Na hora do vamuvê, São Paulo

Eu meço – eu; não sei os outros -, eu meço cidades pela disponibilidade de café expresso em boa fatia da periferia. Se tem, é uma metrópole; se não tem, não é. Sinto muito, não há desculpas para privar uma alma de tomar um café expresso onde quer que esteja. Outro dia entrei cambaleando de sono na padaria, pedi um pão na chapa com café mas esqueci de especificar. Lá me veio o café comum, de copo. Tomei porque era cedo e porque não tenho chiquê. Mas não foi uma epifania, não.

Folha de hoje:

Apesar do interesse internacional pelo Rio devido à Copa e à Olimpíada, em janeiro, a sede do “New York Times” pediu a seu correspondente no Brasil uma longa reportagem sobre cultura e estilo em São Paulo.

Também no início do ano, a chefe do escritório da CNN no Brasil, Shasta Darlington, decidia qual cidade seria alvo de uma série de reportagens: São Paulo ou Rio? Ganhou São Paulo.

As reportagens saíram nas últimas duas semanas, no jornal e na TV. O viés foi francamente positivo. “A nova nova São Paulo”, deu o “NYT”. Na CNN, “São Paulo: capital cultural do Brasil”.

[…]

“O centro é a parte de São Paulo que mais me fascina”, diz o correspondente Simon Romero, do “NYT”, que morou na Bela Vista, região central, nos anos 90 e hoje dirige o escritório do jornal no Rio.

Já quando a CNN precisou decidir onde estabelecer seu estúdio no país, há dois anos, optou por São Paulo, com vista para a Marginal Pinheiros.

“Decidimos que era mais sério criar o escritório na capital financeira”, diz Darlington. “Adoro o Rio, mas queremos tratar o país com uma cobertura mais séria.”

Outra face da cobertura internacional sobre São Paulo é a imagem de sua opulência financeira, destacada regularmente, por exemplo, no “Wall Street Journal”.

O jornal econômico chegou a eleger no ano passado um “símbolo oficial do boom de investimento” no Brasil: a torre Malzoni, na avenida Faria Lima, onde se instalaram o banco de investimento BTG Pactual e o Google.

Outros símbolos poderiam ser os restaurantes de cozinha premiada e os helicópteros em revoada às sextas, lembrados pelos correspondentes do “Financial Times” e da “Economist”.

MUNDO LIVRE

Com tais imagens sendo transmitidas ao mundo, São Paulo tem como conquistar a grande feira mundial Expo 2020? E o que a campanha lançada por Gilberto Kassab (PSD) no final de seu mandato e abraçada agora pelo prefeito Fernando Haddad (PT) poderia destacar?

Para o publicitário Nizan Guanaes, a cidade “tem algo que não é tangível, que é a energia de São Paulo, uma energia do novo mundo, livre, de uma cidade plural”. Grande rival na disputa, “Dubai não tem isso”. Também não tem sua “criatividade”.

Outro ponto para Guanaes é a necessidade de São Paulo contornar a burocracia, espelhando-se na experiência do Rio para a Copa.”Se São Paulo vai querer ser competitiva, não pode ficar num mar de regras”, diz ele.

O arquiteto e urbanista Jorge Wilheim vai pela mesma linha. A cidade “é considerada uma metrópole criativa, dinâmica”, e “é preciso saber mostrá-la sublinhando as suas peculiaridades”.

Pragmaticamente, defende destacar as “boas condições de turismo receptivo” e, entre as lições cariocas da campanha pelos Jogos, a presença do presidente Lula na busca de votos para a cidade.

Problemas não faltam, admitem o publicitário e o urbanista, citando infraestrutura como exemplo.

Já a chefe do escritório da CNN, moradora de Pinheiros, aponta um desafio principal, se São Paulo quer atrair eventos: “Sem melhorar o transporte, não é uma cidade boa nem para morar”. (aqui)

Bem, a moça da CNN não experimentou morar em Madureira. Fora isso, eu acho que até o IDH da ONU é mais especificador do que as comparações brutas do IBGE que temos entre cidades brasileiras. Talvez as editorias dos jornais estrangeiros tenham percebido isso e, indiretamente, ajudem na candidatura de São Paulo à Expo 2020. Assim espero.

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4 comentários em “Na hora do vamuvê, São Paulo”

  1. Aos poucos vão descobrindo que SP é o centro econômico e cultural do Brasil. A escolha da CNN é sintomática. De que adiantaria ter um correspondente estacionado no Rio?

  2. D todo modo São Paulo seria imbatível.
    Se os acertos sugeridos forem realizados melhora ainda mais as chances.
    Porém, da mesma forma que fizeram para vencer as eleições para a Prefeitura, o alvo passa a ser o Estado.
    Mas, descolados que estão com as mesmas ladainhas correm o risco de atirar no próprio pé.

  3. Né, Marcelo? Certamente não fui eu que mandei.

    É, Iolita, negam por olho gordo e por um cotovelo em carne vida. Lamento.

    Já começou, Dawran. Estão se rendendo às OS, não sem antes passar três meses reinventado a roda. Mas qual o eleitor que vai pensar nisso? Quem vai olhar para os arrotos do Haddad sobre a Expo 2020 e lembrar que foi o Kassab quem inscreveu a cidade?

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