A Rota é má, viu, gente?

Bem, ontem teve reportagem no Fantástico deitando e rolando nas pretensas arbitrariedades de integrantes da Rota, e a Globo vem repetindo a coisa ad nauseam em seus vários canais de informação. Aqui, por exemplo.

Bem, pelo que deu pra perceber, foi necessária uma ajudinha na audiência: a reportagem só foi ao ar depois de encerrado o Saturday Night Live de Rafinha Bastos, na Rede TV.

Mesmo assim, parece que foi o tipo de audiência às avessas. O senso comum (não só em São Paulo) dá uma bela apoiada na Rota, na toada que pauta o senso comum do brasileiro: bandido bom é bandido morto.

Ninguém aqui, é claro, defende que um grupo de policiais possa sair por aí investigando por conta própria e executando à torto e à direita. Mas tenho alguns questionamentos a fazer relativos não à lógica do povo, que é constante, mas à lógica da mídia.

Os filmes Tropa de Elite e Tropa de Elite 2, retratando as ações do Bope (tropa de elite da polícia do Rio de Janeiro), foram insistentemente saudados pela (mesma) mídia dentro dos ecos que chegaram à população: o tom de louvor à gritaria machuda de policiais, com alguns, e só alguns, laivos de denuncismo da violência da polícia fluminense. Isso se misturou, na percepção geral, à tomada real de algumas favelas e à instalação das primeiras UPPs no Rio. Tudo visto (pela mesma mídia) como a maneira certa – pacífica! – de lutar contra bandidos: deixando-os fugir. Lembro até, na tomada do Morro do Alemão, de que policiais roubaram eletrodomésticos e tudo o que viram pela frente. Não lembro de registros de investigações about, só de um vídeo (que não consegui localizar) em que, numa ação seguinte, um comandante pedia para que seus subordinados “não levassem mochilas”.

De lá para cá, depois da tal pacificação, volta e meia vemos reportagens de confrontos abertos “entre policiais e traficantes” em bairros cariocas, e invariavelmente há uma “bala perdida” atingindo algum transeunte, uma criança, enfim. Até jornalista. Antigamente até víamos algum tipo de cobrança de investigação, a reação de familiares, e tal. Hoje, depois da “pacificação”, nem tchuns. Fica tudo por isso mesmo.

Quero igualdade de abordagens. Tudo no Rio é tratado muito en passant, como acidentes numa conjuntura social complicada, que “o Rio é assim mesmo” e que “você não conhece, não está aqui pra saber como são as coisas”, e em SP induz-se a pensar que qualquer arbitrariedade individual de policiais da Rota tem a sombra e a chancela do Estado.

Aqui “a Polícia [com P maiúsculo] está extrapolando”. Lá é uma complexidade social.

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10 comentários em “A Rota é má, viu, gente?”

  1. Até parece que a Rota foi criada para ajudar idosos na travessia de ruas e avenidas.

    Qual seria a reação da imprensa se o plano de resgatar presos durante a transferência não fosse denunciada e 06 (ou mais) policiais tivessem sido assassinados?

  2. Cleiton, não sou idosa mas fui ajudada pela Rota na travessia de uma rua há poucos dias.
    Estava na faixa aguardando uma oportunidade para atravessar e eles pararam e fizeram os demais veículos pararem para eu atravessar.
    Lamento todos os comentários maldosos na imprensa sobre a Polícia de São Paulo. Os desvios de conduta devem ser apurados e punidos, como o são. O que não acontece em outras categorias e muito menos em outros estados.

  3. Dulce, que bom!

    Prova de que a Rota não é só violência, apesar de seu foco ser operações mais complexas do que um ato de generosidade com cidadãos comuns. Fico feliz em saber que te ajudaram.

  4. Well, “bandido bom é bandido morto” ficou estereotipado no inconsciente coletivo em virtude da obsolescência de nosso Código Penal que tem mais de setenta anos!
    A Pena de Morte já existe no Brasil. De forma canhestra, transversa, mas está aí.
    Em razão das amenidades penais as forças repressoras sentem-se compelidas a prestar contas à sociedade da forma mais brutal e objetiva possível. Explica mas não justifica.
    Caso isso torne-se regra, caminharemos infalivelmente rumo à barbárie total.
    Da ficção, Mad Max tornar-se-á realidade.

  5. Eles sabem a situação da segurança pública em São Paulo e que as ações são apuradas, responsáveis são expulsos e presos.
    Incrível, mas, querem colar que o Estado é dominado por polícia violenta e ao mesmo tempo pedem mais segurança. Oras, agora os tais “arrastões” em restaurantes famosos. A Polícia desbaratou várias quadrilhas, como também as que roubavam joalherias em shoppings, a quadrilha da marcha à ré que derrubavam vitrines com carro à ré e roubavam as lojas etc. E em várias oportunidades a Polícia falou que não mais as mesmas quadrilhas que agem dessa forma. São novas, imitadoras. Mas, parece que não adianta. Querem dizer que São Paulo é um Gulag.

  6. Olham, um orgulho especial que tenho da Rota é que seus integrantes não são pançudos.

    Falando sério: se há desvios, que tomem providências (aliás, os caras estão presos). Mas parece que a imprensa quer o PCC aí firme e forte, saindo de vez em quando para o glorioso dia dos Pais.

  7. Tem que fazer uma pergunta simples prá essa gente: Se um bando de assaltantes armados invadisse sua casa, você gostaria que chegasse uma equipe da Rota ou esse pessoal do ‘Sou da Paz’?

  8. Leticia, eles deixam quase nas entrelinhas que é um gulag.
    Isso é desrespeito e além de tudo, uma inverdade.
    Nunca, ou quase nunca, abordam as ações moralizadoras do Governo do Estado.
    E analisam a Policia como se esta estivesse fazendo ronda em convescote de missionários.
    Ninguém está apoiando meliantes e nem confrontos na base do trabuco e nem ilegalidades na prevenção e na repressão ao crime.
    Assim, que esse pessoal pare de encher a paciência.

  9. Né, Maria Edi? Poderiam pegar uma cidade mais bacana, sei lá, Itapipoca do Norte, onde não há problemas com o Metrô, nem com a Rota, nem com nada.

    Nem precisa, né, Beto? O simples assalto de que fui vítima ano passado me deu ganas de chamar não a PM, mas a Rota mesmo. O que dá pista da ideia simples que há na nossa cabeça. No fundo no fundo todos somos povão: sabemos que prisão não adianta, queremos os marginais mortos pra não encherem o saco de mais ninguém. Essa é a verdade.

    Dawran, acho de uma audácia e de uma total falta de semancol. A emissora é nacional, mas a mentalidade é bem regional. Isso de vez em quando irrita. Hoje no BDB retrataram o Metrô de SP. Pelo menos tiveram a hombridade de apontar que é um dos melhores do mundo (embora tivessem usado pra isso o lance do piano que há em algumas estações). Depois, cortou pra chamada p/ amanhã, das barcas Rio-Niteroi Música de fundo? SAMBINHA! As barcas, pra quem não conhece, são o tétano a seu alcance (maioria foi feita na década de 60). Quatro paus e cinquenta, fio! Aumento de 60% no começo do ano. Com o tal do biblhete único que copiaram daqui, 3 e tanto, ou seja, mais caro que a passagem de metrô de SP. E todo mundo continua usando e tal. Sempre apinhadas de gente. Em dia de calor nem ficar lá em cima ao ar livre resolve. Cadê os aerobarcos, por exemplo? Foram extintos.

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