Ainda a saúde: constatações

Eu com a boca aberta, só na base do ahã-ahã, e minha dentista: “Você viu o caso do noivo que morreu?

Àquela altura havia me convencido de que o caso tinha sido um fatalismo mesmo.  Você lê desgraças no jornal, e tal, e fica à procura de falhas no roteiro. Todos nós fazemos isso, mas aquilo me convenceu da obra do destino – muito embora meu pai tenha elaborado bastante sobre a idiotice de alguém enfiar uma flute no bolso.

Depois – e as primeiras notícias não tinham entrado nos detalhes – é que ficamos sabendo que os parentes o enfiaram num carro e o levaram para uma UPA 24 horas em Cocotá, na Ilha do Governador, e que lá – uma madrugada de domingo – só havia uma enfermeira, incapaz de prestar um primeiro atendimento, por mais inicial que fosse. O rapaz chegou morto ao hospital municipal Paulino Werneck, também na Ilha do Governador.

Bem, só estando lá pra saber, mas o fato é que cidadãos brasileiros – ao contrário dos americanos, p. ex. – não têm cultura de primeiros socorros. Se você achar de ter um treco ou sofrer um acidente entre humanos comuns, pode ter certeza que levará seu intento até o fim, porque a gente gosta mesmo é de cercar a vítima aos berros e improvisar um travesseirinho, e só.

Fico pensando se no Rio não tem serviço de Resgate ou de Samu, que certamente chegaria rápido e “estabilizaria” a vítima até a remoção. Fico pensando também sobre a salada geral, porque os fogos de artifício do governo federal jurava que as UPAs também teriam atendimento de pronto-socorro, então é uma piada de mau gosto precisar de atendimento de urgência no meio da noite e topar com apenas uma enfermeira lixando as unhas.

O rapaz morreu por falta de atendimento, e ponto.

Então é isso: se casar, faça-o em SP. Se acontecer alguma fatalidade como essa, pelo menos a imprensa ficará na litotripsia até o secretário de saúde cair.

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7 opiniões sobre “Ainda a saúde: constatações”

  1. Eu tinha a mania de subir em escadas com uma chave-de-fenda no bolso a fim de consertar alguma coisa. Mas já faz algum tempo que larguei dessa imprudência.
    Agora, depois que o cara cortou a veia femural com uma taça no bolso…Bateu um cagaço geral! Pelamordedeus, mizifia!

    Já no que diz respeito à saúde brasileira…
    Well, se você não estiver montado numa bufunfa legal e não for um figurão que lhe abra as portas do Albert Einstein imediatamente, prepare-se então para entrar no túnel e ir de encontro à luz. Hehe!

  2. Mas ouvi um médico falar desse assunto. Ele disse que naquela região do corpo as veias e artérias são calibrosas, a perda de sangue é enorme e a salvação é improvável… mas não que alivie a incompetência do SUS/RJ.

  3. Se nós todos, mesmo leigos, tivéssemos um mínimo de tirocínio, pegava a echarpe de alguém e amarrava. É arriscado, mas eu faria mesmo assim. Mas no Rio não tem Samu nem Resgate (pelo menos que atenda senão as pessoas chamariam).

  4. Alguém, leigo, pode ajudar, sim. E com resultados razoáveis.
    O fato é que o serviço público de socorro tem de chegar rápido.
    Além de chegar tarde, não encontra onde levar a pessoa acidentada.
    E se encontra, não tem médicos.
    Enfim, está tudo invertido.

  5. Um horror! Lembro que recentemente meu irmão resolveu levar minha tia no médico por causa do olho, que estava meio inchado. Que luta pra encontrar um lugar! Nos despencamos do Méier para Botafogo, uma clínica suja e atendida por um estudante. O que ele recomendou, sinceramente, nós também teríamos feito.

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