Calçada, esse mistério

Pra quem não sabe, deu a louca na Prefeitura e agora todo mundo tem de ajeitar suas calçadas segundo as normas da civilidade e da boa convivência. Com uma salva de palmas para proprietários conscienciosos, seguem abaixo algumas fotos que venho tirando desde o ano passado, para mostrar um tanto dos primores paulistanos e sua ampla falta de conhecimento do que seja uma alma andando a pé.

Esse aí é um bairro muito bom. Muito ajardinado, arborizado, tranquilo e tal, mas a tal dona de casa se empolgou um pouco no Ceasa: isso não é tipo de planta que se ponha no passeio público, né, minha senhora?

Ah, este é um dos costumes mais ancentrais da capital. Que bonito, não? Vovó e vovô compraram uma casinha com jardim, a muito cuuuuuusto, lá pelos idos de 1940, criando o filho com trabalho e seriedade. Apesar de todos os esforços, o cara virou um parasita: nunca saiu de casa, trouxe a tranqueira da mulher pra dentro e foi enchendo aqueles pequenos cômodos de filhos, que por sua vez cresceram e ficaram por lá mesmo. Acréscimo de patrimônio zero.  Mudar, nem pensar. Daí vem os puxadinhos, por dentro e por fora. A lavanderia virou uma residânce e o jardinzinho tão bucólico transformou-se num ferro velho. Se na sala dormem seis, não teve outro jeito senão fazer um puxadex pra calçada. É proibido, mas grassa

Mas essa é minha preferida! Não tão despudorada quanto a da foto anterior, essa aí é uma grade-bunda. Só o pedacinho pra caber o rabo do automóvel… E pode procurar aí pra ver se estou mentindo: a cor da grade é a mais feia que tiver na loja. Pra não chamar a atençã das autoridades…

Agora é que vem a jaca. Criatura, além de não ter apreço por canteirinhos por causa dos três carros na garagem, ainda faz da calçada uma rampa automobilística. Se pra mim já é difícil andar aí, imagina um cadeirante? Uma pessoinha de idade?

Esse aí então se superou: fez o puxadinho AND a rampinha, sem gastar muito cimento, porque não está fácil pra ninguém. E matinho crescendo por entre as pedras é tudo de bom, né? Já vi equipes da subprefeitura fazendo o trabalho, mas isso é obrigação do proprietário.

Para arrematar o corolário  de soluções arquitetônicas, apresento a vocês o piso de ardósia. Muito baratinho, parece um biscoito de mil folhas e configura-se na solução ideal para brasileiros de norte a sul aplicarem em suas calçadas meia-boca. E arrebentar ao primeiro automóvel.

Agora junte isso tudo, multiplique por milhões e veja o regulamento da Prefeitura, por exemplo, para rampas:

Estou rindo aqui. Neguinho não consegue atinar numa solução razoável e cidadã para a engenharia de sua própria calçada, imagine fazer isso aí?

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10 opiniões sobre “Calçada, esse mistério”

  1. Mas, não vai fazer mesmo, infelizmente.
    Até grandes empreendimentos tentam safar-se de criar saídas e entradas dos estabelecimentos sem causar problemas no trânsito.

  2. Você teria um treco se visse as calçadas de Rio Branco do Sul…

    Cabe à prefeitura padronizar e fiscalizar calçadas, inclusive impedindo e demolindo tudo o que atrapalhe o fluxo de pedestres. Mas a gente sabe que prefeitura no Brasil não se importa nem com a buraqueira das calçadas, causada por companhias elétricas, telefônicas, de água e esgôto, que dizer com a inclinação das rampas que as merdilaines e os merdsons da vida decidem impor ao pobre pedestre!

    E existe também um outro fator. Que é o do povo que não sabe andar na calçada. Quanto mais jovem, quanto mais metidinho a besta, quanto mais ligado no visual marginal da periferia, menos se usa calçada. Tem retardado que para mostrar”atitude” anda no meio da rua mesmo atrapalhando o trânsito e enchendo o saco… para esses, a calçada pode até nem existir…

  3. Aqui em “Curita’, estão trocando aquelas pedras portuguesas quadradas do século dezenove, por uns bricks padronizados de cimento para refazer as calçadas. Tá resolvendo.
    Não conhecia essas “grades-bunda”, Lets! Deve ser exclusividade de Sampa! São criativas, mas totalmente fora-da-lei. Deficiente visual e mesmo pessoas sem nenhum problema físico dançam miudinho com essas grades e rampas.
    O famoso “alinhamento”, se não houver fiscalização rigorosa, vai pras cucuias.
    Naquela sua “preferida”, Lets, se não bastasse a grade, tem a marquise com escoras de madeira e telhas de amianto! No Afganistão você corre menos risco! Hehehe!

  4. Essas grades decorrem de desrespeito total. Compra-se um carro maior que a garagem, que, não raras vezes, era um pedaço, ou a sala da casa. Não cabe o carro. Então, criam essa solução absurda, que reduz a calçada e pronto.
    O interessante dessas calçadas, tipo do jeito que o acidente gosta, caso sejam causadoras de algum machucado com alguém da casa ou da rua, pode originar a culpabilização da Prefeitura, que não conserta a rua. Há verdadeiros absurdos pela Cidade.

  5. Inicialmente, gostaria de dizer que gostei (muito) da sua iniciativa de postar sobre o assunto. O problema das calçadas é cultural: as pessoas consideram o passeio público como parte da sua propriedade ou negócio, usando e dispondo como bem entende. Para mudar isso, sugiro às autoridades um tratamento de choque: distribuir um número significativo de notificações para proprietários de imóveis adequar os passeios à nova lei. Não haveria publicidade melhor para fazer com que a lei “pegasse” para valer na cidade.

  6. Dawran, Schu e Fábio, as grades-bunda foram exportadas daqui, CERTEZA!

    Também acho, Xico. Na maioria das cabeças, só vale o raciocínio do bolso. E olha que nem fazem isso por precariedade, e tal. Há calçadas MA-RA-VI-LHO-SAS no acabamento, mas que em resumo mandar o pedestre se virar. E cada “engenharia” que vou te contar! Você passa e fica dando tratos à bola de como o cabra chegou àquela solução…

  7. Ah, e a calçada do prédio aqui em frente? Ampla, plana, reformada, tudo bonitinho. Demarcação de vagas nas lojas, e tal. Daí resolvem fazer o quê? Delimitar, com duas faixas vermelhas, o caminho onde o pedestre deve passar. Aí já é retardo mental, não?

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