Aloprados com sede de câmera

Há malas que vão pra Belém… O episódio da semana em que a PM pediu para o apresentador José Luís Datena conversar com sequestrador que fez refém sua própria família a troco não sei de quê em Diadema é um desses marcos que mudam certos hábitos e mentalidades.

Aposto que a esta altura o comando da corporação já proibiu esse tipo de veleidade.

Ninguém pode botar o destino desse tipo de coisa nas mãos de um mero apresentador de TV, por mais habilidoso que seja. A PM paulista é uma entidade que existe desde os tempos de Dom João. Não de “dom João Charuto”, como diz a expressão, mas de dom João VI mesmo. Legalmente, existe desde 1831, por iniciativa de Rafael Tobias de Aguiar, e é a maior do Brasil. Desde então, vem se fortalecendo e se aperfeiçoando, contando com treinamentos e um sem-número de cursos para seus integrantes.

Entre eles está o Curso de Negociação de Crises com Reféns, que segue complexas normas internacionais. Inxcrusível, o Gate – Grupo de Ações Táticas Especiais  – é tão bom nisso que é chamado para lecionar para corporações de outros estados.

O curso dura quase um mês, ou seja, não depende de carisma ou simpatia pessoal. Depende de técnica, técnica, técnica.

Vamos ver uma opinião abalizada, a do coronel da reserva da PM de São Paulo e ex-secretário nacional de Segurança Pública José Vicente da Silva Filho, saída hoje no UOL:

“Há uma série de procedimentos a serem seguidos numa negociação com um sequestrador”, diz Silva Filho, que também é coronel da reserva da PM. Entre eles, explica, está o corte de energia, para evitar que o criminoso assista na TV à situação do sequestro. “Isso pode deixar o sequestrador mais nervoso e piorar as condições para a negociação”. […]

Não é uma mera questão de persuadir o sujeito a se entregar. O negociador treinado, ao mesmo tempo, avalia o grau de risco para reféns e a possibilidade de invasão tática [nome técnico para invasão da polícia do local onde está o sequestrador e os reféns]”.

Ainda segundo José Vicente, “é colocar um amador numa tarefa profissional de grande risco, uma microcirurgia”. […] “Não é indicado trazer ao diálogo pessoas não preparadas para a tarefa, como familiares e personalidades”.

Não acho que seja o Datena o errado. Contraditoriamente, apesar do risco que ele mesmo apontou,  e do arrependimento após o final bem-sucedido, isso lhe rendeu altos pontos no já alentado currículo.

Errado esteve não a polícia, mas o oficial que teve a brilhante ideia. Não pode existir, nem na PM nem em qualquer outra entidade pública, essa misturinha com purpurina televisiva. É bom que marginais, a TV, a PM e o público tenham isso em mente, por mais que solape alguns minutinhos de entretenimento.

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4 comentários em “Aloprados com sede de câmera”

  1. Esse tipo de coisa não ajuda em nada.
    Cada na sua, não é?
    Nem como promoção da Polícia serviria.
    Depois daquela ação, com muito sucesso, de convencerem um homem com problemas mentais, render-se, essa ai chega a ser hilário…

  2. Como se não faltassem as pressões do ministério da Justiça sobre o Governo Paulista, essa ai só dando um chega para lá mesmo.
    O ministro deveria é continuar pressionando lá onde deve. “A cada enxadada uma minhoca”, não é?
    E deixar São Paulo em paz.

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