Mais amor, PORRA!

Vendo aqui na Folha a enésima “intervenção” não sei de quem conclamando todos os paulistanos a serem mais sensíveis, amorosos, etc. e tal.

O vídeo até que é fofinho…

Me parece que faz um só conjunto de sentido o que começou com pichações: “mais amor, por favor”, “o amor é importante, porra!”, todos embasados nesse clichê 60′ de que São Paulo é uma cidade desamorosa (porque Buriboca de Dentro é muito acolhedora, fomos lá no feriado e…).

Até aí, belê, embora, particularmente, não ache nada gentil jogar um porra! no seu ouvido visual ou pichar ou chimpar um cartaz desses, que vi pela primeira vez há uns dois, três anos, num prédio recém-reformado na Heitor Penteado.

Receio é que esse tipo de movimento tenha fortes intercessões com o povo do cicloativismo. O mesmo que afirmou fazer questão de cuspir na cova de Reinaldo Azevedo, e que foi bem agressivo com o Angelo, sabe?

Não sei, não sei… tenho minhas reservas com essas coisas. Amor, já que se fala disso, não  pode ser movimento. Amor é coisa particular, íntima e, por que não dizer, às vezes descontrolada.

Poderíamos, sim, falar em urbanidade. Não, senhoras e senhores, urbanidade não é se enfiar em redes sociais e despejar estudos sobre o uso da bicicleta. Urbanidade significa civilidade, cordialidade. Urbanidade não precisa de coração pleno de conceitos-clichê. Só de modos.

Essa semana levei minha mãe para a 25 de Março. Sim, ela adora, e não resiste nunca a comprar uma peça de tecido para fazer um vestido, a bonitinha… Fomos, como sempre, de metrô. Faz bem pra ela. Pro físico e pelo contato com o burburinho (odeio “borburinho”, desculpe) dos centros de compras.

Na volta, bora subir a ladeira da Vila Madalena cheias de pacotes. Na calçada, antes de chegar na banca da Márcia (sim, o nome dela é Márcia -nunca me atraquei de beijos e abraços com ela; temos relações cordiais, o que parece bem razoável), um grupo do Greenpeace obstruindo a passagem. Era num daqueles pontos em que há um canteiro redondo: a passagem se estreita. Nos aproximávamos, eu e minha mãe, vagarosamente.  O cara nem fez menção de se afastar um tantinho pra dar passagem. Nós duas chegamos a parar. E o cara lá, sem se tocar da presença do outro, um outro especial – uma senhorinha de cabelos brancos, provavelmente cansada.

Se eu não tivesse pedido licença – aquele “dá licença” de que já falei, estávamos lá até agora.

A causa do cara é maior que ele mesmo. Isso não faz sentido.

Amor, educação, consciência ambiental ou o que seja é questão que parte do individual, da formação familiar e de escola e da determinação de cada um, em TUDO. Não funciona como movimento, como campanha.

Prova disso foi o Sugismundo, campanha de limpeza dos anos 70. Não deu certo. Ou o “Mexa-se”, no mesmo período (essa eu nem achei). Obviamente, também não deu certo.

E prova disso é o rapaz do Greenpeace. Para ele, vale mesmo o que mamãe e papai deixaram de lhe ensinar. Para chegar onde pensa que está – um mundo novo é possível – ainda tem de comer muita grama.

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16 opiniões sobre “Mais amor, PORRA!”

  1. Falando em “dá licença”, estou começando a ficar com o “saquinho cheio” de gente a quem a gente pede licença e não sai do caminho. Estarei falando em japonês? Sânscrito? Tagalog? Mandarim? Eu peço duas vezes. Na terceira, no melhor estilo “Kleber Gladiador”, enfio o cotovelo. Por isso eu digo que ir à TwentyFive ou ao mercado é o meu melhor desestressante.

  2. Sabe que lá, mesmo naqueles trinta centímetros entre uma gôndola e outra, ainda é possível contar com a boa vontade alheia. No subidão de Vila Madalena – palco por excelência dos mais variados tipos de ações urbanas – não.

    Aliás, quando mais classe média-querendo-mudar-o-mundo, mais o jovenzinho carece dos mais simples gestos de cordialidade. Aqui no prédio, então, é FAN-TÁS-TI-CO! Nem bom dia os gorditos-todos-de-preto-eu-tenho-uma-banda sabem dar.

  3. Por que será que esses patetas não promovem um ‘bicicletaço’ contra a corrupção que grassa incólume nos últimos dez anos, hein?

    Talvez seja porque, mami & papi, comunas festivos, não deixam. Têm que marcar presença contra a “sociedade burguesa”, aquela mesma que lhes garante colégios particulares, free shopping, bikes ‘da hora’, carrões e baladas recheadas de patricinhas e mauricinhos.

    Evidentemente, esse bando de “cuequinhas de veludo” não iria querer se sujeitar à prática do escambo, à agricultura “emessenterrista” e à cursos de ‘Como Retroceder no Tempo’ em Havana.
    Estão chumbados na sociedade de consumo. Mas, mesmo assim cospem pra cima numa rebeldia sem sentido.

  4. Perdi a paciência com essa gente, não peço mais licença.
    Com 1,85m e 100 kg faço um baita estrago.
    Se ver que estou chegando e não sai da frente levo no peito, seja homem ou mulher.
    Carrinho no supermercado ou conversinha em grupo no meio do corredor eu vou levando tudo de roldão e tome roda de carrinho nas canelas…
    Se essa raça não tem civilidade eu vou ter prá que?
    Depois fico escutando: – Estúpido, e outras coisinhas…vão se phoder.

  5. “Estão chumbados na sociedade de consumo”. É isso, Schu. E protestar, vamos combinar, é só mais um produto à disposição.

    Tea Party, não chego a tanto… Mas é patente que o “lutar por um mundo melhor” tão em voga não têm, necesariamente, alguma conexão com cordialidade, prever o outro, olhar para o outro.

  6. Sabe qual é o problema?
    As pessoas se dão muita importância. Acham que são o centro do universo. Primeiro eu, danem-se os outros.
    Sou Paulista de Santos, mas moro e trabalho no RJ. Aqui o pessoal fecha cruzamento sem dó. Pára no meio da calçada para papear, não passa pela cabeça dessa gente que estão atrapalhando a passagem dos transeuntes e isso são só dois exemplos.
    Todos os dias eu lembro de Lazarus Long ( Personagem de Robert Heilein em “Amor sem Limites”) ao dizer :
    – “Preciso estar outra vez entre seres humanos. Pois nesse verão, em meio às abelhas e aos dentes-de-leão, minha misantropia degenerou gravemente.”
    Eu continuo preferindo as abelhas.

  7. Essa eu vi há um tempinho atrás: em um desses malditos cartazes pedindo “mais amor, por favor”, alguém lascou por cima, com pincel atômico: “amor não se pede, se dá!”.

    Achei ótimo.

  8. Letícia,

    Posso estar sendo pouco compreensivo, mas tenho comigo que um ativista é um desocupado por excelência e dotado de um nada desprezível vazio existencial. Acho que é isso mesmo, abraçar uma causa (de preferência a mais ridícula possível), ou passar uma longa jornada noite adentro ao telefone com um voluntário do CVV, ou o suicídio pura e simplismente.

  9. Olha, a Cidade é a que temos. Todos pediram progresso e o progresso veio da e na forma que as pessoas entenderam ser progresso.
    Agora, corações, vaquinhas, bikes, carroças, jegues, greves, passeatas, interrupções de vias, boicotes, intolerância…poderia acrescer que há pouco povo ai no vídeo.
    Aparece só uma garotada, aparentemente middle class, parece. Cadê os negros, os pardos os mamelucos, os mendigos, enfim os deserdados da sorte…???
    E afinal, quem seriam os sem amor na Cidade? Quem sabe as estátuas.
    Seria algo como culpabilização coletiva? Atos de contrição em massa, ajoelhar no milho esperando a ira divina descer com trombetas e carruagens de fogo?
    Que coisa!!!

  10. Quando o cara quer aparecer e não tem talento nenhum para tanto, ele inventa uma coisa dessas aí… ou, em versão… digamos… mais modesta, faz uma homenagem cafonérrima no facebook, comemorando dia internacional da mulher, dia das mães, dia dos pais ou qualquer coisa que o valha, mesmo não respeitando nada nem ninguém no dia a dia… o que tem de marmanjo que bate na mulher e deixa a louça na pia da cozinha para ela lavar, que fez homenagens esta semana, não tá no gibi…

  11. Tea Party, os cruzamentos são respeitados aqui por causa de dois troço simples: câmera e multa, e não exatamente pela boa civilidade das pessoas. Devia ter isso aí no Rio também. Não na orla, mas no Largo do Campinho, por exemplo. O trânsito aí é um intestino sem lei.

    Né, Mauro? Tem outro que andei vendo aqui em VM escrito “resista”, todo um grafismo cubano… Dá vontade de complementar com pincel atômico, só de sacanagem: Resista ao comunismo!!!!!!!!!!!

    André, claro que é. Uma pessoa normal não tem tempo pra essas coisas: ou estuda, ou trabalha, ou trabalha e estuda. Acho digno você protestar por coisa séria, o que é diferente de vagar pelo FB à cata do protesto da semana.

    Bem, Dawran, é só moda. Ninguém se despencaria pro Jardim Miriam pra conclamar os moradores a terem mais amor, por favor… Tudo deve estar no circuitinho Centro-Ibirapuera. Passoi daí…

  12. Uau!, são 11h30 da manhã de domingo e acabei de trombar num ‘borborinho’ — livro Método de Caligrafia De Franco, 22ª edição (1958): ‘Entre o borborinho da moderna vida paulistana, cabe ao professor Antonio De Franco, notável papel na educação estética da mocidade.’ Não me lembro dessa palavra escrita assim; sempre escrevi ‘burburinho’ e nunca a notei escrita de outra forma.

  13. Tem duas formas, né, Refer? Ou bem é borborinho, ou bem é burburinho, e prefiro a segunda, porque é como se fala. Mas já cansei de ver por aí, com laivos de pedantismo, “borburinho”, coisa de gente que dá a entender que foi ao dicionário. Não foi.

  14. Vem, cá, essa edição é aquela como fotos horrososas, de crianças em ferros pra ajeitar a coluna e aprender a maneira correta de sentar pra escrever? Cansei de procurar pra mandar pro Miguel e não tem NADA na internet. Se for, e se tiver aí um escâner, e tal…, please!

  15. Pois é, deveriam ir colocar corações na Estrada das Lágrimas, Heliópolis, Paraisópolis e nos campinhos de terra, periferia afora, onde crianças estão ficando vermelhas de sol e terra. Ou lá em Marsilac, Capão Redondo, ou em toda a extensão da Av. Belmira Marim.
    Enche r a paciência com coisas na Paulista e imediações é simples. Mas, vai lá no buraco da onça, para ver o que rola. Mesmo onde há forte movimentos sociais, Cidade Triradentes, Cohab Juscelino, Cohab Carapicuiba. O pessoal de lá deve ja´estar cheio de amor, não é?

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