Beco é beco

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Os becos sempre foram lugares convidativos. Ninguém pode dizer que a história dos becos seja coalhada de imagens primaveris e da mais alta urbanidade, não é mesmo?

Pois é. Essta foto é do beco mais afamado da cidade. Fica na atual rua Roberto Simonsen, na Sé, espremido entre duas casas bem antigas. A da direita é o Solar da Marquesa de Santos. Ela morou aí depois de ter de se afastar de dom Pedro I. Como se sabe, um dos pré-requisitos para que dona Amélia de Leuschtenberg se enfiasse em um navio e desembarcasse no Brasil para casar com o Impedaor era que esse lavasse sua vida amorosa com ácido muriático.

Assim foi que a marquesa se mandou de volta para São Paulo. Instalada no solar, uma das primeiras medidas de dona Domitília foi comprar uma briga para que se fechasse o tal beco. Era um comunho barulhento, sujo e malcheiroso. Ela conseguiu, mas sua luta não parou. Caminho natural para pescadores, lavadeiras e carregadores de água, o beco era uma mão na roda para quem precisava transitar entre as partes alta e baixa da cidade e exercia uma intensa sedução em quem não queria andar muito para descarregar tonéis cheios de dejetos noturnos.

Mas a marquesa não foi a primeira a protagonizar essas brigas em torno do beco. O antigo dono do solar, o brigadeiro José Joaquim Pinto de Morais Leme, era um grande criador de caso. Chegou até a avançar em um pedaço do beco, para impedir a passagem de carroças, e vivia à turras com o vizinho do outro lado, o padre João José Vieira Ramalho, por causa do mesmíssimo beco.

O fato é que a passagem vivia abrindo e fechando por ser um grande depósito de lixo, entulho e barulho. Hoje está fechado. Acho que pelo mesmo motivo.

Militão de Azevedo

Militão de Azevedo

Tentar a vida em São Paulo não é coisa do século XX. Muito antes disso, na década de 1860, o fotógrafo carioca Militão de Azevedo resolveu fazer as malas e vir para cá, num tempo em que a cidade não tinha nada além de uma faculdade de Direito cheia de alunos pseudo-necrófilos. Como a cidade não tinha nada a oferecer para os rapazes, eles se contentavam, entre um spleen e outro, em fazer encenações românticas nos cemitérios, e pouco se lixavam se a musa – geralmente uma prostituta – tiritava de frio em cima de uma tumba.

Militão fotografou um monte de coisas, com preferência pelos arredores do Largo de São Francisco, reuniu em um álbum e botou um anúncio de venda no jornal, dirigido aos estudantes: “… recordação agradável da cidade onde passaram talvez a melhor época da vida…” Péssimo marketing! Ele não sabia que a expressão “estudante duro” é chover no molhado.

Seu empreendimento foi um estrondoso fracasso de vendas, mas o fato é que hoje esse álbum, de que restam poucos exemplares em estado lastimável, além de muitas outras fotos que tirou da cidade, são o único registro em imagem mais consistente que temos da São Paulo antes do café e da industrialização.

  • Foto: Militão de Azevedo, Rua das Casinhas (atual rua do Tesouro, região do Pátio do Colégio). Copyright Instituto Moreira Salles.
  • Se interessar…. Pedro Corrêa do Lago, Militão Augusto de Azevedo: São Paulo nos anos 1860, 2001.

Flanela Paulistana

São Paulo, fim de tarde

Depois de muuuuuito matutar, está aqui o blog. Os amigos insistiam, mas eu não queria criar um blog só para ter um. Precisava de um assunto que me movesse.

Na manhã gloriosa do último domingo, a Raquel me soprou o óbvio.

Falar sobre São Paulo é algo natural para mim. Afinal, aqui é a minha praia. Mas os assuntos que abordarei têm um corte meio desaforado: “Fotos do Masp, nem pensar”. É claro que não radicalizarei nisso. Mas o fato é que não estou aqui a turismo, nem a trabalho, nem porque preciso fazer uma cirurgia no HC. Nasci aqui, moro aqui, minha família tem uma história aqui e me interesso pela minha cidade. É simples assim.

Começo com uma foto cotidiana, mas com um significado bem peculiar. À parte o verdadeiro transtorno que causa por aqui, existe o lado bom da chuva. Em primeiríssimo lugar, ela limpa o ar e enche as represas. Ela também mostra uma faceta que se desenvolveu entre os paulistanos nos últimos anos: o trânsito parou? Ficou preso no Metrô? Relaxa. O patrão não cobra, o dentista releva, a mulher não desconfia e o carro – fazer o quê? – vai pra oficina. E, para quem já está dentro de casa, um céu preto assim, ainda cravejado pelo sol que se vai, traz um certo conforto. Egoísta à beça, mas genuíno.