Primeiro de maio I

Sinceridade na vida, né, gente? Eu não gosto do Flavio Gomes. Ele é o típico cara que fala mal da cidade num nível maternalzinho, indignadinho de pagar multa, o menino chato que afasta cebola pra borda do prato, etc. e tais.

But, justo em nome da sinceridade, não tenho como não elogiar seu texto de hoje (a partir desta photoshopagem malfeita e breguíssima!). O que ele escreveu é só tudo o que penso sobre o fastio do primeiro de maio => chororô cafona em cima de Ayrton Senna. Um trecho:

[…] Não há mal nenhum em ter um ídolo, cultivar sua memória, exaltar seus feitos, se emocionar com eles. O que me irrita um pouco quando se fala em Ayrton Senna é essa mania de atribuir a ele a exclusividade das virtudes: um exemplo de superação, humilde, batalhador, não desistia nunca, perseverante, guerreiro, temente a Deus, bom filho, patriota e blablablá.

Sempre digo: era apenas um piloto de carros, dos melhores, diga-se, com suas qualidades e defeitos, como todos nós. Não foi um mártir, alguém que morreu na cruz para redimir nossos pecados. Mesmo sobre o da cruz há muitas controvérsias, portanto devagar com o andor que os santos, todos, são de barro. (aqui)

Bem, lembro tanto disso que vocês me perdoarão se já leram aqui:

Nelson Piquet. Em entrevista-símbolo, respondeu certa vez que “chegou em segundo porque outro chegou em primeiro” e pronto. Se a Ayrton era feita a mesma pergunta, desdobrava-se num rosário de mimimis, que a pista isso, que o carro aquilo, como se o mundo lhe devesse certa perfeição, o cara eleito contra quem forças ocultas conspiram. Ayrton era um chato. Um chato médio, de pensamento médio, desses bem comuns. Um chato de frases de impacto. Seu relacionamento com Deus, seu olhar para o infinito posterizado, um trambolho bem ao gosto nacional.

Esta adoração anual revela muito de como vemos qualquer coisa a partir do diabetes mental nativo: só nos interessamos quando percebemos alguma forma de repentina vitória lacrimosa, uma vingança contra os de fora. Dispensamos os entretantos, não damos força a ninguém, não queremos nada no começo. Só tudo pronto, pleno, acabado, em forma de ídolo, para o gozo geral.

Há coisa mais infantil? Não. Foi assim com Ayrton, com Guga, com o tal astrounatuta Pontes, com Ruy Barbosa (nem sabemos o que foi fazer em Haia), com João do Pulo e com sei lá mais quem.

Com Ayrton Senna a tortura é pior, porque ele morreu no auge, deixando órfãos milhões de coraçõezinhos domingueiros distraídos com a musiqueta reproduzida à exaustão.

Nossa capacidade de abstração é bem rasteira. Não queremos saber de automobilismo. Não nos interessamos por sua história, seu processo, o quanto é bacana, seus nomes, suas complexidades, nada. Queremos vencedores nacionais, e pronto. Para que possamos fazer a única coisa que sabemos: lamber-lhes o chão por onde passam.

A gente é furreca pacas!

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9 comentários em “Primeiro de maio I”

  1. Enquanto isso, nas lojas do Corinthians, o Deus da vez é Sócrates e a sua “Democracia”… e ele nem foi o nosso maior craque (na minha modesta opinião). Próximo!

  2. Eu já não gostava do “fenômeno Senna” na época, achava artificial, um marketing de 5a. categoria que chegou ao auge quando ele declarou que seu sonho era “ter um F-1 de dois lugares para sair pelo mundo com a apresentadora X”… foi um excepcional piloto mas era um péssimo perdedor, poque NUNCA em entrevista nenhuma ele dava o braço a torcer para dizer que perdera uma corrida por que o outro fora melhor. Ele dizia que o carro do outro era melhor, era fantástico, era de outro mundo, ou ainda que não teve a oportunidade de trocar os pneus no tempo certo, ou, ainda, que perdeu tempo com o retardatário que (ora vejam!) não abriu passagem como devia.

    Fiquei triste no dia em que ele morreu, porque simplesmente não me conformo com mortes estúpidas decorrentes de negligência. Mas sinceramente, Senna para mim foi apenas um piloto excepcional, nada mais que isso, sem contar que sempre achei Nelson Piquet e Emerson Fittipaldi melhores que ele, sendo que eu já nem assistia mais corridas quando ele morreu, elas já estavam chatas demais, cheias demais de regras que impediam a competitividade.

  3. Na realidade, deveriam ter continuado a investir em tecnologia, como fez há anos, a Copersucar-Fittipaldi, que construiu um carro e tentaram galgar o difícil caminho no setor de construção de carros competitivos na F1. Depois de tentativas empreendedoras até, o conhecimento obtido na área, naquela época, deve ter sido sucateado. Hoje, para o Brasil entrar neste ramo, não conseguirá. O sucesso ai, teria sido importante. Mais até do que ter um piloto famoso.

    Senna foi um piloto. Não foi um mau piloto. O problema, para variar, é a exploração nacionalista de tudo. Tentaram ideologizar, santificar. Um erro monumental. O comentário não refere-se ao instituto, que faz programas sociais.
    Depois dele, grudaram no Barrichello, como o sucessor, sendo ou não um bom piloto. E não foi um bom piloto nas corridas que deu para ver.
    Depois colaram no Massa, idem, idem e está como está. Até o acidente que sofreu tentaram massificar, santificar. Oras, o objetivo era salvar a pessoa e não transformá-la em herói.
    Depois, ameaçaram com o sobrinho, que, ao ser perguntado a respeito, se colocou como uma pessoa normal, comum, com um tio famoso. E tem ficado lá pelos décimos lugares em algumas corridas. Quase não falam mais do garoto.
    Olha, precisam parar de tentar criar um Olimpo aqui nessa terra que arrasaram e tornaram chata.

  4. Não é, meninos? Não é o cara em si, é o que fazem dele. Agora é esse rapaz, o Neymar. Bom (só bom) jogador, mas teatral, moleque (no pior sentido) em campo. Há jogadores bem melhores que ele no mundo.

    Mas pelo menos, esses outros citados não são dados a frases nem ficam falando em Deus, porque seria uma decepção para a cristandade mundial se Deus resolvesse favorecer alguém numa competição esportiva.

  5. Panis et circenses!

    Futebol, carnaval, tênis, voley, natação, F-1…A lona e o picadeiro sempre tem que estar armado.
    Sem uma certa dose de alienação a dura realidade pesa demais sobre a ninguenzada que leva este país às costas. Desde o tempo dos gibis e dos álbuns de figurinhas, há uma necessidade ou tendência de cultuarmos ídolos como se fossem deuses do Olimpo. É a eterna busca do ideal utópico para esquecermos nossa insignificância.

  6. É bem isso, Luiz. Lembrei até do Cortella (em http://www.youtube.com/watch?v=1w6_vXBJYqw).
    Ainda hoje, em todos os programas esportivos e na boca de todos os jogadores brasileiros, seja o perna-de-pau ou o melhorzinho, espalham a tal força mitológica do futebol brasileiro, que somos os melhores do mundo e não tem pra ninguém. Cegueira pura.
    Já tô aprontando os ouvidos pra quando chegar a Copa e as Olimpíadas. Com o circo armado vamos ouvir as maiores besteiras. Haja coração, como diria aquele locutor mais ufanista.

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