Mais um atropelamento que interessa

Uma pessoa foi atropelada ontem em São Paulo.

Na avenida Paulista, o que torna o caso muito mais grave.

Foi um professor da USP, o que eleva a coisa a níveis inaceitáveis.

Certo que acompanharemos o caso em detalhes, até a inevitável manifestação ciclística/pedestrianista.

Ao mesmo tempo, estamos sem saber o que é feito do menino Peterson, atropelado em sua bicicleta na Avenida Zelina, em Vila Prudente, no dia 6 de março. Ele teve afundamento de crânio e foi atendido no Hospital Heliópolis em estado grave.

Só ficamos sabendo do que aconteceu a Peterson porque seu atropelamento ocorreu na esteira de outro, o da ciclista Juliana Dias, colhida por um ônibus na avenida Paulista, e que rendeu grande repercussão porque tratava-se de uma cicloativista, tratava-se de uma pessoa de classe média e tratava-se da avenida Paulista.

Peterson, atropelado na periferia, foi usado pela imprensa para engordar alarmismo e jogado fora logo em seguida.

Explico o porquê.

Juliana foi atropelada na sexta-feira, dia 2. O caso foi tomando forma durante todo o final de semana, atingindo o auge de discussões nos dias da semana seguinte. Peterson foi atropelado no dia 6, terça-feira. Vários jornais noticiaram, terminando com o “deu entrada em estado grave”.

A tragédia de Juliana foi coberta pela imprensa até seu enterro em São José dos Campos, além de manifestações dos pares na própria avenida Paulista e das inúmeras discussões acaloradas sobre o uso da bicicleta.

Peterson, ao contrário: replicando as mesmas informações, inúmeros sites noticiosos divulgaram, no próprio dia 6, que o menino “deu entrada em estado gravíssimo no hospital”.

E assim permanece até hoje. Fora as replicações de inércia internética, nada, absolutamente nada mais a respeito do destino do menino.

Donde se conclui que, para que seu atropelamento numa região mais distante da cidade ganhe a comoção rápida e prática dos jornalistas, é preciso que outra alma seja atropelada no mesmo dia na avenida Paulista.

PS.: A pessoa morreu. Ela atravessava fora da faixa. Ela caminhava ouvindo Bach. Ninguém ligou: a vítima não era do circuitinho.

 

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14 comentários em “Mais um atropelamento que interessa”

  1. Leticia, estão tentando tornar a a Cidade como uma assassina de quem não quer andar de carro, ônibus, trem, Metrô e se fosse o caso, de bonde. Ainda tem troleibus elétrico, vítima de críticas mil.
    O problema do ativismo faz com que as coisas sejam multiplicadas de um lado e esquecidas de outro. Existe um divisão de classes entre bikers, ou ciclo ativistas e já se fala em ciclovia da Paulista até a Jabaquara.
    E há uma bicicleta de bambu sendo lançada por aqui, associada com escolas e atividades sociais etc.

    Olha, tudo bem. Só que quando a Metrópole foi crescendo e trazendo mais gente, nada era feito assim de forma radical. Ficar peitando veículos automotores seria o caso? Tal como nos EUA onde haviam incêndios de SUVs? Sabe-se lá.
    Assim, volta aqui a velha questão: São Paulo precisa parar. Ponto.
    Se colocarem milhões de bikes, vai haver congestionamento de bikes. E ai?

  2. O que ninguém entende e a imprensa faz questão de não entender, é que acidentes com bicicletas tem como causa primária o excesso de veículos…. walll…mas o excesso de veículos tem relação com a insuficiência do transporte coletivo e com a mentalidade classe C do brasileiro, para quem usar carro é status, chique e bonito e não é coisdipobre, por mais que se rode por aí com um fusca 76 podre…

    E agora convivemos com a modinha da bike, por parte de um grupo de pessoas que resolveu deixar a academia e pedalar por aí para queimar as gorduras… gente da classe C à classe A que entrou na moda, comprou bicicleta cara, roupas especiais, acessórios, capacete transado, etc… sem perceber que a propaganda disso tudo “esquece” que lá fora da loja e da casa das pessoas há um trânsito caótico, piorado com o crédito facílimo de automóveis e com a má educação media das pessoas.

    Acidentes com bicicletas vão continuar acontecendo…e vão matar gente da modinha, tanto quanto sempre matou gente que às usava por necessidade…

  3. Lendo você e me lembrando de hoje, de manhãzinha: eu caminhava pelas quebradas da Pompeia (ô, bairro! tinham de terraplanar isso aqui!) quando o cara saía de sua garagem com um SUV simplesmnte imenso.

    Acontece que a garagem pertence a um desses prédios antigos, de três andares. Era até meio malcuidado… Aquelas garagens estreitinhas, a porta ainda de madeira, com aqueles recortes antigos…

    Na hora de comprar o veículo o cara levou uma TRENA, pô!

  4. Pois é.
    Retorno na teimosa: parem a Cidade e pronto.
    Cortem o crédito para comprar carros a perder de vista. Ponto.
    Coloquem mais ônibus que vão congestionar tudo, como ocorreu na M’Boi Mirim. Ponto.
    Coloquem corredores de ônibus, que vão trancar todos os corredores da Cidade. Ponto.
    E coloquem os ônibus dos corredores desembocando em estações de trens metropolitanos e de Metrôs. Ponto.

    Depois chamem um espacialista. E deem-lhe uma metralhadora.

  5. Ainda os “revolucionários” de duas rodinhas… E com o mesmo “probleminha” da “luta de classes”: Os atropelados na Paulista(não por acaso, de classe média alta, como a moça do Sírio Libanês e agora, o prof. da USP) e os atropelados da periferia(o do menino Peterson, q não chegou a ter todo esse “bafáfá” da imprensa, muito menos manifestações nas ruas perpetradas pelos sedizentes “defensores do povo, dos fracos e oprimidos – contanto q sobre duas rodas, já q de dois pés, nem a maioria dos ilibados ciclistas dá a mínima nem a semínima.)

  6. Não há estrutura urbana que resista à falta de educação e à aplicação da lei.

    Nas grandes cidades americanas (os EUA são imensamente mais dependentes do carro que qualquer outro lugar no planeta) o trânsito flui porque as pessoas não estacionam em fila tripla para pegar o filho idiota na escola, elas dão sinal se vão converter, elas observam velocidades mínimas e máximas, elas obedecem os semáforos e as “yellow box”… o povo dos EUA é mais educado que o daqui?

    Resposta: NÃO! O povo dos EUA só cumpre a lei porque sabe que se o guarda pegar em infração é multa sem choro nem vela. É a aplicação da Lei sem ressalvas que melhora o trânsito deles, que também é caótico e congestionado em muitos lugares.

    Aqui no Brasil, especialmente em São Paulo, dada sua grandeza, não adianta chamar especialista (ou espacialista), nem construir viaduto sobre viaduto, nem criar passarela subterrânea para ônibus, nem metrô, nem coisa nenhuma, sempre vai acabar congestionado porque além do povo mal educado na média (e olha que o motorista de SP é infinitamente melhor e mais respeitador das regras de trânsito que o de Curitiba), a lei simplesmente não atinge a imensa maioria dos infratores… o clima de vale-tudo reflete no trânsito e especialmente nos acidentes dele, incluindo os com bicicletas.

    Ontem eu estava num sinal para converter à esquerda. Quando comecei a converter ao dar sinal verde, uma bicicleta veio pelo meio da pista, sobre a faixa amarela, para atravessar em linha reta… quase enfiei o carro sobre o ciclista porque eu dava sinal normalmente e ele veio irregular… não ,me xingou porque estava errado mas, e se eu derrubo ele, o que acontece?

  7. Para fazer corredor de ônibus ou você planeja a cidade (não dá mais, SP não tem mais para onde crescer, isso é público, notório e ululante, e significa que é preciso trabalhar com a estrutura que existe, inclusive a largura das vias) ou você alarga as ruas desapropriando imóveis a um custo colossal (em SP, que dizer?).

    Não se faz corredor de ônibus diminuindo o espaço existente de rodagem, isso causa mais congestionamentos e não melhora sensivelmente o transporte coletivo.

    Se um candidato a candidato aventou isso, comprovou que no máximo é um burocrata que lida bem com carimbos e papéis, mas nada entende de cidades.

  8. Corredor de ônibus MATA o entorno. E corredor de ônibus é capitular, é perder contra o excesso de veículos. Solução fácil e idiota. A maioria deles em SP é ociosa.

    E pedestre, vou te contar tb! Tem uma rua que sai da Heitor Penteado meio enviesada. A criatura que está subindo a Heitor a pé precisa olhar pra trás antes de atravessar, mesmo que haja uma faixa. Agora pela manhã parei pra uma senhora e seu netinho. Ela ne olhou o pra ver se vinha algum carro. O pessoal se fia que “tem faixa, ela é minha”. O mundo não é assim, não pode ser assim. Depois morre e não sabe por quê.

    Falando nisso, esse senhor faleceu ontem à noite.

  9. Pena o falecimento da pessoa.

    Mas, o candidato a prefeito, ungido pelo dedão, falou que vai acabar com a inspeção veicular em São Paulo.
    Daqui a pouco ele vai falar que vai acabar com os carros da Cidade, chuva e vento. E estimular o uso de bicicletas na Paulista.
    É só aguardar que há muito de politicamente correto vindo por ai.

  10. Não, Dawran. Ele disse que vai acabar com a taxa de inspeção veicular… disse que vai tirar dos 50% do IPVA que vêm para o município. Só esqueceu de dizer de onde vai tirar dinheiro para as melhorias que a grana do IPVA traz para a cidade.

    Um novo imposto, talvez? Sobretaxa de iluminação? Imposto da coxinha? Sobretaxa do lixo?

    E aguarde: quando pior permanecer o candidato nas pesquisas, mais patacoadas prometerá.

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