Saúde sem intermediários

O que temos falado, e só se pode chegar à conclusão de que o sistema particular de atendimento e os pacientes fariam muito melhor se mandassem os planos de saúde para o espaço sideral. Na Folha:

Atendimento “express”, como no SUS

O crescimento da economia do país, nos últimos anos, sem dúvida melhorou a vida de muitos brasileiros, que passaram a consumir mais e ter acesso a serviços antes inatingíveis.

Entre as conquistas de milhões de pessoas está o tão sonhado plano de saúde, na tentativa de fugir de hospitais públicos lotados, com macas nos corredores, falta de médicos e outros funcionários e de atenção adequada ao ser humano.

Esses usuários, porém, só trocaram de drama. Os planos de saúde são gigantes que, entre uma fusão e outra, lucram sem parar, mas oferecem bem pouco a quem paga muito caro pelo serviço.

Tendências/Debates Eventuais insuficiências são localizadas

No momento da venda, os planos de saúde prometem renomados hospitais, exames sofisticados e uma considerável carteira de médicos. Mas a realidade é bem diferente. Os médicos sofrem com a baixa remuneração e acabam optando pelo atendimento, digamos, “express”.

Para se ter uma ideia, a maioria das consultas médicas é remunerada pelos planos com valores entre R$ 18 e R$ 50. Em casos extremamente raros, especialistas renomados recebem até R$ 200 somente de planos considerados top de linha pelo mercado. A situação piora, em se tratando de atendimento multidisciplinar. Paga-se de R$ 4 a R$ 7 pela sessão de fisioterapia, por exemplo.

Pressionados pela baixa remuneração, os médicos realizam de quatro a cinco consultas por hora.

São, em média, nem 10 minutos com o paciente. Esse tempo é obviamente insuficiente para a mínima investigação dos sintomas apresentados, podendo causar diagnósticos imprecisos. O bom exercício da medicina exige exame físico minucioso, atenção à história da doença, à descrição dos sintomas e uma análise, ainda que sumária, das condições de vida e da personalidade da pessoa a sua frente.

A fundamental relação entre médico e paciente simplesmente desaparece nos atendimentos remunerados pelos planos de saúde. São praticamente desconhecidos que entram e saem dos consultórios, sempre com guias de exames na mão e nenhuma certeza do mal que os aflige.

Em meio à falta de consenso entre operadoras e médicos, a população brasileira pena com problemas básicos de rotina como demora na marcação de consultas, na liberação de exames e até com o absurdo da negativa para realização de cirurgias.

As consultas se transformaram em verdadeiras linhas de produção, algo capaz de dar inveja à indústria automobilística. Já virou rotina clientes recorrerem à Justiça para conseguir ter acesso a procedimentos essenciais aos tratamentos.

O que os empresários parecem não enxergar é que, embora consigam mão de obra barata graças à proliferação de faculdades de medicina de baixíssima qualidade, acabam perdendo dinheiro ao pagar honorários irrisórios aos seus profissionais credenciados.

Isso porque, sem o exame físico adequado, os médicos solicitam procedimentos muitas vezes desnecessários, pagos pelos “empresários da saúde”. Dor de estômago? Endoscopia. Tosse? Raio-x do tórax. Os resultados estão normais? Então é hora de exames mais complexos… E é assim que funciona a relação entre médico e paciente nos dias de hoje.

A economia no preço das consultas resulta em contas elevadíssimas pagas aos hospitais, porque lá chegam os pacientes que não tiveram o diagnóstico precoce. Ao que me parece, os lucros dos planos de saúde são tão elevados que até estas perdas com pacientes que acabam nos centros cirúrgicos são consideradas parte do jogo.

Sinceramente, me incomoda a má formação e a desqualificação dos meus colegas de profissão. No entanto, me preocupo muito mais com os pacientes atendidos por médicos que recebem menos por consulta do que os guardadores de carro da cidade de São Paulo.

ALFREDO SALIM HELITO, 54, é médico de família, clínico-geral do Hospital Sírio-Libanês e coautor de “Análise Crítica da Prática Médica” (Campus)

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5 opiniões sobre “Saúde sem intermediários”

  1. Os planos de saúde pagam os médicos hoje, a partir de uma tabela de 1992, que sofreu no máximo correção monetária pelo índice mais baixo. Ou seja, está defasada em 80 a 90%.

    Mas a base de clientes aumentou, o que propiciaria ganhos de escala para justificar o aumento dos médicos. Mas as operadores dizem não ter condições, alegam que “investem” em novos exames e hospitais, mesmo assim, são incapazes de suprirem as demandas…

    As mesmas operadoras que torram dinheiro para dar a seus diretores escritórios suntuosos, carros de luxo e translados de helicóptero e classe A nas viagens aéreas, quando não jatinhos. Um desses “magos” do negócio saúde chegou a sair numa capa de Exame, arrotando que aumentou o tamanho de sua empresa, sem fazer menção às MILHARES de reclamações que pesam contra ela.

    E os atendimentos vão seguindo a lógica do SUS. Minha noiva precisava de um exame, ligou para o plano de saúde e marcaram para 25 dias depois (mas ela precisava do exame simples na hora, porque queria operar rápido), acabou pagando o exame para fazer imediatamente. Só o que não atrasa é a mensalidade, esta é sagrada!

  2. Então, Fábio. Parece que esse atraso é geral, por causa mesmo da quantidade de gente que passou a usar. Mas o particulê sai rapidinho… E a Golden Cross está vendendo. Quem compra cocô?

  3. Mais um caso de ineficácia.
    Com as notícias sobre a senhora que mandava e desmandava e colocava gente em cargos do qual o aquinhoado não entendia absolutamente nada, de ANA e ANAC até a ANVISA, como querer bom atendimento em qualquer coisa de que se necessite?
    Como será que anda na ANEEL e outras agência reguladoras?
    O País foi colocado na civilização com o Plano Real, as privatizações e a criação de agência reguladoras com autonomia e técnicos.
    Transformaram o modelo, a partir de 2003, num cabide de troca e agrada aliados.
    E ninguém importa-se se os aviões levam gente? Se os aeroportos devem ser seguros e confortáveis? Se os alimentos devem ser vistoriados em toda a sua cadeia? Se os telefones têm de funcionar?
    Regressão total.

  4. Falando em saúde…

    A ‘intelligentsia’ brasileira corre sério risco de perder uma de suas melhores cabeças.
    Trata-se de Joelmir Betting. Agoniza em coma irreversível, respirando por aparelhos.
    Fez a diferença no jornalismo opinativo. Fará imensa falta.

  5. Dawran, o problema do Brasil é a mão de obra desqualificada. Arrumar ou não emprego depende, desde os tempos da Colônia, não de capacidade, mas dos contatos certos.

    Schu, como fiquei triste! Conheço o Joelmir desde que me entendo por gente, ainda na primeira passagem pela Band: era ele, o José Paulo de Andrade e o Ferreira Martins – este o maior locutor comercial do Brasil até hoje. Começo a sofrer a mesma síndrome do meu avô quando começou a ver sua geração indo embora.

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