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Depois das eleições, surprises!

Se der curiosidade, dá uma olhadinha nessa matéria da Folha:

Trânsito piora e SP se iguala ao Rio no trajeto casa-trabalho
Moradores das metrópoles brasileiras enfrentam trajetos de casa para o trabalho entre os mais demorados do mundo –e, na maior parte dos casos, em tendência de piora. Estudo do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) constata que a Grande São Paulo passou a ter o trajeto mais demorado do país, ultrapassando a região metropolitana do Rio de Janeiro. (segue)

Que coisa, não? Passei anos da minha vendo noticiários sobre as – horrorosas – características únicas do trânsito em SP e sem entender muito bem. Afinal de contas, morei no Rio por muitos anos e gastei foi traseiro em horas intermináveis dentro de ônibus. Sem ar-cond e com direito a campeonatos de curva, dessas de atritar a carroceria no asfalto e sair faísca. Onde morava, no Méier, não há Metrô, não há vias rápidas como em São Paulo. Enfim, não há nada, porque, you know,  para o poder público carioca só existe a Zona Sul. Pra você do Méier ir ao centro da cidade de buzunga, gasta-se mais ou menos 50 minutos ou mais, dependendo da hora do dia. Pra você ir do Méier à rodoviária, então, é um suplício. Não há metrô e o ônibus é um cata-mendigo, vai balançando e você chega moída. Isso porque o Méier é uma espécie de Tatuapé em termos de distância do Centro. Imagina um ente que mora na Baixada Fluminense, em Duque de Caxias… Daí é claro que quem pode vai de carro.

A sorte do Rio é que muito pouca gente pode. A população de periferia é infinitamente mais pobre que a de SP. Ninguém tem dinheiro pra carro, então vai é de trem mesmo. Sim, aqueles mesmo que você vê normalmente apinhados de gente na TV. E busão. Se a população do Rio tivesse o mesmo poder aquisitivo, ou o animus financiandi de SP, o Rio entraria em colapso – o que não ira querer dizer muita coisa para o governo e a prefeitura locais, como se pode depreender, por exemplo, da triste área de saúde fluminense.

O gráfico faz parte da matéria, e surpreende ainda mais. Quer dizer que durante todo esse tempo rolou um estigma muito bem trabalhado de que o carioca vivia flanando, que a vida lá era boa, e que o inferno estressante era aqui?

Entendo. Não é à toa que o Cristo está de costas para a Zona Norte.

De qualquer modo, é curioso que só agora comecem a sair esses comparativos. Tenho cá pra mim que, agora, com essa questão dos royalties e uma possível nova configuração política, ficaremos sabendo de muitas outras (e novas!) escabrosidades cariocas/fluminenses.

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Oi…

É, povo. Me deu um tilt, um troço. Ficaria fino, elegante e moralmente bacana se eu dissesse que estava cheia de serviço, ou que compromissos urgentes me afastaram daqui. Não foi. Foi um grande “BASTA”, ainda que temporário (embora, no presente momento, esteja cheia de serviço e, não se engane: estou escrevendo aqui porque deu vontade e, no fundo, para adiar o começo de outro livro).

Não sei o que me deu. Talvez cansaço acumulado, ou os resultados das eleições paulistanas, que – pra não ser blasé ou dar uma de fortinha – doeram pra caramba.

De qualquer forma, ficou muito feio simplesmente interromper as postagens, sem dar satisfaçã. Mas tenho intimidade suficiente com vocês para imaginar que me perdoam. Peço tambem que compreendam daqui pra frente que eu poste menos. Este é o correto, e não um post ao dia, como vinha me propondo a fazer desde o início do blog.

Durante esse tempo, colecionei certa preguiça, suficiente para desencorajar  o elenco das coisicas que vejo em Haddad nesses dois meses à frente da Prefeitura.

As primeironas são o desmantelameto de promessas. Ora, ora, promessas dão errado em qualquer administração de boa vontade, mas aqui é diferente: ele prometeu mundos e fundos que chegavam às raias da cretinice e da mentira – até a loucura de passagem grátis pra todo mundo -, e logo nos primeiros dias de janeiro disse que não dava. Acho benfeito pra quem acreditou, porque pessoa que não liga Tico e Teco na hora de votar merece mais é se lascar.

A segunda coisa é seu bunda-molismo. Vieram as chuvas – uma baita chuva! – e as enchentes, e o sujeito não deu nem as caras. Aceito até cara de pau de político, mas tibieza e covardia, never! E piorou quando ele se justificou: “não adiantaria minha presença nos locais afetados, faço ais aqui no gabinete de crise”. Ora, meu filho, não se trata disso, trata-se de uma obrigação tão universal que não é muito necessário explicar aqui. A presença da autoridade, o conforto do Estado, independentemente de culpas ou não, de tudo – talvez coisas que você não entenda.

A inspeção veicular, essa é a cara do PT. Haddad prometeu acabar com a taxa e, mesmo diante dos alertas da oposição e as redes – de que o custo acabaria sobrando para todos os cidadãos – o cabra foi eleito. Uma vez acomodado no gabinete, viu que a coisa não era tão simples. De lá pra cá, jogou tanta abobrinha pra plateia que, adivinha o futuro? A inspeção permanecerá a mesma. Talvez ele consiga trocar a Controlar por alguma empresa amiguinha (dessas sediadas na Estrada do Barro Seco, s/n.) e daí a taxa aumenta para as despesas de isso e aquilo, reajuste de inflação, um escândalo de corrupção negado, aquela história toda, repetida à exaustão no governo federal.

Não, o tal Arco do Futuro nao sairá. Não, Haddad não cobrirá o déficit habitacional. Não, o tal de Hora Certa na Saúde não encurtará filas (até porque “hora certa” já existe faz tempo). Não, os corredores de ônibus não resolverão o problema do trânsito. E não para todo o resto mirabolante e propositalmente fantasioso, estilo tão caro ao PT.

A cidade é muito complexa pra projetos arrasa-quarteirão e para a “felicidade geral e gratuita” da cidade. Não é assim que se faz. Qualquer paulistano com mais de dois neurônios sabe que as coisas certas são feitas aos pouquinhos. Enquanto isso, eu aqui em orações para que ele não consiga desmantelar as instituições fortes da cidade, aquelas que funcionam por si mesmas, através das gestões.

(Se bem que conseguiram com a Petrobras. Oremos)

Batatíssima!

Faço “questã” de reproduzir na íntegra artigo de Reinaldo Azevedo publicado na Veja no meio da manhã sobre o que estamos falando: de números, e não de pitacos:

Dados mostram que SP oferece menos risco do que o país

A política de segurança pública de São Paulo está sendo fuzilada sem chance de defesa, com requintes de covardia técnica, intelectual e política. Houve, sim, um recrudescimento da criminalidade no estado, o que requer uma intervenção especial do poder público. Mas daí a caracterizar a situação como perda do controle vai a diferença que distingue a verdade da mentira. O alarde não busca corrigir erros e vícios. Ao contrário. Ele ignora e esmaga as virtudes de uma gestão que, nos últimos dez anos, merece mais elogios do que críticas, conforme mostra a edição de VEJA desta semana.

Não me ocupo de impressões, mas de dados; não me posiciono sobre utopias redentoras, mas sobre fatos. E é fato que o estado de São Paulo, segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública (leia o documento na íntegra clicando no link abaixo), apresentou uma das mais baixas taxas de crimes violentos letais intencionais (CVLI) do país em 2011 – 10,8 por 100 000 habitantes, atrás apenas do Amapá, com 0,9 por 100.000 habitantes. O CVLI leva em conta homicídios dolosos, latrocínios e crimes de lesão corporal que resultem em morte. Comparar é fazer justiça. O índice do Brasil como um todo é de 23,6 por 100 000. Em Alagoas, esse indicador alcança 76,3. No Espírito Santo, vai a 45,6. Em Pernambuco, chega a 38,1. Sergipe tem 33,9. Na Bahia, o índice alcança 33,2 e no Rio de Janeiro, 25,8. Sei que a informação parece desafiar o noticiário televisivo – e desafia mesmo. O fato é que a probabilidade de um fluminense ter sido vítima fatal de algum dos crimes medidos pelo CVLI no ano passado foi 138% maior do que a de um paulista. Existe alguma contestação razoável a essas estatísticas? Não.

Leia também: As percepções e a realidade sobre as mortes em São Paulo

Poderia eu ser acusado de estar usando números do ano passado para esconder que, neste ano, São Paulo superou a média brasileira e também a do Rio em crimes de morte? Não. No pior dia da atual onda de violência, houve 22 assassinatos em São Paulo. Um absurdo, sim, para o estado, mas não para o Brasil. Só para pensar, anualizo esse número, multiplicando-o por 365 (o que é um exercício de reductio ad absurdum, pois é impossível que qualquer cidade do mundo, muito menos São Paulo, possa ter todos os dias do ano iguais ao seu pior dia). Mas vamos seguir adiante. Por esse cálculo, seriam, então, no fim do ano, computados 8 030 crimes de morte. Considerando a mesma população levada em conta pelo Anuário, São Paulo atingiria a assustadora taxa de 19,2 mortos por 100.000 habitantes. Repito, se São Paulo atingisse todos os dias do ano a sua pior marca diária, a sua taxa de homicídios ainda seria cerca de 26% menor do que as efetivamente atingidas pelo Rio de Janeiro ou 42% menor do que as taxas da Bahia, por exemplo. Ao fim deste texto, há os respectivos endereços eletrônicos do Anuário e do Mapa da Violência. Eu os convido a consultá-los.

O Brasil é um país perigoso. Foram assassinadas, em 2011, perto de 50.000 pessoas – não há o número exato porque há estados que omitem dados. São Paulo oferece menos risco do que o Brasil. Se a taxa nacional fosse igual à do estado, cerca de 30 000 pessoas mortas de forma violenta estariam vivas hoje. Número é argumento. O estado de São Paulo tende a fechar o ano com 10,77 mortos por 100.000 habitantes. Na cidade de São Paulo, o índice deve chegar a 11,3 por 100.000. Isso significa que, no ano em que São Paulo foi mostrado na televisão como um teatro de guerra urbana, o estado ainda figurará nas estatísticas confiáveis como o mais seguro do Brasil.

É preciso olhar também a história. Segundo o Mapa da Violência (leia o documento na íntegra clicando no link abaixo), houve 42,2 mortos por 100.000 habitantes no estado em 2000. Em 2010, 13,9 – menos 67%. Foi a maior queda de criminalidade registrada no Brasil. A taxa recuou em apenas sete unidades da federação. Subiu nas outras vinte. Muitas vezes brutalmente (303,2% na Bahia; 269,3% no Maranhão; 252,9% no Pará).

A vida humana é assunto sério e não pode ficar entregue a chicanas político-partidárias e ao terrorismo. Usar a criminalidade urbana como parte de um projeto político para tomar o Palácio de Inverno – no caso, o dos Bandeirantes – não é decente e merece o repúdio dos paulistas e de todos os brasileiros de bem.

Anuário Brasileiro de Segurança Pública: www.veja.com/seguranca

Mapa da Violência: www.veja.com/mapa

Então é isso: o pior de São Paulo ainda é muito melhor que boa parte do país. É uma realidade qual a qual se deve conviver, pelo menos até a próxima gestão – quem sabe ela não torna o estado mais “igualitário”, não é mesmo?

A verdade é a verdade, oras…

Josias de Souza andou criticando a fala do governador Alckmin sobre a percepção da imprensa a respeito da situação do estado no combate às ações da facção criminosa:

Para o governador de São Paulo Geraldo Alckmin (PSDB) há um quê de exagero nas notícias sobre o surto de violência que o rodeia. Acha que é preciso levar em conta o tamanho do mapa. “Aqui é maior que a Argentina; é a terceira maior metrópole do mundo, com 22 milhões de pessoas”, disse, referindo-se à capital e região metropolitana.

A conta de 2012 ainda não foi fechada, mas já soma algo como 200 civis e mais de 90 policiais assassinados. Alckmin acha inadequado chamar o flagelo de ‘guerra’ da criminalidade contra a polícia. “É preciso dar o devido [critério]”, do contrário, “se cria uma situação muito injusta, quase que uma campanha contra São Paulo. E não é possível fazer isso e ainda criar uma situação de pânico na população.”

Alckmin não se deu conta, mas flerta com o inusitado. Governador de Estado que reclama do noticiário é como comandante de navio que se queixa da existência do mar.

Acho que quem não se dá conta é a imprensa mesma. Ou não se dá conta, ou finge não se dar. Que há campanha contra São Paulo, é inegável. Isso existe com política ou sem política, com bandidos ou sem, desde os tempos de Amador Bueno.

Em segundo lugar, São Paulo é maior que a Argentina, sim. É a terceira maior metrópole do mundo, sim, e, pior, a nossa “pobreza” – sim, vamos aliar criminalidade com pobreza – é rica, acentuando a tendência nacional de todo bandido ser motorizado e tecnologicamente aparelhado à larga. Em terceiro, mesmo com as mortes recentes, os índices de homicídios no estado continuam mais baixos do que no Rio de Janeiro, por exemplo, contando com o fato de que só últimamente o RJ teve uma queda acentuada de mortes per capita pelo simples (simples mesmo) expediente de conseguir, com a ajuda das parcas forças federais, avançar morro acima e acabar com os feudos dos traficantes, espalhando-os alegremente Brasil adentro.

Assim que começaram os recentes ataques a policiais em SP surgiram algumas opiniões precipitadas, incluindo a do especiaista Walter Maierovitch, de que o ideal seria chamar o Exército para “tomar” as áreas estratégicas do tráfico, como se aqui fosse RJ e como se SP fosse um último bunker de implicância e resistência à glória lulesca do Governo Federal. E mais, como se a polícia paulista tivesse institucionalizado as milícias e como se as ações desde 2006 não ivessem dado certo.  Ora, isso não faria sentido aqui, já que não há áreas onde a polícia não entra, assim como não faz em Santa Catarina, alvo mais recente desses ataques e que também acaba de recusar tal hipótese.

Ora, não há prova maior da eficiência da polícia paulista do que o próprio fato de a facção criminosa ter decidido das cabo da vida de seus integrantes. A polícia paulista incomoda os bandidos, coisa que não ocorre nos demais estados da Federação, onde, parece, todos convivem na mais santa harmonia. Talvez seja esse o estado de coisas ideal para algumas opiniões, mas aqui não é (somos estranhos mesmo).

Diante das bravatas do Ministro da Justiça José Eduardo Cardozo de que “o governo federal não era Casa da Moeda” pra ficar mandando dinheiro para São Paulo (como se isso não fosse obrigação), a presidente Dilma deu-lhe uma enquadrada e resolveu sentar-se com o governador para ver o que era possível fazer no estado e, parece, as demandas daqui venceram. Não queremos ações espetaculares e, sim, que o governo federal cumpra com suas obrigações.

Note que todas as “ofertas” conseguidas por Alckmin do Governo Federal não passam de compromissos que Dilma e seus ministros deveriam exercer normalmente, mas que não são cumpridas por desleixo, incompetência geral e incompetência específica do governo petista: atuação na fiscalização de estradas – “autorização” da PM paulista para atuar nas estradas federais do estado -, transferência de presos, atuação em portos e aeroportos, agilização da burocracia diária na Justiça e estreitamento da atuaçao conjunta com a Polícia Federal.

Neste feriado a artilharia da imprensa é contra a entrada de celulares nas prisões. Ora, as abordagens da imprensa fazem crer que esse seja um problema apenas do governo paulista. Não é, há muito tempo.

Alckmin afirmou que o monitramento de celulares nas prisões ajuda no trabalho de inteligência. É o que temos por ora. Custo a crer que o governo paulista não teria adotado medidas drásticas de revista em presídios caso a lei ou o orçamento permitissem. Também é de ponderar a hipótese de ser esse um dinheiro (instalação de raios x nas prisões) jogado pelo ralo caso fosse medida atodata apenas em presídios paulistas e não no resto do país.

O que realmente estranha é a imprensa tratar o governo paulista como incompetente. Primeiro porque não é. Segundo, a imensa diferença de tratamento em relação aos demais governos e suas ações nem sempre eficientes, abordadas pelo mesmo jornalismo como messiânicas. Terceiro, a quem interessa insuflar um clima de pânico maior do que já é? – e não me refiro ao jornalismo popular.

Resumindo, minha pergunta: Paraisópolis vai virar novela ou não?

Dom Pedro I: é nóis

Domingo de segundo turno em São Paulo, e eu já saí da fase tromba. É a função libertadora/catártica de apertar o botãozinho do foda-se.

Não, não vou fechar este blog, não. Desde sua humilde inauguração, me dei a tarefa de uma postagem por dia – índice alto para a média de blogs amadores -, mas não ando conseguindo conciliar. Afinal, tenho outras coisas a fazer, outros projetos. Posto de vez em quando, quando a ocaião exigir – muito.

Tentei, desde o começo, fazer ver uma realidade da cidade que, moléstia à parte, não aparece muito na grande imprensa.  Isso esteve muito relacionado a dois fatores: 1) um tipo de gestão que me agrada: a técnica, aquela da qual ninguém entende e não faz muito esforço pra entender; 2) o caráter do povo paulista e, especificamente, o paulistano.

Estou, aos trancos e barrancos, tentando ler A carne e o sangue, de Mary del Priore, sobre dom Pedro I, Leopoldina e Domitila. Coincidência ou não, vai um trecho de quando dom Pedro se aproximava de São Paulo para pôr fim à revolta da bernarda. Apesar de bem recebido e das adesões ao longo do caminho, no Vale do Paraíba e tals, receava um atentado em  São Paulo, por conta dos revoltosos de Francisco Inácio. Apeou na Penha e mandou dois assessores na frente para ver como estavam as coisas na capital da província. Um deles era Francisco de Castro Canto e Melo. O outro, Francisco Gomes da Silva, o Chalaça, que testemunhou:

O entusiasmo dos habitantes foi extraordinário; não se podia esperar tanto. Eu consegui informá-lo a tempo de tudo quanto ocorria e pintar à Sua Majestade o estado de espírito público. Em verdade, a provícia o idolatrava porque via nele um príncipe ativo, endurecido nos trabalhos, incansável, generoso, amante da liberdade brasileira e quase filho do Brasil. […] A população de São Paulo, sem querer deprimir nenhuma outra do Império do Brasil, é vivíssima, penetrante e entusiasta; não podia deixar de olhar o Sr. D. Pedro como a mais firme âncora de segurança para a nau do Estado; porém no meio de afetos de amor e admiração transluzia com toda a clareza o sentimento de independência [do país]. (p. 77)

Veja você. Isso foi há quase duzentos anos. De lá pra cá tivemos na cidade governantes das mais variadas correntes políticas. A maioria deles acabou contribuindo, de uma forma ou de outra, bem ou mal, para o que temos hoje.

Não poderia fazer um levantamento de pronto. O que tenho de cabeça são alguns fatos das últimas gestões PSDB-Kassab:

São Paulo é a capital menos violenta do país.

São Paulo é a cidade para onde vêm todos os brasileiros (e até estrangeiros) que precisam tratar de problemas complexos de saúde.

São Paulo (cidade e estado) ganham com folga no ranking das melhores estradas do país.

São Paulo continua recebendo todo mundo. Hoje, se não é para morar, é para ganhar dinheiro.

São Paulo continua enviando a maior porcentagem de impostos para o governo federal, e é um dos que menos recebe de volta.

Costumo dizer que de dez em dez anos os paulistanos sofrem um espasmo e acabam elegendo uma tranqueira que não tem nada que ver com o que se entende por paulistanidade. Depois veem a jaca que fizeram e voltam ganindo para os mesmos de sempre.

Foi assim com William Salem, Jânio Quadros, Luiza Erundina, Celso Pitta, Marta Suplicy – e hoje veremos se a frequência esquizoide se mantém. São entes que, se não metem a mão no dinheiro, tentam mudar tudo conforme suas “novidades” retumbantes, na base do tão russomaniano “agora vai, agora todos serão felizes aqui” – como se não fôssemos. No meio disso tudo, demandas de um povo misto, que se divide entre o alto grau de exigência e a “mão errada” dos sem-noção, aquilo de exigir o descabido.

Como se cada indivíduo que escolheu esta cidade pra viver necessitasse urgentemente de um tapete vermelho – a cidade rycka – pra solver suas vidas. Isso EXISTE. O exemplo mais recente foi a promessa haddadiana de exigir para os hospitais sob as OSs a mesma qualidade de um Einstein, de um Sírio. Isso mesmo que você entendeu: não basta bom atendimento médico. Tem de ter as mordomias dos melhores hospitais do país. Essa cretinice colou. Coloquem esse item para as próximas eleições: o luxo como direito a ser fornecido pelo Estado.

São Paulo é o que é. Tamanha, que simplesmente não dá tempo de alguém detoná-la por completo.

Quatro anos é muito pouco. Sejamos pacientes.

Quanto a mim, estou plantada aqui, levando a vida. Bocejarei muito nos próximos tempos, e só me moverei de verdade se tentarem tirar de nós os restos mortais de dom Pedro.

Sugiro o mesmo a você.

Falando em simplismo…

Editorial da Folha de hoje aborda o fato de os dois candidatos à Prefeitura de São Paulo terem abandonado a batatada do kit gay e se debruçado sobre a saúde. Ok, concordo.

E lamenta que o debate sobre saúde tenha descambado para o maniqueísmo ideológico. Também concordo.

Daí pega pesquisas do Datafolha, como se opinião do povo (desculpe) fosse lá grande coisa. É estatístico que povo, penda para um lado ou para outro, utiliza critérios de povo para avaliar as coisas. Vai saber o que se passa na alma de cada entrevistado?

Tem gente que simplesmente acha de bom tom destacar defeitos em qq coisa. Ao criticar – mesmo algo que vai relativamente bem -, aquele ente se sente importante, passa uma ideia de exigente, de que tem gosto fino, paradigmas, e tals.

Isso sem contar com críticas – no caso ainda da saúde – de quem não usa o serviço público. Em São Paulo, 8 milhões dependem da saúde pública, o que significa que, grosso modo, alguns outros milhões usam planos de saúde. Esses também circulam em ruas onde Datafolha e Ibope pesquisam, vai daí você aborda um indivíduo, e acho muito difícil que ele corte a conversa com um “não uso a saúde pública, não posso responder”.

Ele diz que usa, nem que more em Diadema, pelo único e singelo fato de que lhe apraz responder pesquisa. Vai daí e despeja toda sua insatisfação “de ouvir falar”. Pesquisa Ibope recente aponta que 70% dos usuários de plano de saúde estão insatisfeitos, fato que abordamos aqui, de uma forma ou de outra.

São vários os motivos: falta de médicos para regiões mais distantes (e falta de médicos até nos centros de capitais); safadeza de planos de saúde que não se equipam para procedimentos mais complexos; safadeza de prefeituras outras, e até de ouros estados, que mandam seus pacientes mais complicados para os equipamentos das capitais (notadamente São Paulo).

As soluções das gestões de SP para lidar com o enorme número de pessoas que se tratam aqui (os porteiros aqui do prédio, por exemplo, alguns moram em outras cidades, mas suas consultas são aqui) vêm sendo feitas com planejamento e com o dinheiro que se tem.

As OSs, tão atacadas nessa campanha, é uma solução interessante: você paga a eficiência privada e economiza, evitando lidar com o mostro da máquina pública e todas as suas más características: enfermeiras arrastado chinelo, setores feudalizados em hospitais, altos encargos trabalhistas e a eterna herança de funcionários caros, muitas vezes preguiçosos e capacitados via mero concurso.

Outra coisa com que quase não me conformo (Serra nem tenta explicar, mas entendo seu lado) é a metralha petista à tentativa de tirar um bom partido da distorção de planos de saúde utilizarem o SUS de graça: hospitais públicos teriam uma ala (e não “roubariam leitos”) só para esse tipo de pacientes, devidamente ressarcidos pela saúde privada, corrigindo a distorção.

A grita petista foi tanta que tudo, então, permanece como está: planos de saúde continuam tirando grandes casquinhas do dinheiro público numa boa.

Alguém vai me dizer que um cidadão comum, entrevistado ao léu, sabe de tudo isso?

Por isso pesquisas Datafolha e Ibope não têm superioridade moral pra avaliar coisíssima nenhuma. A régua do povo não é parâmetro pra absolutamente nada. (Só que não)

Inveja do debate alheio

Cê vê, né? Esta semana houve um debate na CNN entre os presidenciáveis americanos Barack Obama e Mitt Romney, mas quem ganhou a parada foi a imprensa.

Debates geralmente são um tiroteio de mentiras. Mentiras, meias-mentiras, um modo de se expressar, de torcer números, de interpretar um episódio a seu bel-prazer e eis: um arremedo de elaborações feitas para o eleitor médio, ignorante, sem memória, que sabe mais ou menos de tudo, mas sempre de ouvir falar, sempre superficialmente.

No debate americano esse paradigma se quebrou: a mediadora Candy Crowley, jornalista da CNN, inaugurou o real papel de um jornalista nesses casos: bater o martelinho da ordem, restabelecer a verdade. (Sim, porque a verdade tem seus direitos. Ou não?)

A certa altura, Romney acusou Obama de só ter se pronunciado corretamente catorze dias após a morte de quatro americanos em um atentado ao consulado os EUA em Benghazi, na Líbia.

Obama se defendeu, dizendo que qualificou o ato como terrorismo logo no dia seguinte, dia 12 de setembro deste ano, desafiando Romney a rever arquivos.

E aí entra a inovação: a mediadora Candy Crowley interveio e confirmou a versão de Obama: Sim, de fato o presidente se pronunciou logo após o atentado.

Pra quê? Crowley sofreu uma chuva de críticas. Foi acusada de ajudar Obama, tal e coisa e coisa e tals. “Candy não tinha nada que fazer isso”, disseram partidários de Romney.

Bem, se a jornalista “não tinha nada que fazer isso”, o que será que resta a um jornalista mediador de debates? Transpondo para nossa imitação macaquística: qual é o papel de um Bóris Casoy, um José Roberto Burnier, uma Maria Lydia e tantos outros pelo Brasil adentro?

Sinceramente, no formato em que está, até meu sobrinho poderia mediar um debate. Tudo o que dizem está num script prévio, imóvel, previsível, meramente vomitando regras, um papel escrito, coisa que qualquer um pode ler. Nem mesmo os pedidos de resposta podem ser avaliados pelo mediador.

Então? Xuxa, Latino, a Beyoncé do Pará, Nicole Bahls, Adauto e a mulher-bunda, qualquer um pode mediar um debate no Brasil. O que se faz normalmente não é uma mediação, mas mera apresentação, desperdiçando o enorme potencial jornalístico de partir da verdade e desmentir uma… mentira.

Até mesmo a saudosa Hebe Camargo tinha mais poder de improvisação do que Bóris Casoy teve na última quinta-feira, no debate da Band entre Serra e Haddad.

Por exemplo: ficaram os dois trocando versões tímidas – superficiais – sobre o problema das creches federais em SP. Um diz que fez, outro diz que não fez. Então, por questão matemática, um dois dois está mentindo.

Bóris Casoy certamente sabe direitinho o que aconteceu com a questão das creches. Casualmente, eu, você e mais uma pequena parcela da população também sabe. O PSDB tem a correspondência pedindo grana para as creches. Haddad não teve respostas documentais a apresentar, mas afirmou que a Prefeitura de SP não pediu nada. Andou-se ainda dizendo que a grana federal imporia umas creches muito jererecas, que a Prefeitura de SP não aceitou. Então, jogue-se a verdade para o alto e fique-se com o blá-blá-blá, e ganha quem gritar mais.

A pergunta é essa:

Por que raios de “ética confortável” Bóris Casoy não explicou o que realmente aconteceu? O que impede um jornalista, do alto de sua independência, do alto de seu compromisso com os fatos, do alto de seu acesso profissional à verdade, de restabelecê-la ali, na hora?

Não se trata de “ajudar” o candidato X ou Y. Trata-se apenas e tão somente de baixar a verdade no palco e, a partir daí – aí sim – dar início ao debate.

Eu não gosto do formato atual dos debates. Me ressinto de um pouco mais de profundidade. “Ah, precisa se dirigir às pessoas que estão menos informadas”. Mas, ora, que se danem as pessoas menos informadas, até porque pessoas desinformadas o são por absoluto arbítrio, e não será esse formato que vai ajuda a informar coisíssima alguma.

A entidade jornalística é a principal responsável por esse sambarilove político. Espero que a atitude de Candy Crowley seja pensada e repensada e que possa inaugurar uma nova fase no debate eleitoral – nos EUA e aqui.

  • Foto: Candy é especialista no tema e cobre eleições presidenciais há vinte anos na CNN. Alguma objeção?