De volta, mais do mesmo

Pertenço à corrente que acha bem calhorda o tipo de pensamento comum sobre a “inviabilidade do mundo”:

Agora que nós, ricos, nos esbaldamos à beça em desperdício,
compramos tudo o que quisemos e estamos enormes de gordos,
é hora de cortar as asinhas dos mais pobres
que finalente têm algum tipo de acesso a bens e comida.

Voltei terça-feira de viagem, e tomei contato com o último “episódio” da série “Planeta Terra – Lotação esgotada”, que a repórter Sonia Bridi desfia no Fantástico há algumas semanas. O assunto do último domingo foi São Paulo – cidade insustentável?

Bem, a escolha é óbvia. Ninguém pensaria em abordar tal assunto no Rio de Janeiro, por exemplo, até porque pegaria mal para quem abrigou a Rio +20 e só mostrou aos representantes estrangeiros, às menininhas-musa e aos índios as belezas da orla urbanizada. Em outras metrópoles, como Belo Horizonte, Recife ou Fortaleza, isso simplesmente não interessa.

A matéria começa com congestionamento. Já cansei de dizer aqui que isso é uma falácia. Congestionamento tem em um monte de cidades. Só varia de acordo com o nível de interesse/atração que elas despertam. No dia em que Jabiraca do Norte for polo de empregos e riqueza, daí você me conta como estará o trânsito por lá. Isso já acontece em um monte de municípios, e pior: sem estrutura viária para tanto. O excesso de carros tem que ver com uma série de fatores econômicos, sociais, culturais, de infraestrutura. Não com a a cidade em si.

Depois lasca no coitado do Ceasa. O horror, o horror!: 10 mil toneladas de comida. Ora bolas, se são 11 milhões de habitantes, isso dá 1 quilo de comida por dia/habitante. Isso porque ela não contou com as cidades satélite que vêm todo dia trabalhar e comer aqui. Não somos tão glutões nem desperdiçamos mais que qualquer brasileiro.

O entrevistado, presidente do Instituto Akatu, Helio Mattar, disse: “Os brasileiros, de modo geral, administram mal a comida. A estimativa é de que 30% da comida que entra em uma casa são perdidos”. Quer dizer, o pecado é do brasileiro, mas o estigma fica em São Paulo, tendeu? A megadimensão da cidade impressiona os espíritos mais ingênuos.

Prossegue, mencionando o “trânsito travado”. É chato e decepcionante dizer isso, mas o trânsito de São Paulo não é travado. Isso só acontece quando há acidentes. São muitos, mas são acidentes. Geralmente com caminhões. Quando não acontecem, a marginal, por exemplo, é uma delícia.

O lixo tóxico: São Paulo gera muito lixo tóxico, mas outras cidades geram muito mais. Ao contrário de São Paulo, estas últimas não têm um programa de controle de emissão de poluentes, eventualmente não recebem automóveis e caminhões de outras cidades nem programa de arborização. Como eu disse, é só uma questão de quantidade, não de DNA.

Prossegue no rosário de lugares-comuns, como má distribuição de água, a falta de planejamento urbano, a quantidade de carros, a malha “pequena” de metrô, e finalmente a suprema cretinice: São Paulo “chupa” energia de Itaipu.

E finaliza com o melhor: pai de bebê imagina uma cidade mais justa para o futuro. Isso, naturalmente, não se dará pelo empenho dele na educação da criança, mas por um passe de mágica – que só deve acontecer em… São Paulo. Jabiraca do Norte é fora de cogitação.

Talvez o melhor mesmo seja que São Paulo suma do mapa, e que o Brasil viva feliz com suas cidades médias, plenas de emprego e qualidade de vida, planejadíssimas e respeitadoras conscientes do meio ambiente.

Pouca gente, pouco carro e tal…

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9 opiniões sobre “De volta, mais do mesmo”

  1. Na verdade esse blablablá que sempre demoniza São Paulo já me encheu a paciência.

    Engarrafamento tem em São Paulo, Curitiba e até Rio Branco do Sul, enquanto tiver gente que não tem uma casa onde morar mas tem um carro velho que roda com 10 pilas de álcool e é financiado em trocentas vezes sem cadastro bancário, não há o que se falar de engarrafamento, ele vai continuar aí, para desespero dos indivíduos que acham que a rua é apenas sua, é apenas seu o direito de rodar num veículo pessoal.

    Lixo? Não há coisa mais insustentável que o lixão do Limoeiro aqui em Rio Branco do Sul, que nada mais é que um barranco onde a prefeitura resolveu jogar todo o lixo da cidade sem tratamento nenhum, mesmo arcando com multa judicial diária por manter aquilo funcionando.

    Desperdício de comida? Vá num ponto de ônibus de Colombo/PR e veja quantos salgadinhos baratos estão jogados no chão à sua volta. O brasileiro desperdiça comida porque à tem em abundância, aliás, no RJ isso é visível, as pessoas dizem que moram na favela, mas na favela há o maior índice de obesidade e mesmo assim, vê-se lixo por todos os lados, inclusive orgânico que não raro, é comida desperdiçada.

    Invasão de várzeas? Semana passada, durante a Rio + 20, a Rede Globo e a Record mostraram uma lagoa no Rio de Janeiro, cujas margens foram invadidas com a permissão do poder público, por intervenção de politicagem. Tinha até sofá velho boiando no local que é paisagem da “cidade maravilhosa”.

    Enfim, o Brasil é useiro e vezeiro da prática da hipocrisia mais pura. Somos, enquanto país, ambientalmente irresponsáveis, individualistas demais, maniqueístas e falsos, desperdiçamos (o conjunto) comida e recursos naturais e estamos pouco se lixando para o meio ambiente a ponto de ainda ter gente que diz que joga lixo na rua para dar emprego para gari. E a partir disso, se a imprensa elege São Paulo como bode expiatório de um povo que de norte a sul é porco até a medula cervical, é porque SP é um resumo do país, tem todos os defeitos e virtudes do país, mesmo não sendo em nada diferente de Curitiba, Rio de Janeiro, Salvador, Rio Branco do Sul, etc… só que bem podiam mudar o disco e começar a apontar para cidades que estão em pior situação, como o Rio de Janeiro que não é uma cidade, é um amontoado urbano, e Salvador.

  2. Também vi a matéria. A Globo tem sérios problemas com a cidade de São Paulo. Talvez algum dos Marinho tenha sido chifrado por algum paulista, sei lá. O fato é que mesmo depois de tudo o que se viu do governador do Rio, não houve uma só matéria dedicada a administração do estado. E olha, passei um verdadeiro desespero em BH outro dia por causa do transito caótico. Tive que pular do taxi, correr até o metrô de lá (uma tranqueira de superfície) suar que nem um condenado dentro do vagão lotadíssimo e saltar umas dez estações depois para tomar outro taxi até o aeroporto. Tudo isso demorou mais de três horas e nem era bem horário de pico. E veja Leticia, só falei de duas grandes capitais até agora. Se for pra falar das “cidades fins de mundo” administradas pelo PT então, dá para escrever um livro. Sinceramente eu não sei qual a intenção da Globo em sempre malhar São Paulo. Até porque eu não acredito em matéria de nenhuma outra, pois estão todas alinhadas aos inimigos da administração paulista. Mas vindo da Globo eu confesso que fico meio incomodado.

  3. Olha, meninos, eu não tenho nada contra alguma cidade, especificamente, e tal. No Brasil tudo é ruim, com algumas variações. Só me darei por satisfeita quando “subúrbio” no BR for exatamente igual a “banlieu” na França. Mas é justo isso: por que elegeram SP como se fosse um estigma, um problema de origem, uma coisa da cidade em si?

    Falarei mais detidamente daqui uns dias, mas outro dia fiquei presa no trânsito do Rio: na ponte Rio-Niterói, na avenida Brasil e dentro da cidade. Circulo por Rio e SP. Não tenho impulso de viajar, só o faço por contingência.

    Foi exasperante. As vias são sujas. Sujas de poeira dos séculos. Sujas e barulhentas. Motoristas mal-educados e nervosos. Vi a cidade ao longe com uma nuvem de poluição. Por que ninguém fala, por que todo mundo finge que não existe? Por quê só SP é uma droga?

  4. Os grandes vilões somos todos nós, mas as feiras estão aí como mau exemplo, os restaurantes idem e vai por aí afora!
    E gente indo dormir com fome Brasil afora e mundo afora!
    Na verdade estou muito envergonhado comigo mesmo!
    Ótimo post!

  5. “A Globo tem sérios problemas com a cidade de São Paulo. Talvez algum dos Marinho tenha sido chifrado por algum paulista, sei lá”. Hahahahahaha, ri alto!
    Já deu no saco essa moda de tudo errado, insano, desproporcional ter como referência São Paulo. Hoje, no Bom dia Brasil, a Renata Vasconcelos chamou a matéria sobre a diminuição da violência em São Paulo e no Rio de Janeiro. Mostraram os números da criminalidade e logo foram tocar turba para as UPPs, sem falar que São Paulo fez seus índices caírem por sua própria competência, por que no estado não houve UPP do Exército meses a fio como no Rio. Aliás, não falaram nada da política paulista de combater a criminalidade. Depois, breve menção, coisa pouca mesmo, ao caos no Nordeste, principalmente em Salvador, onde bem lembrou o Cláudio, o PT governa.

  6. Bela volta, Leticia.
    Olha, li em algum lugar coisas do tipo: “…não trata-se de “salvar o planeta”, mas, sim de salvar a raça humana…” e não sei se no mesmo lugar, “…o planeta, de uma forma ou de outra, encontrará uma forma de sobreviver sem nós…”

    Então, não adianta esse pessoal salvacionista ficar querendo botar medo em todo mundo, com o se eles fossem sobreviver da derrocada, se esta vier. Seriam incinerados como todos e não sobraria alguém para dizerem: “…eu não disse, eu não avisei, eu não criei uma ong para evitar isso”?

  7. Numa recente matéria sobre a diminuição da violência em São Paulo, Thalita, a Globo entrevistou uma Ong do Jardim Angela. O trabalho das Ongs em SP, segundo o Jornal Hoje, é que foi o principal responsável pelo bom resultado no estado. Já no Rio, o Secretário de Segurança falou tanto que a certa altura até perdeu o rumo da prosa. É assim mesmo, logo mais veremos matéria – se é que já não teve – no SPTV sobre o balanço da tal “Rede Nossa São Paulo”, afirmando que Kassab só concluiu 36% das metas estipuladas por ele mesmo.

  8. Derek, espere uma big reportagem sobre os malefícios das feiras livres. Em São Paulo, por óbvio.

    Thalita, disse tudo. Acho que no Rio não existem ongs, nem para ajudar, nem para pichar as coisa do governo local.

    Claudio, esse lance do cumprimento das metas também é capcioso. O Reinaldo Azevedo falou disso ontem, lembrando que essa mesma Nossa São Paulo, há um ano, torceu e retorceu os dados orçamentários da cidade e lascou que os bairros mais ricos recebem mais dinheiro.

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