Quer moleza? II

Desde sexta-feira, quando fiquei sabendo de um fato – que não descreverei aqui, por vergonha -, ando assombrada com um tema: o do serviço doméstico.

Vou contextualizar pra que se entenda melhor: eu e minha família nuclear não estamos acostumados a ter empregados domésticos. Minha mãe teve uma ou outra pessoa em algum período da vida. Ela mesma foi praticamente criada por uma pessoa que sempre consideramos da família. “Consideramos”, digo, eu, meus irmãos e ela, minha mãe. Mas depois de casada, apenas em períodos muito curtos houve alguém de fora ajudando nas lides domésticas.

O fato é que o tempo foi passando e acabamos desistindo de tal prática por n motivos. Eu mesma, desde que me entendo por “dona de casa”, conto nos dedos os dias em que tive alguém a fazer coisas que eu mesma poderia fazer, mas na época não tinha tempo.

De quaquer forma, nunca tratamos mal essas pessoas. Ainda que huvesse motivos para tal – mexer no que não devia, p. ex. -, dispensava-se, e pronto.

Acontece que nos últimos tempos tive contato (não pela primeira vez, claro) com um mundo assim. Um mundo em que o fato de ter uma empregada doméstica alavanca todo um sistema de dominação e humilhações. Isso frequentava mais ou menos meus pensamentos quando houve tal fato, que realmente me afetou.

Bem, sabemos que nem todo mundo tem alma de sinhô. Porém, independenteente de como tratamos uma empregada doméstica, estamos um fase em que está cada vez mais difícil encontrar alguém disposto a esse tipo de atividade. O aumento do cerco trabalhista, mais a ampliação de opções de trabalho a essas moças, tornam a atividade uma profissão em extinção.

As madames de subúrbio reclamam, e talvez estejam recorrendo àquela velha prática de “mandar chamar” uma mocinha do interior – a quem se pagará um salário de merda, sem qualquer garantia e com um SUS urbano, melhorzinho, mas extremamente racionado ab ovo (consulta de rotina pra quê?). Mas a tendência é acabar.

Chegaremos em um ponto em que empregados domésticos, no ordinário das residências, se restringirão a babás e a cuidadores de idosos, com curso, registro profissional, piso salarial e carteira assinadíssima. Empregadas full-time, como conhecemos, só em grandes casas.

Bem, não acho que lavar uma privada, passar uma vassourinha na casa e dar um plá na cozinha depois da refeições diminua ninguém, pelo contrário. Ruim era antes, quando não havia eletrodomésticos. Aliás, em qualquer país rico – “rico” na acepção civilizada do termo – cada um cuida de suas coisas, não tem essa de ter “uma pessoa para ajudar”. E mesmo assim as residências são mais apresentáveis do que aqui: sobra tempo e dinheiro pra deixar o jardim bonitinho.

Empregadas domésticas existem por um sistema ao contrário. Não são os “patrões” que precisam de ajuda, e sim o excedente de mão de obra desqualificada que precisa de uma atividade. E já que tá lá, dando sopa, a preço de bananinha queimada, por que não, né?

Foi por isso que se inventou a figura do copo d’água como trabalho, a excelência do passar a roupa como barganha, o polimento impecável como meta moral, a criança entojada como um ser inquestionável.

Eu não sigo essa tal novela das empreguetes, em que se reproduz o sistema Cinderela de oito ou oitenta: ou você limpa a sujeira da patroa ou ela se entrega a sua empatia artística e quem imitar sua maquiagem. Mas nem se fosse do gosto ou tivesse tempo.

No mundo ideal – se é que ele existe – pouquíssimos viram artistas de TV e cantores. O que acontece é que cada um estuda, segue a profissão que escolheu, se diverte e faz coisas em casa com prazer e desprendimento – inclusive dar uma varridinha no quintal e lavar banheiros.

  • Imagem: The Housemaid, de Thomas Gainsborough. Casinha simples de tudo, antes da Revolução Industrial, quando qualquer inglês de meia-tigela era dado a chiquês.

 

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14 comentários em “Quer moleza? II”

  1. Belo texto Leticia.
    O nome “housemaid”, também é bonito.
    Já a novela da classe emergente é simplesmente laudatória ao governo e sua propaganda. É algo assim que eles acham ter criado com o milagre econômico de desonerações fiscais, baixar juros, aumentar o volume de liquidez para crédito, alongamento de prazos das prestações etc.
    Contudo, a profissão está mesmo com tendência de desparecer. Mas, as diaristas, uma vez ou duas por semana, não. Passadeiras de roupas, idem. Acompanhantes de idosos, ou de pessoas doentes, idem.
    De todo modo, mesmo com a falência do milagre econômico de 2003 a 2010 e até julho de 2012, as coisas nesse sentido mudaram um pouco, sim. Parece que o FGTS que era opcional, vai ser obrigatório e outros aspectos de segurança do trabalho.
    Isso, poderá, apenas, tornar o que já tinha muito de clandestinidade, ficar mais clandestino ainda.

  2. “Isso, poderá, apenas, tornar o que já tinha muito de clandestinidade, ficar mais clandestino ainda.”

    Ou, de outro modo, poderá levar à profissionalização total, com anúncio nas páginas amarelas, site na internet e CNPJ, uma HouseMaid Ltda, que você chama com hora e dia marcados e comparece na figura de rapazes e moças uniformizados, treinados, limpinhos, penteados, cheirosos, com o próprio equipamento e produtos de limpeza para fazer em 40 minutos o serviço que sua diarista na boa vontade gastaria o dia inteiro e ainda faria mal feito, com direito a certificado de garantia e seguro opcional para seus objetos de maior valor.

  3. Dawran, tem gente que precisa de alguém 24 horas. Ou faz escala 48/48, ou sei lá. Do jeito que é, amador, acho cruel. Ainda temos bastante fôlego humano pra cair na clandestinidade escravizadora.

    Alexis, era o ideal. Agora me coloco no lugar da patroa e posso sonhar: alguém que saiba para que serve cada produto de limpeza, que não aperte tudo quanto é botão quando você está fora e que, principalmente, CALE A BOCA. Minha irmã tinha uma moça que passava roupa em silêncio. Era uma beleza!

  4. Me permita discordar.

    A profissão vai se tornar mais bem remunerada, mas não vai desaparecer.

    Porque para desaparecer, é necessário que ocorra o processo de qualificação intelectual que ocorreu nos países ricos. Ora, o indivíduo nunca estudou na vida, na enorme maioria das situações por absoluta PREGUIÇA, já que hoje em dia, por pior que seja a escola pública e gratuita ela tem de graça a merenda, o uniforme, o transporte, os livros e o material escolar, chega à idade adulta sem nenhuma qualificação profissional e/ou intelectual e na maioria das vezes como analfabeto funcional, não passando de um adorador de Michel Teló fará o quê da vida?

    Duas coisas: vai fazer trabalho braçal e filhos.

    O que está acontecendo no Brasil, e por sinal está deixando as madames indignadas, é que hoje, se trouxer alguém para trabalhar em casa tem que pagar salário de categoria e INSS, sendo que valem para o serviço doméstico as regras de segurança e de jornada de trabalho. Ou seja, os domésticos passaram a ter status de funcionários de verdade e um mínimo da dignidade que era roubada pela exploração pura e simples de um passado bem recente.

    Só que a horda de pessoas que acabam indo para o trabalho doméstico continua aumentando na esteira da incapacidade do país em: a) difundir o valor da educação, porque não basta ter escola, os pais e alunos tem que querer que ela funcione bem, o que não é o caso por aqui, onde ser estudioso e esforçado é tido como coisa de otário; b) fazer a criança e os pais entenderem que escola é prioridade na vida daquele ser; c) melhorar as escolas para que elas sejam capazes não apenas de ensinar, mas de identificar os alunos que não aprendem, o que não é possível em um país onde progressão continuada é interpretada como empurrar alunos de série para série e onde os alunos tem tantos direitos (e poucas obrigações) que mexer com eles é pedir um processo judicial de lavra do Ministério Público por maus-tratos, sem que ninguém analise a má educação do individuozinho que vai para a escola sabendo que poderá fazer o que bem entende sem que ninguém o reprima.

    Enfim, domésticos ainda haverá aos borbotões, não há dia que não venha alguém na minha porta pedir emprego… a diferença é que a “classe média” brasileira descobriu que agora, doméstico também tem direito a benefícios sociais e um mínimo de dignidade.

  5. Fabio Mayer, é o que quase sempre ocorre e não se entende muito o porquê.
    A cada regulamentação, aumentam as resistências. Não dá para dizer também que seria só no Brasil que isso ocorre. Mas, ocorre. O pagamento passa a ser, com registro em carteira, além do salário, INSS, FGTS, cesta básica…Saúde seria pelo SUS mesmo, mas, se em alguns casos o patronato não lembrar de cobrar a inscrição, demoram para ir cadastra-se e pegar o cartão.

    Alex Oliveira, pode ser que evolua para algo assim, também creio. Mas, há um perigo do tipo de empresas que fornecem mão-de-obra para condomínio. Aquelas que fornecem porteiros, vigias noturnos, faxineiros etc. Às vezes desaparecem e deixam os empregados na mão., sem o depósito de INSS e FGTS etc.

    Ainda não começou a fase em que serviços do tipo discutido aqui, passem a ser demandados por estrangeiros, regularizados ou não regularizados.

  6. Com tantas obrigações sociais e trabalhistas, o serviço doméstico feito por diaristas ou mensalistas acabará sendo inviabilizado por seu alto custo.
    O negócio é fazer como os americanos: robotiza ou mecaniza tudo. Máquina não faz greve, não rouba, não pede aumento, não assalta a geladeira e nem ouve música sertaneja. Hehe!

  7. * aplausos *

    Também cresci em uma casa sem empregados domésticos. Descobrir que havia um mundo no qual pessoas pedem à criadagem que lhes traga um copo d’água enquanto assistem televisão, ao visitar um colega de escola, foi um pouco chocante.

    Em casa, eu e minha esposa dividimos as tarefas. Nada a ver com grana.

  8. Fábio, tende a desaparecer, eu digo, nos moldes em que é hoje.

    Schu e Dawran, pra mim é um mistério que empregadas domésticas entram e saiam do serviço com sacolas imensas…

    E hoje chega um papelzinho (na minha mãe, e só nela): fulana – passo roupa. Estou no ap. tal, meu cel. é tal e cobro 70 paus por dia. Supondo que leve 4 horas pra passar a leva da semana, dá pra fazer duas casas por dia. 2 mil e 800 paus tá bom, né, nega? Vou largar a revisão.

    Mauro, eu também me choco. Pura falta de hábito, mas também uma grande vantagem em conseguir enxergar de fora um sistema social em que os resquícios da escravatura são bem presentes.

    “Mas eu pago”, dirão os acostumados. E eu direi que não pode fazer bem algum a ninguém pagar um ser humano pra lhe trazer um copo d’água.

  9. Quando a pessoa contrata um(uma) um doméstico(ca) tem que pagar e recolher vários “beneficios” tudo dentro da lei como férias, Inss,etc.Portanto gerando empregos, só que o Imposto de Renda não reconhece estes gastos,dando ensejo a prática do tal malfadado “geitinho”que não é benéfico para ninguém

  10. É, Iolita, mas patrões domésticos não devem fazê-lo por causa de imposto ou não. É por direito. Na maioria das vezes trata-se o empregado com sub-humano, porque fica muito dispendioso. Aí entramos na seara do ab$urdo de se manter qq empregado no Brasil.

  11. Eu registro a empregada aqui de casa até para não me incomodar depois na Justiça do Trabalho.

    E acho justo que ela receba salário de categoria e que se pague seu INSS, eu fico com a consciência tranquila de que as coisas estão em ordem e que se acontecer alguma coisa, ao menos ela terá a renda do INSS.

    E que eu lembre, acho que nunca me sentei no sofá e pedi para alguém (que dizer empregada) me trazer uma Coca-Cola. Se eu fizer isso com a Letícia ela certamente me mata, o certo é fazer como fazemos: volta e meia um se oferece para agradar o outro… mas pedir para empregada, nem aqui em casa, nem em lugar nenhum.

  12. Iolita, há o benefício de restituir parte do INSS recolhido para o empregado doméstico.
    Ainda não é obrigatório pagar o FGTS, mas se pagar uma vez tem de continuar pagando.
    Agora, também o FGTS será obrigatório. Serão votadas as novas normas no Congresso.

  13. Meninos, estamos falando da maioria, das pequenas autoridades de merda, do morador que põe banca em cima do porteiro pra se sentir gente, esses tipos tão comuns…

    Tem uma história aqui na família. A minha trisavó tinha escravos. Ela estava tão acostumada com isso que maltratava até os netos. Tipo, mostrar bala e não dar, sabe como é? Já minha bisavó já viveu na pós-escravidão, mas sobrou o hábito: a Esperança (era o nome dela) trabalhava como uma moura, sozinha, num casarão com duzentas pessoas (todo mundo casava e se abancava por lá mesmo). A maioria das noras não era capaz nem de arrumar sua própria cama. Esperança criou uma ferida na perna e minha bisavó nem tchuns. Foi preciso que minha avó, que já tinha outra mentalidade, levasse Esperança pra passar uns dias na casa dela, de pernas pro ar, pra ver se curava. Curou, e a pobre voltou pro inferno.

    Esperança nasceu já sob o Ventre-Livre. Mas, trocando em miúdos, ainda era escrava. Como hoje ainda muitas são.

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