Gainsbourg: vô numvô?

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Vai até 7 de setembro a exposição de Serge Gainsbourg no Sesc da Paulista, que começou em junho e faz parte do Ano da França no Brasil. Até onde me informou a Isabela Moi, da Imprensa do AFB, só o Sesc São Paulo fechou com os organizadores. Nem o Rio está previsto, o que é uma pena.

Concebida por Frédéric Sanchez, Gainsbourg 2008 vem da Cité de la Musique, em Parrí, onde ficou outubro de 2008 a março de 2009, quando recebeu 120 mil visitantes e causou na imprensa europeia. Aqui, chega com o nome de Gainsbourg, artista, cantor, poeta, etc., um título que achei meio desoriginée, porque fica parecendo aquela coisa de Fulano de Thal, escritor, jornalista e adêvogado.

O que bissolutamente não é o caso de Gainsbourg. O cara era multi mesmo – pintor, escritor, poeta, autor, intérprete, compositor, ator e diretor –, num tempo em que essas coisas não eram muito comuns. E chocava – como chocava! -, também num tempo em que não era moda chocar.

Aqui no Brasil, sua obra só chegou em níveis populares com a escandalosíssima  Je t’aime, moi non plus (interpretada com sua Jane Birkin, com Brigitte Bardot, por Alain Delon e, basicamente, por todo mundo, incluindo aí Ray Connif e sua maravilhosa orquestra). Apesar da fulanização de Je t’aime nos motéis de beira de estrada, é muito legal de se ouvir como se ouve Dalva de Oliveira; e privadamente, quem sabe, deixar sem graça um monte de marmanjo, até hoje.

Mas quero destacar é Aux armes, etc., uma  Marselhesa versão deliberadamente preguiçosa, em versão reggae, que deu pano pra manga nos setores conservadores franceses (anos 1970/80). Mas jamé censura, ai, ai ai:

Allons enfant de la patrie
Le jour de gloire est arrivé
Contre nous de la tyrannie
L’étendard sanglant est levé

Aux armes et caetera…

Entendez-vous dans les campagnes
Mugir ces féroces soldats
Ils viennent jusque dans vos bras
Egorger vos fils et vos compagnes

Aux armes et caetera…

Amour Sacré de la Patrie
Conduis soutiens nos braves vengeurs
Liberté, Liberté, chérie
Combats avec tes défenseurs

Aux armes et caetera…

Nous entrerons dans la carrière
Quand nos aînés n’y seront plus
Nous y trouverons leur poussière
Et la trace de leurs vertus

Aux armes et caetera…

Ainda estou pensando se vou. Apesar de todas as informações sobre Serrrrrge estarem aqui, nesta tela, ao alcance da vontade, me parece que a exposição é bem bacana. E aproveito faço uma defumação mental num dos cantos daquele andar, onde trabalhei por longos nove meses num passado distante.

  • Photô: detalhe da exposição no Sesc: Gainsbourg com Jane Birkin – acho que a pose mais fotografada dos dois.
  • Sillviço: Sesc Avenida Paulista (4.o andar), 05/06 a 07/09. Terça a sexta, das 13 h às 22 h. Sábados, domingos e feriados, das 11 h às 20 h.
  • Mais sobre a exposição aqui.
  • Biografia e carreira de Gainsbourg, em pinceladas rápidas, aqui.  E um site honesto sobre (francês ou inglês), aqui.
  • E Lemon incest, outra música uauauau de Gainsbourg, com Charlotte menina.

Danilo Gentili e os pretos

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Achei meio bobo – por parte do Helio de la Peña – pegar pelos cabelos um dizer  de Danilo Gentili no CQC:

“King Kong, um macaco que, depois que vai para a cidade e fica famoso, pega uma loira. Quem ele acha que é? Jogador de futebol?”

e jogar no ventilador twitterístico:

“Não tenho problemas com piadas de qualquer natureza, desde que elas sejam engraçadas. Não foi o caso”, escreveu La Peña. “Associar o homem preto a um macaco não é novidade no anedotário e causa desconforto aos homens pretos.”

(“Homens pretos”. Taí, gostei do despojamento. Mas a gente só pode falar assim se for nome de irmandade ou se a gente mesmo for afrodescendente, não?)

Bem, se não é novidade no anedotário, pra que o furdunço? Tá certo que não é o ideal do mundo piadístico, mas Danilo Gentili adota um perfil gentil (ai, ai, trocadilhos também enchem o saco!) e não costuma se sair com esse tipo de coisa. Aliás, justamente o contrário: suas entrevistas no Congresso (via CQC), são muito bem-vindas em meio a um “anedotário” tradicional que inclui o pior de Chico Anysio, Pânico, Zé Simão, um troço internético chamado Kibe Loco e, de resto, nós todos.

Já ponderei uma vez por aqui (e aqui) que o repertório nacional só é capaz de fazer a gente rolar de rir se incluir qualquer coisa de sexo, pum, anão e viado.

O problema de fundo está não tanto no que incomoda como no que não incomoda. Se a mulherada como um todo não vê problema em fazer piada com o traseiro das traseirudas, é porque conseguiu isolar o gênero. É como se houvesse subdivisão entre mulheres X e mulheres Y. As Y são oferecidas a todo tipo de chacota, em como não me presto a ser Y, aceito e até incentivo, apesar de pertencer ao gênero como um todo. Então, ao dividir, eu me isento de qualquer tipo de combate à esculhambação de gênero.

Fábio Marton falou sobre a encheção do filme Jean Charles. É mais ou menos o mesmo raciocínio. A gente considera a coisa destacada, porque ela não requer nenhuma atitude nossa. Trocando em miúdos: pra que, como cidadão, eu tomaria alguma atitude com uma injustiça interna (dessas que nem aparecem direito nos jornais) se é bem mais cômodo e rende mais mídia pegar um qualquer lá fora, onde eu posso acompanhar, iradíssima, o andamento da coisa pelos jornais? E, de quebra, posso chamar os outros de racistas e xenófobos. Mas nem te ligo se isso acontece aqui, no meu próprio elevador, porque aí daria muito trabalho, teria de convocar uma assembreia, falar na cara das velhinhas do condomínio, fazer o chato papel de tentar impor normas internas, e tal.

Não que a piadinha de Gentili tenha muito o que explicar, até porque se rendeu ao basicão doméstico. Mas, mais uma vez, fica evidente que a luzinha vermelha da dignidade nacional só acende quando rende algum espaço na mídia, ou uma indenização (o que não é o caso de Helio de La Peña).

O nosso racismo cotidiano é muito chato, anônimo e sem graça. Então, continuemos vigiando a TV, o Twitter, o outro lado do Atlântico.

O falecido…

rafaella

Uma das coisas mais terríveis do comportamento humano – a meu ver, é claro – é o que se chama pelo chiquetésimo nome de “alienação parental” – criado na década de 1980 nos EUA e que, parece, só agora chegará aqui de maneira mais ampla.

Tulio Sergio postou matéria de Martha Mendonça (Época),

O número de casos de alienação parental no Brasil e a grita dos pais chegaram a um nível tão alto que provocou o Projeto de Lei 4.053/2008, que no último dia 15 foi aprovado pela Comissão de Seguridade Social da Câmara dos Deputados. O projeto, de autoria do deputado Régis Oliveira (PSC-SP), define e penaliza a alienação parental: o genitor que tentar afastar o filho do ex pode perder a guarda e, se descumprir mandados judiciais, pegar até dois anos de prisão. Há outros sinais de inquietação da sociedade com o assunto. Desde abril está sendo apresentado por todo o país o documentário A morte inventada. O filme, do cineasta carioca Alan Minas, de 40 anos, revela o drama de pais e filhos que tiveram seu elo rompido após a separação conjugal, além de apresentar a opinião de especialistas. Jovens falam de forma contundente e emocionada sobre como a alienação parental interferiu em sua formação. Pais dão testemunho sobre a dor da distância. Diante do inferno em que se transformaram suas vidas e da impotência diante disso, muitos desistiram – o que costuma ser o pior desfecho.

Sei não. Será que resolve com uma simples lei? O civilizado termo joga um spray dourado num comportamento relativamente comum nos casos de separação (separação, divórcio, o que for) de casais: um dos cônjuges faz a caveira do outro junto aos filhos, a ponto de lhes gerar mágoa, ressentimento e ódio, às vezes pela vida inteira.

Cansei de ver casos assim – e todos casualmente com mulheres, o que creio ser o mais comum.

Bem, simplesmente não entendo: uma noite você dorme com o home da sua vida e no dia seguinte ele se transforma automaticamente num cafajeste.

Não que as pessoas devam ter uma bola de cristal na primeira paquerinha. Mas, se o parceiro conseguiu desenvolver uma estrutura de confiança e intimidade com o outro a ponto de ter filhos, a questão vai além de um simples engano, decepção, raiva por um eventual abandono: significa que é prática comum se jogar de boca aberta na relaçã e ter filhos com o primeiro par de belos olhos que encontra pela frente.

E também significa que o fato de ser mãe não dá poderes mágicos a ninguém de adquirir valores acima do mero egoísmo.

Dirão os homens: mas eu não sou mau-caráter, aquela mulher é que é louca!

Verdade. Para cada dez cafajestes – os de fato – há dez ex-maridos inocentes, que tiveram sua imagem virada na de um monstro no ambiente doméstico que sobrou daquela família: a ex com a guarda dos filhos, o arranjo comum em casos de separação.

Dirão as mulheres: mas ele mudou de comportamento, não dá dinheiro pra isso e aquilo…

Também é verdade. Há os que veem os filhos como etapas queimadas. Mas também acredito que o boicote vem, muitas vezes, depois de todo um histórico de chantagem financeira-emocional, acomodação doméstica, do tipo “não vou me mexer pra nada, agora ele vai ver, não vai lhe sobrar dinheiro pra manter uma piranha, e blá-blá-blá.”

Sou muito caxias com essas coisas. Primeiro, saber se realmente quer filhos. Não naquele durante o romantismo dos lençóis; na vida mesmo. Segundo, saber se ambos os conjuges têm condições de bancá-los. Em pleno 2009, considero no mínimo inconsequente que qualquer pessoa – homem e mulher – resolva botar uma vida no mundo sem estar individualmente estabelecido, com um mínimo material. E terceiro, separação não é grid de largada para a pessoa se lambuzar na barbárie, no pior do ser humano.

Aos cônjuges que, mesmo com o eventual o mau-caratismo oposto, ainda consegue manter um ambiente civilizado junto aos filhos, meus sinceros parabéns, porque não é fácil passar por cima de mágoas naturais, mas que nada têm que ver com a goiabada filharal.

Aos “ex” profissionais, que criaram filhos como inimigos dos pais, num bordadinho muitas vezes safado, diário e incansável, não há lei que não possa ser driblada. Mas que é um comportamento pavoroso (mesmo que argumentos haja de sobra), ah, isso é!

  • Foto (da matéria do link): Rafaella, exemplo do estrago que se pode fazer na cabeça de um filho: aos 29 anos ela percebeu a manipulação da mãe. Sorte dela. Há os que passam a vida comprando o egoísmo alheio, e adotam, com relação ao pai, a referência clássica usada no título deste post.

Ainda os fretados

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Manchetinha no G1:

Executivos temem ser vítimas de assalto fora de ônibus fretados

O que me fez lembrar desta cena (infelizmently, não encontrei vídeo) de Herbert Richers no filme Alô?, de Mara Mourão (1998), em que ele faz um executivo pilantra que, depois de mil contratempos, se vê num ônibus de itinerário rural. Num tempo em que celulares ainda eram coisa de ETs.

Matéria cheia de estereótipos: qualquer segurança ou operador de telemarketing usa terno e gravata, e notebooks podem estar na mochila de qualquer esculhambado.

As informações da matéria descortinam um problema seriíssimo  e antigo na cidade: o pessoal trabalha longe, muito longe de casa.

A quizila dos fretados

fretados

Está engrossando essa história de protestos contra as restrições aos fretados imposta pelo Prefeito Gilberto Kassab. E isso porque ainda estamos em julho, mês tradicional de férias do povão. Imagina a cidade semana que vem, com a volta? Não dá nem pra pensar…

Há quem afirme que fretado é um buzunga melhorado. Vamos dizer assim que é o transporte coletivo do rico e o táxi do pobre.

Alguns fretados fizeram, ao longo desses anos, verdadeiras comunidades. Rola venda de coxinhas, fofoca, festa de aniversário, comemoração de Natal, final de ano da firrrma… Enfim, já é uma instituição há muitos anos em São Paulo.

Por outro lado, essa história de “onde o fretado deve parar” é um furdunço mesmo. Eu acho meio demais um fretado parar em qualquer ponto de qualquer rua pro povaréu descer onde bem entende, como se fosse um ônibus comum.

Mesmo que isso ocorra em terminais. No curto tempo de uma péssima experiência na Barra Funda – eu ainda tinha o privilégio de não dirigir -, a coisa era uma verdadeira festa do caqui. Eles – os fretados – tomavam as paradas de ônibus do Terminal Barra Funda e, junto com as lotações (ai, que tempos!), você enxergava tudo o que vinha, menos seu humilde e rarefeito ônibus.

Por outro-outro lado, o que fazer se Merdicreuza trabalha numa fábrica num lugar inóspito e a única condução decente que ela tem é  descer numa estação de Metrô mais central, de onde ela pega o fretado para dar seu expediente no meio do nada?

Mas você há de dizer: e os fretados que vêm de longe e vão despejando as criaturas em plena Paulista, quando lá há de tudo em matéria de transportes?

Também acho. O ideal seria ele fazer ponto final na Estação Mar da Tranquilidade e embarcar no Metrô rumo a seu destino trabalhístico.

Mas é uma questão difícil. É a velha coisa: o Poder Público só se mexe depois que o problema se estabeleceu. Toca a cidade como se improvisasse um churrasco na laje.

Aí tem de dar é nisso mesmo.

  • Foto (Nilton Fukuda, AE). Neste link, um mapa com “ajustes” feitos pela Prefeitura ao projeto. Não sei se resolverão, não…

Tá vênu?

corinthians1910

Essa me contaram.

Tá vendo a camiseta aí? Los ojos de la cara em qualquer lojinha do Corinthians de qualquer shopping. Cê vai, compra, usa, torce, sua, meleca ela toda e enfia na máquina. E a fofa sai toda manchada.

– Ah, mas tá la na etiqueta, minha senhora: tem de lavar à mão.

Lavar à mão, uma camisa de futebol? Em pleno 2009? Ainda se fosse um flon-flon da marriclér, um paletó, um habillé não sei das quantas…

Sei…

Logo logo estarão vendendo essas preciosidades em papel reciclado.