“Economizar água”. Até que ponto?

Do Estadão:

A escassez hídrica na Região Metropolitana vai obrigar o governo do Estado de São Paulo a criar um sistema de R$ 1 bilhão para buscar água a mais de 74 km de distância da capital e bombeá-la à altura de 500 metros – o  equivalente a dez prédios de 17 andares. O Sistema de Produção São Lourenço deve estar em operação até 2018, mas mesmo assim não será suficiente para atender o crescimento da demanda nos próximos anos.

Até aí, belê, embora aqui não haja “escassez de água”. Pelo contrário, e provarei.

O que vimos fazendo nos últimos 150 anos senão captar água para a população não morrer de sede, não é mesmo?

Grosseiramente, primeiro foram os rios Tietê e Pinheiros, os chafarizes da cidade, depois a Cantareira, a Represa de Guarapiranga, anos depois o engenheiro Asa Billings projetou o reservatório que levou seu nome…

Na minha região, uma das mais altas da cidade, a cada cinco quilômetros (chute meu) encontra-se uma caixa, um reservatório da Sabesp, que fornece  água não só para a vizinhança como para as partes mais baixas da cidade. E assim ocorre com outros pontos, urbanos ou não.

Desde o primeiro reservatório,  inaugurado em 1881 na Consolação, até hoje, um monte de TROUXAS, de companhias e governo, se debruçou sobre o interesse de levar água para todos os cidadãos desta cidade, e continua fazendo isso até hoje.

Graças a eles e a uma série de outras políticas públicas, a cidade que cresce descontroladamente, a cidade para onde todo mundo quer vir, consegue dar conta de sua vidinha bem decentemente.

Apesar do progresso e do mar de prédios e cimento, tem ÁGUA pra todo mundo, e áreas verdes são acessíveis a qualquer um.

Daí voltamos à matéria (sempre um especialista) achando que não deve ser assim:

Para o ambientalista Samuel Barreto, da ONG WWF-Brasil, outro foco deveria ser adotado. “O Estado tinha de apresentar a sua meta de controle de perdas e um plano de economia de água para os setores que mais consomem. É sempre a lógica da obra, sem a perspectiva de melhoria na manutenção e no gasto.”

É a lógica da obra, sim, meu caro. Se não houver obra, não se dá conta da quantidade de gente que se instala na cidade anualmente: 250 mil pessoas, segundo a mesma reportagem.

Preferimos nossa “lógica da obra” à “lógica de não obra”. Preferimos nossas obras à sangria eterna de recursos que não resultam em obra alguma e faz sofrer todo vivente.

Preferimos nossa cidade cheia de prédios à desertificação.

Ter acesso à água eternamente via caminhão pipa que só vem de vez em quando não é vida.

  • Foto: Captura de tela da Globonews (ontem): agricultores tentam reerguer a coitadinha da vaca, exausta de fome e sede.

 

 

 

 

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25 opiniões sobre ““Economizar água”. Até que ponto?”

  1. É sempre o tal negócio de que ergueram um montão de concreto e destruíram as fonte de água e matas. Tudo bem. Só esquecem de destacar que estão buscando formas de minorar a degradação desse bem que sempre foi escasso, exceto durante o dilúvio. Ao menos Noé não teve problemas com água. E sempre mais longe e sempre mais caro. Lógico. Como impedir de pessoas ocuparem as várzeas e emporcalharem o rio? Deixaram as empresas e residências jogarem detritos nos rios? Sim. E estão gastando um dinheirão para criar redes que minorem isso. Grandes empresas, grandes consumidoras de água estão estimulando a economia de água, até com brindes. Condomínios, idem. Empresas como a Sabesp e as congêneres estaduais e municipais, idem. Mas, continuam chegando pessoas para cada lugar onde a água é mais farta e tratada, as matas são mais preservadas e há emprego, moradia, transporte e escola…Se quiserem transformar a Metrópole numa vila de ocas, tudo bem.

  2. Né? Lembro uma vez que, não vem ao caso quem, consideraram um crime aquelas obras no Tietê, quando colocaram concreto nas margens. Defendiam – veja bem – refazer a mata ciliar. Só… Isso no meio de montes de pneus, um solo acidificado por séculos de deposição de entulho…

    Povo sei lá, viu? Deveriam propor isso na Europa: refazer a mata ciliar do Rio Sena ou em Veneza. Povo pensa demais e se informa de menos…

  3. Par o NE inventaram o tal projeto de transposição e levaram a ferro e fogo. Agora, parece, está lá parado. E o pessoal fica preocupado com São Paulo. É verdade, daqui a pouco São Paulo estará buscando água no NE…Se dão conselhos para os paulistas buscarem preservar água aqui, por que ainda não descobriram água lá?

  4. O que vou escrever está fora de contexto, mas…, seguinte, de tempos em tempos leio um vegetariano fanático (?pleonasmo?) dando o resultado da conta do custo de 1 kg de carne bovina em termos de água que é gasta desde o nascimento do animal até o abate. Nunca vi o resultado do mesmo cálculo feito, por exemplo, para o custo de um pé de alface.

  5. Interessante. Por que será que ninguém fala do aqüífero Guarani, maior reserva de água doce do mundo? Esse ‘mar’ subterrâneo abrange todo Sul, parte de São Paulo, Mato Grosso do Sul e adentra Argentina e Paraguai! A reserva tem potencial de consumo para vários séculos.

    Água há em abundância. Só que desperdiçada e mal usada.
    Mesmo no Nordeste há muita água no subsolo. Apesar de salobra é aproveitável. Tecnologia existe para dessalinizar até água dos oceanos.

    No mundo inteiro vemos oleodutos atravessando desertos e regiões pantanosas para levar o ‘ouro negro’.
    A mesma técnica poderia ser usada para transportar água dos rios amazônicos ao restante do país. Que tal um ‘aquaduto’ partindo de Belém, costeando o Nordeste e alcançando o Sul? Toda aquela água do Amazonas escorrendo pro mar…

  6. Dawran, tem de bolar e executar. São pagos pra isso. Não é possível que só tenhamincompetentes. Isso é problema de todos os governos federais, de todos os governos daqueles estados. São peritos em desviar verbas desde o século XIX.

    Refer, a julgar pelo fanatismo, ELE devia providenciar seu sumiço do mundo, já que consome uma quantidade inadmissível de água ao longo da vida.

    Schu, é uma pergunta. Meu pai falou dele ontem. Acho que é tratado como assunto de segurança nacional…

  7. Água se economiza de um monte de formas.

    1) Fiscalizar os imóveis e identificar focos de desperdício, os vazamentos, dar prazo para conserto sob pena de multa pesada, independentemente do indivíduo pagar pela água que desperdiça;

    2) Criar regras para funcionamento de lava-car com reaproveitamento de água e tratamento de resíduos;

    3) Combater efetivamente a ocupação de várzeas de rios e os esgotos ilegais (se bem que SP faz isto, embora a tarefa seja inglória).

    Mas todo o problema de água no Brasil passa pela imbecilidade do brasileiro médio que não consegue viver em um lugar sem emporcalhar tudo à sua volta… além do fato de que ele aplaude obras de bombeamento que custam BILHÕES e são feitas justamente por isso, já que gera caixinha, comissões e benesses para um monte de gente…

  8. Voltando ao Nordeste…

    Nessa região a coisa se eterniza em função do coronelato reinante há décadas.
    Nos grotões, água somente nas terras do fazendeiro que, não coincidentemente, também é o político mais influente do pedaço.
    É um círculo vicioso difícil de ser quebrado em virtude do baixo nível sócio-cultural da população. Está tudo “encurralado” pelo voto de cabresto.

  9. Vi uma reportagem muito legal no Globo Rural

    11/03/2012 09h00 – Atualizado em 11/03/2012 09h00
    Barragem subterrânea mantém solo úmido em períodos de seca

    Não ponho o link porque o servidor do blog segura o comentário na moderação e isso acaba sendo mais trabalho para a dona do blog. É só jogar no Google.

    A reportagem é interessante porque mostra como soluções técnicas de baixo custo podem fazer uma enorme diferença para a vida dos pequenos agricultores no semi-árido. Um dos agricultores mostrou a cacimba no período de plena estiagem com 4 metros de lençol d’água. Ele contou que antes da barragem já havia enfrentado seca que o obrigou a trazer água de uma distância de mais de 30 km.

    Com a água e trabalho, Sr Louro “passou de uma atividade de subsistência para a de produção rural de verdade, numa escala que atende sete famílias. Só de banana ele tira uma tonelada por mês. Há também mamão, coco-da-baía, pimenta, caju, amendoim, tomate, pinha, feijão, goiaba, cebolinha e coentro. Só de hortaliças em geral são mais de 20 canteiros.” Ele também incrementou o pequeno rebanho de cabras e a boiada.

    Água e trabalho propiciaram renda para o Sr Louro comprar a terra antes arrendada pelo crédito fundiário. “Graças ao que fatura, está em dia com as prestações. O agricultor se orgulha de ter se [sic] bem sucedido e, principalmente pelo fato de junto com os filhos não precisar mais viver de favor.”

    A técnica da barragem subterrânea permite a formação de mini-aquíferos artificiais.

  10. Sabem por que temos problemas com água? É porque cada governo ou oposição fica cuidando um do outro , e não se une para resolver a falta ou má distribuição. Os políticos estão se “lixando” para a população, mas em ano eleitoral o assunto volta porque o tema pode dar ou tirar votos. Passado o período eleitoral, tudo é esquecido.

  11. Fábio, coincidência: hoje antes de sair ouvi na Bandnews a reclamação da companhia de água aí do Paraná sobre o desperdício da população. Óóóbvio que não é só aí. O brasileiro se acostumou a vandalizar a água porque ela sempre sobrou por essas bandas. Fora o desleixo geral: a coisa tá pingando e ele simplesmente não liga. Tico não conta pra Teco que ele vai PAGAR pla nojeira de não trocar um courinho, fazer um ajuste…

  12. Sim. São Paulo recebeu ao longo de décadas homens como o Sr Louro. E a cidade ganhou muito com isso. A cidade atraiu para si o que havia de melhor.

    Impossível ver o Sr Louro e não lembrar dos muitos “Sr Louro”, de lá e daqui.

    O sertanejo é, antes de tudo, um forte. Não tem o raquitismo exaustivo dos mestiços neurastênicos do litoral.

    A sua aparência, entretanto, ao primeiro lance de vista, revela o contrário. Falta-lhe a plástica impecável, o desempeno, a estrutura corretíssima das organizações atléticas.

    É desgracioso, desengonçado, torto. Hércules-Quasímodo, reflete no aspecto a fealdade típica dos fracos. […]

    É o homem permanentemente fatigado. […]

    Entretanto, toda esta aparência de cansaço ilude.

    Nada é mais surpreendedor do que vê-la desaparecer de improviso. Naquela organização combalida operam-se, em segundos, transmutações completas. Basta o aparecimento de qualquer incidente exigindo-lhe o desencadear das energias adormecidas. O homem transfigura-se. Empertiga-se, estadeando novos relevos, novas linhas na estatura e no gesto; e a cabeça firma-se-lhe, alta, sobre os ombros possantes aclarada pelo olhar desassombrado e forte; e corrigem-se-lhe, prestes, numa descarga nervosa instantânea, todos os efeitos do relaxamento habitual dos órgãos; e da figura vulgar do tabaréu canhestro reponta, inesperadamente, o aspecto dominador de um titã acobreado e potente, num desdobramento surpreendente de força e agilidade extraordinárias.

    (Cunha, Euclides da. Os sertões. São Paulo, Editora Três, 1984 (Biblioteca do Estudante). Versão digital proveniente da Biblioteca Virtual do Estudante de Língua Portuguesa )

  13. Schu, há SÉCULOS se estudam saídas para o Nordeste, mas a coisa nunca chega lá. Parece que estão blindados, uma oligarquia que perderia tudo caso o povo de lá tivesse condições mínimas. Do jeito que o nordestino é arretado, ninguém segurava o Nordeste. O problema está na elite de lá, maldita!

    Né, Iolita? E o bom que se fez ninguém se dá conta.

  14. A transposição do Rio São Francisco está atrasadíssima e já custou 72% mais que o previsto. Ao final da obra, que ninguém sabe quando será, custará no mínimo duas vezes o valor orçado e não há certeza que a vazão de água do rio será suficiente para ele mesmo sobreviver e ainda fornecer água para as regiões transpostas.

    Muita gente ganhou com as obras, mas é sabido que o sertanejo, o pobre, o miserável simplório, se quiser água, terá que pagar pelo acesso aos canais, que passam, obviamente, por terras de coronéis.

    O Nordeste tem água no subsolo, e já se comprovou em muitos lugares de lá que, bem utilizada, observando a pressão e o consumo correto, ela pode gerar riqueza e bem estar, desde que se saiba exatamente o tipo de cultura que se quer, adequando-a, claro, ao calor da região e à quantidade de água.

    Participei de um projeto de fazenda no Rio Grande do Norte, que usava não mais que umas gotinhas de água por dia para produzir páprica que era vendida a preço exorbitante no mercado internacional. A extração da água era controlada p0r computador e não agredia o meio-ambiente nem prejudicava o aquífero e os índices de produção eram ótimos para a páprica, e também para melão e abacaxi.

    Pena que o sócio brasileiro do empreendimento resolveu ser mais “esperto” e começou a roubar os sócios estrangeiros, e daí o negócio, que era ótimo, acabou. A estupidez de quem pretendeu ganhar sem trabalhar, jogou fora algo que gerava riquezas e quase 100 empregos onde, pagando salário mínimo, melhorava a qualidade de vida de um monte de gente simples que além disso, passou a ter acesso à água em quantidades limitadas, mas suficientes para subsistência.

    Água existe lá. O problema é que explorar aquifero exige uma responsabilidade que brasileiro não tem. E mais que isso, exige bom senso em saber que o ganho em um negócio desses leva tempo, jamais é imediato…

  15. Paulo, seu segundo comentário entrou logo depois, por isso não respondi na hora. Primeiro: pode colocar quantos links quiser. Enquanto o trabalho me permitir lampejos de atenção, serão liberados tão logo vistos.

    Segundo: a pessoa com gerações de manejo da criatividade humana sempre botará a cachola pra funcionar e encontrará solução para seus problemas, se o ambiente prover condições mínimas.

    Quando o círculo – geográfico e social – lhe coloca barreiras a cada inciativa, é caso – eu acho – de dsistir e vir pra SP logo de uma vez. Podem falar o que quiser sobre hábitos, e tal – as pessoas NÃO TÊM CULPA. Ademais, os nativos daqui não são exatamente um portento nos modos. Vêm, se adaptam e a maioria vence a seu modo.

    A continuar assim, a elite nordestina não terá mais de onde explorar seu povo. Terão todos ido embora de lá.

  16. Lets

    Não sei se você viu a reportagem. No final dela, Sr. Louro diz “Graças a Deus nois num ve dificuldade pra tocar a vida, num precisa ninguém, nenhum deles [os filhos] tá atraiz de politico pra pedir emprego”.

  17. “Por que nunca são espalhadas, levadas a cabo?”

    Acho que uma resposta está no que disse Sr. Louro: “num precisa ninguém, nenhum deles [os filhos] tá atraiz de politico pra pedir emprego”.

  18. Assisti o vídeo, fica aqui ‘perrrtinhu’ de mim. ‘Mim?’ Sim, um mineiro que saiu do sul para essas bandas de cá e se ‘enrabixô’ com uma potiguar (rsrs).

  19. nao ,nao tem agua para todo mundo , e se acabar a agua duvido que voce vive sem entao e por iso que economizamos agua ai nao ta faltando agua ne mais aqui ta .

  20. Ô, raquel, parece que falta bem mais que água aí pra você… A pior coisa que você pode pensar é que falta d’água é destino e que abundância de água é uma afronta. Tenta mudar de ideia.

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