A desgraceira da mão de obra nacional

Há algum tempo mencionei aqui a necessidade de São Paulo de importar técnicos espanhóis para obras na cidade, porque a mão de obra nacional, ó, não chegou lá onde se precisa.

Brasil é bola da vez e SP é pole position, diz Afif a espanhóis

A coisa caminha. Estou lendo aqui no Afif Domingos, sobre um seminário a respeito da parceria ocorrido essa semana. Editei alguns trechos:

[…] a relação entre os Governos de São Paulo e de Madri deu mais um passo em direção a parcerias em projetos de infraestrutura no território paulista. Um dos primeiros contatos foi em março, quando Afif esteve na capital espanhola em missão política e particular. Com as parcerias […] São Paulo poderá acelerar projetos fundamentais – como os de mobilidade urbana, logística e saneamento. Os empresários de Madri, por sua vez, podem investir em negócios sólidos e com alto retorno financeiro. E hoje esses empreendedores espanhóis conheceram os projetos do governo paulista a serem abertos para investimentos externos via parcerias público-privadas (PPPs). A apresentação foi feita por Afif, que preside o Conselho Gestor do Programa Estadual de PPPs.

“Os empresários espanhóis tiveram afinidade total com as nossas prioridades porque são especialistas. Na sequência teremos dois níveis de contato. O primeiro será intergovernamental – acordos entre SP e Madri para criar um modelo de gestão de mobilidade urbana”. O segundo nível de contato, de acordo com Afif, será com as empresas interessadas em investir nesse modelo criado. “E aí tem muita empresa espanhola especializada que pode vir com apoio do próprio governo de Madri ou da Espanha, para investir na nossa infraestrutura em associação com empresas privadas no Brasil. Isso se chama transferência de tecnologia”.

O governador Geraldo Alckmin frisou que São Paulo é um “porto seguro” para novos negócios e lembrou que a maior parte dos 700 mil imigrantes espanhóis no Brasil estão em território paulista. “Então vocês estão em casa”, disse, dirigindo-se aos empresários.

Pole position

Afif revelou que o governo quer captar R$ 25 bilhões no setor privado em termos de parcerias público-privadas. “Estamos buscando PPP não por falta de recursos públicos, mas sim para incorporar a governança corporativa privada em nossos projetos públicos, para deixar o processo mais dinâmico”. “Temos tradição em PPP. Exemplo disso é que das 20 melhores rodovias do país, 19 estão no estado de SP, graças a concessões feitas para a iniciativa privada”.

Em sua exposição, o vice-governador dividiu o portfólio de projetos em três áreas prioritárias: mobilidade urbana, logística e saneamento. Ele citou a ampliação do metrô e implantação do trem expresso metropolitano, com trens a 160 ou 180 km/h para substituir automóvel, para aliviar o tráfego nas rodovias paulistas. “Essa rede vai atender regiões do estado que juntas representam 60% da população paulista. […]

“A Europa, especificamente a Espanha, tem expertise e liquidez dos agentes internacionais. Essa é uma crise com grande liquidez no mundo. É o momento de entrarmos nos projetos de infraestrutura com possibilidade de grande retorno financeiro para vocês. O Brasil é a bola da vez e São Paulo está na pole position”, destacou Afif.

Desafio lançado

O presidente do programa de PPPs disse que a meta é, entre 2012 e 2015, construir 32,8 km de metrô – média de 8,2 km por ano (sendo que hoje a média é de 2 km por ano). “Temos o sonho de construir 120 km de metrô até 2018. Está lançado o desafio”.

Afif também falou sobre a fábrica de medicamentos (pronta para funcionar e com projeto aberto a propostas); a construção e reforma de hospitais; o projeto de conteúdo digital para escolas públicas; a construção de presídios e de parques tecnológicos; o ferroanel, para que o transporte de carga passe a ser feito por trem e não mais por caminhão; a concessão do Porto de São Sebastião para a iniciativa privada; a construção e ampliação de hospitais.

[…]

Afif e Aurelio García de Sola (que veio representando o governo de Madri e preside a empresa Madri Netwok) assinaram protocolo de intenções na área de mobilidade urbana, entre SP e Madri.

Na política, a gente deve se ater  a nomes. Gostamos muito de fazer cálculos entre partidos, mas esse caminho só tem dado encrenca. São os NOMES – não eles em si, mas o que significam, o que fizeram, o que fazem e como fazem – que formam uma cidade, um país. Afif está nesse seleto círculo. Nosso vice-governador, um homem cuja vida é dedicada ao estado e à cidade, e não um penduricalho oriundo de arranjo político.

São Paulo foi buscar mão de obra espanhola porque, para o que se pretende fazer, não há qualificação no país. Isso, isso que você está pensando – nem na elite da mão de obra há quadros. Isso me lembra as grandes cidades brasileiras no século XIX – São Paulo e Rio, as maiores -, que até certo ponto só sabiam revirar tacho de marmelada. Chegaram os estrangeiros. Muitos eram simples roceiros (mas briosos e vencedores), mas outros vieram com experiência urbana: ourives, químicos, engenheiros, mecânicos, especialistas em qq. coisa que houvesse de mais avançado, e foi por isso que hoje podemos, por exemplo, usar um simples óculos.

Que seja assim novamente. Já dá pra adivinhar que haverá chiadeira pela crise que já chegou, sob o argumento de “desprezar nossa mão de obra” nativa, mas, sinceramente, dane-se! Ninguém vai pra frente olhando pra trás.

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16 opiniões sobre “A desgraceira da mão de obra nacional”

  1. Sempre poderá ocorrer apelo ao nacionalismo. Porém, ao invés de desenvolverem o País com base no conhecimento, optaram, em quase dez anos, por estimular os gastos e o consumo. E na Educação, priorizaram o ensino superior com abertura de novas faculdades e universidades. Ai, chega um momento de demarragem e precisa de gente especializada, que é escassa. Não iriam resolver isso em quase dez anos, porém, poderiam ter iniciado alguma coisa e não emperrando o que já não estava bom. Ou seja, corre-se o risco de ter mão-de-obra com formação universitária, exercendo atividades de segundo grau. Ai, tem de trazer do exterior mesmo. Muito países fizeram isso na história. Mas, como a Coréia do Sul, fizeram a lição de casa antes.

  2. Que sejam bem-vindos todos os novos gonzáles, fuads, brauns, rossetis, sallaberrys, schwartz, taniuchis e por aí vaí! Que tenham competência e se estabeleçam.

  3. E os Oliveiras, Souzas, Ferreiras e todo mundo com garra e determinação pro trabalho. Agora, quem cresce a fim de viver de pernada no Welfare State tem mais é que se lascar mesmo. Agora aguarde a xenofobia jerereca, viu?

  4. Olha, nativo mesmo, somente Tapuias, Tupis, Xavantes…
    O resto de nós deixou as cascas nas ‘oropas’ e nos Orientes da vida!
    Sem essa ancestralidade toda, estaríamos fazendo coro com Moralez e Chávez em nuestra latrino-américa! No way.

    Se antes vieram os ‘sem-terras’, nada mais justo que agora importemos a nata tecnológica. Entonces que lo harán luego!

  5. Pera aí.
    Vou apenas citar 2 casos que conheço muito bem porque trabalharam comigo.
    Um Espanhol o outro Inglês.
    Salário R$ 30.000,00/mês
    Função: Rigger ou seja Orientador de Movimentação de carga (Desconheço outra tradução).
    Ambos contratados na Europa mas trabalhando aqui a anos em empresa multinacional, casados com brasileiras e radicados no Brasil, Obviamente recebendo no exterior (isentos dos impostos aqui).
    Para o mesmo cargo e com a mesma habilidade e conhecimento a companhia paga para os “locais” R$ 3.000,00. e tem muita gente local capacitada para o serviço, não falta mão de obra.
    Tá certo? Concluam vocês mesmo.

  6. Schu, faço “questã” de frisar que tem muito imigrante jerereca tb.

    Bem, Tea Party, não tenho como comparar realidades diferentes, funções diferentes. Talvez o serviço e a capacidade sejam os mesmos, mas a contratante ache mais jogo remunerar melhor um cara que não lhe dará dor de cabeça em várias vertentes. Hoje um salário brasileiro custa três vezes mais para o empregador. Também avento ser menos provável que o espanhol e o inglês se metam em greves e no sindicaliso troncho nacional, que resolvem parar sempre em momentos-chave. Não sei, deve haver algum motivo. Contratante não ira tomar esse tipo de decisão meramente por nacionalismo, não?

  7. Certo. Toda empresa – nacional ou não – trabalha com redução de custos.
    No Brasil são os exagerados encargos sociais que achatam os salários. São tantas as obrigações trabalhistas que muitos preferem exercer seus cargos sem registro em carteira. O que se perde em garantia, ganha-se em remuneração maior.

  8. Sinto muito mas não é por aí.
    Trabalho nessas empresas a muitos anos e sei que o que existe é protecionismo para os seus pares e um olhar de superioride aos macaquitos locais.
    Não sou xenófobo, acredito em mercado mas convivendo com essa turma sei que ficam muito bravos com pequenas dificuldade de conseguir um visto de trabalho aqui e ficam muito putos quando eu falo para eles tentarem um na terrra deles como Brasileiro. Quase impossível. Eles defendem os empregos deles.

  9. Trazem gente deles para cá, como formigas, pela falta de empregos lá, mesmo com gente plenamente qualificada aqui.
    Onde trabalho tem um arquiteto responsável pela construção de uma filial (alojado em Apart-hotel em Ipanema com tudo pago).
    Falta Arquiteto competente aqui? Posso citar uma dúzia só dos que conheço.
    E mais, contrataram o projeto em uma firma na Flórida.
    Tem que viver dentro para saber o que acontece.

  10. Há dois aspectos nesse assunto:

    a) Não tem mão-de-obra aqui mesmo, hoje em dia, não se arranja um pedreiro decente para fazer reforma em casa, que dizer gente para a construção civil. E se a gente falar em pessoal ainda mais qualificado, a situação de dramática vira calaclísmica, já que no Brasil as “universidades” formam MILHARES de bacharéis em direito, administração e economia, mas esquecem ou não se preocupam (custos altos) em formar engenheiros, físicos, químicos, matemáticos. O ensino superior no Brasil é voltado para os concursos públicos, para gente que queira ser burocrata e trabalhar com salários pagos pelo poder público, não para a economia de verdade, a que gera crescimento econômico e inovação.

    b) Em relação aos espanhóis… bem, é incrível como o Brasil tem complexo de vira-latas! Hoje em dia, até turista brasileiro é tratado como uma ameaça à Espanha, esquecido em aeroportos e devolvido sem mais delongas para cá, tudo com a chacela do governo espanhol. Mas se eles resolvem migrar para cá, daí a coisa é diferente, são recebidos de braços abertos… o Brasil só usa o princípio de reciprocidade para de vez em quando desviar a atenção de algum escândalo, fora isso, age como cachorro que apanha do dono, sempre abanando o rabo, por mais maus-tratos que receba.

  11. Bem, lembrando que há de se fazer uma complexa distinção entre tipos de mão de obra. Gente furreca querendo fazer prostituição em outro país tem em tudo quanto é lugar e tem de ser barrado mesmo. Há também a sub-mão de obra, por exemplo, aquela com que abastecemos os EUA nas últimas décadas. Ninguém foi pra lá se prostituir, mas pra engregar pizza, fazer unha, ser babá, etc.

    Agora, os técnicos, até tentei achar qdo fiz o post, mas a voz é uma só: neglicenciamos mesmo o ensino superior na área de tecnologia. Os profissionais brasileiros podem ser competentes, acredito que são, mas deduzo que é preciso algo mais, como acontece no caso mencionado no post.

  12. Leticia,

    Os profissionais brasileiros são tão competentes que muitos deles acabam trabalhando no exterior com salários melhores que os daqui. E o problema da falta de mã0-de-obra interna se agrava…

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