2 + 2 nem sempre é igual a 4

Sobre o casal que achou 20 paus em dinheiro e moedas, e que devolveu a quantia aos donos, no Tatuapé.

Quer dizer, chamou a polícia e a polícia rastreou e devolveu. O dono do restaurante ficou grato e ofereceu viagem de volta ou ao Paraná (de onde é a moça) ou ao Maranhão (de onde é o rapaz); ou então um emprego no restaurante, com curso de capacitação para os dois. Optaram pela segunda alternativa.

Não, não vou falar sobre honestidade de policiais nem de mendigos. Nem de quanto fico satisfeita quando alguém resolve ficar e batalhar em São Paulo.

Mas acontece que sou cética. Claro que estou supertorcendo para que tudo dê certo para o casal, mas acontece que notícia de jornal não é o mehor meio pra mudar de vida. A Prefeitura e Estado têm todo um sistema pra encaminhar pessoas nessas condições. Começa que você pode contar diariamente com  albergue, comida, encaminhamento para emprego.

Quando da história “da sopa”, ficamos sabendo que os albergues da capital estão ociosos. Então, reitero para esse novo fato as palavras do título do referido post da sopa, do Flávio Morgenstern: Cuidado com as manchetes.

Se Rejaniel Jesus dos Santos é mesmo um cara cheio de virtudes (e acredito nisso), por que não tentou antes se firmar na vida via Estado? Por que optou por morar debaixo do viaduto e trabalhar com reciclado?

Bem, em entrevistas por aí ele disse que antes tinha um emprego e família, perdeu o emprego, começou a beber e perdeu a família. Então, está aparentemente explicado: não queria albergue porque o albergue tem uma série de exigências, inclusive a proibição da manguaça.

Isso é o que está evidente. Sobre o que não está, não podemos saber. Todo ser humano tem idiossincrasias, e fazemos coisas nem sempre lógicas para nos adaptarmos a nosso jeito de ser. Pois eu não larguei emprego confortável pra trabalhar em casa, com tudo de desvantajoso que isso tem? Cada um é cada um.

Então, eu lá vou saber das profundezas de Rejaniel? Pode ser mesmo que tudo o que foi divulgado seja a verdade: o cara teve uma infelicidade, perdeu tudo e vive nas ruas. Também tem a coisa de você ter uma vida certinha e, por detalhe infeliz ou outro, você mesmo ir degenerando. Mas e Rejaniel? Será que vai se adaptar à nova vida? Onde vai morar? Com a mulher acontecerá o mesmo?

Nem tudo acontece matematicamente: o cara é rico, está bem. O cara é pobre, está mal, só precisaria de uma chance. Esse tipo de raciocínio acontece bastante em jornais, porque jornalistas são o senso geral, e senso geral não é treinado em muita coisa trash que lhe possa dar mais experiência além do fófis.

Pro senso comum, pobre não teve vez, rico desperdiça e lugar de criança é com a mãe. Mesmo que haja pobres preguiçosos, ricos trabalhadores e mães desnaturadas, entende? Não há lugar para exceções, zonas cinza e características individuais.

Mesmo assim, espero que o caso desse casal seja bem, mas bem padrão, bem ao gosto do que gostamos de ler por aí.

Repito, ele poderia ter tentado arrumar a vida antes. Condições há. O que não havia era holofotes a lhe impulsionar. Como também não havia holofotes sobre a cadela Menina, que teve a boca estourada por uma “brincadeira” de pagodeiro idiota.  Agora há fila para adoção, porque lhe aconteceu essa desgraça.

Rejaniel vivia nas ruas. Menina vivia nas ruas. Ninguém lhes queria. Só o Estado ofereceu atenção, no caso de Rejaniel, e ele não quis.

De qualquer modo, é preocupante que os vulneráveis deste país imaginem que só possam mudar de vida mediante a sorte grande atual: aparecer na TV.

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18 opiniões sobre “2 + 2 nem sempre é igual a 4”

  1. Perfeito! Adorei o post, muito bem desenvolvido, concordo plenamente.

    Só falta agora o Gugu levar o casal no palco do seu programa para receber doações diversas e máquinas para fabricar fraldas.

    Abraço

  2. Hahahahahaha, máquina de fazer fralda… E ganhar uma casa toda verde-vômito no Huck.

    Obrigada, Bruno e eu que achei o texto meio confuso, mas mandei assim mesmo por estar envolvida no trabalho.

  3. Teve um filme com a Nicole Kidman onde ela era tão obcecada por aparecer na TV que resolveu matar o marido a partir da sedução de dois adolescentes, para que ele não atrapalhasse o plano dela em virar estrela. Ela dizia: “você não é ninguém se não aparecer na TV”…

    …e nós, brasileiros, levamos isso à risca, na exata medida em que sucesso por aqui, passa obrigatoriamente por aparecer na TV, caso contrário não teríamos os Roberto Justus ou Eike Batista volta e meia aparecendo na telinha, mesmo não precisando disso. O negócio é que no Brasil, status significa ter seus momentinhos de fama na TV, ela é o meio que incentiva muita gente ao progresso, sabe Deus como a mente humana trabalha isso…

  4. Lets

    Confuso? Só para quem não sabe ler. Eu, que sou cristão (cada um com as suas idiossincrasias, certo?), torço pelo casal. Mas há em mim um lado cético leticiano (gostou?) que diz tudinho igual ao que você escreveu.

  5. Bem, Fábio, é so ver os TTs do Twitter. Neguinho com um baita pacote de TV fechada e acaba vendo mesmo é toda a programação aberta. Não quero com isso dizer que a TV fechada é uma maravilha, não é. É, aliás, adaptado para a demência latina, mas sua programação NÃO DÁ possiblidade de participação. Povo vê Eliana e Gugu para ver os iguais.

    Mas eu também torço, Paulo. Não por ser cristã ou não, mas por ser humana “normal”. Mas supomos que conhecemos bem conhecidinho o gênero humano – e não vai aí nenhum juízo de valor, é só o que simplesmente é. Você diz pra mim: cigarro faz mal. Mas eu não largo, estou cavando minha própria cova rasa. Tem explicação lógica? Não. Eu quero meu próprio mal? Não. Então por que fuma? Posso te enumerar uma série de bobajadas, mas a resposta no fundo é: não sei.

    Assim os mendigos, os motoristas bêbados, os esfaqueadores de mãe, etc.

  6. Concordo com tudo Leticia, principalmente sobre a correta ação da Polícia Militar. E a máquina de fraldas do Paulo foi boa, hehe. Casa verde-vômito? Putz, e não é que parece mesmo.

  7. Opa, bati no “send” antes de terminar.

    Você falou em “rico trabalhador”. Engraçado que, em novela – que é o que o povão vê – rico não trabalha, ou, quando trabalha, é para sacanear alguém, ou está às voltas com neuras e perversões diversas. Nenhum rico é normal, temente a Deus, um cara legal. Quanto aos dois … Espero que aproveitem o burro da oportunidade que lhes passa à frente, arreado. Se não … Tsk, tsk …

  8. Numa sociedade em que há uma total inversão de valores, o ‘cabeça-chata’ maranhense matou a pau: “…minha mãe me ensinou a nunca ficar com aquilo que não me pertence”!

    É uma honestidade encruada, calcada na genética. Do tipo que nem a miséria consegue dissolver. Passa ao largo da manifestação demagógica e feita pra ser jogada à platéia.

    O fato deve causar uma certa pausa reflexiva dentro da maré corruptível que grassa Brasil afora.

  9. Eu sinto uma grande tristeza quando ouço e vejo a enorme comoção e repercussão causada,quando um simples ato de devolver ao outro aquilo que não lhe pertence provoca admiração e espanto.A minha geração foi educada (até com algumas palmadas), NÃO FICAR COM O QUE É DO OUTRO e que o ACHADO TEM DONO.Mas quando um ex governante tenta nos passar a ideia que corrupção é só uma brincadeirinha, dá para entender tanto auê.

  10. Faço um profissão de crença por verossimilhança. Já ocorreram outros casos, com garis, por exemplo.
    E o de uma pessoa que achou numa agência bancária, boletos e dinheiro. Essa pessoa foi até o caixa, pagou as contas, anexou os comprovantes e com ajuda do banco, avisou a pessoa que havia esquecido o achado.
    Mas, deixa também, apesar da crença irremovível, um certo “mão na faca”, retórico, lógico. Ou seja, no Brasil, elogia-se muito a honestidade das pessoas, de uns tempos paa cá.
    Qualquer ato de honestidade é elogiado, repetido e pode até ser que alguma vovó mais exigente, puxe a orelha do neto e dia-lhe: “Viu como é que se faz? Você deve ser igual essa pessoa.”
    E qual o problema? O problema é que quando atos de honestidade merecem tanta propaganda, é porque deixou de ser algo comum.
    Passou a ser algo extraordinário. Deveria ser exatamente o oposto.
    A honestidade ser tão comum que nem sequer seria notada. E a malandragem, sim, essa divulgada, por ser exceção. E punida, por ser criminosa.
    Isso preocupa.

  11. Em resumo eu sou do tempo em que honestidade era obrigação.

    Ano retrasado eu encontrei um mp3 no estádio Couto Pereira logo após um jogo. Daí guardei o aparelho e entrei nas redes sociais (listas do Coxanautas, facebook) e perguntei nos blogs que tratam do time se alguém havia perdido o aparelho e quais músicas havia nele.

    Uma pessoa me respondeu e no jogo seguinte o entreguei.

    Mas me constrangeu as pessoas dizerem “parabéns” por ser honesto e pensar no próximo. Não é caso de “parabéns” coisa nenhuma, é simplesmente obrigação social que todo mundo deveria cumprir…

  12. Não existe ligação entre o fato de ser honesto e o de viver nas ruas.
    As vezes é uma escolha, sem horário, sem compromisso, vivendo apenas pela manguaça do dia, um cigarrinho, um PF…um osso pro cachorro…sem outras preocupações…apenas um dias após o outro, sem passado e sem futuro. Simplesmente o aqui agora.
    É uma forma de vida…
    Lembram do homem mais feliz do mundo que era um homem sem camisa?
    Sabe Deus.
    O homem feliz
    Num reino distante, onde tudo ia bem, havia um rei muito rico mas muito infeliz.
    Não havia o que fizesse o rei sorrir. Vivia a lamentar-se pelos cantos e a queixar-se
    de tudo, numa infelicidade só.
    Os médicos não sabiam mais o que fazer nem que medicamento receitar-lhe para
    minorar sua tristeza. Do mesmo modo, não havia artista, cantor, bailarina ou comediante
    que conseguisse mudar o humor do rei.
    Procurando uma solução extrema, os ministros mandaram buscar um famoso sábio
    que morava sozinho nas montanhas.
    O sábio examinou o rei de todas as maneiras e chegou a esta conclusão:
    – Vossa majestade só recuperará a felicidade no dia em que usar a camisa de um
    homem feliz. Mas tem de ser um homem feliz mesmo. Alguém que esteja completamente
    satisfeito com a vida.
    Com essa esperança à frente, os ministros despacharam lacaios para todos os
    cantos, em busca do tal homem feliz. Quando o encontrassem, tinham ordem de pagar
    qualquer quantia por sua camisa.
    Mas, por mais que vasculhassem até os confins do reino, nada de encontrar qualquer pessoa que se dissesse realmente feliz. Todos sempre tinham alguma queixa, alguma
    coisinha que lhes deixava infeliz.
    Os lacaios já estavam desanimando, quando encontraram um camponês a trabalhar duro, suando, manejando a enxada e… cantando!
    Falaram com o homem. Ele, sempre sorrindo, confessou-se completamente feliz.
    Disse que adorava seu trabalho, adorava sua mulher, seus amigos eram fiéis e prestativos
    e tinha filhos lindos e maravilhosos.
    Convencidos de que, afinal, tinham conseguido encontrar o que procuravam, os
    lacaios perguntaram quanto o homem queria para vender sua camisa ao rei.
    O homem feliz arregalou os olhos, surpreso, e respondeu:
    – Minha camisa? Mas eu sou tão pobre que não tenho nem mesmo uma camisa!

  13. Né, Claudio? A PM só vai para as manchetes em casos isolados de arbitrariedade. Não acho justo, se bem que a PM só cumpriu sua obrigação. Só que não teve destaque, ao contrário do mendigo.

    Maria Edi, engraçado que essa imagem de rico mau é de nossa formação. Teria isso origem nas galés?

    Schu, causa pausa reflexiva coisíssima nenhuma. A maioria é pilantra, e quem não se vale de expedientes escusos é porque lhe falta oportunidade. Lembro de uma cena em que o menino fez menção de pegar um despertador barato no fundo do carrinho do supermercado enquanto passava pelo caixa, e a mãe lhe fez shhh, porque a caixa não viu e nem deveria ver. Além de ladra, iniciava o filho no métier. Obs: ela não era pobre.

    Iolita, quando eu tinha meus seis anos eu roubei um apito no supermercado. Um apito, bem pequenininho. Botei no bolso da bermuda. Minha mãe achou. Ela e meu pai sentaram comigo, me explicaram que eu não deveria ter feito isso, que voltariam lá para devolver o apito e explicariam tudo ao gerente. É claro que não se deram ao trabalho, porque o apito era muito simples mesmo. Mas valeu a vergonha.

    Né, Fábio? Qq. pessoa “normal” (?!@%$!) ficaria com o MP3, mesmo em condições de identificar o dono.

    Tá vendo, Tea Party? Frequentemente vemos tanto chiquê por aí que dá pra pensar: o que tanto importa uma calça de marca ou quem te segue ou não nas redes sociais? Hoje minha mãe comentou comigo de uma vizinha no elevador, extremamente maquiada. Comentei com ela que no meu tempo a gente se pintava, sim, mas não era esse radicalismo todo, com dois milímetros de massa corrida obrigatória na cara – fora o bloqueador solar. Estamos perigosamente neuróticos com besteira.

  14. Algumas fontes acadêmicas:

    http://psycnet.apa.org/journals/dev/35/3/835/
    Person versus process praise and criticism: Implications for contingent self-worth and coping.
    Kamins, Melissa L.; Dweck, Carol S.
    Developmental Psychology, Vol 35(3), May 1999, 835-847. doi: 10.1037/0012-1649.35.3.835
    Conventional wisdom suggests that praising a child as a whole or praising his or her traits is beneficial. Two studies tested the hypothesis that both criticism and praise that conveyed person or trait judgments could send a message of contingent worth and undermine subsequent coping. In Study 1, 67 children (ages 5–6 years) role-played tasks involving a setback and received 1 of 3 forms of criticism after each task: person, outcome, or process criticism. In Study 2, 64 children role-played successful tasks and received either person, outcome, or process praise. In both studies, self-assessments, affect, and persistence were measured on a subsequent task involving a setback. Results indicated that children displayed significantly more “helpless” responses (including self-blame) on all dependent measures after person criticism or praise than after process criticism or praise. Thus person feedback, even when positive, can create vulnerability and a sense of contingent self-worth. (PsycINFO Database Record (c) 2012 APA, all rights reserved)

    Outro: http://jom.sagepub.com/content/12/4/457.short

    Trust, Perceived Importance of Praise and Criticism, and Work Performance: An Examination of Feedback in the United States and England

    P. Christopher Earley1

    1University of Arizona

    Abstract

    This article describes two studies which examined the usefulness of performance feedback in shaping American and English workers’ behaviors. In thefirst study, an in-basket task was used to assess the importance of praise or criticism concerning work performance for 36 American and 36 English workers from a traditional, heavy-manufacturing industry in the United States and England. A second study was conducted (n = 86 for the U.S., n = 74 for England) to examine the relations among a worker’s trust in a supervisor, perceived importance of praise and criticism, a worker’s perceived amount of praise and criticism received, and performance. Results suggest that American and English workers valued and responded to praise and criticism differently, and that the influence of the feedback was partially mediated by a worker’s trust in thefeedback source and perceived importance of the feedback.

    Mais estudos sobre o tema no tio Google: http://scholar.google.com/scholar?q=psychology+praise+and+criticism

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