Em São Paulo, primeiro leilão “vintage”

Ontem tive um experiência que é mais ou menos frequente no trabalho. Você vai lendo, revisando, e topa com uma citação. Autor que digita citação tem grande chance de fazê-lo errado, e é maior ainda a chance de você não ter como comparar com o original. Às vezes você encontra na internet, recorrendo até a digitalizações pirata – fazer o quê? E frequentemente recorre a uns malabarismos daqueles “trechos” muquiranas de livros do Google Books. Mas é reconfortante quando você encontra o original em imagem mesmo, e faz seu trabalho direitinho.

Agora, o ápice do prazer imensurável é quando você tem a oportunidade de comparar a citação com um original seu mesmo. É aquele hábito ultrapassado: você topa com a citação, lembra que tem o livro e vai, com suas perninhas e seus braços, pegar o bichinho na estante e achar a página. Às vezes é pá-buf, porque o autor usou a mesma edição que você tem. E às vezes é um desafio, porque a edição que ele usou é nova. Daí você recorre ao princípio de “douração da pílula editorial”: uma edição nova terá sempre mais páginas que um livro velhinho. O livro velhinho queria apenas passar seu recado. A edição nova tem de ter ilustrações, uma mancha mais arejada, etc. tudo para gastar mais papel e vender aquilo muito mais caro. Quando não em relação ao preço original, perdido no passado, muito mais caro do que aquele 1 real que você gastou para ter seu exemplarzinho amarelado numa banca de refugo de sebo.

Então é isso. Foi esse aí da foto. E até recomendo, pra quem conhece e pra quem não conhece a rua do Ouvidor, no Rio.  Fofocas de modistas, história e toda uma época de esplendor cultural, de moda, de ofícios sofisticados. Um Rio cujos resquícios eu ainda peguei mas que não existe mais. Agora é só funk, tráfico e um sotaque degenerado que dói na medula.

Mas tudo isso é pra falar do primeiro leilão vintage do país, a ocorrer em São Paulo em agosto. Iniciaiva da Childhood Brasil,  em que parte da renda irá para combater o abuso e a exploração sexual de crianças e adolescentes (veja matéria no Valor Econômico).

A matéria diz que o gosto pelo vintage está apenas começando no país. Bem, isso parece um paradoxo: um país que explora seus rebentos e se interessa por coisas vintage? Não sei se combina. Mas o país é vasto, e acho que as duas vertentes acabam se acomodando muito bem no território.

Pra mim é no popular: gente que não se interessa pelo que passou não vai dar proteção ao que virá. O negócio é que que você pode adquirir AGORA, com um eficiente processo de se desfazer do que tinha ontem. Isso tudo é mentalidade, e você só começa com o hábito doentio de guardar coisas da família depois que adquire algum conhecimento sobre a) a família; b) sobre as coisas da família.

É por isso que muitos não sabem o nome dos avós, é por isso que muitos topam se desfazer do nome dos filhos.

Well, muito antes de importarem essa palavra afrescalhada – vintage – mamãe aqui guarda as tranqueiras de família. Desde o belle-epoquíssimo binóculo de vovô até o sem-graça medidor de picotes de selos dado a mim pelo tio que já se foi.

Por isso, aqui em casa, o estilo da decoração é coloquial tardio: coloca aqui, coloca ali, nada combinando com nada, mas com o mental no conforto.

Até dentinho de José – acabamos de extrair o segundo – ficará guardado com a avó, porque a mãe é uma quase nômade e de descabela com tanta coisa na hora de suas frequentes mudanças.

Não tem problema, deixa que a gente guarda. Inxcrusível os livros que tem e os que ainda não tem.

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9 opiniões sobre “Em São Paulo, primeiro leilão “vintage””

  1. Mas, é assim mesmo Leticia.
    Parece que há um pressão enorme para as coisas mudarem antes mesmo das pessoas deixarem de sentir satisfação por elas. Isso em casa e também na rua. Uma coisa simples, por exemplo. Os orelhões cor de abóbora da Telesp, passaram cor de abacate, agora parece que há uns azuis. Com a Lei Cidade Limpa, as referência que eram placas de padarias, por exemplo, desapareceram. Parece brincadeira e saudosismo, mas, tem também o aspecto da identidade, da referência. Em casa, vide os estojos e as mochilas e os livros da garotada…mudam mais do trocar de roupa…hehehehe…

  2. Depois que meu pai ‘passou pela transição’, consegui salvar uns trinta livros da Coleção Saraiva! Hoje, o número já está bastante reduzido. Questão de espaço.
    Em minha curiosidade de adolescente, encontrava ali desde Dostoievski até autores não muito conhecidos. O gosto pela leitura começou assim…

  3. Leticia estou chegando a conclusão que estou me transformando em vintage.As coisas, modas , eletronicos, moral, costumes, ortografias,etc..,mudam ou” aparentam” tantas transformações e mudanças, que muitas vezes eu me sinto um tipo de vintage mesmo não deixando a peteca cair e indo em frente.Também tenho algumas raras velharias como discos , livros e um vestido maravilhoso(que há muito não caibo nele).
    E elas não tem preço!

  4. Dawran, agora os orelhões estão escalafobéticos por intervenções artísticas. Parece que ninguém consegue ficar quieto com as coisas e suas utilidades, e parece que você sópode ser artista se intervier em algum equipamento urbano. E mochila de criança, depende do desenho do semestre, e mais tarde, do filme idiota da temporada.

    Schu, acho a coleção Saraiva tão bacaninha! Ela é imensa, e tem uns 3 milhões de títulos bem legais. Só não resisto a encadernar, porque acho as capas horrorosas.

    Iolita, eu sigo vintage, altiva e olímpica! E pode se preparar: seremos cada vez mais vintage. Casa vintage, roupa vintage, linguajar vintage, sapatinho vintage, e um jeito supervintage de procurar a companhar a moda.

  5. Amigos que, em viagem pela Europa, passaram por Londres e ficaram admirados com as cabines de telefone. Aquelas vermelhas. Estão lá há anos, conservadas. Disserem que ninguém cola propaganda de desentupidor de pia, chaveiro, pedreiro…como fazem aqui em orelhões, portas de aço etc. E também não há notícias de roubos de cabines para decorar o “kitchnet”…como faziam aqui com orelhões da antiga Telesp…hehehehe…Por aqui, o desrespeito com a conservação das coisas, acabou, parece, virando uma forma orquestrada de apagar a memória do cidadão.

  6. Dawran, parece que aqui na colônia há um tique nervoso em destruir pra comprar um novo. Isso acontece nas casas, nas escolas… as próprias prefeituras estão sempre em cócegas pra mudar as coisas trimestralmente. O que será isso? Febre? Autonegação?

  7. Verdade, Leticia. Bom Dia.
    Em cidades do interior, então, caso não haja uma política séria de preservação, logo logo o que for histórico vai deteriorar ou será derrubado para construir outra coisa.
    Aqui, ainda há maior vigilância e mesmo assim ocorrem essas coisas.
    Acho, realmente, que pode estar ocorrendo um processo de “desmemória”.
    Nem datas históricas são comemoradas como antes, dá para imaginar o que ocorre com as coisas de épocas diversas.

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