Deveres reais

1968 – A rainha Elizabeth esteve no Brasil em 1968, pra promover uma feira britânica. Nunca mais botou os pés aqui. (Flanela, original de Veja).

1978 – Charles esteve no Brasil quatro vezes, não exatamente para curtir o carnaval. Já deu. Se aposentou. (La Dolce Vita).

2011 – O príncipe William não quis nem saber: largou a tarefa nas mãos de Harry, o desocupado (Folha), e com ele o abacaxi permanecerá pelos próximos anos.

É interessante fazer um estudinho desse tipo de visita. Primeiro, deixar claro que os membros da família real britânica só aportam por aqui quando há um interesse econômico, aliás bem oscilante. Nada mais.

Pelo que lembro das pesquisas do post sobre a visita de Elizabeth, as ideias cicerônicas nativas mudaram um tantão. Se em 1968 a agenda exaustiva de Elizabeth e Philip foi composta apenas de jantares e visitas a monumentos, a exibição de Pinah para o príncipe Charles em 1978 parece ter aberto as comportas para o que de melhor há em nós: exibir nossas fantasias reais. Pelo menos no Rio de Janeiro.

Mesmo assim, não sei definir o ponto da história em que a favela deixou de ser coberta de tapumes para virar atração pietista-pitoresca.

De qualquer forma, o príncipe Harry inaugura nova forma de recepção. Ninguém foi vê-lo por curiosidade ou empolgação, mas para tentar umas migalhas de sua boa vida, travestidas num discurso de “viver um conto de fadas”.

Não sei se os faveladinhos que Harry foi obrigado a botar no colo queriam fru-fru de uma pessoa importante ou processá-lo posteriormente por pedofilia, conseguir um casamento ou, pelo menos, engatar uma reprodução. E não vai aí nenhum preconceito: denúncias de estupro valem pra todas, inclusive as high society, seja no hotel ou em um banheiro no morro da Urca.

Só sei que deve ter sido punk, porque, em primeiro lugar, o calor é terrível para as CNTP reais e o cara foi jogar na praia de calça comprida. Segundo que a agenda é cansativa, mesmo para um rapaz novinho. Terceiro, que ir até o Alemão não é sopa, mesmo no melhor automóvel do mundo. A paisagem é horrenda. Mas… samba e carnaval, é por isso que somos felizes à beça.

Tá. Você sabe de tudo isso e não baba com visita de príncipes e chefes de Estado. Pra isso existe a imprensa de fofocas e a imprensa séria.

A imprensa de fofocas é capitaneada pela animação incontida do grupo Globo. Isso fica para a canalha das ruas.

Nós, pessoas de estirpe, lemos o Estadão. Tá lá: o ministro de Relações Exteriores do Reino Unido, William Hague, esteve no Brasil em janeiro, quando também se enfiou no Rio para estreitar os laços de amizade.

Voltou a defender um assento permanente para o Brasil no Conselho de Segurança da ONU, e disse:

Os dias do nosso afastamento diplomático da sua região estão encerrados”. […] “As relações internacionais não são mais dominadas por um punhado de Estados poderosos que podem ditar termos para o resto e nunca mais serão. Essa era acabou. (aqui)

Ahnnnnnn, agora sim!

Coisa, ó… é séria, pra valer!!

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7 opiniões sobre “Deveres reais”

  1. Eu acho que a atual investida é diplomática e, consequentemente, geopolítica. Pode estar ligada à atual disputa argentina pelas Falklands.

    Olhando em perspectiva histórica, a diplomacia brasileira jogou muito bem para conter a Argentina no início da segunda guerra. Roosevelt tinha Oswaldo Aranha em excelente conta, lembrando que países não têm amigos, mas interesses. Na época, o nosso era um empréstimo de US$ 50 milhões [uma soma considerável para a época], no contexto da Good Neighbor Policy de Roosevelt. A crise de 29 levou o Brasil da vitoriosa Aliança Liberal, que afinal deu em ditadura, a declarar moratória. A grana “estadunidense” era, portanto, fundamental. Nos anos seguintes a 1930, nossos interesses comerciais, assim como os da Argentina, voltaram-se para a Europa. O comércio com a Alemanha cresceu ao ponto de se tornar o primeiro mercado de exportação para os nossos produtos agrícolas.

    Um breve histórico

    Apesar da identidade ideológica com o nazismo, evidente em parte do governo Vargas, principalmente no Ministro da Justiça Francisco Campos, redator da Constituição de 1937, a orientação da diplomacia brasileira não alterou sua política de alinhamento com o panamericanismo e a “política da boa vizinhança”, iniciativa geopolítica do governo Roosevelt apresentada na Conferência Panamericana de Montevidéu, em dezembro de 1933.

    Durante a gestão do Ministro das Relações Exteriores José Carlos Macedo Soares (1934-1936), a diplomacia brasileira estreitou os laços políticos com os Estados Unidos. Em 1936, na Conferência Interamericana para a Consolidação da Paz, realizada em Buenos Aires, o Itamaraty apoiou ativamente os Estados Unidos na proposição do pacto de segurança continental, que previa consulta entre os Estados americanos no caso de ameaças externas ao continente. Na Conferência de Lima de 1936 o Brasil aprovou a proposta de ampliação do sistema de consultas criado em Buenos Aires. Em 1937, no Panamá, as repúblicas americanas deliberaram a favor da neutralidade frente a conflitos na Europa. Esta orientação pró-americana foi aprofundada na gestão Oswaldo Aranha a partir de 1938 [antes, Aranha foi embaixador em Washington entre 1933 e 1937. Demitiu-se porque foi contra o golpe do Estado Novo. Voltou por cima, pisando nos nazistas e filo-nazistas brasileiros, como Ministro das RE em 1938]. Na Conferência de Havana, em 1940, após a ocupação alemã da França e da Holanda, países com possessões no continente americano, o Brasil votou com os Estados americanos na decisão de que qualquer atentado a território americano por potência europeia seria tomado como uma agressão aos demais. Finalmente, o ataque japonês a Pearl Harbor em 7 de dezembro de 1941 fixou a posição da diplomacia brasileira a favor dos Aliados.

    Na Conferência do Rio, em janeiro do 1942, presidida por Osvaldo Aranha, o Brasil e os países americanos decidiram romper as relações com o Eixo. Exceto Argentina e Chile, que só o fizeram depois. A decisão não foi apenas uma vitória do pan-americanismo defendido por Aranha. Foi também o prenúncio do final da ditadura Vargas e a pá de cal nos nazistas brasileiros.

    Nessa história, a Argentina sempre jogou para melar as Conferências Pan-Americanas. Roosevelt e o secretário Summer Wells reconheceram a habilidade do Itamaraty, principalmente sob a gestão do ministro Aranha, para demover ou neutralizar a Argentina.

    Na guerra das Malvinas [1982], o governo brasileiro apoiou o seu principal vizinho, mas parece que nos bastidores da diplomacia o Itamaraty atuou como bombeiro. A confirmar essa informação.

    Talvez por isso a vista do príncipe e os acenos ao principal objetivo do Brasil na ONU: conquistar um lugar permanente no CS da ONU, situação que, sabemos, não é aceita pela Argentina.

    Países não tem amigos, mas interesses.

  2. Quando a Inglaterra tem algum interesse real (no sentido de paupável) e importante no exterior, ela envia o primeiro-ministro. Quando é para representar o país com classe, pompa e circunstância, envia a rainha… e quando é para banalidades, envia algum dos príncipes, no caso, Harry cabe bem para o Brasil medíocre de nossos dias, que posa de potência mas não passa de uma piada que doa sucata militar para países paupérrimos, alinha-se com terroristas e ditadores e vive arrotando querer um mundo mais justo, quando é o país mais injusto do mundo, pelo menos no rol dos que são efetivamente ricos.

    Harry é um garoto legal e simpático… mas não representa NADA do seu país, no Brasil, não passa de algo para inglês ver, com o perdão do trocadilho…

  3. Paulo, sempre com o detalhismo do historiador. Sem dúvida é para angariar simpatias para as Falklands. Até porque nossa desastrada diplomacia resolveu fechar os portos aos ingleses em pleno século XXI. Vergonha do Várter!

    Fábio, taqui, ó, que o primeiro-ministro iria se abalar até aqui para firulas. Claro que não. E não tem hirarquia de assuntos para a família real. Vem qualquer um. A rainha veio em 1968 porque não tinha ninguém para mandar, Charles era um banana naquela época. Como disse, ela nunca mais veio. Charles também, nunca mais virá. Agora que os meninos estão ajuizados, é a vez deles descascar a jaca da simpatia popular pelo mundo.

    Harry representa, sim. É a imagem. O que contava nesta visita já foi pavimentado antes.

  4. Nesta última década, diplomaticamente o Brasil também tem sido uma piada, né, Fábio?
    Depois que o PT chegou ao poder, nossos chanceleres parece que saíram dos diretórios e não do Itamaraty. Como sempre digo, foi uma sucessão de burradas.

    Olha, essa “visita” de Harry está para nós da mesma forma que estaria para as Ilhas Fiji!
    Isto é: não tem nenhuma significação.
    Talvez o tablóide The Sun lhe dedique algumas linhas.

  5. Quando vão para o UK, os daqui são levados a atravessar descalços e no contrapé, a Abbey Road? Olha, nada como ver as coisas caindo de perto. Nem precisa dizer que esse negócio de mostrar mulheres seminuas para inglês ver, já deu, não é? Os caras já viram mulheres nuas e seminuas do mundo todo. Que novidade terá ao inglês ver mais uma sacolejando? Só por ai dá para ver que os nossos não pensam como protagonistas, mas, sim como provedores de sacolejos malemolentes de passistas. Na foto da visita da rainha, não dá para ver a rainha. Só um bando de chumaços úmidos de laquê. Que coisa. Se forem apresentados ao documento diplomático, formal, sequer saberão de que se trata. O tal príncipe deve morrer de rir ao contar da visita.

  6. Poderiam mostrar ao menso a recuperação da Região Serrana, as obras de engenharia social das UPPs e os bueiros voadores…hehehehe…Mas, ele foi mesmo ao interior de São Paulo jogar polo num haras.
    O que veio fazer deve ter conseguido com sucesso.

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