Mais um tantinho de Marilena Chaui

Eis aí o vídeo reproduzindo a fala da filósofa Marilena Chauí em um seminário na USP sobre “a ascenção do conservadorismo” em São Paulo, concluindo pá-buf que a sociedade paulistana é protofascista e pronto.

Eu não sei por onde anda cotidianamente Marilena Chaui, e até entendo que ela, malgrado suas intenções sempre ideológicas e a serviço vocês-sabem-de-quem, tenha usado como mote uma fatia bem real da tal “classe média paulistana”.

Generalizações à parte, em certo ponto ela tem razão: o “gigante prateado” é seu gancho – concordo! -, e a isso podemos acrescentar certos pontos que talvez lhe tenham passado batido. Pena, porque as tarefas urgentes da professora Chaui acabam solapando uma análise um pouquinho menos “rasa”. Explico:

São Paulo é uma cidade única no Brasil. Única, sim. Não diretamente por questões de riqueza/empregos, ou que tenha destaque gastronômico, ou atraia pela night, ou agora pelas atrações culturais retumbantes e qq. armação que aparecerá semana que vem.

São Paulo é única porque, ao longo de todo o século XX, galgou a posição de importante no imaginário nacional, e aí, meu camarada, pode acrescentar toda a variedade de conceitos de cada cabecinha de cada brasileiro que pensa em SP, o que pensa de São Paulo, enfim, que pensa em vir para São Paulo.

Assim, numa análise muito grosseira, e de antemão tentando ser justa, podemos livrar a cara de alguns tipos de imigrantes/migrantes: os fugidos de situações horrendas em seus locais de origem, quais sejam: 1) guerras e fome na Europa; 2) seca no Nordeste; 3) cidades que naturalmente não oferecem oportunidades de emprego ou de melhorar de vida. Esses vêm porque vêm, porque a vida obriga.

Mas – e aí está onde quero chegar – há os outros tipos de migrantes: os que vêm num desejo irresistível de status. Posso começar por indivíduos que tem certa proeminência em seu local de origem (mas isso não lhes basta). O raciocínio da pessoa é mais ou menos “se sou fodástico aqui em ___, imagina em São Paulo?”

O assunto não é novo, nem no Flanela, muito menos na cidade. (Se link gastasse, eu teria receio de remeter sempre ao mesmo texto de Mário de Andrade, mas ainda bem que isso não acontece, então vamos lá.)

E como não há nada de novo debaixo do sol, a pessoa vem achando que realmente será uma novidade para nós e, uma vez instalada, esperando que a cidade se ajoelhe a seus talentosos pés, desce das tamancas na primeira contrariedade: “aquele” emprego não aconteceu, o metrô é cheio, aqueles contatos não prosperaram e eu ainda não pisei em nenhum estabelecimento mais elaborado para tomar “uns bons drinks” (que expressão desprezível!) em companhias charmosas e enricadas. Enfim, aquele cenário todo das revistas que folheei estão longe da cidade que me coube.

Daí a se frustrar e achar que “paulistano é megalômano”, “paulistano é grosso”, “paulistano é esnobe”, “paulistano é protofascista” é um pulinho de nada.

Agora é que vem o busílis, que pode ter passado batido (intencionalmente ou não) pela professora Chaui: por simples questão de amostragem da humanidade, são milhares e milhares de pessoas com esse perfil esquizoide que vêm para cá; e, porque a cidade faz bem e não vê a quem, acabam vencendo mesmo, “apesar de todo mundo que não me apoiou, mas hei de me vingar”.

Multiplique isso  por gerações, sobre modos de vida de pai pra filho, sobre conceitos e maneiras, e eis aí parte de São Paulo: um punhado de gente besta.

Seria maldoso calcular isso pelo número de “gigantes prateados” que circulam na cidade, mas uma estatística borradinha não ficaria muito longe, não. Mas nem só de gigantes prateados vive a soberba rancorosa. As arrogâncias se espalham por outras searas, outros valores, dos mais “simples” aos mais luxentos.

Há o pobre que reclama do arroz. Há o estudante que lutou em sua cidade natal para entrar na USP (Marilena inclusa) e agora quer marretar o câmpus e tudo o mais até conseguir modificar aquilo a que almejou. Há o rapazola do interior que quer a rua toda para si e seu carrão (e reclama das multas). Há quem venha atraído pelas baladas e reclama dos preços. Há ainda – me caso clássico – quem tenha vindo do chão de terra batida e ache ruim o piso de borracha das estações do Metrô.

Daí vai a cidade tentar agradar todo mundo, né? E quanto mais tenta agradar, mais o tipo ressentido potencializa a lupa pra achar defeitos (como se outras cidades não os tivessem). E a sanha criticista é tanta, mas tanta com SP (ninguém fala mal de Vitória do Espírito Santo, por exemplo), que quanto melhor a cidade, pior será a ideia a se formar sobre ela. São pessoas falando de algo como se não fizessem parte dele.

Ainda mais em tempo de eleição. A cidade se transforma num mamulengo, pra lá e pra cá, todo mundo diz a mentira que bem entende.

Não acho justo, não. Até porque, esteja nas mãos de quem estiver, o espírito da cidade permanecerá o mesmo: gente simples, gente besta, gente pobre, gente rica, gente média.

Convivam os reclamantes com isso. Larguem o rancor e assumam-se paulistanos.

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16 opiniões sobre “Mais um tantinho de Marilena Chaui”

  1. Ou, ao menos, Leticia, que digam o que querem com toda essa falação. Dá para supor que seria para galvanizar votos em alguém ou partido. Mas, até para isso dão uma dobrada no Cabo da Boa Esperança…Esse tipo de discurso pega no pé até do partido, se tiver algum, que a tenha ou a essas pessoas “médias” como admiradores. Por exemplo, antes, falava-se muito em classe operária. Agora, o foco é a classe média, não raro, pendurada em algum organismo estatal. Assim, essa “classe média” que a senhora conferencista colocou como desesperada, grita etc. está na executiva do partido e na linha de frente dos tais movimentos sociais, também capturados pelos partidos políticos. Ou seja, dessa salada mista existe uma coisa só: essa senhora só fala o que esse pessoal quer ouvir. No caso do mensalão, certa vez ela teria dito ser “adjetivo e não substantivo”. Ou seja, “eu não fiz, mas me qualificam”, logicamente, por “preconceito”. Essa classe média é, realmente, um mistério.

  2. No início pensei que havia alguém imitando Maria da Conceição Tavares num stand up cômico!
    Em seu discurso, Chaui exterioriza um profundo ressentimento contra a classe média.
    Endereça sua fúria àquela que pensa por si mesma e está fora da manada anencéfala.
    Em seu desesperado inconformismo, constata que o sonho do pobre não é ser um proletário eternamente dependente do Estado. Os menos favorecidos gritam aos quatro ventos que, ser consumista, não é crime.
    Em seu retrógrado arrazoado marxista, Chaui se perde em frases feitas mofadas e extemporâneas. O sonho de um mundo socialista gorou na casca. Ruiu, apodreceu.
    Em tempo: a historieta em que narra um bate-boca com um casal de “ricaços” possivelmente é mentira.

  3. Dawran, Marilena Chaui é o exemplo acabado de classe média agressiva. Ela e certa banda de intelectuais e jornalistas: trazem a verdade na barriga. Sempre.

    Não, não duvido, não, Schui. tem gente assim. Em tudo que é lugar, mas São Paulo concentra. O que não quer dizer que aqui só haja gente assim. Pelo contrário.

  4. Acontece que esta senhora parou no tempo, ela continua com o discurso de “classe dominante e classe dominada”, sem perceber que o mundo mudou e ela não foi avisada enquanto desatava a escrever asneiras ao gosto esquerdopata.

    Se ela prestasse bem atenção, a classe média de hoje em dia é formada em maior número por gente encostada no Estado paternalista e generoso, que paga 8 mil reais de salário para escriturário em início de carreira e que distribui remuneração parecida para ungidos do poder político esquerdopata de plantão, os ditos cargos em confiança. As pessoas que são classe média (a de verdade, não a classe C com seus 1500 reais por mês de renda) por trabalharem na iniciativa privada e que tentam fugir da perseguição do Estado, são minoria, a classe média hoje apóia o PT e Lula porque em sua maioria é formada por gente que, sem um Estado gigantesco e dadivoso, simplesmente volta para a classe C ou coisa pior.

    Esta senhora pensa que colando um “facista” numa parta alienada, consumista e exclusivista da sociedade vai ganhar votos dos que querem virar alienados, consumistas e exclusivistas também, a patuléia, o povão, os classe C… só esquece que eles não sabem o que é facismo, porque só conhecem o Estado dadivoso, no qual as pessoas tem muitos direitos e nada de obrigações.

  5. No final da lengalenga, entre o bando de acólitos, aparece um carequinha que é a cara do Vladimir Safatle. Se for, nada a estranhar, pois bajular e enaltecer ‘la sinistra’ é do jogo. Ô corja!!!

  6. Jesus depois de todo este festival de rancor à la anos 70 , a dita filosofa me pareceu cheia de piolhos tanto no cérebro quanto na juba e o triste mesmo é que a encantada do lula
    trafica a droga do seu ” pensamento e ensinamento ” aos uspianos jovens e é paga com a nossa grana.

  7. Lets

    Faz tempo que a filósofa cedeu lugar à militante. Marilena ativou nessa passagem uma antiga técnica retórica dos sofistas. Ela constrói a realidade de modo a ajustá-la aos seus fins de propagandista de uma ideologia. Podemos dizer que ela foi “caprichosamente superficial”.

    O capricho superficial ativado por Chauí “ocorre por redução do problema a uma antítese, e em sua apresentação numa narrativa em redemoinho, alegre [para a plateia] e rápida, em que se contrapõe de modo breve e acentuadamente o branco e o preto, a teoria e a prática etc.”

    “Este modo de, desde o início, abordar o problema, de sorte que a solução desejada já está implícita na abordagem, somado à técnica do holofote, que ilumina potentemente o ridículo absurdo ou o chocante do contrário, são dois métodos que foram usados muito antes” de Marilena Chauí.

    Não é somente a índole peculiar dessa abstração (dita: “classe média”), ao mesmo tempo feroz e cômica, que ela apresenta. “É também um exemplo de uma bem conhecida técnica de propaganda, que com frequência é empregada mais maliciosa e malignamente [Auerbach refere-se à propaganda nazista(1)] que neste caso. Poderíamos denomina-la técnica do holofote.”

    “Esta, consiste em iluminar potentemente uma pequena parte de um conjunto muito amplo [a “classe média”], deixando todo o restante no escuro, [restante] que poderia explicar e ordenar aquela parte, e que talvez também servisse como um contrapeso para o que é enfatizado. Assim, parece que se diz toda a verdade, já que não se pode negar o que se diz [o comportamento feroz e cômico do “serumano” é um fato]. Porém, tudo está falsificado, pois a verdade exige toda a verdade, e com a exata coordenação de suas partes.”

    (1) El público cae una y otra vez en semejantes trampas, sobre todo en tiempos agitados: todos conocemos ejemplos de sobra en el pasado inmediato. En tiempos ordinarios, el truco es fácil de descubrir, pero en épocas de tensión falta en el pueblo o en el público una voluntad seria para ello. Cuando a una forma de vida o a un grupo humano les ha sonado su hora o han perdido el favor y la tolerancia de que disfrutaban, cualquier injusticia que la propaganda comete con ellos se siente vagamente como tal y, sin embargo, es saludada con regocijo sádico. [para os ressentidos, para os que amam odiar]

    PS: o comentário é uma colagem da análise que Auerbach fez do Cândido (“A cena interrompida”, p. 372) no magistral Mimesis. Minha edição é da Fondo de Cultura. Fiquei com preguiça de traduzir a nota.

  8. E dessa barriga citada, Leticia, só pode ter caviar e champagne “dus bãos”.
    Ah, pode não beber e achar caviar algo “burguês”…Pois bem, “sanduba” de mortadela, “das boa” e pão “dus bão” com pingado “dus mió”… Nada mais “operário”…

  9. Pior que todo comunistóide vive de si mesmo, perdido numa bolha interdimensional.
    O mundo real pouco se lhes dá. Ademais, quem ultrapassa os setenta não muda. Né, Niemeyer?

  10. Num trabalho de escola, sob a orientação de uma professora, um grupo de alunos veio fazer uma entrevista comigo sobre o “preconceito dos paulistas”, no bojo daquele episódio em que uma mentencapta defendia pelo twiter a morte dos nordestinos.

    Eu, para desassossego da professora e espanto dos alunos, disse que atribuir a toda uma sociedade o rótulo preconceituoso por causa desse evento era temerário. Lembrei que São Paulo elegeu uma mulher nordestina como profeita, em 1988. O maior líder político do país havia feito carreira em São Paulo e era de Pernambuco. Chamei atenção para o fato de o deputado mais votado do Brasil, eleito por São Paulo, era do nordeste. Como qualificar uma sociedade assim como reacionária, conservadora, protofascista?

    O que me espantou, Letícia, foi ver os membros da classe que a professora abomina e que se pudesse extirparia, aplaudindo suas sandices.

  11. De tudo isso, é uma injustiça com São Paulo, a cidade-refúgio para um Brasil que, no geral, não anda de jeito nenhum. Não me ufano dessa migração, apenas lamento que pessoas precisem se deslocar pra ter uma esperança de melhora na vida, e que esse fato seja tão mal-interpretado, tão manipulado. Não se ataca a origem tão óbvia do flagelo, o coronelismo chupim, cruel e de terra seca. A culpa é sempre de São Paulo, e é claro: é aqui que as coisas reverberam, não no sertão e nas cidades não produtivas.

  12. Olha,curto e grosso! Denigre São Paulo por ideologia e, gospe no prato que come.Se o PT um dia(bato na madeira) voltar a governar Sampa,no dia seguinte, o discurso muda.E,pra mim,ela não passa de uma predadora de São Paulo e, do pior tipo que existe,ela aos poucos,faz a cabeça das pessoas,alimenta ressentimento,antipatia..etc. contra Sampa.Sampa sempre acolheu gente de todo Brasil e do mundo,esse regionalismo provinciano,propagado nos palanques, de que São Paulo é eletista,preconceituoso,racista,facista,direitista e sei lá mais o quê e,tudo isso tem um nome pra ela-chama-se PSDB .Puro inconformismo com a vontade alheia.E,tenho dito!

  13. É triste saber que esta Sra. divide a mesma licença que professores de filosofia de qualidade possuem. De tão contaminado pelo esquema classista, a Sra. Chauí demonstra um pensamento fragmentado, inconsistente quando contrastado aos fatos. Esquece, por exemplo, que quando aponta às “classes dominantes” está apontando a todos seus parceiros ideológicos, nefastamente influentes à décadas, titulares dos maiores postos da República há 10 anos…

  14. Hidalgo, eu realmente tenho sérias dúvidas se esse pessoal pensa. Uma camarada como Chauí, com seus hábitos burgueses, vestimentas, tipos de serviços que usa, onde mora, como se locomove… será que ela PENSA mesmo não pertencer à elite só porque edita livros de comidinhas?

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