Imprensa/opinião: uma pasta cada vez mais pastosa

Ô, últimas semanas! Morre um, morre outro, renuncia um terceiro, e vamos assim.

Mas entre Caracas e o Vaticano, ficamos em São Paulo. Na última quarta-feira ia caminhar cedo, rolando vielas abaixo até o Alto de Pinheiros, mas mudei o trajeto rapidex. Não queria nem sentir o cheiro da paçoca que se formou à volta do prédio onde o rapaz se confinou para cheirar até bater as botas e “comoveu todo mundo com sua história de vida sofrida”.

Veja bem – não estou censurando “fãs” – aqueles fãzinhos de verdade, que curtiram a música do rapaz esse tempo todo, e tal. Eles têm direito à sebosidade pseudopoética, ao momento de emoção exacerbada e cafona, assim como – confessemos – eu e você tivemos em overdoses d’antanho.

O que não dá pra compreender – na minha opi – é a imprensa e as “opiniões abalizadas” entrarem nessa. Jornal pra mim é para informar, não para dar palhinha pra choro. Até vá lá fazer matéria cor-de-rosa, mas comprar versão de que o rapaz passava por momentos difíceis e por isso aconteceu X, não cola.

Também não cola o discursão desculpístico de que pessoas mergulham nas drogas porque têm problemas. Não existe essa de “minha mãe morreu, logo vou cheirar minha primeira carreira de cocaína”. É chato dizer isso, mas as pessoas começam qualquer vício por pura diversão. Daí em diante, dependendo do tipo de onda, pautam sua vida por isso, até que um dia pode rolar uma overdose. Se isso aconteceu com o rapaz da esquina ou com alguém do outro lado do mundo, faz parte. Mas, só porque o rapaz ia pra cima de um palco e cantava mimos heroicos, os fãs neófitos de vida começarem a dar chilique, aí a pasta engrossa. Uma celeb chamada Tico Santa Cruz soltou um texto-vômito cheio de lugares-comuns sobre a perda de seu ídolo:

[…] Segundo, é que gostaria de saber que moral que tem uma sociedade tabagista, alcoólatra, que consome remédios ( DROGAS ) de todos os tipos – para dormir, para emagrecer, anabolizantes, estimulantes vendidos em farmácias e mais um monte de porcarias legalizadas – para falar do que o cara fez ou deixou fazer. Isso não é problema de ninguém! […]

E no fim, um imperativo: “Reflitam!” Sinto muito, mas não vou lhe obedecer. Não vou perder meu tempo pensando em pessoas que morrem de overdose. “Ah, mas era o Chorão”. Hueda-se, né, meu amigo! Quando Elvis Presley morreu por excesso de qq. coisa, também foi um problema dele e nem por isso apareceu gente vociferando.  Tanta desculpa num texto escrito com o fígado como o citado cheira a defesa. Como diz em outro ponto, “é problema dele”, LOGO ninguém tem de se meter a defender, não é, Tico Santa Cruz?

Pessoas que cheiram cocaína são dadas a achar que estão sendo perseguidas e, ao contrário de maconheiros, por exemplo, dão de quebrar tudo a sua volta. Problema do cara? Claro, desde que tenha dinheiro pra pagar os estragos. Nem sei se isso aconteceu, porque a sociedade tende a desenvolver compaixão por gente que aparece.

O mundo é vário, e há quem classifique as pessoas como poetas. Já eu acho que quando alguém cheira cocaína e começa a zucrinar a vida da família, dos amigos e de qualquer um que lhe passe pela frente, é apenas um viciado em cocaína. Sinto muito. Aliás, não sinto nada.

Imagem: “Sallllldozo” Jimi Hendrix, de um tempo em que se morria e pronto.

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