Senão vejamos…

Pescando notícia do Estadão de 15 de abril último. Foi domingo, cheguei a ler, mas não tive tempo de falar sobre:

O sistema de trens de passageiros da Região Metropolitana de São Paulo atingiu os 7,1 milhões de pessoas transportadas por dia. A marca é recorde na média de dias úteis de março e aponta acréscimo de 1,2 milhão de passageiros nos trens da CPTM e do Metrô em relação ao mesmo mês de 2011, quando foram 5,9 milhões.

O aumento de 20% na demanda equivale ao total transportado por dia na rede do Rio de Janeiro. Ainda são 200 mil pessoas a mais que a população de Campinas, a maior cidade do interior paulista. “Em um ano, crescemos um Rio de Janeiro no sistema”, confirma o secretário dos Transportes Metropolitanos, Jurandir Fernandes.

Com toda essa massa se deslocando nos vagões, o desconforto dos passageiros não tem data para acabar. Pelo menos nos próximos três anos, segundo especialistas, viajar de trem em horários de pico será tarefa muitas vezes disputada no braço. A cena é comum em estações como Luz, Brás e Pinheiros, que oferecem integração gratuita entre Metrô e CPTM, consideradas os principais gargalos nos trilhos. Em muitos casos, o simples ato de entrar ou sair dos trens ou conseguir lugar no vagão vira uma batalha. A malha tem 89 estações e atende 22 municípios. “Não há como oferecer conforto adequado no pico”, reconhece o secretário […]. Para ele, a demanda ainda vai aumentar até chegar a 9,2 milhões de passageiros por dia em 2014.

Agradável não é, mas há certas coisas na vida… O fato é que São Paulo vive uma fase de transição que – quero crer – se estabilizará dentro de alguns anos. Isso é bem diferente de governo não ligar pra transporte urbano, e é mais diferente ainda de chamar de metrô uns trens adaptados.

Temos abordado aqui que a expansão e interligação da rede de Metrô, aliadas à reforma na malha ferroviária (e à interligação entre tudo com apenas uma passagem) tem atraído muitos passageiros – de ônibus.

São pessoas que trocaram o pior pelo menos pior. Isso numa cidade em que se acha normal e adequado morar a 100 quilômetros do trabalho.

Repito o que disse outro dia: com menos usuários de ônibus nas ruas, o motorista de automóvel viu boa chance de botar sua carroça na rua, e o trânsito voltou a piorar. É o efeito paulistano: a cada melhora para X, acorrem 2X, 3X de gente. Quando isso vai acabar? Não sei.

Agora, achei um milagre o seguimento da matéria, com a análise honesta de um especialista, este tipo tão nosso amigo aqui no Flanela:

Para o professor de ferrovias da Escola Politécnica da USP, Telmo Porto, pico confortável é inviável. “Isso não existe”, diz, destacando que o desconforto dos passageiros não tem solução a curto prazo. Para ele, o forte impacto no fluxo de passageiros pode ser explicado por pelo menos quatro fatores: bilhete único, novas estações do Metrô, aquecimento da economia e política de ocupação do solo da cidade. Tudo isso, segundo o professor, aumenta a pressão sobre o fluxo de passageiros em uma rede ferroviária que foi construída para demandas bem menores.

O especialista lembra ainda que há anos falta a São Paulo uma visão sistêmica do transporte. “Trens, trilhos, subestações, rede elétrica, sinalização. Tudo precisa estar muito ajustado para o sistema funcionar.” Mas Porto está otimista. “Em dois anos estaremos melhor do que estamos hoje”, declara. “Há muitas ações sendo feitas no sistema.”

Bem, quem sabe um especialista dizendo que “há muitas ações sendo feitas no sistema”, o pessoal acredite.

Mas o que gostei mesmo foi o que ele disse sobre a inviabilidade do horário de pico confortável: “Isso não existe”. Pessoalzinho que bate panela exigindo simplesmente o máximo de tudo, eis o mesmo cidadão que não colabora no fluxo, se aboleta do lado esquerdo da escada rolante, entra pelo lado errado da porta, permanece na área crítica de circulação (ainda que vá descer uma estação depois do inferno) e vocifera contra o prefeito e o governador na área de comentários em jornais.

Bem, separei alguns horários de pico pelo mundo pra você tirar uma linha e depois me dizer:

Olha que andei dando uma vista d’olhos nos Metrôs brasileiros. Mais aí não vale. Embora eles também atraiam muita gente, geralmente levam do nada para lugar nenhum, e alguns, creiam, são trens travestidos de metrô.

Portanto, quem quer usufruir das vantagens de uma cidade grande e desenvolvida como São Paulo tem de ter paciência nesta fase de transição – ampliação das linhas de Metrô, criação de cruzamentos temporariamente críticos no Metrô e obras de melhoria no sistema de trens.

E esperar pelo pior: quando as malhas ferroviária e metroviária da cidade conseguirem alcançar o ideal de hoje, aí será hora de repensar tudo, porque a população da cidade estará triplicada.

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12 opiniões sobre “Senão vejamos…”

  1. Já comentei antes que a demanda pelo trem explodiu pois as pessoas não tinham outra opção de transporte, era o ônibus ou os pés… Quando os trens passaram a ter mais ligação com o metrô e entrou o bilhete único, muita gente foi para o sistema. Hoje dá para ir de Francisco Morato até Ermelino Matarazzo ou destes dois extremos até a Berrini sem pegar ônibus. Sem engarrafamento, basta que o trem seja confiável e haverá a chance de chegar em casa e no trabalho na hora certa.
    Uma pena que não pensaram nisto antes. A linha esmeralda (na Marginal Pinheiros) era muito pouco usada apesar de estar evidente que poderia servir muito mas gente se houvesse mais ligações. Não é qualquer sistema que absorve 1,2 milhões a mais de usuários em um ano! Este número é impressionante.

  2. Não é, Marcelo? Acho fantástica a sem-cerimônia com que as pessoas reclamam, como se tudo não tivesse processo, história, complicações, como se tudo tivesse de ser providenciado ali, na hora.

    É claro que não se prega um conformismo puro e simples. Mas também é claro que, quando tudo anda bem, instala-se um silêncio semi-imbecil.

  3. Cara Leticia. Dentro de 3 anos a cidade de São Paulo poderá contar mais de 60 km de monotrilhos. Acredito no sistema que já está gerando empregos e em breve trará um pouco mais de conforto aos Paulistanos.Admiro muito seus textos.Abs.

  4. Para não perder um avião outro dia em Belo Horizonte, fui aconselhado a atravessar a cidade de metrô, até chegar no Minas Shopping e lá tomar um taxi até o aeroporto de Confins. E olha que eu ainda tinha umas três horas até a partida. A linha é a
    Eldorado/Vilarinho, com trens ainda no sistema de janelinha sem ventilação e com pessoas quase saindo pelo teto. E o pior é que o colega que me acompanhava perguntava a toda hora como é que eu fazia para andar no metrô de São Paulo, tão lotado e com tantos problemas. Bom, depois de suar como um atleta olímpico e ainda morrer com uma grana no táxi, só consegui chegar a tempo porque era sexta-feira e o voo atrasou.

  5. Toda essa lotação nos metrôs da vida só vai acabar quando extinguirem a hora do rush! Hehehehehe!

    Todo mundo indo e saindo do trabalho na mesma hora, dá nisso!
    Solução que satisfaça a todos não há. Se alguém souber que o diga.

  6. Daqui a pouco vai ter cobertura diária do transporte urbano e metropolitano de Borá/SP.
    E mesmo com as prestações atrasadas e gente até devolvendo carros, quem toma chumbo é o sistema de tráfego, trânsito e transporte de massa na Cidade de São Paulo.
    E o governo federal força a queda de juros bancários. Ou seja, a tendência é entrarem mais carros no sistema e mais gente migrando para São Paulo, por razões óbvias, que sempre motivaram as pessoas a exercerem seu direito de ir e vir.
    Até a estabilização, nunca teremos horário de rush (faz tempo que não falam mais essa palavra) ou pico suave no sistema.
    O problema não é ser bovino e descer a lenha no sistema, por “problemas diários”, mais ligado à segurança do que falhas, que também existem. O problema é reclamar mesmo pegando uma linha nova, com integração, com limpeza etc. É a bovinagem intencionada. Essa é dose.

  7. As pessoas indignadas com o caos no horário de pico deveriam pesquisar um tantinho na internet e mesmo em específico no “you tube” e ver o que acontece nos horários de pico dos sistemas ferroviários e metroviários de Tóquio, NY, Paris, Londres, etc…

    É certo que ainda faltam a SP alguns confortos, mas o caos não é muito diferente, as estações lotadas, funcionários empurrando gente para dentro das composições, etc…

    É decorrência do modelo de vida adotado pelo mundo, não é exclusividade de SP.

  8. Eu vi, Pão com Manteiga. Chamaram o secretário Jurandir pra se explicar na Assembleia. Os dignos depudatos desconhecem que 1) O sistema está superlotado. 2) Que está com investimentos e as reformas estão sendo feitas. 3) Que já começou a temporada eleitoral de vandalismos, com depredações e boicotes – hoje, p. ex., foi o roubo de fios.

    Claudio, há vídeos no Youtube que provam, não só em BH como em outras capitais, que em alguns “Metrôs” as composições são de trem. Se ainda não se acreditar, é só prestar atenção ao barulho ferroviário do bicho: tlén-tlén… tlén-tlén…

    Né, Schu? Chutando assim, por alto, metade da população poderia trabalhar em casa ou fora do local de trabalho.

    Dawran, a cada um que reclama seu sonho de andar sozinho… Lembra quando a linha 2 ampliou e o povo de Vila Madalena reclamava do aumento de passageiros? http://flanelapaulistana.com/2011/02/a-crassimedia-e-o-abacaxi-socialista/

  9. Agora no SPTV, foi ao ar por por volta de 12:19 a 12:28, notícia de sabotagem nos trens Metropolitanos.
    Disseram de várias ocorrências nos últimos tempos, pelo que deu para ouvir quando percebi o assunto.

  10. E veja só que interessante, Leticia:

    http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidiano/38419-cptm-apura-sabotagem-em-7-incidentes.shtml

    “Ele não quis apontar suspeitos e afirmou não acreditar na participação de funcionários ou que os episódios tenham conotação política. ”

    Isso foi o que disse o Jurandir Fernandes, Secretário de Transportes ao final da matéria. Alguém precisa avisar aos integrantes do governo do estado, que os 77% de aprovação ao governo Dilma foram obtido nos grotões do País. Por aqui, pode-se dar nome aos bois (petistas) que a maioria das pessoas entende e reprova.

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