Os anseios no Facebook

Divertida a série de vídeos (propaganda do Bradesco, o que não ofende), com um tema antropologicamente interessante: o comportamento no Facebook (mas vale pra tudo o quanto é rede social). Comentadores: Glorinha Kalil, Marcelo Adnet e Tati Bernardi. Um dos temas, o “Reclama de tudo”, cuja hors-concours, óóóbvio, é a cidadela de São Paulo:

São seis no todo. Os demais, todos ótimos:

Fotos de comida, Cutucar, Carência geográfica, Amizade virtual, Autofoto.

Bem, sobre reclamar de tudo, vocês estão cansados de saber o que penso, notadamente em relação a São Paulo: todo ser humano deve buscar sua própria felicidade. Então, pra quem não está gostando, engula a seco nossa precária estrutura aeroportuária, rodoviária e a facilidade de financiar carro e fuja da cidade o quanto antes. Crie coragem. Será melhor pra você.

Outro aspecto nesse estilo reclamão é a intenção social: o ser reclamante tem a ilusão de que os outros vão pensar que ele veio de um lugar sensacional: sem trânsito, sem barulho, com atendimento perfeito, menu mirabolante, epifania cultural grátis e ônibus estofadinhos e higienizados diariamente. É um indicativo indireto do seu status, inalcancável ao rebotalho, tendeu? Um toque de rara sedução em sua página.

Vai pelo mesmo caminho a mania de fotografar o que vai comer: você só registra aquelas sobremesa com edifícios de açúcar queimado, de preferência num lugar que você acha sofistiqué. E nem sempre é, pode acreditar…

Em todo caso, é o mais antigo tipo de rixa da história da humanidade: esfregue na cara do desafeto que sua comida é melhor e mais abundante (alguns ainda lançam mão da macarronada na nona. Mas já passou, né? Hoje, use abundância no sentido de que você tem grana e acesso àquele restorrã, àquele bistrozinho indicado, nem que tenha sido a primeira e última vez).

Mesmíssimo raciocínio para os indicativos constantes de onde está (a tal Carência geográfica). E não adianta simplesmente falar: “estou no lugar tal”, porque sua rede de amizades não lhe dá um pingo de credibilidade. Tem de provar com o tal do Foursquare. Daí você põe em prática as tais pistas de status: I’m at alameda das Pererecas, ou I’m at Av. Luís Carlos Berrini (o povo adora a Berrini, a Faria Lima…). Nem que você esteja mofando num ônibus em dia de chuva rumo ao Xerimbabo.

Mas o mais melancólico mesmo (depois de fotografar pratos) é a autofoto. A pessoa entra numas mesmo de que está num clímax existencial. E isso GRASSA no FB. Sei lá, viu?… onde foi parar aquele calor humano, aquela solidariedade tão comum d’outrora, de pedir pra uma alma te fotografar? A criatura se pinta sozinha, em casa, pra se fotografar no espelho…

E essa novidade de linha do tempo ? De 1522 até 2009, nada! Daí em diante… as viagens internacionais.

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7 opiniões sobre “Os anseios no Facebook”

  1. Ainda consternado com a morte de Millôr, nosso maior filósofo – nas palavras de Ziraldo -, e pedindo licença à dona do blog, posto aqui algumas frases do Mestre.

    “A ocasião em que a inteligência do homem mais cresce, sua bondade alcança limites insuspeitados e seu carácter uma pureza inimaginável é nas primeiras 24 horas depois da sua morte”.

    “Toda uma biblioteca de Direito apenas para melhorar quase nada os dez mandamentos”.

    “O homem é um animal que adora tanto as novidades que se o rádio fosse inventado depois da televisão haveria uma correria a esse maravilhoso aparelho completamente sem imagem”.

    “Democracia é quando eu mando em você, ditadura é quando você manda em mim”.

    “Há certas mulheres que acabam ficando bonitas de tanto a gente dizer que são”.

  2. Genial. É assim mesmo na maioria das vezes.
    Embora, fique cheio de ditados de auto-ajuda, lições de moral, orações etc. muitas vezes encana um debate legal sobre cidades, por exemplo, num sentido positivo da coisa. Em um grupo, criaram a ideia de fazer uma geografia da cidade, outra lembrar das pessoas mais conhecidas, as mais folclóricas etc.
    Coisas simples, que pessoas que não moram mais na cidade podem participar numa boa.

  3. Eu gosto muito do Adnet, mas… Putz coisa sem graça!
    Nem ele conseguiu fazer desse “bate papo” algo inteligente. Também, com essas duas maroquinhas na roda nem o Millôr conseguiria iluminar a conversa…
    Eu tenho conta no Bradesco, ou seja, meu pobre dinheirinho deve ter contribuido pra confecção dessa merda…

  4. Ah, sim, Dawran, sempre há as coisas úteis e bacanas. No “falicido” Orkut também havia. Mas a droga é que essas redes ganham certa alma em algum momento e cumprem um ciclo mais ou menos monótono: primeiro os pioneiros, depois o povo normal e suas viagens e pratos nunca dantes e finalmente a decadência, quando surge outro mecanismo mais assim e assado pra, no geral, todo mundo se bisbilhotar e se exibir com modinhas de semestre.

    Flavico, gosto pra humor é uma coisa, não? Eu me divirto muito quando outras pessoas falam de algo que tb. penso. Mil vezes a conversa sem graça do que homenagens post mortem exageradas aos antes esquecidos.

  5. Verdade, Leticia. O Fb já está apresentando sinais de desgaste. Ai, pode ser tanto a ferramenta, como a chatice geral que toma conta das coisas. Por exemplo, esse negócio de divulgar sequestros. Um amigo certa vez postou que o irmão de uma amiga comum havia sido sequestrado. Depois de uma polvorosa, descobriu-se que a amiga tinha só colocado o post de outra pessoa, repassado, para ajudar. O resultado foi que o amigo nunca mais postou nada assemelhado. Ficou temeroso de repassar informações erradas ou viesadas. Acho que o Fb pode minguar também por essas coisas. Aspecto como o citado, nunca se posta o resultado, se a pessoa foi achada, se está bem, se continua desaparecida etc. E por essas coisas de prato de couve com torresmo, tudo no fogão a lenha da vó, fotografado e postado, torra.

  6. É uma antropofagia. Outro dia precisei resgatar informações no Orkut. Mais de um nicho. Não existiam mais. Fiquei horrorizada. As pessoas não usam esse tipo de coisa como um bem, só pra se relacionar superficialmente, na hora. Usa, come, carcome e joga fora. Como diz uma amiga, o Orkut já está fedendo, em estado de decomposição.

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