a trabalho, a alimentação e a ir e vir – tema queridinho e interpretado à larga por essa mesma classe “de bem” -, me parece concludente que qualquer cidadão tem direito de ter uma polícia que a proteja. De qualquer um.

O fato aconteceu às 10 e meia da noite de uma quarta-feira, entre o Sumaré e o Alto de Pinheiros.  O carro do empresário vinha em alta velocidade (não sei por quê), e, ao pedido de parada, fugiu (não sei por quê).

Por quê? O que leva um cidadão a decidir que não parará para a polícia?

Uma muxquinha às segundas

E me diz se estou conseguindo acompanhar Gabriela?

Qual! Mas quando dá eu assisto.

Já comentei aqui que acho a trilha sonora de Gabriela uma das mais sensacionais da teledramaturgia nacional, e fica difícil escolher uma sem correr o risco de ser mal interpretada em relação às outras.

Outro dia Maria Edi lembrou de Porto, interpretada aqui pelo seu ator, Dori Caymmi. Existe coisa mais linda pra uma segunda cinzenta?

Bom dia a todos!

Audiência pública ou palanque?

Estou acompanhando essa história da carochinha de o Ministério Público Federal tentar jogar lama na PM paulista até à extinção, culminado com uma audiência pública ontem, em que membros do dito MP – na liderança do procurador Matheus Baraldi – mais pareciam atuar num palanque eleitoral. Vocês viram em telejornais por aí, não? Como fonte minimamente sã de informação, recorremos ao sempre lúcido (a palavra está rota, mas é lúcido mesmo, no sentido psiquiátrico) do Reinaldo Azevedo, que vem se dedicando ao tema com a intensidade que merece – pois é um case de bandalha ideológica.

É público e notório que promotores – em qualquer nível – precisam urgentemente se mostrar, sempre. No caso de São Paulo, a coisa extrapola e ganha ares de convicção pessoal – o defensor público que participou de uma churrascada pró-Cracolândia, lembram-se?

Reinaldo faz a comparação de sempre – não por implicância bairrista, mas porque é escrachadamente flagrante. Enquanto no Rio ações semelhantes da polícia (e polícia, em qq. lugar, fica com a tarefa calhorda – você conhece caso diferente?) são aclamadas e apoiadas, inclusive pela imprensa, em São Paulo elas são sempre, sempre, alvo de desconfiança – dezenas de ganchos ideiais para pedirem “providências”, chamarem-na de fascista, até se chegar no que se quer, como ontem: exigir sua extinção pura e simples.

Foi assim na Cracolândia, no Pinheirinho, nos ataques do PCC, é assim em mortes de bandidos em ações da Rota, é assim nas amargas infelicidades eventuais.

Tudo igual ao Rio – somos cidades grandes e atraímos tudo de ruim que o Brasil produz. Mas no Rio é diferente: lá policial virou bonzinho da noite pro dia, a abordagem de viciados é uma epifania e mortes de inocentes por policiais são tratadas como fatalidades.

Isso é novo? Não é. Sempre pairou nos ares nacionais certa implicância com São Paulo. Esmiúça-se isso em sebos, escarafunchando fatos que acabam sepultados pela história preguiçosa e distraída do país.

Mas agora, com a cereja do bolo petista, que não consegue se abancar aqui de jeito nenhum, a coisa tomou ares criminosos. Resolveu-se pegar a PM para Cristo.

O comandante da PM, coronel Roberval Ferreira França, reagiu com veemência no FB a respeito desse episódio lamentável, comprometedor da idoneidade institucional brasileira. Um trecho:

[…] Por que não se falou em intervenção no Estado da Bahia quando centenas de policiais militares ocuparam a Assembléia Legislativa e os índices de homicídio se multiplicaram? Foram mais de 100 assassinatos somente durante o período da greve! Por que não se propõe ação civil pública ou se requer a intervenção no Estado do Rio de Janeiro, onde são necessárias tropas do Exército e Força Nacional para patrulhar morros?  […] (aqui)

O secretário de segurança também se manifestou, informando em comunicado que a iniciativa de Baraldi é “absurda e capciosa” e pode ter motivos eleitorais.

O governador Alckmin rebateu, classificando a  medida anunciada pela Procuradoria como “totalmente descabida”:

“Acho que o Ministério Público Federal devia investigar primeiro o tráfico de drogas. Nós produzimos laranja, cana, café, soja, milho, mas não produzimos cocaína. Por onde entra a cocaína? Entra pela fronteira. Onde está a polícia de fronteira?” (segue)

Sabe que tentei “virar amiga” do comandante da PM no FB? Pousé. Não consegui, porque ele tem amigos demais, o troço tá lotado de gente comum, que, como no caso do coronel Telhada,  apoia e admira a PM paulista. Não por sede de sangue ou truculência, mas justo o contrário: sabe que a entidade tem um abacaxi permanente nas mãos, e lida com ele da forma mais civilizada possível dentro de suas atribuições.

Então, paulistas, é escolher: ou ficamos com nossa estrutura, sem dúvida a melhor do país em números, empenho em melhorar e apoio logístico, ou cedemos à indigência federal.

Mais do que nunca, e pela enésima vez, é hora de escolher.

Em São Paulo, primeiro leilão “vintage”

Ontem tive um experiência que é mais ou menos frequente no trabalho. Você vai lendo, revisando, e topa com uma citação. Autor que digita citação tem grande chance de fazê-lo errado, e é maior ainda a chance de você não ter como comparar com o original. Às vezes você encontra na internet, recorrendo até a digitalizações pirata – fazer o quê? E frequentemente recorre a uns malabarismos daqueles “trechos” muquiranas de livros do Google Books. Mas é reconfortante quando você encontra o original em imagem mesmo, e faz seu trabalho direitinho.

Agora, o ápice do prazer imensurável é quando você tem a oportunidade de comparar a citação com um original seu mesmo. É aquele hábito ultrapassado: você topa com a citação, lembra que tem o livro e vai, com suas perninhas e seus braços, pegar o bichinho na estante e achar a página. Às vezes é pá-buf, porque o autor usou a mesma edição que você tem. E às vezes é um desafio, porque a edição que ele usou é nova. Daí você recorre ao princípio de “douração da pílula editorial”: uma edição nova terá sempre mais páginas que um livro velhinho. O livro velhinho queria apenas passar seu recado. A edição nova tem de ter ilustrações, uma mancha mais arejada, etc. tudo para gastar mais papel e vender aquilo muito mais caro. Quando não em relação ao preço original, perdido no passado, muito mais caro do que aquele 1 real que você gastou para ter seu exemplarzinho amarelado numa banca de refugo de sebo.

Então é isso. Foi esse aí da foto. E até recomendo, pra quem conhece e pra quem não conhece a rua do Ouvidor, no Rio.  Fofocas de modistas, história e toda uma época de esplendor cultural, de moda, de ofícios sofisticados. Um Rio cujos resquícios eu ainda peguei mas que não existe mais. Agora é só funk, tráfico e um sotaque degenerado que dói na medula.

Mas tudo isso é pra falar do primeiro leilão vintage do país, a ocorrer em São Paulo em agosto. Iniciaiva da Childhood Brasil,  em que parte da renda irá para combater o abuso e a exploração sexual de crianças e adolescentes (veja matéria no Valor Econômico).

A matéria diz que o gosto pelo vintage está apenas começando no país. Bem, isso parece um paradoxo: um país que explora seus rebentos e se interessa por coisas vintage? Não sei se combina. Mas o país é vasto, e acho que as duas vertentes acabam se acomodando muito bem no território.

Pra mim é no popular: gente que não se interessa pelo que passou não vai dar proteção ao que virá. O negócio é que que você pode adquirir AGORA, com um eficiente processo de se desfazer do que tinha ontem. Isso tudo é mentalidade, e você só começa com o hábito doentio de guardar coisas da família depois que adquire algum conhecimento sobre a) a família; b) sobre as coisas da família.

É por isso que muitos não sabem o nome dos avós, é por isso que muitos topam se desfazer do nome dos filhos.

Well, muito antes de importarem essa palavra afrescalhada – vintage – mamãe aqui guarda as tranqueiras de família. Desde o belle-epoquíssimo binóculo de vovô até o sem-graça medidor de picotes de selos dado a mim pelo tio que já se foi.

Por isso, aqui em casa, o estilo da decoração é coloquial tardio: coloca aqui, coloca ali, nada combinando com nada, mas com o mental no conforto.

Até dentinho de José – acabamos de extrair o segundo – ficará guardado com a avó, porque a mãe é uma quase nômade e de descabela com tanta coisa na hora de suas frequentes mudanças.

Não tem problema, deixa que a gente guarda. Inxcrusível os livros que tem e os que ainda não tem.

Então vamos recapitular

Reinaldo Azevedo escreve hoje sobre o caso dos PMs que furaram o “publicitário, empresário” em fuga, condições bastantes para que o caso comovesse corações nas redações.

Pois bem. Concordo com RA no tocante à punição imediata dos caras. E é justamente porque a PM paulista pune o mau comportamento que a mesmíssima PM paulista é digna de toda a confiança. Caso contrário, estaríamos como em certo caso de morte de filho de famosa, e em tantos outros, em que os PMs corruptos e homicidas “são afastados das operações em rua” e ficam no bem-bom, em serviço de escritório.

Aqui não. Vão pro xilindró e aguardam lá seu julgamento.

Mas não é esse o foco aqui. O que faço questã é de reproduzir uma tabela em matéria da Folha, explicando didaticamente como o policial deve se portar em ocasiões semelhantes:

É um parâmetro quando a mesma imprensa atacar as ações da Rota no caso de não se tratar nem de empresário, nem de publicitário a ser enterrado no Getsêmani.