Pesquisas eleitorais – tenho uma teoria

Ontem, aguardávamos os números do Datafolha, que acabaram saindo à tarde: Russeaumânnico despencou para 30%, Haddad foi de 15% para 18% e Serra foi de 21% para 22%. Números bem diferentes do Ibopte e do Vox PTopuli, que chegaram a animar petistas acenando com empates, ultrapassagens fantásticas, e tal.

Bem, mas não é disso que quero falar. Tampouco do fato de um instituto ir catar pesquisa na região A, B ou C de acordo com a “penetração do candidato” que lhe paga.

O que me intriga é certa distorção em São Paulo, por mais que a pesquisa possa ser honesta. Eduardo Odloak e Reinaldo Azevedo fizeram  levantamentos dos erros do Ibope nas últimas eleições, mas ainda não é disso que falo.

Questão que sempre me vem à mente a cada eleição e que nunca tinha ido atrás, e que considero importante numa cidade como São Paulo, é como são feitas as pesquisas. Ontem finalmente fui fuçar no Datafolha (porque, sinceramente, não me interessam as salsichas do Vox Populi). E encontrei uma explicação “chave” para minhas especulações:

8. Qual a diferença entre fazer entrevistas por telefone, pessoalmente nos domicílios ou pessoalmente em locais públicos?

É inviável realizar pesquisas eleitorais telefônicas no Brasil que sejam representativas do total do eleitorado já que apenas 40% dos brasileiros possuem linha telefônica fixa em casa. Por isso os institutos abordam os eleitores pessoalmente. O instituto opta por fazer essa abordagem nas ruas pois não há como ter completo acesso à residências localizadas em condomínios, edifícios ou favelas respeitando todos os procedimentos necessários. O método do Datafolha pratica a checagem simultânea dos questionários no momento das entrevistas e, posteriormente, por telefone. Além disso há uma checagem comparativa dos dados de cada pesquisador e de cada ponto pesquisado entre outros processos de segurança e consistência dos dados. Uma das vantagens desse método é a agilidade da coleta aliada ao rigor metodológico, atributo importante para acompanhar a dinâmica dos processos eleitorais, característica marcante do Datafolha. (aqui)

Então, confirmam-se as suspeitas: as pesquisas são feitas na rua. Se no Viaduto do Chá ou nos Jardins, se na Berrini ou na avenida Jacu-Pêssego, quase não interessa. O que interessa é o elemento “rua”.

Ora, no quesito pedestres X motoristas, São Paulo tem definições bem marcantes. Há “desvios-padrão” como eu, que tenho carro mas gosto de fazer as coisas a pé, caminhar e tals, mesmo que seja mais adequado, em certos momentos, usar o carro. Mas basicamente há os que usam carro e os que não usam carro. Os que não usam carro provavelmente é porque não o têm, ou preferem não usá-lo para ir ao trabalho rotineiramente; e os que usam carro o tempo inteiro o fazem de maneira bem hard: passam o dia dirigindo pra lá e pra cá, usam estacionamentos, enfim,  não andam na rua.

Precisaria saber o horário em que se dão as abordagens das pesquisas. Hora do almoço, por exemplo, seria uma chance de abranger pessoas que usam carro. Mas não sei se o Datafolha leva em conta esse aspecto. Também é difícil de mensurar a partir de um quesito desses, já que São Paulo não é canteiro de obra pra todo mundo almoçar à mesma hora.

Enfim. O que quero dizer é que pesquisas na rua, por menos piores que sejam, excluem uma boa parte da população que está inacessível em seus automóveis, em suas empresas, em suas academias, em seus shoppings, em suas reuniões, em seus cabeleireiros com valet, em seus restaurantes com estacionamento próprio, em seus “hooooumm officss” (EU!!!).

Se é verdade que há certa preferência por tipos de candidatos de acordo com a “distinção social” do eleitor (ver mapas eleitorais antigos), isso significa que pesquisas eleitorais, notadamente na cidade de São Paulo, são limitadas por um virtual portão imponente, com segurança Haganá e tudo.

É esse povo, protegido por seu modo de vida, o responsável pelas surprises pós-urnas.

Anúncios

11 comentários em “Pesquisas eleitorais – tenho uma teoria”

  1. Opa, bacana esse post! Eu também sempre tive dúvidas sobre a metodologia das pesquisas eleitorais. Sempre fico com um pé atrás em relação as pesquisas, pois nunca fui e nem conheço alguém que tenha sido entrevistado. Assim, fica mais fácil entender o motivo.

  2. Well. “Instituto de pesquisa” no Brasil é cevado com papel-moeda nacional ou estrangeiro. É um leilão. Quem paga mais, leva.

    IBOPE = Carlos Augusto Montenegro que, nas palavras de Ciro Gomes, “vende até a mãe pra ganhar dinheiro”! Nas horas vagas banca time de futebol!

    Vox Populi pertence a Marcos Coimbra, sociólogo (Hummm!) que não esconde simpatia pelo PT.

    Daí, conclui-se que a metodologia dos “institutos”, de científica não tem nada.
    Quem faz os índices subirem é um obscuro senhor chamado Vil Metal. A palavra final sempre é sua.

  3. Leticia, hilário mesmo é o vídeo do Haddad mandando o Aécio Neves estudar e ler ao menos um livro se quiser ser presidente. E eu acho que ele tem razão, pois sempre que uma nação escolhe um presidente semi-analfabeto e que jamais leu um livro a coisa vai pro vinagre, hehe.

  4. Carta Capital (28de setembro de 2012)
    (…) Relatório interno do PT mostra crescimento de PSB e PSDB: A perda de influência do PT nos Executivos municipais pode não se restringir às capitais. Um relatório interno do partido datado de 16 de setembro e com dados do início do mês mostrou as dificuldades da sigla. (…)

    (…) O PSB também deve ganhar relevância. Hoje o partido tem três prefeituras (Belo Horizonte, Boavista e Curitiba). Na melhor das hipóteses, pode sair das urnas com seis prefeituras.

    (…) Em BH, Marcio Lacerda venceria hoje no primeiro turno. Em Cuiabá, Curitiba e no Recife, candidatos do PSB estão na liderança. Em Fortaleza e Macapá, iriam ao segundo turno na segunda posição. (…)

    (…) Nas cidades mais importantes de cada Estado os petistas veem seu domínio ameaçado pelo rival PSDB e também pelo PSB, partido com o qual rompeu em municípios-chave como Recife e Belo Horizonte.(…)

    (…) O PT comanda hoje sete das 26 capitais, mais que qualquer outra sigla. PDT, PSB, PMDB e PTB têm prefeits em três capitais cada. Se confirmadas as pesquisas, essa supremacia tende a desaparecer a partir de 2013. (…)

    (…) As pesquisas mais recentes indicam que dez capitais podem escolher um novo prefeito já no primeiro turno. Estão entre elas Boa Vista e Palmas, que não têm segundo turno, além de Aracaju, Belo Horizonte, Goiânia, Maceió, Natal, Porto Alegre, Rio de Janeiro e Vitória. Entre essas o PT só deve garantir uma prefeitura, a de Goiânia, onde o atual mandatário, Paulo Garcia, pode evitar o segundo turno.(…)

    (…) Nas outras capitais, se as eleições fossem realizadas hoje, o PT iria ao segundo turno em cinco delas. Em João Pessoa e Rio Branco, os candidatos da legenda estão em primeiro lugar. Em Cuiabá, Salvador e no Recife, em segundo. Em nenhuma delas há levantamentos recentes sobre o segundo turno. (…)

    (…) Cabe lembrar que esta situação é a de momento e ainda pode se modificar até outubro. No Recife, por exemplo, o senador Humberto Costa (PT) pode ficar fora do segundo turno e dar lugar a Daniel Coelho, candidato do PSDB que tem subido nas pesquisas. Em São Paulo, quem sobe é o ex-ministro da Educação Fernando Haddad (PT), atualmente brigando para tirar o ex-governador José Serra (PSDB) do segundo turno. (…)

    (…) Hoje, o PT controla 25 prefeituras em 98 dos 119 municípios com mais de 150 mil eleitores que têm pesquisas disponíveis. Segundo o relatório interno petista, o partido lidera em 20 desses 98 municípios. A liderança não significa a vitória, pois em cidades com mais de 200 mil eleitores há segundo turno caso nenhum dos candidatos obtenha a maioria. (…)

    (…) Nesta mesma lista de 98 municípios, o PSDB, que controla 13 prefeituras, lidera em 21. O PSB lidera em 13 municípios, quase o dobro dos sete que comanda hoje.(…)

    Assim, na minha opinião, pela maquinaria que versa sobre as eleições, o candidato federal em São Paulo não irá a segundo turno. Simples e direto. Por mais malabarismo que tentem fazer.

  5. Esqueci de comentar que o cidadão passou Serra, dentreo da margem de erro e venceria Serra no segundo turno, fora da mergem de erro.

    Por isso, fica mais claro: o cidadão não ai para segundo turno nem que a vaca tussa!!!

  6. Né, Claudio? Por mais que se tente fazer algo fiel, você nunca chegará ao eleitorado que simplesmente se tranca dentro de um SUV. Quanto a mandar estudar, não é coisa nem pro Lula muito menos pro Haddad. O candidato se referiu a Kassab ontem como “esse fulano”. Vai dizer que isso é coisa de quem estudou? Humpf!

    Fábio, sempre morei no Rio e SP. Nunca, nunquinha! Até porque sempre teve um problema, que não sei se persiste: pesquisa de opinião não pega jornalista de formação. Não puódje…

    Dawran, notou que somos testemunhas históricas da queda do PT? Cadáver está em estado de putrefação, e todo dia milhares de moscas vêm prestar sua homenagem em artigos pra lá de melancólicos, com as mais variadas teses e argumentos e desculpas. Leremos coisas similares até o fim de nossos dias.

  7. Verdade Letícia.
    E veja a fonte insuspeita. Agora, na reta final, vão jogar com tudo, como se isentos fossem.
    Jogo manjado, correto?
    Mas, voltando à pesquisa: o cidadão feral não irá a segundo turno nem que a vaca tussa.
    Isso, caso haja segundo turno.
    A não ser que cisne cante.

  8. Já fiz muita pesquisa eleitoral (trabalhei como entrevistadora para um instituto de pesquisa). Todas as entrevistas eram feitas na rua e havia uma quantidade de questionários determinados para cada bairro de acordo com o número da população dessas áreas (baseado nos dados do IBGE). Quando as respostas não eram espontâneas, mostrávamos um quadro com os nomes dos candidatos. Não podia ser uma lista, pois a tendência é apontarem para os primeiros da listagem, por isso usávamos um disco, tipo um gráfico de pizza, com um nome em cada fatia, que era entregue ao entrevistado.

  9. Dawran, foi só eu me ausentar, e, ó! Não tive tempo ainda de me inteirar mais a fundo, porque estava com Periquito, e quando estou com ele o mundo para. Mas domingo promete!

    Scheguei, Schu! Nem acredito que tive um tempinho no trabalho.

    É, Isabel, parece que pesquisas confiáveis são assim. Mas sabe lá como é a veneta do povo, não? Se contar com trackings dos partidos, tudo está muito disparatado.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s