Me conta aí…

…, pela sua memória, quantos livros escolares (ensino fundamental e médio) você conseguiu cumprir até o fim?

Eu, pelo menos, lembro de muitos que não chegavam nem na metade (na escola pública e na particular). Lembro especificamente de uma coleção (cada volume uma série) de português que tinha TEXTOS, de literatura mesmo. Ainda que não cumpridos pela professora, eu lia todos os textos (pelo menos), mas isso logo depois de ganhá-los, novinhos. Lembro bem da sensação de quando chegava o dia de aula com determinado texto. Eu já o conhecia, mas às vezes as explicações da professora traziam surpresas pro meu entendimento. O resto, o que não foi dado, babau!

Só que tenho consciência de que a situação acima era bem melhor que o comum, e era bem melhor do que hoje. Artigo no Estadão:

Dados tabulados pelo Estado com base no questionário da Prova Brasil de 2009, que foi respondido por 216.495 professores de escolas públicas, revelam que um dos fatores responsáveis pelo baixo nível de aproveitamento dos estudantes do ensino fundamental está no não cumprimento dos currículos. Segundo a pesquisa, 75% dos professores não conseguem esgotar o programa de suas disciplinas no final do ano letivo.

Em média, eles só desenvolvem 80% dos conteúdos que deveriam trabalhar. Dos docentes que lecionam para os alunos da 5.ª à 9.ª série da rede pública de ensino fundamental de todo o País, 7.380 afirmaram que não conseguem lecionar mais de 40% do currículo. E cerca de 27 mil afirmaram que conseguem dar, no máximo, até 60% do programa previsto.

Os piores porcentuais de cumprimento do currículo estão no Nordeste. Nos Estados do Rio Grande do Norte, Alagoas, Ceará e Maranhão, por exemplo, quase 30% dos professores não conseguem cumprir a metade do programa de suas disciplinas. Nesses Estados, o índice de docentes que conseguem cumprir mais de 80% do currículo é de apenas 10%.

E como muitas escolas adotam o sistema de progressão continuada, os alunos vão sendo promovidos sem aprender o mínimo previsto para o ano.

Por isso, quando terminam a 5.ª série, só 34,2% dos estudantes têm conhecimento de português adequado à série e em matemática, apenas 32,5%. Na última série, o rendimento cai ainda mais. Apenas 14,7% dos alunos têm conhecimento de matemática adequado à série e em português o índice é de 26,2%. “Isso acontece porque os conteúdos são cíclicos, retornam em anos seguintes de forma mais complexa. Se o aluno não o aprendeu bem, não conseguirá acompanhar na série seguinte”, diz Maria Carolina Dias, da Fundação Itaú Social.

Parte do problema é atribuída à formação deficiente do professorado e à falta de um acompanhamento pedagógico das escolas. “Muitos professores desconhecem o assunto, até porque dão aulas de disciplinas correlatas. Um biólogo que é professor de matemática não vai cumprir todo o conteúdo simplesmente porque não sabe. Muitos professores também abrem o diário e veem na hora o que precisam fazer. Não pensam com antecedência. Para que isso mude, é preciso um bom coordenador pedagógico, que acompanhe e tenha uma visão global”, afirma Carolina.

Outra parte do problema decorre dá má concepção dos programas. Muitos currículos estão defasados. Alguns são excessivamente grandes e ambiciosos, misturando temas ou valorizando modismos intelectuais, em detrimento de conteúdos básicos. E há ainda currículos cujo conteúdo é condicionado por maniqueísmos políticos.

“O currículo é o mapa de navegação de um sistema de ensino. Aqui no Brasil, como não existem metas específicas de aprendizagem, fica impossível averiguar que tipo de conteúdo o professor está ministrando e, consequentemente, se o aprendizado do aluno está garantido”, diz a consultora e ex-diretora executiva da Fundação Lemann Ilona Becskeházy.

A reestruturação da rede pública de ensino fundamental enfrenta, assim, dois desafios, segundo os especialistas. O primeiro é investir nas escolas e nos professores, melhorando a qualidade da formação do docente. O segundo é modernizar os programas, por meio de um currículo nacional coerente e voltado para os conteúdos elementares. No passado, dirigentes do Ministério da Educação tentaram definir um currículo nacional. Mas vários professores resistiram, alegando que ele comprometeria a autonomia didática e pedagógica. E, apesar de a Lei de Diretrizes e Bases afirmar que os Parâmetros Curriculares Nacionais sejam definidos pela União em colaboração com os Estados e municípios, muitos secretários municipais e estaduais de educação alegam que o currículo nacional colide com a estrutura federativa do País. Enquanto não se desatar esse nó, advertem os pedagogos, será difícil exigir que os professores cumpram à risca currículos que estão em descompasso com a realidade do País.

Coloquei em bold duas questões que são de arrancar os cabelos.

A primeira: como é que um professor de biologia, num momento de improviso,  precisa dar uma aula de matemática e não consegue por não saber a matéria? Desgraça a): ele não teve essa matéria quando criança. Desgraça b): Ele é incapaz de ler no livro e aprender pra ensinar.

Outra: Modismos intelectuais vêm lascando com o país há pelo menos quatro décadas. Sala de aula é pra ensinar a = b e ponto final. Não tem abordagem lúdica, não tem interação social, não tem consciência ambiental, não tem complementos didáticos, não tem inclusão digital, não tem porra nenhuma.

O que tem de ter é um Professor com P maiúsculo, alunos, um quadro-negro, carteiras, livros e cadernos. Só.

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16 comentários em “Me conta aí…”

  1. Nada pior do ler, ouvir e observar a Educação em nosso País. É um coisa indescritível.
    Mas, os livros didáticos, em realidade, dificilmente, no meu tempo, forma utilizados até o fim. Até que ainda no Ginásio e depois no Científico, ocorreram algo assemelhado. E as novidades “modernas”, iniciavam seu curso, no que hoje é o onipresente politicamente correto. Modismos intelectuais, devem ser um “update do politicamente correto…Dá pena das crianças e dos adolescentes.

  2. Venho de uma família de professores. Mãe, Tios, primos, mulher, filhas…
    Usando um clichê: no meu tempo, acontecia o que você expôs no último parágrafo de seu comentário, Lets. Era pá-pum! Inglês, Francês, Latim, Matemática, etc.. Cada matéria, um especialista. Não havia conotação ideológica no currículo. O ‘politicamente correto’ passava ao largo. A disciplina era rígida, quase militar. Bedéis ou inspetores de alunos eram temidos. Havia suspensões e, na reincidência, expulsão sumária.
    Aulas aos sábados com todas as matérias e no final Educação Física!
    “Progressão continuada”, nem pensar. Não estudou, reprovação. Nota mínima para passar de ano: 7. Abaixo disso, ‘segunda época’! Eh! Bons tempos!

    Hoje? Minhas filhas contam cada coisa que acontece em sala de aula, que vou te contar…! Do jeito que está temo pelo futuro deste país.

  3. Mesmo que o professor não usasse, eu lia meus livros escolares por inteiro e bem antes da aula em que supostamente seriam usados, salvo os de matemática, claro!

    E concordo com você. Escola não é lugar de modismo ou atividade lúdica. Atividade lúdica é brincar, cabe aos pais possibilitar isso ao filho que ELES puseram no mundo, ao invés de dar uma TV exclusiva, um video-game, um computador e tentarem se livrar dos rebentos como faz a imensa maioria de jererecas que têm filhos por pressão social não por vocação paterna.

    Conotação ideológica então, virou moda nesses anos de lulismo-petista-pequeno-burguês que vivemos, livros didáticos insinuando que socialismo é melhor que capitalismo e que luta de classes é algo saudável não faltam nas escolas brasileiras, a salvação está justamente na imbecilidade dos ideólogos, que são tão toscos que não conseguem ensinar essas asneiras para as crianças.

    O fato é que hoje em dia as escolas, incluindo as melhores particulares, são apenas lugares de suposta socialização das crianças, onde elas pouco aprendem e quando aprendem, não recebem valores como disciplina, respeito aos mais velhos, hierarquia, obrigações, etc… muita gente sai da escola pública sem saber ler e da escola privada sem conseguir articular-se de modo satisfatório, errando feio no uso do idioma, aceitando modismo como regra (o “concerteza” é modismo que virou regra) e abstendo-se de pensar.

    Para mudar isso, só melhorando (muito) a escola, o que passa primeiro por reestabelecer a ordem dentro dela, que foi destruída por pseudo-pedagogos e suas teorias libertárias… enfim, coisa para uns bons 20 anos!

  4. Sabe que uma vez fiquei de segunda época, Schu? Por pura vadiagem mesmo. Segundo ano do segundo grau, na época; biologia. Daí veio o susto, a vergonha, o orgulho ferido e uma baita culpa, até porque… $$ de meu pai jogado fora. Estudei como uma vaca, cheguei às aulas sabendo tudo.

    Fábio e Dawran, acredito na habilidade humana (não exatamente pela pessoa ser um “professor” de se fazer respeitar. Na nossa época já não era uma fuzarca? Mas havia professores e professores, não é mesmo?

  5. “Outra: Modismos intelectuais vêm lascando com o país há pelo menos quatro décadas. Sala de aula é pra ensinar a = b e ponto final. Não tem abordagem lúdica, não tem interação social, não tem consciência ambiental, não tem complementos didáticos, não tem inclusão digital, não tem porra nenhuma.

    O que tem de ter é um Professor com P maiúsculo, alunos, um quadro-negro, carteiras, livros e cadernos. Só.”

    Aleluia. Depois de uma vida, eis que vem alguém e diz o que precisa ser dito. Viva Letícia. Ufa!

  6. Havia professores e escolas, não é Leticia?
    Hoje as escolas parecem eternas creches, local de merenda e pessoas par cuidar dos filhos. Há pais que sequer sabem em série está o filho, se tomou bomba etc.
    Assim nunca chegaremos a lugar algum.

  7. Alex, o Ministério da Educação não sabe nem de si. Ontem li que o Iphan quer saber de onde veio o mobiliário bacanérrimo do Palácio Gustavo Capanema, RJ. O detalhe é que quando construíram o prédio (belíssimo, e tal, sempre desviei caminho pra passar por lá), o Iphan já existia. Como é que o Iphan não sabe? E como é que o MEC não sabe, não tem arquivo, não tem levantamento de patrimônio, nada? Se é assim com as perfumarias, imagina com o lado monótono da coisa? Órgãos governamentais existem pra dar emprego pra gente que vaga entre carguinhos e boquinhas. Só.

    Dawran, eu lembro de algumas coisas, p. ex., a escola aqui em SP (estadual) tinha cheiro de… pó. Isso nunca afetou o meu nariz, mas lembro. Lembro disso e do cheiro da sopa (eu comia em casa, mas tinha muito aluno que comia lá). Eu era muito niquenta com comida, não gostava do cheiro. E já no Rio, em escola particular, as carteiras era do século anterior. Muito antigas, mas bem conservadas. Era isso e só. Havia (tanto numa como noutra) professores ruins, como havia os bons, mas isso era IRRELEVANTE. A gente sabia, e nossos pais sabiam, que tínhamos de dar conta da matéria. Lembro tb. do perrengue que foi antes do primeiro ano letivo no Rio, eu vinha do francês em SP e tive de correr pra alcançar o inglês de lá – com uns livros do CCAA horrendos. Resultado: assim que pude, tempos depois, me enfiei na Aliança Francesa…

  8. Considere-se que as tais abordagens lúdicas e transversalidades são o grande golpe das escolas e professores e da própria LDB para se livrarem da atividade curricular. Tudo isso podia ser ensinado dentro da sala no contexto do livro ou matéria da vez. Criança adora um lazer e nem se dá conta que o “docinho” está envenenado.

  9. O aluno brasileiro é ruim.

    E é por falta de disciplina.

    Horários não respeitados, livros e cadernos mal conservados, carteiras que são riscadas. falta de respeito pelo professor, cola por todos os lados e quando pegos em flagrante, NADA acontece, o que incentiva a repetir.

    As escolas por aqui se preocupam demais em promover festas juninas e de menos em avaliar se seus professores são qualificados e fazem direito o que devem fazer. Preocupa-se com a linha dos uniformes, com as placas de propaganda, com a vida sexual dos alunos (que se fossem para a escola estudar não teria importância para ela), mas não se preocupa em saber se os alunos estão aprendendo mesmo a escrever, ler e pensar.

    Enfim, a educação não é apenas um problema do governo, é de toda a sociedade, e a sociedade brasileira já se revelou seriamente descomprometida com tudo que é importante. Tendo novela, futebol, BBB, carnaval, baixaria e crédito para comprar bugigangas, o brasileiro é feliz, o resto que se dane!

  10. Pedro Reis, adorei as “transversalidades”!!! Não lembrava do termo, amei, amei! E já usei aqui hoje (sabe como é, ressaca de jogo, aparecem uns tipos aqui no blog…).

    Concordo, Fábio. Quem me ensinou a cuidar do material escolar foi minha mãe. Eu fazia tudo direitinho, mas tb. tive umas fases… Mas nunca de rasgar, perder, nada disso. Mas isso geralmente vem de casa, viu? Aluno maloqueiro, pais maloqueiros (independente da classe social). E sua última frase é lapidar.

  11. Fábio, tá lá no ‘Decálogo de Lênin: “Corrompa todos os valores básicos da sociedade civil para dominá-la totalmente”! Em outras palavras, este é um dos postulados que aquele louco pregava.

    Nos últimos dez ou vinte anos isso tem sido sacramentado gradativamente entre nós.
    Solução? A curto prazo, nem pensar!

  12. Enquanto grande parte dos professores , estiverem só preocupados em criticar o capitalismo e a educação neoliberal, achando que ganham pouco, e eles entraram no magistério sabendo do baixo sálario que nunca foi segredo, as crianças e jovens vão continuar analfabetos funcionais e revoltados com tudo e com todos.(especialmeente os da escola pública).
    E os livros, cadernos, ler,saber a tabuada, escrever?Oras bolas!

  13. Schu e Iolita, credito esse flagelo aos pais tb. Ninguém precisa entrar numa favela pra ver. Basta presenciar certos ambientes domésticos bem próximos. Me chamam a atenção alguns onde NÃO HÁ SOSSEGO. A mãe sempre grita, a TV está sempre ligada, tudo é feito ao mesmo tempo, está sempre tudo bagunçado… Canso de ver. Não tem clima pra se concentrar. Aí vai a tonta e puxa a orelha da criança pra obrigá-la a estudar (depois da nota baixa, claro). Tudo parece que tem de acontecer automaticamente. Ah, e não há uma estante de livros, só uma TV enorme e metros de DVDs.

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