Notícias cafonas

Ao longo dos séculos XIX e XX, vimos convivendo com um fato que, embora pouco comentado/estudado, se faz presente de um modo ou de outro no nosso dia a dia: uma suposta superioridade do Brasil na América Latina. Se tal pensamento era bem tácito durante o Segundo Reinado, a Era Vargas tratou de fazer um sambarilove de irmanação e solidariedade. Depois a coisa deu uma murchada até que nos anos 90 inventou-se um tal de Mercosul, que também não deu certo. Ao longo desse vaivém, sempre houve correntes pregando o Pan-Americanismo, que não bastaria por si: tinha de ser uma união contra os States, é claro.

Como disse, poucos estudos foram feitos na área. Destaco aqui o livrinho de Eduardo Prado, A Ilusão americana, que mencionei aqui faz séculos. Se Prado era antiamericano, também não acreditava em união entre países da América do Sul, o que era meio óbvio: sempre vivemos às turras, entre rancores de um lado e pretensa superioridade de outro. Do início do século XX pra cá pouca coisa mudou: continuamos, o Brasil, a ser a corticeira que tenta botar banca na vizinhança.

Pois não é que o PT conseguiu, finalmente, irmanar o Brasil a seus vizinhos? Por baixo, é claro.

Esta semana nossa imprensa conseguiu a façanha de sintonizar com as maiores pequenezas latinas. Olha só aqui.

Tudo porque o Rei Juan Carlos da Espanha, em visita ao Brasil, dirigiu-se a Dilma nos melhores modos do mundo conhecido: beijou-lhe a mão, curvando-se levemente. O mesmo fizeram empresários presentes. Fizeram por hábito, por bons modos, os mesmos modos que os impedem de botar o cotovelo na mesa ou tirar casca de feijão do dente com o dedo. Beijariam a mão de quaquer uma por ser mulher. Faz parte.

Pronto, foi o que bastou. Muita gente (não só a jornalista linkada) viu no gesto uma submissão, com claro regozijo pelo fato de a Espanha estar aqui “de pires na mão”. Apontam o dedo com ar de deboche, como se a prática não fosse costumeira entre quaisquer países desde que o mundo é mundo.

Para eles, o correto deveria ser países como a Espanha serem sempre superiores, e nós sempre inferiores.

Não devem se excitar nem se preocupar. Continuamos inferiores. Não só no pensamento, na moral e nos bons costumes, como economicamente.

Esse suspiro de “movimentação do gigante”, mais propagandeado que real, não durou um átimo na história. Continuaremos dependendo de empresas estrangeiras não por lobby ou qualquer tipo de imposição imperialista, mas porque não somos capazes empreender por conta própria, mesmo.

E continuaremos vendo mensagens subliminares complicadíssimas toda vez que houver qualquer delicadeza vinda de um cavalheiro.

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14 opiniões sobre “Notícias cafonas”

  1. O grande problema é que esse pessoal é grosseiro e mal educado e quando topam com alguém que é BEM educado ficam com essas firulinhas. Isso é o que me mata nesse povinho. E o pior é que é gente do alto escalão, que deveria saber disso! Bem, para quem beija mão de ditadores e assassinos em geral, nada de espantar, n’est-ce pas?

  2. Depois que Juan Carlos mandou Chávez calar a boca – e deu no que deu -, é melhor Dnª Dilma botar tudo que é vermelho de molho! Hehe!

    Como já dizia D. José Ribamar dos Lençóis Maranhenses: “Há que se respeitar a liturgia do cargo”! Entonces é isso que The King Of Spain está a executaire, ora pois! Afinal, a educação do cara é de berço…de ouro! Né, não?

  3. Quer dizer que, se uma rainha visitar a potência emergente, logicamente, ela terá de beijar pés do mandatário plantonista?
    Olha, essa coisa de subdesenvolvido deveria já ter cansado a turma, não é?
    O subliminar disso é que se um rei se curvou, todos terão de fazer o mesmo, não é?
    Essa jacarejada não toma jeito mesmo.
    Podem esquecer.

  4. Juan Carlos:- Então é com essa mãozinha que a senhora desmontava fuzil no escuro, Dnª Estela? Hummm!
    Estela:- Por supuesto, majestad! Pero con el izquierda mejor trabajo!

  5. Realmente sempre há esqueletos nos armários de cada governo, seja ele republicano ou monárquico.A minha preocupação é quantos estão escondidos nestes 10 amos do govermo atual, já que o ex se julga um Imperador que tudo pode, inclusive afrontar os outros poderes constituidos. Quanto as maneiras de comportamento de visitantes, é só perfumaria.

  6. Dawran: provavelmete é o que o governo se pergunta.

    Derek, diz-se que foi um tiro acidental, no irmão mais novo. Mesmo assim, há controvérsias. O que isso poderia lhe render? Ilações bobas. Fique na caçada aos elefantes. É melhor.

    Tentemos a achar que governantes devem ser pessoas perfeitas. Lamento muito que tenha sido assim com Lula em seus oito anos de governo, mesmo tendo ele coisas muito piores pra esconder, e que só agora vozes se levantem. Nossa vassalagem ao poder? Sim.

  7. Olha, o rei foi o fiador da transição de uma ditadura cruel para uma monarquia constitucional. Se Franco não o aniquilou, algo ocorreu, certo? Possivelmente a habilidade política do rei. Ou o medo de Franco. Vai saber? O furo é sair, em safari, matando elefantes em Botswana. Loucura. Ainda mais sendo de ong protetora ambiental.
    O caso do irmão, parece ter sido esclarecido.
    O fato é que, de forma protocolar, tratou uma senhora, mandatária de um país parceiro comercial. Não haveria necessidade de tanto ufanismo por causa disso.

  8. Né? Até posso imaginar que a jornalista nunca na vida tenha sido agraciada com a mesura de um gentleman. Mas aí entra meu lado mulherzinha, tipo… dane-se!

  9. Minhas desculpas ao rei.
    Na verdade ele veio apagar um incendio que não acendeu.
    Doutora Dilma , sempre sem paciencia, retalhou, mas antes não procurou o diálogo.
    Barajas vai ser só uma lembrança triste.
    Aliás que “depre” na Espanha!

  10. Enquanto o Rei Juan Carlos é educado com a presidente do Brasil, a Telefonica continua prestando péssimos serviços de telefonia aos brasileiros tontos, serviços tão ruins que a empresa seria fechada se os prestasse em Madri, não é?

  11. Tô olhando como empresário. Pode parecer calhorda, mas empresas não vão gastar bilhões em excelência de serviços pra um povo que nem as conhece. É assim com automóveis tb. Só se a gente (como um todo) exigisse. Como não exigimos…

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