Impressionismo para ver marromeno

Já comentei com vocês que, por muito menos que as propagadas filas, não estava com a mínima vontade de enfrentar o povão não só na Mostra impressionista (CCBB), mas também Caravaggio (Masp), fila pra restaurante, fila pra lanchonete, fila disso, fila daquilo, e, claro, a Livraria Cultura de minhas saídas corriqueiras, ultimamente entupida de senhouras e suas écharpes culturettes dando pinta (desculpe, não tenho gíria mais nova para isso).

Tudo agora em SP excesso de procura, e cá com meus botões eu creditava isso ao boom da (essa é especial pro Refer) resplandecência financeira do país, a animação do consumo, viagem e hospedagem por qq dá-cá-aquela-palha, etc. Mesmo assim, ainda havia lacunas nisso aí porque, vamos e venhamos, 4 horas de fila!!, tem alguma coisa a mais aí.

Acho que me satisfiz com um texto que saiu na Folha ontem, do professor Samy Dana e do pesquisador Octavio Augusto de Barros, ambos da Fundação Getúlio Vargas. Eis, na íntegra:

Eventos culturais têm ganhado destaque no cotidiano do paulistano, e esse fenômeno é evidenciado pelo crescimento acentuado do setor.

Ingressos esgotados para shows e espetáculos, filas enormes em exposições e cursos recém-criados de filosofia, arte e afins estão cada vez mais presentes na cidade.

Além da preocupação com o alcance de uma formação mais ampla, esse aumento pode ser justificado pelo favorecimento da imagem que a cultura representa.

A aprovação social passa a depender da demonstração clara de conhecimento, criando um receio comum de exclusão por falta de erudição, e abrindo espaço para que novos produtos, ainda que de critérios duvidosos, sejam oferecidos em larga escala.

A cultura vem se transformando, guardadas as devidas proporções, em um objeto de aumento da visibilidade frente à sociedade.

Nos principais polos culturais, como a região da avenida Paulista e o Baixo Augusta, é comum ver tribos que prezam pelo destaque a partir de visuais diferenciados, mas que na realidade carregam traços e atitudes muito semelhantes.

A preocupação é tão grande com a imagem “cult” a ser sinalizada que, muitas vezes, a ideologia é deixada em segundo plano.

Uma das possíveis causas de tal inversão é a dificuldade de avaliar a qualidade envolvida no produto cultural: altos preços ainda são confundidos com excelência.

Como exemplo, pode-se citar a proliferação de famosos cursos dispendiosos e acessíveis apenas a classes mais altas que são oferecidos –e muito bem atendidos– com a sedutora proposta de ampliação da formação cultural, e que, na realidade, não possuem o aprofundamento que o objeto lecionado requer.

Analogamente, superproduções cinematográficas, shows e grandes espetáculos, por vezes considerados essenciais aos entusiastas e estudiosos, justificam-se mais pela pirotecnia do que pelo conteúdo transmitido.

A autoafirmação social tem levado à intensificação da busca por produtos culturais. Se por um lado isso fomenta o setor e favorece o acesso a mais eventos, por outro, sugere a revisão do conceito de valorização cultural como uma necessidade iminente.

Aflitivo, não? Acho um tanto cafonão fazer programa de índio em nome de um discurso de “obrigação de ter cultura”, porque mesmo diante de um Michelângelo, no fundo no fundo cada um fica no seu mundico, não é mesmo?

Eu acho que, pelo fracasso das enciclopédias nos anos 50 a 80, a internet seria de grande ajuda para quem quer legitimamente se inteirar das “coisas da cultura”. Seria, se a pessoa, que tem tudo isso na mão, não saísse da frente do “Feice”.

Até me questiono sobre a utilidade dessas esposições para uma cabeça média. Qual diferença faz ver Monet ao vivo ou em imagens aqui? Pra maioria, nenhuma.

Pra mim não, sinceramente. A não ser que seja por um valor absolutamente sentimental (como Eliseu Visconti da minha adolescência no Rio, ou Tarsila, ou os vestidos de papel), ou se eu for dedicada a certa arte, pra ver as filigranas da coisa, e tals. Enfim, há muitas mostras muito legais de ver ao vivo.

 Mas não exatamente esses blockbusters. Eles foram feitos para o Criança Esperança da vida e eu – desculpe a aparente arrogância – não quero me envolver com isso.

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13 comentários em “Impressionismo para ver marromeno”

  1. Desculpe, faltou uma introdução, a Pró-Vida vende este modelo de aprimoramento pessoal a muito tempo para seus associados, muita gente de classe média ou média alta se acha culto por participar de reuniões onde se mistura pseudo-ciência com religião e auto-ajuda.
    Os donos e administradores perceberam o filão a um bom tempo.
    Para quem não conhece tem uma reportagem antiga da Mari Claire sobre o assunto:
    http://verdade.tripod.com/provida.htm
    (Desculpem pelos popups, este material pode ser encontrado em outros sites)
    Rende um bom dinheiro, vejam as sedes que eles tem em locais nobres. Não estou falando isto baseado apenas na reportagem, conheço “iluminados” e pessoas que trabalham neste negócio.
    Cada um gasta seu dinheiro como quiser, postei apenas para salientar que os pesquisadores provavelmente estão um pouco atrasados na sua descoberta.

  2. Lets

    Não concordo muito com o artigo. É difícil explicar, e generalizar, o que move essa multidão para esses eventos. E acho que se pratica nesse artigo uma sociologia de botequim.

    “proliferação de famosos cursos dispendiosos e acessíveis apenas a classes mais altas que são oferecidos –e muito bem atendidos– com a sedutora proposta de ampliação da formação cultural, e que, na realidade, não possuem o aprofundamento que o objeto lecionado requer.”

    Proliferação? Onde? Porcaria sendo embalada em papel sofistiqueide é mais antigo do que eu. hehe.

    O que o artigo acusa nos outros (“A autoafirmação social tem levado à intensificação da busca por produtos culturais […] que, na realidade, não possuem o aprofundamento que o objeto lecionado requer.”), eu vi outro dia no blog dele.

    Samy Dana escreveu um post “Bolsa perde feio da renda fixa: uma inconveniente verdade para muitos” (17/07/2012). O sub-título: “Ou O coração tem suas razões, que a própria razão desconhece.”

    A frase no sub-título está em uma passagem do Pensées de Blaise Pascal.

    E o que fez este senhor nesse post é exatamente o que acusa nos outros. Ou seja, quis dar um verniz de “profundidade filosófica” para um artigo sobre o “sobe e desce da bolsa de valores”.

    Veja os dois últimos parágrafos do referido post de Samy Dana:

    “O matemático Blaise Pascal fez grandes contribuições para teoria da probabilidade e geometria, no entanto, sua frase mais conhecida: “O coração tem suas razões, que a própria razão desconhece” que faz parte de seu tratado de sobre [sic] espiritualidade intitulada [sic] Pensées (Pensamentos) por ser [sic] empregada nesse caso.

    Acredito que Pascal colaborou, mesmo sem saber, para explicar as inúmeras indicações em bolsa feitas por grande parte dos financistas no Brasil.”

    Escrever sem pestanejar que Pascal escreveu um “tratado sobre espiritualidade intitulada [sic] Pensées” é vergonhoso. Se o que o autor conhece de Pascal é o mesmo que conhece do ramo, suas análises financeiras são temerárias.

    Fui direto na Wikipedia. Batata! O articulista chupou descaradamente essa coisa (Pensées=tratado de espiritualidade) de verbete em português (ver: Blaise Pascal). Pascal morreu em 1662. Pensées são fragmentos [e não um tratado] que foram reunidos e publicados após a morte pelos amigos de Port-Royal.

    O jansenista Pascal não abominava a razão. Ele perguntava a respeito dos limites dela perante a complexidade do mundo, e recorria a Deus como a escapatória possível da miserável condição humana. O que isso teria a ver com aplicações em bolsa de valores?

    O clichê ativado por Samy (“sua [de Pascal] frase mais conhecida”): “O coração tem suas razões, que a própria razão desconhece”. O clichê seria aceitável se fosse remetido à licença poética de Marino do Espírito Santo Pinto e Zé da Zilda, autores do samba “Aos pés da cruz” (1942): Aos pés da Santa Cruz: “O coração tem razões que a própria razão desconhece/Faz promessas e juras, depois esquece”. Nesse contexto faz algum sentido com o que supostamente seria o “sobe e desce da bolsa”.

    O “lustrado” comentarista tomou a letra do samba por Pascal. Ingnorança!

    A famosa passagem:

    Le coeur a ses raisons, que la raison ne connaît point. On le sent en mille choses. C’est le coeur qui sent Dieu, et non la raison. Voilà ce que c’est que la foi parfaite, Dieu sensible au coeur. (XXVIII. Pensées Chrétiennes. Pensées. Edition de Port-Royal, 1671)

    Na minha tradução:

    O coração tem razões, que a própria razão desconhece porque ela é impotente para avaliá-las. Sentimos isso em mil coisas. É o coração que sente Deus e não a razão. Eis o que é a fé perfeita, Deus sensível ao coração.

    A frase final do artigo (“Acredito que Pascal colaborou, mesmo sem saber, para explicar as inúmeras indicações em bolsa feitas por grande parte dos financistas no Brasil.”) é ridícula. Similar a dizer que Einstein colaborou, mesmo sem saber…; que Darwin colaborou, mesmo sem saber…

    O cara deglutiu um besteirol wikipediano e depois vem arrotar peru nesse artigo? Para cima de moá, nom.

  3. Agradeço a dedicação do ‘boom da’. Acho que entendi o toque sobre a parcela da população que se sente obrigada a ter “vida cultural”. Na década passada conheci um casal típico “classe média em ascensão”, que se mostrou empolgado com o show do B.B. King que estava para assistir alguns dias depois — pagando algo em torno de 400 – 500 reais o ingresso. Percebi na hora que os 2 não tinham sequer a mais remota ideia de quem era B.B. King.

  4. Eis a razão pela qual eu não passo mais perto de Bienal do Livro, Bienal de Artes – creio que eles não me queiram por lá!! – Mostra de Cinema e afins. É a macdonaldização da cultura.

  5. Putz, Carlos, agora entendi! Desconhecia entidade tão elevada… Engraçado é quem cai, não? A pessoa não dá pelota pra o que o filho aprende ou deixa de aprender na escola e acha que limpará a própria barra cultural frequentando um troço desses. E depois ainda vem tentar te doutrinar, com ares de “estou te passando só umas dicas, você tem de frequentar porque é ignorante”.

    Paulo, mas que furreca! Quer dizer, a coisa é bem pior do que pensamos… E concordo com você, tem certos ditos tão surrados que só cabem mesmo em letra de samba. E agora, por SUA culpa, vou ficar com “Aos pés da santa cruz” na cabeça, tá?

    Né, Dereck? Eu ibidem.

    Xi, Refer… Isso tá me lembrando as sessões de Werner Herzog na Aliança Francesa do Méier (sim, eu era uma pateta e ia. Mas pelo menos não tinha fila…).

    Maria Edi, eu até iria se estivesses às moscas, confesso. Mas o problema são as filas, a gritaria.

  6. Tem show sertanejo aqui em Curitiba a 200 pilas!

    200 reais para ouvir dois idiotas se esforçando para parecer cantar letras que defendem beber até ficar de 4, “pegar” umas periguetes, “por chifre” na cabeça do cônjuge e agir feito retardado em 100% do tempo… e o povão confunde esse show caríssimo com cultura.

    Tem gente que acha que melhorando a situação financeira, vai passar a comprar cultura, a verdade é esta.

    Cultura só se adquire no conjunto. O indivíduo tem que ler, estudar, gostar efetivamente de olhar quadros e entender o que representam, entender peças de teatro, filmes e programas inteligentes de Tv… não basta pagar, entrar e sair dizendo que assistiu uma exposição de Monet, senão chega-se à seguinte conclusão: sabe deus quem é que é esse cara, mas “os quadro”, são bonito!

    Enfim, não vai demorar terá promotor parcelando o ingresso em trocentas vezes para que o sonho de consumo das pessoas seja acessível na mesma toada em que TV de plasma ficaram acessíveis nas Casas Bahia…

  7. Lets

    Se ajudar, tem uma versão do Baden Pawell no youtube que é muito linda. Vai lá ouvir porque ela que apaga as outras.

    Filas, nem pensar. Fui ver Honkytonk Man (Clint Eastwood) no CCBB num domingo de exposição do Escher. Não havia fila para o filme. A do Escher era de perder de vista. O problema, eu acho, é que o espaço do CCBB não comporta esse tipo de exposição.

    Outro dia li, não lembro onde, que o Louvre recebe a visita de 80.000 turistas por dia!

  8. Ou então se dedicar a um ou dois assuntos e esquecer os outros, Fábio, por que não? Ninguém é obrigado.

    Paulo, levei José para ver Escher. Já havia passado um tempinho, de modis que havia gente, mas não tanto. E, pena, porque as “holografias”, realmente, não dava pra ver direito. Estavam nos corredores, com uma possibilidade de visão de 1 metro.

    Coitado do Louvre, vive isso há bem mais tempo que nós.

  9. Mas, Leticia, segundo a professora citada no outro post, não seria um iluminar dos “protofascistas paulistas”? Ou a referida senhora enevoou o raciocínio ao ver tantos bárbaros encherem museus, exposições e mostras?

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